Morcegos (Mammalia: Chiroptera) da região do Médio Rio Teles Pires, Sul da Amazônia, Brasil

Morcegos (Mammalia: Chiroptera) da região do Médio Rio Teles Pires, Sul da Amazônia, Brasil

Autores:

João M. D. MIRANDA,
Luciana ZAGO,
Fernando CARVALHO,
Marcelo B. G. RUBIO,
Itiberê P. BERNARDI

ARTIGO ORIGINAL

Acta Amazonica

Print version ISSN 0044-5967

Acta Amaz. vol.45 no.1 Manaus Jan./Mar. 2015

https://doi.org/10.1590/1809-4392201400583

RESUMO

A Amazônia é a maior floresta tropical do mundo e pelo menos 147 espécies de morcegos ocorrem neste ambiente. A despeito desta grande riqueza, a diversidade de morcegos da Amazônia é pobremente conhecida e existem grandes lacunas neste conhecimento. O objetivo do presente trabalho foi descrever a assembleia de morcegos ocorrentes na região do Médio Teles Pires (MTP), no sul da Amazônia. Além disso, avaliou-se a similaridade dessa assembleia em relação a 14 assembleias estudadas em outras localidades amazônicas e avaliou-se a correlação entre as similaridades destas localidades e suas distâncias. Trinta e três espécies de morcegos foram registradas, representando 71% das espécies estimadas (Jackknife2). As três espécies com maior abundância relativa foram: Carollia perspicillata, Pteronotus parnellii e Phyllostomus hastatus que somadas contam com mais de 50% das capturas. O grupo funcional dos frugívoros obteve o maior número de espécies capturadas. Foi encontrada uma correlação negativa entre as distâncias e as similaridades das assembleias de morcegos amazônicos (r = -0,22; p = 0,014). A distância geográfica pode explicar apenas 6% da similaridade entre as assembleias analisadas, ainda assim, as similaridades destas assembleias permitem que as mesmas sejam agrupadas por suas distâncias geográficas. Além disso, a fauna de morcegos do MTP é diferenciada de outras áreas da Amazônia o que lhe confere um papel especial na conservação dos morcegos amazônicos

ABSTRACT

Amazonia is the largest tropical rainforest in the world and at least 147 bat species occur in this environment. Despite its richness, the diversity of bat fauna is poorly known for this region and there are large gaps in its knowledge. This study aims to describe the bat assemblage of the Middle Teles Pires River (MTP) region, southern Amazonia. Furthermore, we evaluated the similarity of this assemblage in relation to 14 assemblages studied in other Amazonian localities, and correlations were found between the similarity values among the sites and their geographic distances. Thirty-three bat species were recorded, accounting for 71% of the estimated species richness (Jackknife2). The three species that had the higher relative abundance values were Carollia perspicillata, Pteronotus parnellii and Phyllostomus hastatus, which together accounted for more than 50% of the captures. The frugivore functional group had the highest number of recorded species. A negative correlation was found between the geographic distances and the similarities among the Amazonian bat assemblages (r = -0.22; p = 0.014). Geographic distance could explain only 6% of the similarities among the analyzed assemblages, even though, the similarity found allowed them to be grouped by their distances. Besides, the MTP bat fauna is different from other Amazonian areas, which gives it a special role in the Amazonian bat conservation.

Key words: Chiroptera; Fauna survey; Assemblage; Biodiversity

INTRODUÇÃO

A Amazônia é a maior floresta tropical do mundo e abriga uma grande diversidade biológica (Heyer et al. 1999; Magurran 2011). A origem dessa diversidade biológica é de interesse dos cientistas desde a época de Darwin e Wallace, no século XIX (Bush e Oliveira 2006). Várias hipóteses tentam explicar os padrões de biodiversidade amazônica como por exemplo: a hipótese dos refúgios de fauna (Haffer 1969; Vanzolini 1992), a hipótese de que existem maiores áreas tropicais que sub-tropicais ou temperadas (Rosenzweig e Sandlin 1997) e a teoria da barreira fluvial (Hershkovitz 1977; van Roosmalen et al. 2002). De maneira geral essas hipóteses tratam de barreiras geográficas impostas aos organismos modelos estudados (aves florestais, lagartos e primatas) (Bush e Oliveira 2006). Uma das principais críticas às várias teorias é que cada grupo animal possui sua própria história evolutiva, necessidades ambientais e capacidade de dispersão (Haffer e Prance 2002; Bush e Oliveira 2006). Os morcegos são animais voadores e possuem altas capacidades de dispersão e amplas distribuições geográficas (Kunz e Pierson 1994; Gardner 2008), e podem responder de maneiras diferentes a uma mesma barreira.

Os morcegos apresentam as maiores riquezas entre as comunidades de mamíferos da Amazônia servindo como bons modelos para estudos sobre a diversidade e a biogeografia (Voss e Emmons 1996; Moratelli et al. 2010), bem como bons indicadores de processos ecológicos (Passos et al. 2003). Por outro lado, o conhecimento sobre a biodiversidade de morcegos da Amazônia é bastante assimétrico com boas amostragens ao longo da calha do rio Amazônas e do rio Tapajós e também no Escudo Guiano (39; Bernard 2002; Sampaio et al. 2003), porém as regiões Oeste e Sul permanecem virtualmente desconhecidas (Bernard et al. 2010; Martins et al. 2011). Assim, o presente estudo teve por objetivo: (I) descrever a estrutura de uma assembleia de morcegos em uma região mal amostrada ao sul da Amazônia; (II) avaliar se a fauna de morcegos da Amazônia apresenta alguma regionalização e se esta pode ser explicada pela distância geográfica entre as áreas amostradas.

MATERIAL E MÉTODOS

A área de estudo compreende extensas áreas de florestas às margens do Médio Rio Teles Pires (MTP) entre os municípios de Nova Canaã do Norte e Itaúba, no norte do estado do Mato Grosso (10º 58' 04" S; 55º 45' 23" W). A região do MTP está localizada próxima aos limites dos biomas Amazônia e Cerrado (Figura 1). A área é formada por floresta tropical madura com lianas formando um dossel descontínuo, estando este compreendido entre 20 e 30 metros de altura, com árvores emergentes alcançando até 40 m. O dossel é relativamente denso e a floresta bem estratificada (Gualda-Barros et al. 2012). O clima é equatorial quente e semi-úmido com pelo menos três meses de estação seca e temperaturas mensais médias sempre acima dos 18 ºC (IBGE 2002).

Figura 1. Mapa mostrando a área de estudo e outras localidades citadas no texto. Áreas em cinza indicam florestas úmidas das Américas. (1) Iwokrama Forest, Guiana (IWO); (2) Paracou, Guiana Francesa (PAR); (3) Baixo Arataye, Guiana Francesa (ARA); (4) Floresta Nacional do Amapá, Amapá, Brasil (FLAM); (5) Parque Nacional das Montanhas do Tumucumaque, Amapá, Brasil (PNMT); (6) Barcelos e Santa Isabel do Rio Negro, Amazonas (BAR); (7) Parque Nacional do Jaú, Amazonas, Brasil (PNJ); (8) Manaus, Amazonas, Brasil (MAN); (9) Baixo Xingu, Pará (XIN); (10) Parque Nacional da Amazônia, Pará/Amazonas, Brasil (PNA); (11) Parque Nacional da Serra do Divisor, Acre, Brasil (PNSD); (12) Aldeia Indígena Cashinahua de Balta, Ucayali, Peru (BAL); (13) Estación Biológica Cosha Cashu, Rio Manu, Madre de Dios, Peru (MNU); (14) Reserva Cuzco Amazónico, Madre de Dios, Peru (CUZ) e (15) Médio Teles Pires, Mato Grosso, Brasil (MTP). 

Na tentativa de melhor amostrar a diversidade de ambientes no MTP as amostragens foram realizadas em três fitofisionomias, chamadas daqui em diante de sítios amostrais: (1) Floresta Ombrófila Densa Aluvial (FAlu) à margem esquerda do rio Teles Pires e a 250 m de altitude; (2) Floresta Ombrófila Densa Submontana (FSub) a 2,5 km da margem direita do rio Teles Pires e a 350 m de altitude e (3) Floresta Ombrófila Densa Aluvial Secundária (FSec) a 1 km da margem direita do rio Teles Pires e a 245 m de altitude. A menor distância entre as áreas foi entre a FSub e a FAlu (2,65 km), sendo seguida pela FSub e a FSec (2,75 km) e as mais distantes foram a FSec e a FAlu (5,02 km).

Entre fevereiro de 2011 e abril de 2012, foram realizadas seis campanhas de campo com duração de seis noites consecutivas de amostragem sendo duas noites em cada um dos três sítios amostrais, o que resultou em 36 noites (12 noites em cada sítio amostral). As noites de amostragem foram sempre durante a fase lunar minguante ou nova. Foram realizadas três idas a campo na estação seca e outras três na estação chuvosa. Em cada noite de amostragem foram armadas 12 redes de neblina (6 x 3 m) que permaneceram abertas por seis horas após o pôr-do-sol, sendo revisadas em intervalos de 30 min. As redes foram armadas no nível do sub-bosque em trilhas e clareiras pré-existentes e também próximas a rios. Esse esforço amostral totalizou 46.656 m2 hr-1 (segundo Bianconi e Straube 2002), sendo esse distribuído igualitariamente entre os três sítios amostrais. Os indivíduos capturados foram triados e identificados de acordo com a literatura disponível (Lim e Engstron 2001; Reis et al. 2007; Gardner 2008). Os primeiros exemplares de cada espécie foram coletados e tombados na Coleção Científica de Mastozoologia da Universidade Federal do Paraná como material testemunho. Os demais espécimes capturados foram marcados com anilhas metálicas numeradas e coloridas e soltos no mesmo local da captura. As capturas, o manejo e os procedimentos dos animais foram feitas sob a licença do SISBIO/IBAMA No 02013004996/10-08 e seguiram as indicações da American Society of Mammalogists (Sikes et al. 2011).

As diversidades específicas (Diversidade de Shannon- Wiener) de morcegos foram comparadas entre os três sítios amostrais (FAlu, FSub e FSec) pelo teste t de Shannon. Uma vez que não houve diferença significativa (p>0,05) entre qualquer um dos três sítios amostrais esses foram tratados nas demais análises de forma conjunta, compondo uma única assembleia de morcegos do MTP.

A riqueza estimada de morcegos foi calculada através do estimador não paramétrico Jackkinfe de segunda ordem (Jackknife2). Essa estimativa foi obtida por meio de 1.000 re-amostragens (bootstraping) dos dados originais gerando medidas de desvio padrão. A avaliação do esforço amostral foi feita pela análise de complementaridade no pior cenário, dado pela porcentagem das espécies registradas em relação ao número médio de espécies estimada mais o desvio padrão obtido pelas re-amostragens.

A abundância relativa foi calculada pela porcentagem que cada espécie representa no total de capturas. A frequência relativa das espécies foi calculada dividindo-se o número de campanhas de campo em que cada espécie foi registrada pelo número total de fases de campo (seis). A partir de suas frequencias relativas cada espécie foi classificada quanto à sua constância como: Comum quando a freqüência relativa foi ≥ 50%; Intermediária quando a freqüência relativa foi entre 25 e 50% ou Rara quando a freqüência relativa foi < 25% (como em Bianconi et al. 2004; Carvalho et al. 2013).

Cada espécie registrada foi categorizada em um dos seguintes grupos funcionais como em Simmons e Voss (1998): (1) Insetívoros aéreos (todos os não Phyllostomidae), (2) Catadores animalívoros (todos os Phyllostominae, exceto Phylloderma stenops, Phyllostomus hastatus e P. discolor), (3) Frugívoros (todos os Carolliinae e Stenodermatinae), (4) Nectarívoros (todos os Glossophaginae), (5) Hematófagos (todos os Desmodontinae) e (6) Onívoros (P. stenops, P. hastatus e P. discolor).

Para as análises de Agrupamento (Cluster) e de relação (Correlação e Regressão) entre similaridade das assembleias de morcegos e distância das áreas onde essas assembleias de morcegos foram estudadas (ver abaixo), foram utilizadas as informações de riqueza de 15 assembleias da Amazônia, sendo estas as localidades: (1) Iwokrama Forest, Guiana (IWO) (Lim e Engstron 2001); (2) Paracou, Guiana Francesa (PAR) (Simmons e Voss 1998); (3) Baixo Arataye, Guiana Francesa (ARA) (Voss e Emmons 1996); (4) Floresta Nacional do Amapá, Amapá, Brasil (FLAM) (Martins et al. 2006); (5) Parque Nacional das Montanhas do Tumucumaque, Amapá, Brasil (PNMT) (Martins et al. 2006); (6) Barcelos e Santa Isabel do Rio Negro, Amazonas (BAR) (Moratelli et al. 2010); (7) Parque Nacional do Jaú, Amazonas, Brasil (PNJ) (Barnett et al. 2006); (8) Manaus, Amazonas, Brasil (MAN) (Reis e Peracchi 1987); (9) Baixo Xingu, Pará (XIN) (Voss e Emmons 1996); (10) Parque Nacional da Amazônia, Pará/Amazonas, Brasil (PNA) (Bernard 2001); (11) Parque Nacional da Serra do Divisor, Acre, Brasil (PNSD) (Nogueira et al. 1999); (12) Aldeia Indígena Cashinahua de Balta, Ucayali, Peru (BAL) (Voss e Emmons 1996); (13) Estación Biológica Cosha Cashu, Rio Manu, Madre de Dios, Peru (MNU) (Voss e Emmons 1996); (14) Reserva Cuzco Amazónico, Madre de Dios, Peru (CUZ) (Voss e Emmons 1996) e (15) Médio Teles Pires, Mato Grosso, Brasil (MTP) (presente trabalho) (Figura 1). No sentido de padronizar as assembleias amostradas, uma vez que alguns dos trabalhos supracitados utilizaram de redes armadas no dossel da floresta (Simmons e Voss 1998; Bernard 2001; Lim e Engstron 2001; Barnett et al. 2006), nessas três análises (correlação, regressão e agrupamento) foram consideradas apenas as espécies capturadas no sub-bosque da floresta (como em Moratelli et al. 2010).

Foi realizada uma Análise de Agrupamento (Cluster) (através do algoritmo UPGMA - Unweighted pair-group average) com o Coeficiente de Similaridade de Jaccard para comparar as 15 assembleias de morcegos utilizadas no presente estudo. Para essa Análise de Agrupamento foi utilizada uma matriz binária com a presença ou ausência de espécies por área estudada (Anexo 1). Na Análise de Agrupamento foram feitas 100 re-amostragens (Bootstraping) no sentido de verificar quanto cada ramo do dendrograma é suportado. Para testar se há correlação entre similaridade (Similaridade de Jaccard) e distância das assembleias foram obtidas as distâncias (em km) em linha reta entre cada par de localidades amostradas com a ferramenta de régua no software Google Maps(r). Foram obtidos também o valor do Coeficiente de Similaridade de Jaccard para riqueza de espécies de morcegos entre cada par das 15 localidades amostradas. Foi realizado o teste de Correlação de Pearson entre as distâncias (em km) de cada par de localidades amostradas e o valor de Coeficiente de Similaridade de Jaccard de cada mesmo par de localidades. Quando a correlação foi significativa (análise anterior) procedeu-se uma análise de Regressão (através do algoritmo RMA - Reduced Major Axis) afim de se verificar quanto da similaridade da fauna pode ser explicada pela distância entre as áreas. Todas as análises foram feitas no software PAST(r) versão 2.14 (Hammer 2012) adotando-se o nível de significância p < 0,05.

RESULTADOS

Foram obtidas 337 capturas (excluindo-se 12 re-capturas) que representaram 33 espécies, 25 gêneros e 6 famílias (Tabela 1). A riqueza total do MTP foi estimada em 36,6 ± 9,9 espécies pelo estimador Jackknife2. Isso indica que o esforço realizado amostrou pelo menos 71% da riqueza estimada (no pior cenário).

As espécies com maior abundância relativa na amostragem geral foram: Carollia perspicillata (25,8%), Pteronotus parnellii (13,4%) e Phyllostomus hastatus (11,3%), as demais espécies foram representadas por menos que 10% dos indivíduos capturados. Doze espécies foram consideradas Comuns, seis espécies Intermediárias e 16 espécies Raras na região do MTP. O grupo funcional com o maior número de espécies foi de morcegos Frugívoros contando com dez espécies, seguido pelos Insetívoros aéreos e os Catadores animalívoros com oito espécies cada. Os morcegos Nectarívoros e Onívoros foram representados por apenas três espécies cada, enquanto os Hematófagos foram representados por apenas uma espécie (Tabela 1).

A Análise de Agrupamento mostrou os seguintes agrupamentos geográficos e bem suportados: (1) as assembleias do Escudo Guiano; (2) as assembleias da Amazônia Ocidental; (3) as assembleias da Amazônia Central e (4) as assembleias do estado do Amapá (PNMT e FLAM) (Figura 2). A comunidade de morcegos do MTP foi mais similar às registradas no FLAM (44,7%), no PNMT (44%), no XIN (42,8%) e no ARA (42,4%) (Tabela 2). A correlação entre a similaridade da fauna de morcegos e as respectivas distâncias entre áreas foi corroborada para as assembleias de morcegos da Amazônia, sendo encontrada uma correlação negativa (r = -0,22; p = 0,014). A similaridade da fauna de morcegos das 15 áreas da Amazônia pôde ser explicada em apenas 6% pelas distâncias entre áreas (r2 = 0,0622; F = -2,48; p = 0,0133) (Figura 3).

Tabela 1 Espécies registradas na região do Médio Teles Pires, Mato Grosso seguidas de seus respectivos Grupos Funcionais (= GF), Abundâncias (= AB), Abundâncias Relativas (=AR) e Constância (= CON) das espécies 

Figura 2. Análise de Agrupamento (UPGMA) através do Índice de Similaridade de Jaccard entre as seguintes assembleias de morcegos da Amazônia: IWO = Iwokrama Forest, Guiana; PAR = Paracou, Guiana Francesa; ARA = Baixo Arataye, Guiana Francesa; FLAM = Floresta Nacional do Amapá, Amapá, Brasil; PNMT = Parque Nacional das Montanhs do Tumucumaque, Amapá, Brasil; BAR = Barcelos e Santa Isabel do Rio Negro; PNJ = Parque Nacional do Jaú, Amazonas, Brasil; MAN = Manaus, Amazonas, Brasil; XIN = Baixo Xingú, Pará, Brasil; PNA = Parque Nacional da Amazônia, Amazonas/Pará, Brasil; PNSD = Parque Nacional da Serra do Divisor, Acre, Brasil; BAL = Balta, Ucayali, Peru; MNU = Parque Nacional de Manu, Madre de Dios, Peru; CUZ = Reserva Cuzco Amazônico, Madre de Dios, Peru e MTP = Médio Teles Pires, Mato Grosso, Brasil. 

Tabela 2 Valores de Similaridade do Coeficiente de Jaccard entre as 15 áreas e as distâncias entre cada par de localidades. Na diagonal superior da tabela seguem as distâncias em quilômetros. Na diagonal inferior da tabela seguem os valores do Coeficiente de Similaridade de Jaccard entre cada par de localidades 

Figura 3. Correlação (correlação negativa e regressão) entre a similaridade (Jaccard) das 15 assembleias de morcegos amostradas na Amazônia e as respectivas distâncias geográficas (km) entre essas mesmas áreas. 

DISCUSSÃO

A riqueza de espécies amostrada representa 22,6% das espécies registradas para a Amazônia (Bernard et al. 2011; Paglia et al. 2012), 18% daquelas registradas para o Brasil (Paglia et al. 2012) e 13,2% das registradas para a América do Sul (Gardner 2008). A riqueza amostrada no presente trabalho foi similar às encontradas no PNJ (S = 31), em BAR (S = 35), na FLAM (S = 35) e PNMT (S = 39) e menor que nas demais áreas inclusas na presente análise (Anexo 1). Entretanto sabe-se que maiores esforços normalmente refletem-se em maiores riquezas (Stevens 2013). De fato, as áreas com maior riqueza de espécies foram aquelas com maiores esforços de amostragem (e.g. Voss e Emmons 1996; Simmons e Voss 1998).

O esforço amostral empregado no presente estudo permitiu amostrar aproximadamente 70% das espécies estimadas. Esta estimativa está abaixo daquela apontada por Simmons e Voss (1998), que sugerem que para uma área ser considerada suficientemente amostrada, 90% de sua riqueza estimada deve ser registrada. No que se refere ao número de capturas, este também ficou distante das 6.000 capturas sugeridas por Sampaio et al. (2003)para a boa amostragem de uma área na Amazônia. Dentro dessas perspectivas, poucas localidades podem atualmente ser consideradas amostradas suficientemente, o que demonstra a necessidades de novos e contínuos inventários na Amazônia.

Voss e Emmons (1996)estimaram que entre 90 e 110 espécies de morcegos podem coexistir em sintopia na Amazônia. Embora tenham sido registradas apenas 33 espécies neste estudo, é importante amostrar-se regiões pouco conhecidas mesmo que com esforços menores (e.g. Martins et al. 2006; Moratelli et al. 2010) para que se possa aumentar o conhecimento sobre a quiropterofauna nestes locais e direcionar esforços conservacionistas, especialmente em áreas mal amostradas (Bernard et al. 2010; 2011; Martins et al. 2011).

Carollia perspicillata, assim como no presente trabalho, foi a espécie mais abundante na maioria das assembleias de morcegos estudadas na Amazônia (e.g. Reis e Peracchi 1987; Simmons e Voss 1998; Bernard 2001). Rhinophylla pumilio, Phyllostomus hastatus e Pteronotus parnellii também constam entre as espécies mais abundantes em várias localidades estudadas da Amazônia (e.g. Simmons e Voss 1998; Sampaio et al. 2003). Essas são espécies consideradas generalistas quanto ao hábitat em que vivem e também em relação aos hábitos alimentares (exceto P. parnellii que é insetívoro) (Herd 1983; Cloutier e Thomas 1992; Santos et al. 2003).

Dentre as espécies raras a maior parte correspondeu à subfamília Phyllostominae, que são reconhecidamente pouco capturáveis (Simmons e Voss 1998), e às vezes são consideradas bioindicadoras de qualidade ambiental (Fenton et al. 1992). Porém, muitas vezes espécies consideradas raras podem ser apenas pouco capturáveis (Velazco et al. 2011). Além disso, espécies raras (ou pouco capturáveis) não são as melhores opções quando trata-se de bioindicadores (Jones et al. 2009). De qualquer forma assembléias de morcegos monitoradas a médio e longo prazo podem funcionar como indicadores de qualidade ambiental (e.g. Willig et al. 2007; Klingbeil e Willig 2009; Jones et al. 2009). Porém, este não é um padrão geral e esse papel bioindicador deve ser visto com restrições (Cunto e Bernard 2012). Entre as ocorrências mais importantes destaca-se Phyllostomus latifolius que encontra atualmente no MTP seu limite sul de distribuição, sendo possível que essa espécie ocorra em toda a Amazônia (Miranda e Rubio 2011) e não apenas na porção norte da Amazônia como se acreditava anteriormente (e.g. Gardner 2008). Outras duas espécies de interesse são: Trinycteris nicefori e Platyrrhinus fusciventris, cujas distribuições foram ampliadas com o presente estudo em aproximados 500 km para T. nicefori e 1000 km para P. fusciventris e atualmente encontram no MTP seu limite sul de distribuição (Gardner 2008; Velazco et al. 2010). Além dessas, o presente registro de T. cirrhosus é o segundo para o estado do Mato Grosso, sendo o primeiro registro no bioma Amazônia no estado (Souza et al. 2013).

Entre os grupos funcionais presentes no MTP, os morcegos frugívoros foram mais representados tanto em número de espécies quanto em número de indivíduos capturados. Esse padrão também foi registrado em outras comunidades de morcegos da Amazônia (Reis e Peracchi 1987; Bernard 2001) e possivelmente reflete a seletividade do método mais comumente empregado (redes de neblina armadas no sub-bosque) (Simmons e Voss 1998). Nos fragmentos florestais do BDFFP em Manaus, Sampaio et al. (2003)encontraram equivalência entre os Insetívoros aéreos, os Catadores animalívoros e os Frugívoros com 19 espécies em cada grupo funcional. Insetívoros aéreos também foram bem representados no MTP, mesmo que possivelmente sub-amostrados pelas redes em sub-bosque. Os Insetívoros aéreos podem representar o maior grupo funcional em várias localidades, especialmente em áreas onde houve esforço de longo prazo e também onde foram feitos esforços com redes de neblina armadas no dossel da floresta (Simmons e Voss 1998). Os Nectarívoros, Onívoros e Hematófagos também tiveram suas riquezas de acordo com o que já foi registrado em outras localidades amazônicas (e.g. Reis e Peracchi 1987; Simmons e Voss 1998; Bernard 2001).

A correlação negativa entre similaridades e distâncias, embora significativa, pode explicar apenas 6% da similaridade de morcegos entre as áreas amostradas. De fato, na Análise de Agrupamento percebe-se agrupamentos que parecem responder às correlações espaciais: Amazônia Ocidental (BAL, MNU, PNSD e CUZ), Amazônia Central (MAN, PNA e XIN), Escudo Guiano (PAR, ARA e IWO) e as localidades do estado do Amapá (FLAM e PNMT). Por outro lado, a assembleia de morcegos do MTP não se agrupa às localidades mais próximas e seu baixo suporte da Análise de Agrupamento também reflete sua dissimilaridade com outras áreas. O ramo onde se agrupam BAR, MTP, PNMT e FLAM parece não responder à proximidade entre áreas mas sim a um agrupamento "metodológico", sendo que essas áreas foram amostradas por menores esforços de campo e registrando menores riquezas (Martins et al. 2006; Moratelli et al. 2010; presente trabalho). Os agrupamentos também podem e devem estar refletindo outros fatores que não a proximidade geográfica, como fatores abióticos (temperatura, umidade, etc.) ou fatores biológicos (co-ocorrências, competição, fitofisionomia, etc.) não abordados na presente análise. Além disso, também é possível que a diferença (ou pouca similaridade) entre a assembleia do MTP e da outras localidades amostradas possa também refletir o relativo "isolamento" do MTP em relação às demais áreas, sendo o MTP a única área amostrada na região sul da Amazônia.

CONCLUSÃO

O presente estudo registrou 33 espécies de morcegos pretencentes a seis famílias com um esforço de campo que amostrou cerca de 71% da riqueza estimada. A importância desse trabalho é destacada por ser o primeiro estudo de morcegos para a região sul da Amazônia. Além disso, por se tratar de uma assembleia diferenciada dentro do contexto regionalizado da Amazônia, reforça-se a importância de estudos nessa região, além de imcrementar os esforços de conservação no sul da Amazônia . Outros estudos poderão revelar como essa grande quantidade de espécies partilham o mesmo ambiente. Sugere-se que em futuras amostragens incluam-se redes de neblina no dossel e sub-dossel da floresta, bem como buscas por abrigos e detectores de ultra-som.

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