MEU ENCONTRO COM OS OUTROS: MEMÓRIAS DE JOSÉ DE ALBUQUERQUE, PIONEIRO DA SEXOLOGIA NO BRASIL

MEU ENCONTRO COM OS OUTROS: MEMÓRIAS DE JOSÉ DE ALBUQUERQUE, PIONEIRO DA SEXOLOGIA NO BRASIL

Autores:

Romeu Gomes

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos de Saúde Pública

versão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.33 no.9 Rio de Janeiro 2017 Epub 09-Out-2017

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311x00124617

Sérgio Luiz Carrara & Marcos Carvalho nos brindam com um importante dossiê acerca da sexologia brasileira, incidindo o foco no legado do médico José de Oliveira Pereira de Albuquerque, autoproclamado sexólogo e andrologista brasileiro. Sérgio Carrara, como autor ou coautor, já havia se dedicado a esse médico em outros trabalhos 1,2. Mas, na obra em questão, além de aprofundar a discussão, ele e Marcos Carvalho nos apresentam o resgate de importantes aspectos acerca do assunto feito pelo próprio Albuquerque. Trata-se de um trabalho de reconstituição histórica apurado, com reflexões que - de certa forma - conectam fatos e questões da sexualidade do cenário brasileiro do entreguerras com a contemporaneidade em que vivemos.

Além do prefácio do filho do mencionado médico (Pedro de Albuquerque), a obra constitui-se de quatro partes: apresentação (redigida pelos organizadores); memórias do mencionado médico; fac-símile de um livro de Albuquerque e um conjunto de imagens.

Na apresentação, observa-se uma análise não só das contribuições e do ineditismo do médico em questão, como também a sua inserção no contexto das controvérsias e dos aspectos políticos. Nessa parte, os organizadores destacam as questões importantes, tais como: (a) batalha enfrentada por Albuquerque para instituir - de forma autônoma da urologia - a andrologia; (b) encontro desse médico com algumas ideias freudianas no sentido de defender os “problemas sexuais” abandonados pela medicina; (c) intensa propaganda empreendida em prol de uma “educação sexual”; (d) compreensão da sexualidade com o duplo objetivo: equilíbrio orgânico e a reprodução da espécie; (e) ideias “liberais”, comparadas com as de seus contemporâneos, tais como defesa da masturbação durante a adolescência, o combate da abstinência sexual e de seu excesso, bem como o combate da hospitalização dos doentes denominados de “venéreos”; (f) generalização da educação sexual para homens e mulheres, sem ser reduzida à “profilaxia moral” (defesa da abstinência sexual fora do casamento). Os organizadores também destacam alguns tensionamentos dos anos 1930 que ainda podem ser constatados atualmente no Brasil.

As memórias de Albuquerque que integram o livro abrangem seis narrativas: as três primeiras ligadas mais à infância e à juventude dele; duas relacionadas ao seu encontro com a medicina e a profissão médica, e a última com o foco na educação sexual, que não chegou a ser finalizada. Os cenários dessas narrativas basicamente giram em torno dos ambientes familiares, dos espaços de sua formação e dos locais em que atuou como estagiário e profissional. Tais cenários são emoldurados principalmente pela cidade do Rio de Janeiro e, em parte, pelo interior do Estado de São Paulo. Inúmeros personagens desfilam nas narrativas - com menor ou maior descrição - que vão desde os familiares e professores até figuras ilustres, a exemplo de Oswaldo Cruz, Fernandes Figueira, Miguel Couto, Fernando Magalhães e Epitácio Pessoa, dentre outros. Os enredos narrativos afiguram-se principalmente em torno da defesa de alguns princípios, sejam eles relacionados à formação médica, como o fato de não se reduzir a: transmissão de conhecimentos, uma parte do corpo, nem tampouco à doença; sejam relacionados ao exercício médico, principalmente no que tange à sexologia, transversalizada pela não interdição da sexualidade a ser exercida com equilíbrio sem chegar ao excesso. Nesses enredos, aparece como uma “ideia fixa” (expressão utilizada pelo próprio autor) a defesa de uma clínica andrológica. O autor das narrativas tem todo um cuidado de concatenar fatos e situações, sempre baseados em argumentos que demarcam a sua posição. Assim com Bourdieu, parece que Albuquerque procurou destacar alguns aspectos de sua vida e obra, sem se “sacrificar ao gênero autobiográfico3 (p. 37), por outro lado, distancia-se um pouco de uma autoanálise bourdieuniana quando pouco investe na reflexividade da sua própria sexualidade, assumindo, em geral, uma certa externalidade para tratar desse assunto.

Tanto nas narrativas como no fac-símile de seu livro, observam-se aspectos que situam José de Albuquerque como um pioneiro que ultrapassou o seu tempo no que se refere à sexualidade e à medicina em geral. Dentre esses aspectos, destacam-se os seguintes: necessidade da moral fundar-se numa base científica; defesa de se aprender na prática; valorização da notificação das doenças epidêmicas, sem que seja entendida como delação; visão integral do sujeito da doença; sigilo frente ao que é revelado pelos pacientes; defesa do não isolamento do doente; crítica à abstinência sexual socialmente imposta às mulheres solteiras e viúvas; sexualidade como algo necessário não só para a reprodução da espécie; exercício da sexualidade antes do casamento; direito da mulher sobre a propriedade de seu corpo, principalmente quando lança mão de práticas anticoncepcionais; defesa da ideia de que não há doença imoral; não redução da mulher ao papel de satisfazer as necessidades do homem; importância da informação e de ilustrações para a prevenção de doenças sexuais; não redução da educação sexual a uma simples disciplina ou a um espaço determinado e defesa do divórcio, dentre outros.

Junto a essas ideias que ultrapassaram o seu tempo, há também alguns limites que podem ser questionados ou causar polêmicas em nossa contemporaneidade. Dentre eles, ressaltam-se o seguinte: considerar que o segredo médico deveria ser dilatado a ponto de usar códigos nas receitas no lugar dos nomes dos pacientes; entender a masturbação na fase adulta como algo problemático; reduzir o prazer a um papel secundário em relação aos objetivos da sexualidade (equilíbrio orgânico e perpetuação da espécie); diferenciar o nu artístico (associado aos sentidos e às paixões) do nu científico (associado à consciência e à razão); condenação da camisinha por não ser totalmente segura e por impedir a realização plena do prazer; critica à prostituição, dentre outros.

O livro traz uma grande contribuição à saúde pública no que tange à prevenção e ao tratamento da sexualidade, possibilitando a reconstituição da história brasileira sobre essa temática e instaurando o debate de questões contemporâneas à luz do passado nele focalizado. Sua narratividade prende o leitor da primeira à última página. Ao fim da leitura, o que muito impressiona é o fato de José Albuquerque ter ficado no esquecimento por décadas, mesmo tendo mobilizado uma grande campanha focalizada na sexualidade, por meio de: reunião de intelectuais da época em seu entorno; publicação regular de um boletim com uma tiragem média de 100 mil exemplares durante seis anos; participação regular em programas de rádio; publicação de vários livros e notas em inúmeros jornais; produção de um filme, criação de um museu, participação de conferências no Brasil e no exterior, dentre tantas outras realizações. Este livro, sem dúvida, não mais deixará esse ator no esquecimento.

REFERÊNCIAS

1. Carrara S . Tributo a Vênus: a luta contra a sífilis no Brasil, da passagem do século aos anos 40. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 1996.
2. Russo AJ, Carrara S L. A psicanálise e a sexologia no Rio de Janeiro de entreguerras: entre a ciência e a autoajuda. Hist Ciênc Saúde-Manguinhos 2002; 9:273-90.
3. Bourdieu P. Esboço de autoanálise. São Paulo: Companhia das Letras; 2005.
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