Modelo artesanal para treinamento de acesso vascular periférico

Modelo artesanal para treinamento de acesso vascular periférico

Autores:

Ingrid Rodrigues de Oliveira Rocha,
Monna Hessen Banna de Oliveira,
Karolynie Lessa Bengtson,
Antonio Márcio Nunes Alves,
Marcus Vinícius Henriques Brito

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Vascular Brasileiro

versão impressa ISSN 1677-5449versão On-line ISSN 1677-7301

J. vasc. bras. vol.16 no.3 Porto Alegre jul./set. 2017 Epub 21-Ago-2017

http://dx.doi.org/10.1590/1677-5449.010216

INTRODUÇÃO

O acesso vascular é o procedimento mais comum realizado entre pacientes hospitalizados. É uma habilidade médica fundamental que exige de seu executor uma série de destrezas de cunho técnico e anatômico1. Procedimentos comuns incluem acesso venoso periférico para fins diagnósticos e terapêuticos, punção arterial nos procedimentos endovasculares e acessos cirúrgicos com abordagem vascular. No entanto, o acesso vascular pode proporcionar potenciais riscos e complicações, como infiltrações locais, formação de trombos, flebite, hematomas e sangramentos2-4.

Al-Elq1 afirma que os modelos de simulação são uma alternativa para minimizar essas complicações e aliar conhecimento técnico ao conhecimento teórico, além de serem capazes de oferecer um ambiente seguro para profissionais em formação e evitar os dilemas éticos de treinamento direto em pacientes ou em animais. O autor associou a simulação médica à possibilidade de uma aprendizagem eficaz e a um potencial para obter melhores resultados no manejo dos pacientes. Com esse objetivo, surgiram diversos manequins de treinamento, mas devido ao seu alto custo eles não são acessíveis a todos5.

Durante a formação acadêmica, os profissionais da área da saúde frequentemente realizam procedimentos, sejam eles ambulatoriais ou cirúrgicos, sem que tenham um treinamento prévio. Portanto, é comum que, pela falta de prática e pela influência de fatores psicológicos, ocorram falhas na execução desses procedimentos6.

Dessa forma, o objetivo deste trabalho foi desenvolver um modelo de ensino e treinamento de acesso vascular periférico, utilizando um modelo de baixo custo para fins educacionais.

MÉTODOS

Para realização do modelo proposto, foram necessários os seguintes materiais (Tabela 1): macarrão de polietileno expandido de baixa densidade, de aproximadamente 45 cm; quatro equipos de soro; duas hastes de balão de festa; 20×40 cm de courvin; prancha de compensado; suporte metálico; braçadeiras plásticas; furadeira; soro fisiológico e corantes azul e vermelho.

Tabela 1 Lista de materiais utilizados. 

Material
• Macarrão de polietileno expandido de baixa densidade (45 cm)
• Quatro equipos de soro
• Duas hastes de balão de festa
• 20×40 cm de tecido courvin
• Prancha de compensado (70×30 cm)
• Suporte metálico
• Cinco braçadeiras plásticas
• Soro fisiológico
• Corantes azul e vermelho
• Furadeira

Para preparação do modelo, seguiram-se as seguintes etapas:

    1. Confecção da base:

Com auxílio da furadeira, fez-se oito orifícios na prancha de compensado. Em seguida, procedeu-se à fixação do suporte metálico na prancha com duas braçadeiras plásticas inseridas nos orifícios laterais e presas na base do suporte (Figura 1).

Figura 1 Finalização da base, com fixação do suporte de metal na prancha. 

    2. Confecção do modelo:

O modelo foi feito a partir de 45 cm de macarrão de polietileno expandido de baixa densidade envolto por 20×40 cm de tecido courvin, para simulação do tecido muscular e pele respectivamente. Foram realizados orifícios no interior do macarrão de polietileno de modo a permitir a passagem de equipos de infusão e de duas hastes de balão de festa, em toda sua extensão longitudinal, a fim a simular a anatomia simplificada do antebraço (Figura 2). Nas bolsas de 500 mL de soro fisiológico foram acrescentados corante vermelho e azul para reproduzir didaticamente o sangue arterial o sangue venoso respectivamente, enquanto as hastes de balão de festa simularam os ossos rádio e ulna. A bolsa foi instalada no suporte de metal, facilitando a ação da gravidade (Figura 3). Por fim, o modelo foi fixado na base através das braçadeiras plásticas. A partir de então foi possível iniciar a prática do procedimento.

Figura 2 Visão transversal do macarrão de polietileno permitindo a visualização dos equipos de infusão e das duas hastes de balão de festa. 

Figura 3 Resultado final: modelo sintético de antebraço. 

RESULTADOS

O modelo criado apresentou configuração adequada para a representação mais realista dos tecidos humanos durante o ensino dos acessos vasculares, como a punção arterial e venosa e acessos cirúrgicos no membro superior (Figura 4A). O formato sugerido para o modelo apresentou semelhança com a anatomia normal do antebraço simplificada, identificando-se claramente os vasos sanguíneos, seu conteúdo líquido, os tecidos adjacentes e os planos teciduais (Figura 4B e C). O modelo se mostrou prático na punção e, devido à sua extensão, tem-se a possibilidade de puncionar diversas vezes o mesmo modelo, facilitando o treinamento.

Figura 4 Treinamento e ensino dos acessos vasculares: (A) Criação da via de acesso na pele; (B) Exposição dos tecidos adjacentes; (C) Identificação do vaso sanguíneo e seu conteúdo líquido azul, representando o sistema venoso do antebraço. 

DISCUSSÃO

O acesso vascular é um procedimento que pode ser feito em diversos locais; porém, sua realização no braço e antebraço é a mais comum, pois estes possuem rica vascularização e são de fácil acesso. Vários fatores devem ser considerados para a realização do procedimento, como facilidade de inserção e acesso, tipo de agulha ou cateter a ser utilizado, bem como conhecimento da anatomia local. No presente modelo, achou-se necessário, além do treinamento da técnica, a reprodução da anatomia simplificada, visto que a região representada pelo modelo é território de veias e artérias importantes e muito utilizadas nas terapias endovenosas.

Inúmeros trabalhos na literatura referem que o índice de complicação é maior quanto menor for a experiência do operador, necessitando-se, portanto, de padronizações de treinamento para a adequada realização do acesso vascular. Para suprir a necessidade de destreza, foram desenvolvidos diversos modelos industriais de manequins de simulação humana, classificados em baixa, média e alta fidelidade. Este último tipo é caracterizado pelo alto custo de aquisição e necessidade de conhecimento avançado de operação técnica por parte de docentes e estudantes, e, ainda que representem aumento nos gastos em educação, essas tecnologias vêm ao encontro das expectativas de novas gerações de estudantes da área da saúde6,7.

O modelo proposto se assemelha com o manequim simulador anatômico do braço para acesso venoso comercializado pela indústria e disponível em várias marcas, com a vantagem de ser útil para a aquisição não somente da técnica de punção arterial e venosa como também de acessos vasculares para procedimentos cirúrgicos, noções de diérese em planos e treinamento de suturas. No contexto atual, a Educação Médica Baseada em Simulação (EMBS) já faz parte do currículo educacional de muitas universidades na América do Norte e Europa, e tal fato estimula diversas instituições de ensino a desenvolverem seus próprios simuladores, que permitam o treinamento e a aquisição do conhecimento a um custo mais baixo em relação aos disponíveis no mercado1,8.

O treinamento extensivo das habilidades práticas tem como objetivo seguir de forma simulada os mesmos passos aplicados na abordagem ao paciente e corrigir erros mais frequentes. A descrição desse modelo permite sua fácil reprodução, visto que os materiais usados na confecção são de fácil acesso e o método empregado na montagem é simples. Deve-se ressaltar, entretanto, que, o modelo serve como instrumento prático inicial. Para o aprimoramento da técnica, é fundamental a prática no paciente.

CONCLUSÃO

O modelo proposto permite o treinamento de acesso vascular periférico, sendo uma alternativa de baixo custo, passível de confecção artesanal e que pode ser utilizada para fins educacionais.

REFERÊNCIAS

1 Al-Elq AH. Simulation-based medical teaching and learning. J Family Community Med. 2010;17(1):35-40. PMid:22022669. .
2 Pereira RC, Zanetti ML. Complicações decorrentes da terapia intravenosa em pacientes cirúrgicos. Rev Lat Am Enfermagem. 2000;8(5):21-7. PMid:12040622. .
3 Troianos CA, Hartman GS, Glas KE, et al, Councils on Intraoperative Echocardiography and Vascular Ultrasound of the American Society of Echocardiography, Society of Cardiovascular Anesthesiologists. Guidelines for performing ultrasound guided vascular cannulation: recommendations of the American Society of Echocardiography and the Society of Cardiovascular Anesthesiologists. Anesth Analg. 2012;114(1):46-72. PMid:22127816. .
4 Danski MTR, Oliveira GLR, Johann DA, Pedrolo E, Vayego SA. Incidência de complicações locais no cateterismo venoso periférico e fatores de risco associados. Acta Paul Enferm. 2015;28(6):517-23. .
5 Souza JL No. Desenvolvimento e avaliação do emprego de dispositivo ajustável ao corpo para treinamento de habilidade de acesso venoso periférico no membro [dissertação]. Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte; 2015.
6 Miglioransa MH, Laporte GA, Pereira E, Crespo AR. Modelo experimental para treinamento de acesso venoso periférico. In: Livro de resumos do XV Salão de Iniciação Científica; 2003; Porto Alegre. Porto Alegre: UFRGS; 2003. p. 24-8.
7 Hubner GS. Desenvolvimento de um manequim simulador de punção venosa para educação na saúde: da ideia ao protótipo [dissertação]. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul; 2015.
8 Flato UAP, Guimarães HP. Educação baseada em simulação em medicina de urgência e emergência: a arte imita a vida. Rev Bras Clin Med. 2011;9(5):360-4.
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