Matrix support actions in Primary Health Care: a phenomenological study

Matrix support actions in Primary Health Care: a phenomenological study

Autores:

Gustavo Costa de Oliveira,
Jacó Fernando Schneider,
Leandro Barbosa de Pinho,
Marcio Wagner Camatta,
Cíntia Nasi,
Andréa Noeremberg Guimarães,
Maria Eduarda Lima Torres

ARTIGO ORIGINAL

Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100On-line version ISSN 1982-0194

Acta paul. enferm. vol.32 no.6 São Paulo Nov./Dec. 2019 Epub Dec 02, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0194201900093

Resumen

Objetivo:

Comprender el significado de las acciones de apoyo matricial en salud mental en la Atención Primaria de Salud, bajo la perspectiva de apoyadores matriciales y enfermeros.

Métodos:

Estudio cualitativo, con un enfoque de la sociología fenomenológica, realizada en la Atención Primaria de Salud de un municipio en la región Sur de Brasil. Se realizaron entrevistas con 5 apoyadores matriciales y 22 enfermeros asistenciales que trabajaban en el territorio, en el período de julio a agosto de 2017. La interpretación comprensiva incluyó las etapas de lectura atenta de los relatos, identificación de categorías concretas, verificación fenomenológica de la acción social y establecimiento de las características de acción, según el marco de referencia teórico-metodológico de Alfred Schütz.

Resultados:

Se descubrió que los apoyadores matriciales experimentan el fenómeno de las acciones del apoyo matricial en la Atención Primaria a través de la instrucción y participación en los procesos de cuidar, representadas las siguientes categorías concretas: (1) instruir a los profesionales de la salud de las unidades, y (2) participar en el cuidado de la salud mental en el territorio. Con relación a los enfermeros, sus vivencias están demostradas en las categorías concretas: (3) atención a las demandas de salud mental del usuario, y (4) mejora de la estructura del apoyo matricial.

Conclusión:

Se constató una divergencia entre intenciones y expectativas, lo que expone claramente un conflicto entre lo que se intenta y lo que se espera. Ante este hecho, se reconoce que no hay reciprocidad de perspectivas, lo que deja en evidencia la necesidad de un autoanálisis por parte de los apoyadores matriciales y enfermeros y un (re)pensar respecto a las políticas públicas y gestión de la estrategia de apoyo matricial con relación a las prácticas instituidas, para que las acciones en salud mental puedan representar producción de salud, ciudadanía y existencia.

Descriptores Enfermería psiquiátrica; Atención primaria de salud; Salud mental; Atención a la salud mental

Introdução

Historicamente, o cenário brasileiro foi marcado por ações em saúde mental voltadas às pessoas em sofrimento psíquico e suas famílias, pautadas no paradigma hospitalocêntrico, ou seja, centrado no atendimento na instituição asilar. A validação do modelo manicomial baseou-se no alienismo, manifesto na Revolução Francesa, para qual a internação ofereceria às pessoas despossuídas de razão ou dementes um espaço de cura pela razão, e o manicomio permitiria ao louco exercer sua liberdade.(1)

Na década de 1970, iniciou-se um processo de mudança nesse modelo, denominado Reforma Psiquiátrica. No Brasil, essa Reforma surgiu fundada não apenas na crítica conjuntural ao subsistema nacional de saúde mental, mas também - e principalmente - na crítica estrutural ao saber e às instituições psiquiátricas clássicas, no bojo de toda a movimentação político-social que caracteriza esta mesma conjuntura de redemocratização.(2)

A mudança conceitual e prática, a respeito da atenção em saúde mental às pessoas, rompe com a proposta excludente a ser vivenciada por indivíduos e familiares, o que reflete na possibilidade de se planejarem projetos de vida, mobilizarem pares e desfrutar o cotidiano vivido. Na comunidade, a Reforma Psiquiátrica aponta para a superação do modelo hos-pitalocêntrico no atendimento do sofrimento psíquico, aspirando a um cuidado que não afaste a pessoa de seu espaço social. Para isso, a Atenção Primária à Saúde constitui um espaço privilegiado de intervenção, apresentando-se como importante estratégia para traçar ações focadas no eixo territorial.(3,4)

No processo de agregação entre Atenção Primária e saúde mental, no contexto brasileiro, instituiu-se o apoio matricial como arranjo organizacional que viabiliza o suporte técnico especializado às equipes incumbidas pelas ações de saúde mental na rede básica. O apoio matricial, formulado e concebido teoricamente em 1999, tem colaborado com a estruturação de um cuidado integrador, no qual ações saúde mental são produzidas a partir da valorização do âmbito social na comunidade.(3)

Como possibilidade de olhar o campo da saúde e da enfermagem de maneira atentiva e ampliada, tem-se utilizado em pesquisas o referencial teórico-metodológico da sociologia fenomenológica de Alfred Schütz. Segundo esse referencial, as realidades sociais são construídas nos significados e identificadas ao se mergulhar na interação social, sendo a linguagem, as ações e o mundo inseparáveis neste tipo de abordagem.(5)

A sociologia fenomenológica lida com a ação, enquanto processo ancorado nas funções motivacionais, tendo como um de seus propósitos a compreensão dos processos intersubjetivos, partindo da descrição destes pelo indivíduo que os vivencia.(6) Porém, a descrição deve ser natural, explorando o dado a própria coisa, ou seja, a partir do que o indivíduo fala, evitando forjar hipóteses e expressando apenas o que é apresentado pela pessoa.

Na perspectiva de compreender a ação subjetiva dos indivíduos explicitadas em suas intenções e expectativas, Schütz apoia-se nos conceitos de “motivos para” e “motivos porque”. Os “motivos para” se referem a algo que se quer realizar, objetivos que se procuram alcançar, tendo uma estrutura temporal voltada para o futuro e formando uma categoria subjetiva da ação. Por outro lado, os “motivos porque” são evidentes nos acontecimentos concluídos, que explicam certos aspectos da realização de projetos, tendo uma direção temporal voltada para o passado.(7)

A ação social é a forma como Schütz define as relações humanas no mundo social,(6) no qual as ações em saúde mental são direcionadas a um sujeito social e, por isso, devem perpassar o cuidado ao sujeito que está passando por sofrimento psíquico, adentrando no contexto vital, no qual o usuário é protagonista de sua existência. Na esfera da saúde e da enfermagem, há possibilidade de se refletirem e avaliarem as relações sociais constituídas entre todos os indivíduos envolvidos na terapêutica em saúde mental,(8) para a qual o referencial schutziano pode contribuir para a compreensão da ação humana em uma dimensão social, entrelaçando o fazer em saúde às relações sociais existentes no processo de cuidar.

Assim, utilizar a sociologia fenomenológica implica em se aproximar da vertente que identifica nesta temática um espaço propício para discutir o cuidado em saúde mental como produção de significado e ação social. Ao cuidar, na ótica de Schütz, avistamos a possibilidade de “ir às coisas”, a partir do desprendimento de julgamentos, para penetrar na verdade do existir do outro. O propósito não é instituir verdades, mas compreender o vivido, ao desvelar a ação social humana.(7)

Este artigo teve como objetivo compreender o significado das ações do apoio matricial em saúde mental na Atenção Primária à Saúde, tendo em vista as intenções de apoiadores matriciais e as expectativas de enfermeiros, na ótica da sociologia fenomenológica de Schütz.

Métodos

Esta pesquisa configura-se como estudo qualitativo de natureza fenomenológica, que se utiliza do referencial schutziano, por meio da entrevista fenomenológica para coleta de informações e da sociologia fenomenológica como método de análise. O cenário do estudo foi a Atenção Básica à Saúde, especificamente em unidades de saúde localizadas em um município do Estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Esse tipo de abordagem metodológica representa um espaço mais profundo das relações e dos fenômenos que não podem ser reduzidos a um dispositivo mutável, ou seja, investiga aspectos que apreciam os valores e as vivências que constituem as relações humanas.(9)

Os participantes do estudo foram cinco apoiadores matriciais e 22 enfermeiros que atuam na Atenção Primária. Deu-se voz aos apoiadores matriciais, pois as suas ações são alicerce para o cuidado em saúde mental no cenário de estudo. Já a participação dos enfermeiros no estudo entrelaça-se à sua relevância no primeiro atendimento em saúde mental envolto ao processo de acolhimento dos usuários na Atenção Primária, privilegiando-se esta importante categoria, frente à escassez de estudos com o olhar voltado aos enfermeiros. Todos os participantes foram selecionados de forma intencional, atendendo os seguintes critérios de inclusão: fazer parte do quadro funcional da prefeitura; ser apoiador matricial ou enfermeiro de unidade de saúde de determinada região do município; não estar em concessão de férias e/ou afastamento no período da coleta de dados; e estar atuando no serviço há 6 meses ou mais.

A coleta de informações foi realizada por meio de entrevistas fenomenológicas com os referidos participantes da pesquisa, tendo como apoiadores matriciais, trabalhadores de diversas categorias profissionais: (2) psiquiatras, (1) terapeuta ocupacional, (1) fonoaudióloga e (1) nutricionista. No cenário de estudo, o apoio matricial é realizado pelo Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF), o qual estrutura as ações em saúde mental no território com a participação conjunta de todos os apoiadores em intervenções junto às unidades de saúde do território.

Pela natureza fenomenológica da investigação, não se consolidou previamente o número de participantes que foram entrevistados, sendo finalizadas as entrevistas quando se percebeu a convergência das informações nas falas. As entrevistas foram realizadas no período de 18 de julho a 18 de agosto de 2017, em dias variados no turno diurno, nos locais de trabalho dos participantes.

Ao buscar a compreensão do fenômeno a partir do ser que o experimenta, utilizou-se a técnica de entrevista fenomenológica, na qual não existe certo ou errado a ser declarado, valorizando-se a fala do ser, e as condições compreendidas e elaboradas por ele.(10,11) Nesta perspectiva, foram utilizadas duas questões norteadoras para o grupo de interesse dos apoiadores matriciais e uma questão aos enfermeiros. Para apoiadores matriciais, as perguntas foram: “Que ações voltadas para saúde mental você vem executando junto à Atenção Primária?” e “O que tem em vista com essas ações?”; para os enfermeiros, a pergunta foi: “O que você espera das ações do apoio matricial em saúde mental junto à Atenção Primária?”.

A análise das informações foi construída com base no rigor do método fenomenológico schutziano, seguindo os conceitos de redução fenomenológica, intencionalidade e tipificação da ação. Para desvelar a essência do fenômeno, seguiram-se as seguintes etapas:(8) leitura atenta das falas para captar a situação vivenciada e os “motivos para” dos sujeitos; identificação de categorias concretas que abrigam os atos dos sujeitos; verificação fenomenológica da ação social; e, por fim, a partir das características típicas das falas, estabelecemos o significado das ações dos sujeitos, buscando descrever o típico da ação de apoiadores matriciais e enfermeiros.

A partir das convergências das unidades de significado que emergiram dos relatos, analisaram-se as informações à luz do referencial de Schütz e, posteriormente, organizaram-se os resultados das vivências dos apoiadores e dos enfermeiros em categorias concretas. Na interpretação compreensiva da ação social, torna-se fundamental fazer uma exploração mais rigorosa das situações problemáticas em relação às tipificações sociais, em que a coleta de conhecimento e suas diferentes dimensões são colocadas na formulação criativa de projetos situados do agir. Em todos os elementos e distinções, Schütz propõe, em suas descrições do mundo da vida, a importância da análise mundana, incluindo o papel das objetivações dos mundos imaginários na construção do vivido.(12)

Os depoimentos foram identificados por letras “A”, para apoiador matricial, e “E”, para enfermeiro, com números sequenciais de um a 22, preservando o anonimato dos participantes. Para produzir descrições da vida mundana, ouviram-se os participantes sem senso crítico de julgamento e interagiu-se com os mesmos em uma abordagem compreensiva.

Nesta pesquisa, cumpriu-se as exigências estabelecidas pela Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. Este estudo foi aprovado em Comités de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, sob CAAE 63099916.2.0000.5347, parecer 2.014.999 e CAAE 63099916.2.3001.5338, parecer 2.059.857.

Resultados

O processo de categorização configurou-se como a representação do vivido, a partir das falas de cada ator social, ancoradas em um processo reflexivo à luz da sociologia fenomenológica. Com o referencial schutziano, tornou-se viável a identificação dos “motivos para”, tendo em vista a motivação do ser-no-mundo, com a construção de duas categorias que reproduziram as intenções dos apoiadores matriciais: (1) Instruir os profissionais de saúde das unidades e (2) Participar do cuidado em saúde mental no território. Ainda, constituíram-se duas categorias referentes ao fenômeno investigado que os enfermeiros vivenciam: (3) Atendimento às demandas em saúde mental do usuário e (4) Melhora da estrutura do apoio matricial.

Categoria Concreta 1. Instruir os profissionais de saúde das unidades

Nessa categoria, apresentam-se elementos no que diz respeito a capacitações e aprendizado dos profissionais de saúde das unidades, a partir dos relatos de apoiadores matriciais quanto às suas intenções frente às ações em saúde mental do apoio matricial no território. Nos relatos dos apoiadores matriciais, há explanações em que sinalizam para a efetivação da qualificação profissional e discussão do trabalho realizado no território:

“Capacitação com as unidades, […] para poder discutir esse trabalho que é feito dentro da unidade, alguns espaços de formação”. (A3)

“[…] educação permanente com a equipe […] para realmente trocar e levar mais subsídios”. (A4)

“Fazer essa capacitação, […] com uma discussão, […] algum grupo”. (A5)

“Um aprendizado dos profissionais, eles mudaram a visão deles e ficaram mais capacitados para esses tipos de casos”. (A1)

Assim, na ocasião em que os apoiadores realizam capacitações e reuniões, eles intentam instruir os profissionais de saúde das unidades, potencializando o cuidado em saúde mental no território por meio de aporte teórico-prático para facilitar o manejo de usuários em sofrimento psíquico no cenário da rede básica.

Categoria Concreta 2. Participar do cuidado em saúde mental no território

A intenção desses apoiadores não se resume à instrução dos profissionais das unidades de saúde, pois os seus relatos desvelam que os mesmos também intentam participar do cuidado, assim emergindo a categoria: participar do cuidado em saúde mental no território. Nessa categoria, apresenta-se o modo como os apoiadores matriciais vivenciam a participação no cuidado em saúde mental no território, em que a presença desses apoiadores nesses espaços, por meio do diálogo e avaliações conjuntas, tem resultado em melhorias no cuidado às pessoas com demandas em saúde mental, mediante ações compartilhadas com os demais profissionais de saúde:

“Fazer mais visitas domiciliares e mais avaliações conjuntas”. (A1)

“As avaliações conjuntas […] com todos os profissionais de nível superior e técnico ”. (A2)

“[…] participação nos matriciamentos com a equipe, ou só comigo, dependendo do dia que a gente vai e quantos profissionais têm naquele momento”. (A3)

“[…] fazer uma avaliação conjunta, uma visita domiciliar que poderia estar englobada”. (A5)

A partir dos relatos, observa-se a intenção dos apoiadores matriciais em participar nas unidades de saúde do cuidado em saúde mental, visto que destacam a efetivação de práticas compartilhadas, por meio do diálogo e de intervenções conjuntas, atuando junto às equipes das unidades de saúde. Diante dessas duas categorias concretas referentes aos apoiadores matriciais, a construção do típico da ação suscitou a importância da identificação das intenções, de modo que se podem elucidar as idealizações e propósitos enraizados na vida cotidiana destes apoiadores.

Categoria Concreta 3. Atendimento às demandas em saúde mental do usuário

Na outra faceta do fenômeno, tem-se a expectativa de enfermeiros referente ao atendimento em saúde mental do usuário, a partir de aspectos como encaminhamentos e melhora do usuário, assim como resolução de casos. Adentrando-se nos relatos de cada enfermeiro, nota-se que as falas são marcadas pelo desejo de que usuários sejam acompanhados em serviço especializado, que haja melhora em processos individuais, bem como resolutividade na condução das demandas em saúde mental no território:

“Que tivesse um núcleo de atendimentos, e que os pacientes pudessem ser encaminhados para o núcleo de atendimento que fosse resolutivo”. (E20)

“[…] o paciente precisa de psicoterapia, é um problema da rede a falta. Mas, a gente tem que ter algo que possa fazer o encaminhamento”. (E2)

“Que ele se recupere, que ele consiga suprir aquela necessidade, seja escolar, seja de atenção ”. (E1)

“[…] ele estar bem, melhor no dia-a-dia dele, na vida dele, que ele possa se manter sozinho e sem precisar da unidade”. (E7)

“[…] o que eu sempre esperei foi mais resolutivida-de”. (E3)

“Nos casos em que eu não tenho resolutividade na unidade, eu poder estar discutindo com eles e tentando ver uma possibilidade de apoio”. (E16)

“[…] resolver o problema do paciente, que ele não fique numa fila de espera para discussão de caso por vários meses, sem conseguir ter um retorno que ele precisa”. (E10)

Frente ao conjunto de falas, observa-se o destaque dado pelos enfermeiros ao atendimento especializado, em casos que estão reduzidas as possibilidades de êxito da terapêutica na Atenção Primária. Entretanto, ao propor a construção conjunta de ações na comunidade, o apoio matricial busca minimizar o sistema descomedido de encaminhamentos ao serviço especializado, com vistas ao cuidado no território, mantendo o indivíduo em seu meio social. Assim, a exposição dessas expectativas pode pautar discussões quanto ao acompanhamento dos usuários no território, de acordo com suas necessidades em saúde.

Categoria Concreta 4. Melhora da estrutura do apoio matricial

Nessa categoria, desvela-se a necessidade de novas conformações para um cuidado mais bem estruturado, planejado e implementado no território. Para tanto, os enfermeiros caracterizam a equipe de matriciamento como um grupo, numericamente, insuficiente para dispor ações em saúde mental na rede básica:

“Enfim, multiplicar, […] eu acho que o número de profissionais da equipe”. […] Que realmente se multiplicasse a equipe, para que pudesse atender melhor as unidades. (E4)

“Está falha a quantidade de profissionais que a gente necessita para isso” (E9).

“[…] seria uma experiência positiva ter mais profissionais para fazer o matriciamento”. (E15)

“[…] um serviço bem estruturado para atender tanto individual, quanto coletivo. […]Está faltando um atendimento mais completo em relação ao nosso paciente em saúde mental”. (E12)

“Por isso que eu não acredito no apoio matricial, comparado ao que a gente tem e ao que a gente tinha. […] Não tem como conversar e solucionar, está bem deficitário”. (E8)

“[…] acho que tinha que ter uma equipe, um RH maior”. (E18)

“[…] Aumentar o número de profissionais para fazer esse apoio matricial”. (E22)

Os relatos constataram o olhar de enfermeiros problematizando os recursos para efetivação do cuidado em saúde mental na Atenção Primária. E nas duas categorias apresentadas, têm-se expectativas que não ilustram ensejos descontextualizados, mas, sim, perspectivas relevantes para a problematização de práticas com vistas à consolidação de um cuidado compartilhado e interpretado por todos, com potência de transformar individualidades e contextos sociais.

Discussão

O apoio matricial, arranjo organizacional que viabiliza o suporte técnico especializado às equipes, tem colaborado em nosso país com a estruturação de um cuidado integrador na Atenção Primária à Saúde, no qual ações em saúde mental são pautadas na valorização da conjuntura social no território.(3) Nessa direção, s resultados apresentam a potencialidade de dar ênfase às ações do apoio matricial em saúde mental nos cenários da rede básica de saúde, dado que intenções de apoiadores matriciais e expectativas de enfermeiros não ilustram ensejos descontextualizados, mas perspectivas relevantes para a consolidação de um cuidado compartilhado e interpretado por todos, com potência de transformar individualidades e contextos sociais.

Na primeira categoria, os apoiadores matriciais exemplificam o “sistema de relevância” construído por Schütz, quando intentam momentos de capacitação e aprendizado aos profissionais de saúde das unidades, por meio do manejo dos casos de saúde mental e do plano de cuidado em saúde mental, tendo em vista o trabalho compartilhado com “trocas do fazer”, guiando-se pela demanda peculiar do usuário. A educação não é a reprodução apenas do domínio teórico-prático, consistindo no fortalecimento de espaços que priorizem o intercâmbio de saberes e valores. Trata-se de uma leitura do mundo para além das doenças, que reconhece as condições e os contextos de vida que as pessoas estão submetidas.(13)

Outro elemento representativo dessa intenção dos apoiadores expresso nos resultados é o aprendizado dos profissionais da saúde, o qual tem potencial de fomentar a análise da realidade e reconstruí -la, por meio da mudança de visão teórico-prática e, principalmente, da identificação com as ações planejadas. Estudos têm apontado que o aprendizado dos profissionais da saúde pode contribuir para o cuidado em saúde no território, em que o trâmite profissional se configura como uma estrutura interacional, na qual cada profissional controla seu próprio trabalho, mas há conexões interpessoais com os demais, em que a intersubjetividade evidencia um mundo comum a todos nós.(14)

Nessa lógica, torna-se importante a consolidação do conceito de instrução dos profissionais com vistas a superar a ótica tradicional de catequizar o outro, contrapondo-se a permissa da transmissão de informação para a elaboração de um cuidado, por ora, fragilizado e fragmentado.

Posteriormente, os achados indicam como os apoiadores matriciais vivenciam a participação no cuidado em saúde mental no território, na qual a estrutura dessa intenção se dá a partir de interesses imediatos, como participar e auxiliar o atendimento nas unidades. Na ótica dos apoiadores, considera-se elementar o cuidado em saúde mental no território, com a participação do apoio matricial, pois se torna necessária a constituição de um ambiente que possibilite espaços de troca entre apoiadores e profissionais das unidades, bem como o estabelecimento de ações conjuntas. Nesta direção, o matriciamento traça uma linha de pensamento que desloca o foco na ação conjunta, da doença para o sujeito, instituindo-se um cuidado pautado na saúde mental.(15)

Por outro lado, ao assinalar as diferentes formas de operacionalização e as dificuldades encontradas no processo, os apoiadores matriciais pontuam que sua intenção ao participar nas unidades perpassa as projeções assistenciais de atender as demandas do usuário, pois adentra na conformação do processo de trabalho nesse cenário. Para tanto, estudos apontam que a superação dos entraves exige a sensibilização e a participação ativa de gestores, profissionais e usuários, o que permite a produção coletiva e contextual de saúde.(16,17)

Afora responder ao objetivo desse estudo, propiciou-se o olhar aos enfermeiros, os quais tem relevante atuação no cuidado em saúde mental na Atenção Primária, uma vez que acolhem, diariamente, pessoas em sofrimento psíquico que demandam ações em saúde mental aos serviços básicos de saúde. Desse modo, evidenciar as expectativas de enfermeiros pode contribuir para o fortalecimento das ações do apoio matricial em saúde mental no território, ao passo que essas ações, ao considerar o trabalho em enfermagem relevante para sua implementação, podem fazer desse trabalhador um expoente para a consolidação da saúde mental na comunidade.

No que se refere às expectativas de enfermeiros frente às ações do apoio matricial em saúde mental na Atenção Primária, identificaram-se os “motivos para” à luz do referencial schutziano, trazendo à tona a convergência dessa rede de motivações dos enfermeiros em buscar o atendimento em saúde mental ao usuário e a melhora da estrutura do apoio matricial. Estudo corrobora estes achados, ao indicar que a forma como o ser interpreta suas atitudes e as atitudes dos outros, de acordo com suas histórias e relevâncias, pode contribuir para os sujeitos se situarem dentro do mundo, desvelando-se o fenômeno social.(18)

A terceira categoria revela que a expectativa do atendimento em saúde mental ao usuário habita a “relação face a face” proposta por Schütz,(19) tendo em vista aspectos como encaminhamentos e melhora do indivíduo, adentrando-se nas falas de cada enfermeiro. Nota-se, nas vivências relatadas pelo profissional, a dificuldade encontrada no cotidiano das unidades de saúde em encaminhar usuários para continuidade da terapêutica para outros serviços de saúde e, ao mesmo tempo, outros enfermeiros expressam o desejo de que esse usuário seja acompanhado pela atenção especializada.

No entanto, há estudos que contrapõem estes achados ao afirmarem que a equipe de matriciamento também tem por propósito minimizar o sistema excessivo de encaminhamentos ao serviço de especialidade, com vistas ao cuidado no território, mantendo o indivíduo em seu meio social.(17) Nessa perspectiva, é preciso potencializar esse propósito da equipe de matriciamento, fortalecendo o cuidado em saúde mental no território, ao incitá-lo na terapêutica geral das pessoas e na produção de saúde no meio social.

A partir das falas, também se observa o destaque dado pelos enfermeiros à qualidade de vida ao usuário com demandas de saúde mental. Nesse sentido, estudos corroboram os achados, ao enfatizarem que o encontro entre profissionais de saúde e usuários direciona o cuidado em saúde para uma resolubili-dade emanada das evocações reais da subjetividade, em que o cuidado produzido na singularidade do ser permite entender o vivido no ambiente subjetivo, de modo a promover qualidade de vida e resgatar o direito à saúde desses usuários.(20,21)

Por fim, a quarta categoria indica que os enfermeiros têm como expectativa a melhora da estrutura do apoio matricial, tendo em vista relatos referentes à melhora do arranjo da equipe de matriciamento. Estudos afirmam que o trabalho entre apoiadores e equipes das unidades de saúde prevê um constante diálogo, que pode gerar novos construtos, tendo em vista a integração de saberes, as habilidades e as condutas em saúde.(22) No entanto, os enfermeiros afirmam que há carência quantitativa de profissionais apoiadores, o que prejudica o suporte ofertado, gerando espaços com escassez de discussões e referência institucional para manejo das demandas cotidianas.

O apoio matricial representa a expansão do cuidado para além da rede substitutiva, em especial à Atenção Primária à Saúde, revigorando a ideia de que a Reforma Psiquiátrica não pode avançar se a Atenção Primária não for incorporada ao processo de cuidar.(4) Logo, é preciso estender a sensibilização de equipes, gestores e comunidade no que diz respeito à importância de se efetivar estratégias que fortaleçam os ideais da Reforma Psiquiátrica e do Sistema Único de Saúde (SUS), acometidos por ações de desmonte que interferem nos resultados terapêuticos, propondo-se o regresso do modelo manicomial às Políticas Públicas do país. Diante disso, o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde se torna imprescindível como mecanismo de contenção de retrocessos no processo de consolidação da Reforma Psiquiátrica Brasileira, assim como de desmantelamentos do próprio SUS.

Apesar das tensões e dos desafios apresentados, o apoio matricial é uma estratégia potente para o trabalho em saúde mental na rede básica, tendo contribuído para aproximar saúde mental, equipes das unidades de saúde e usuários. Dentre as principais tensões, encontram-se a integração e a sensibilização dessas equipes para o trabalho em saúde mental, e investir nas pessoas retrata o movimento para superar o isolamento decorrente de um modelo em saúde focado na doença.(23)

Destaca-se que nessa pesquisa, com o desvelamento dos sentidos expressos pelo vivido dos apoiadores matriciais e enfermeiros, deu-se a análise compreensiva. O método fenomenológico, como eixo das práticas em saúde, contribui para que ações sejam pautadas no modo compreensivo das experiências vividas de apoiadores e enfermeiros, suscitando a problematização do vivido para a produção de saúde, cidadania e existência.

Ademais, salienta-se que há limitações, já que o estudo trouxe a problematização de uma realidade, ao investigar apenas concepções de uma determinada equipe de apoiadores e de enfermeiros de determinada região do município, não abarcando a totalidade do matriciamento do município estudado. Mesmo assim, consideram-se as ações do apoio matricial na Atenção Primária um relevante tema para novas pesquisas na área de saúde mental, em que há necessidade de também problematizar concepções de outros profissionais, usuários e familiares no processo de cuidar.

Conclusão

Os achados deste estudo apontam que os apoiadores têm a intenção de instruir os profissionais de saúde das unidades, quando desejam promover capacitações e aprendizado. Evidenciou-se também a intenção de participar do cuidado em saúde mental no território, nas ocasiões em que desejam auxiliar no atendimento nas unidades. Na outra faceta do fenômeno, têm-se as expectativas dos enfermeiros, as quais são expostas quando estes relatam que esperam atendimento às demandas do usuário, a partir da melhora individual e encaminhamentos. Além disso, há expectativa quanto à melhora da estrutura do apoio matricial, quando os enfermeiros ensejam a melhora do arranjo da equipe de matriciamento. As experiências ouvidas descortinaram o descompasso entre intenções de apoiadores matriciais e expectativas de enfermeiros. Esse descompasso vincula-se ao conflito entre o que é intentado e esperado, expondo que não há reciprocidade de perspectivas, em que a intenção da ação é motivada pelo contexto traduzido pela expectativa.

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