Mortalidade por Doenças Cardiovasculares em Mulheres e Homens nas cinco Regiões do Brasil, 1980-2012

Mortalidade por Doenças Cardiovasculares em Mulheres e Homens nas cinco Regiões do Brasil, 1980-2012

Autores:

Antonio de Padua Mansur,
Desidério Favarato

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782Xversão On-line ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.107 no.2 São Paulo ago. 2016 Epub 18-Jul-2016

https://doi.org/10.5935/abc.20160102

Resumo

Fundamento:

Estudos mostraram diferentes mortalidades por doenças cardiovasculares (DCV), doença isquêmica do coração (DIC) e doenças cerebrovasculares (DCbV) nas cinco regiões do Brasil. Particularidades socioeconômicas entre as cinco regiões são frequentemente usadas para justificar diferenças na mortalidade por essas doenças. Estudos também mostraram redução das diferenças entre as taxas de mortalidade das cinco regiões do Brasil.

Objetivo:

Atualizar os dados de mortalidade por DCV em mulheres e homens nas cinco regiões do país.

Métodos:

Os dados populacionais e de mortalidade foram obtidos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e do Ministério da Saúde. O risco de morte foi ajustado pelo método da padronização direta, tendo como referência a população mundial em 2000. Foram analisadas as tendências da mortalidade por DCV, DIC e DCbV em mulheres e homens com ≥ 30 anos de idade nas cinco regiões do Brasil no período de 1980-2012.

Resultados:

Observou-se na mortalidade: 1) por DCV: redução nas regiões Norte, Centro-Oeste, Sul e Sudeste; aumento na região Nordeste; 2) por DIC: redução nas regiões Sudeste e Sul; aumento na região Nordeste; e inalterada nas regiões Norte e Centro-Oeste; 3) por DCbV: redução nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste; aumento na região Nordeste; e inalterada na região Norte. Observou-se também convergência das tendências da mortalidade por DCV, DIC e DCbV nas cinco regiões.

Conclusão:

As regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste tiveram as maiores taxas de mortalidade por DCV comparadas às regiões Sudeste e Sul. (Arq Bras Cardiol. 2016; [online].ahead print, PP.0-0)

Palavras-chave: Doenças Cardiovasculares; Mortalidade; Epidemiologia; Brasil; Acidente Vascular Cerebral (AVC); Doença Isquêmica do Coração

Abstract

Background:

Studies have shown different mortalities due to cardiovascular diseases (CVD), ischemic heart disease (IHD) and cerebrovascular diseases (CbVD) in the five Brazilian regions. Socioeconomic conditions of those regions are frequently used to justify differences in mortality due to those diseases. In addition, studies have shown a reduction in the differences between the mortality rates of the five Brazilian regions.

Objective:

To update CVD mortality data in women and men in the five Brazilian regions.

Methods:

Mortality and population data were obtained from the Brazilian Institute of Geography and Statistics and Ministry of Health. Risk of death was adjusted by use of the direct method, with the 2000 world standard population as reference. We analyzed trends in mortality due to CVD, IHD and CbVD in women and men aged ≥ 30 years in the five Brazilian regions from 1980 to 2012.

Results:

Mortality due to: 1) CVD: showed reduction in the Northern, West-Central, Southern and Southeastern regions; increase in the Northeastern region; 2) IHD: reduction in the Southeastern and Southern regions; increase in the Northeastern region; and unchanged in the Northern and West-Central regions; 3) CbVD: reduction in the Southern, Southeastern and West-Central regions; increase in the Northeastern region; and unchanged in Northern region. There was also a convergence in mortality trends due to CVD, IHD, and CbVD in the five regions.

Conclusion:

The West-Central, Northern and Northeastern regions had the worst trends in CVD mortality as compared to the Southeastern and Southern regions. (Arq Bras Cardiol. 2016; [online].ahead print, PP.0-0)

Keywords: Cardiovascular Diseases; Mortality; Epidemiology; Brazil; Stroke; Myocardial Ischemia

Introdução

As doenças cardiovasculares (DCV) são as principais causas de morte em homens e mulheres nas cinco regiões do Brasil.1 As regiões Sudeste e Sul tiveram os maiores coeficientes ajustados de mortalidade por DCV, doenças isquêmicas do coração (DIC) e doenças cerebrovasculares (DCbV) comparadas com as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.1 A mortalidade por DCV nas regiões Sudeste e Sul tem padrão semelhante ao observado nos países mais desenvolvidos, onde as DCV têm maior participação na mortalidade geral da população e predomina a mortalidade por DIC sobre as DCbV.2,3 Do outro lado, a mortalidade por DCV nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste tem padrão semelhante ao observado nos países em desenvolvimento, onde as DCV têm proporcionalmente menor participação na mortalidade geral da população e predomina a mortalidade por DCbV sobre as DIC.1-3 Da mesma forma, a redução da mortalidade por DCV, DIC e DCbV foi significativamente maior nas regiões Sudeste e Sul quando comparadas com as regiões Norte e Centro-Oeste, enquanto que na região Nordeste observou-se um aumento na mortalidade por essas doenças.1,4 Esses dois estudos mostraram uma aproximação das linhas de tendência da mortalidade por DCV entre as cinco regiões. Porém, Souza et al.1 analisaram os dados de mortalidade por DCV até o ano 2006 e Baena et al.4 reportaram dados de mortalidade nas cinco regiões somente para as DIC até o ano de 2010.

Este estudo teve como objetivo analisar as tendências de mortalidade por DCV, DIC e DCbV, isto é, se as tendências ainda se mantêm, assim como atualizar os dados de mortalidade por DCV em homens e mulheres nas cinco regiões do Brasil no período de 1980 a 2012.

Métodos

Este estudo ecológico, retrospectivo, baseado nas séries temporais analisou a mortalidade por DC, DIC e DCbV na população com idade ≥30 anos nas cinco regiões do Brasil (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul) de 1980 até 2012. Os dados sobre a mortalidade foram obtidos no portal do Ministério da Saúde, www.datasus.gov.br.5 Os dados populacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foram obtidos no mesmo portal. Os óbitos de 1990 a 1995 foram classificados de acordo com o CID-9, 9a Conferência de Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID), de 1975, e adotado pela 20a Assembleia Mundial da Saúde. Os dados de mortalidade a partir do ano de 1996 foram obtidos da 10a revisão da CID. As doenças do aparelho circulatório (DC) foram agrupadas nos códigos 390 a 459, as DIC, códigos 410 a 414, e as DCbV, códigos 430 a 438, da 9a Revisão da CID. A mortalidade a partir do ano de 1996 foi classificada pela 10ª revisão da CID. As DC estão agrupadas nos códigos I00 a I99, as DIC, códigos I20 a I25 e as DCbV, nos códigos I60 a I69. Para fins de comparação, a mortalidade, por 100.000 habitantes, foi ajustada pelo método da padronização direta, tendo como referência a população mundial padrão do ano 2000.6 O modelo de regressão linear simples foi usado para análise e comparações das tendências de mortalidade. As variáveis dependentes foram DC, DIC e DCbV, e a variável independente foi o ano. O nível de significância adotado para os testes estatísticos foi de 5% (p < 0,05). O programa estatístico usado foi o SAS (SAS Institute Inc., 1989-1996, Cary, NC, EUA), versão 9.2.

Resultados

A mortalidade total em homens e em mulheres por DCV, DIC e DCbV, assim como, os resultados das análises de regressão linear simples, encontram-se, respectivamente, nas Tabelas 1, 2, 3 e 4.

Tabela 1 Risco de morte* por 100 mil habitantes por doenças cardiovasculares (DCV) e variação total no período de observação (1980-2012) na população total e em homens e mulheres nas 5 regiões do Brasil 

DCV população total DCV homens DCV em mulheres
Ano Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Norte Nordeste Sudeste Sul West-Central
1980 430 261 863 791 503 464 278 986 891 529 395 245 740 691 478
1981 365 268 832 748 583 386 288 951 847 643 344 248 713 649 523
1982 329 271 789 713 538 355 295 914 827 590 302 248 664 598 485
1983 331 263 792 740 568 355 285 919 854 631 307 240 665 626 504
1984 334 276 785 727 578 362 302 916 840 641 307 250 654 615 515
1985 339 273 779 694 580 368 302 909 796 641 310 244 649 591 520
1986 341 277 749 678 565 364 304 872 790 632 319 250 625 566 497
1987 317 257 727 677 526 337 284 846 778 580 297 230 609 575 472
1988 324 276 756 711 552 349 308 889 814 612 299 244 624 607 493
1989 319 270 721 653 516 346 299 849 752 581 291 240 593 555 451
1990 324 264 700 665 483 351 296 818 767 534 298 232 582 562 431
1991 309 261 646 620 494 340 293 758 716 550 278 228 535 524 438
1992 277 263 632 615 507 310 299 743 713 569 245 227 521 517 445
1993 323 287 678 681 553 355 323 795 785 621 290 251 561 577 485
1994 327 292 663 667 579 357 325 775 766 663 296 259 552 568 495
1995 340 298 644 665 553 371 327 743 756 605 308 269 546 573 500
1996 271 266 601 593 469 296 293 702 676 520 247 239 500 510 418
1997 284 276 584 580 497 310 306 681 663 546 257 246 487 496 447
1998 294 295 576 618 500 321 331 673 714 556 267 259 479 523 444
1999 303 294 574 599 520 338 326 669 688 588 268 261 480 511 452
2000 272 277 494 532 450 308 315 583 620 511 237 240 404 444 389
2001 288 295 487 509 457 323 337 578 592 523 252 254 397 427 391
2002 283 305 483 513 482 323 345 566 596 548 243 265 401 429 415
2003 302 313 491 511 499 339 353 582 599 576 264 272 399 423 423
2004 308 332 502 523 521 355 374 595 607 597 260 291 408 439 446
2005 312 352 474 493 493 354 396 560 573 565 269 309 387 413 420
2006 329 403 492 493 504 378 454 581 572 575 279 352 403 415 433
2007 301 381 398 408 400 344 435 473 473 467 258 327 322 343 333
2008 322 383 399 396 399 369 439 474 462 465 275 327 324 329 333
2009 318 375 386 389 381 366 430 460 455 443 270 320 313 323 319
2010 298 341 387 389 384 353 396 465 456 451 242 285 310 323 316
2011 316 358 387 398 382 367 417 463 468 447 264 298 312 328 318
2012 318 357 382 381 394 369 415 458 450 455 268 299 306 313 333
var (%) -35 27 -126 -108 -28 -26 33 -115 -98 -16 -47 18 -142 -121 -44

*ajustada pelo método direto para a população padronizada mundial de 2000; var (%): variação percentual (2012/1980).

Tabela 2 Risco de morte* por 100 mil habitantes por doenças cardiovasculares (DCV) e variação total no período de observação (1980-2012) na população total e em homens e mulheres nas 5 regiões do Brasil 

DIC população total DIC Homens DIC mulheres
Ano Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste
1980 91 49 267 225 106 110 60 327 278 122 72 38 207 172 90
1981 75 52 259 221 121 87 64 317 271 149 63 41 201 171 93
1982 75 54 244 205 115 94 66 303 261 141 56 43 185 150 90
1983 76 52 252 225 124 91 65 312 280 152 61 40 192 170 97
1984 71 56 247 226 121 88 70 310 285 148 55 41 185 168 95
1985 76 60 244 226 126 89 75 306 279 156 63 45 182 172 95
1986 77 61 234 212 128 90 76 291 266 158 64 45 176 159 99
1987 71 57 232 219 117 85 71 289 273 143 56 43 175 165 91
1988 73 61 239 228 123 88 76 301 282 151 58 46 177 174 94
1989 69 60 228 204 116 82 74 287 252 139 56 47 170 155 93
1990 77 60 218 206 106 95 74 273 257 132 60 45 162 155 80
1991 74 61 202 198 114 91 76 252 246 137 58 46 151 150 91
1992 64 61 191 194 118 80 75 241 242 147 48 47 141 146 89
1993 74 65 199 211 126 91 80 251 262 157 58 50 148 160 95
1994 73 66 197 209 127 91 81 247 259 158 56 51 148 160 95
1995 79 71 194 210 127 92 85 239 258 150 66 56 149 162 10
1996 66 66 186 194 118 79 79 234 239 142 52 52 138 148 93
1997 68 70 181 188 118 82 84 227 229 142 54 55 135 147 94
1998 68 73 179 202 122 81 89 225 248 150 55 57 133 156 95
1999 74 73 180 201 124 88 87 227 247 155 60 59 134 156 93
2000 65 71 157 180 115 80 87 200 224 143 50 55 113 136 87
2001 67 78 155 171 120 82 96 198 213 150 52 60 113 128 89
2002 66 82 156 173 129 84 100 198 216 159 48 64 114 129 99
2003 72 84 158 169 134 88 103 202 213 168 56 66 114 125 99
2004 78 90 161 173 143 99 109 206 216 179 56 71 116 131 10
2005 75 94 150 163 134 94 115 192 204 169 56 74 108 121 99
2006 81 109 156 162 139 104 133 200 205 172 59 86 111 120 10
2007 78 106 126 135 111 97 130 164 171 142 58 82 89 98 80
2008 82 109 127 129 113 104 134 165 164 145 61 85 89 93 81
2009 86 108 122 126 110 110 133 159 162 142 62 83 85 90 78
2010 81 103 124 125 112 105 128 161 159 147 57 77 86 92 77
2011 85 109 125 128 115 110 137 162 165 148 61 82 87 91 82
2012 84 111 125 121 121 118 137 163 158 157 50 85 86 85 86
var (%) -8 56 -114 -86 12 7 128 -101 -76 22 -44 55 -140 -102 -5

*ajustada pelo método direto para a população padronizada mundial de 2000; var (%): variação percentual (2012/1980).

Tabela 3 Risco de morte* por 100 mil habitantes por doenças cerebrovasculares (DCbV) e variação total no período de observação (1980-2012) na população total e em homens e mulheres nas 5 regiões do Brasil 

DCbV População Total DCbV homens DCbV mulheres
Ano Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste
1980 117 82 275 207 110 121 82 303 225 114 113 82 247 188 107
1981 96 88 282 213 146 97 89 312 234 157 95 88 252 193 134
1982 98 87 270 207 137 98 89 302 235 147 99 85 238 178 128
1983 98 83 266 212 148 97 84 300 239 163 99 83 232 185 133
1984 103 89 276 209 151 104 92 312 232 165 102 86 240 186 137
1985 103 86 271 201 148 105 89 309 226 159 101 83 233 176 137
1986 102 89 266 202 148 103 93 303 234 160 100 86 229 170 135
1987 105 86 254 201 138 107 90 289 227 148 103 82 220 174 128
1988 107 93 265 208 146 112 98 304 234 162 103 89 226 182 131
1989 102 91 251 199 144 107 97 289 226 155 97 86 212 172 134
1990 101 89 249 203 135 104 95 288 231 149 97 82 209 176 122
1991 99 87 229 192 132 105 93 266 220 147 92 81 192 164 118
1992 84 90 229 189 136 90 98 266 217 148 79 81 192 160 125
1993 104 97 246 204 158 108 105 286 231 175 101 88 206 176 141
1994 106 97 239 199 168 112 104 276 226 190 100 90 202 172 146
1995 111 97 233 198 148 119 104 268 224 163 103 90 198 173 133
1996 89 81 155 164 121 93 87 179 183 135 84 76 130 144 107
1997 92 85 152 165 131 94 91 177 190 146 89 79 128 140 116
1998 97 89 147 176 133 103 97 171 205 150 90 81 122 146 117
1999 93 88 141 167 141 102 94 165 192 158 85 81 118 142 125
2000 89 82 121 144 113 95 91 142 167 129 83 73 101 120 98
2001 93 91 119 141 114 101 101 142 162 129 84 81 97 119 99
2002 93 92 119 140 119 102 103 139 163 134 83 82 99 118 103
2003 98 94 118 139 121 105 104 140 162 138 92 84 96 116 105
2004 97 97 116 142 124 109 106 137 164 142 85 88 96 121 105
2005 101 103 109 134 114 111 113 127 153 124 90 93 91 114 104
2006 109 120 115 135 119 119 131 134 155 134 98 108 96 115 105
2007 96 109 91 111 89 105 122 107 127 102 87 95 75 95 77
2008 105 108 89 106 92 115 121 105 124 106 95 94 74 88 78
2009 100 103 87 105 85 110 115 103 121 96 91 91 72 90 74
2010 91 94 86 107 89 102 105 103 125 102 80 82 69 88 75
2011 95 97 84 106 84 107 112 100 123 97 82 82 68 88 71
2012 93 97 81 103 86 104 111 96 120 98 82 82 66 86 74
var (%) -26 15 -240 -101 -28 -16 26 -216 -88 -16 -38 0 -274 -119 -45

*ajustada pelo método direto para a população padronizada mundial de 2000; var (%): variação percentual (2012/1980).

Tabela 4 Modelo de regressão linear simples para mortalidade por doenças cardiovasculares (DCV), doenças isquêmicas do coração (DIC) e doenças cerebrovasculares (DCbV) no período de observação (1980-2012) em homens e mulheres nas 5 regiões do Brasil 

Total Homens Mulheres
Raj2 β IC95% P Raj2 β IC95% P Raj2 β IC95% P
DCV norte 0,23 -1,56 -2,53 – -0,59 0,003 0,02 -0,68 -1,78 – 0,42 0,220 0,51 -2,45 -3,30 – -1,60 < 0,0001
DCV nordeste 0,70 3,72 2,85 – 4,60 < 0,0001 0,76 4,75 3,89 – 5,82 < 0,0001 0,57 2,58 1,78 – 3,39 < 0,0001
DCV Sudeste 0,97 -15,30 -16,18 – -14,43 < 0,0001 0,97 -17,22 -18,23 – -16,20 < 0,0001 0,97 -13,38 -14,17 – -12,60 < 0,0001
DCV Sul 0,93 -12,12 -13,32 – -10,92 < 0,0001 0,93 -13,53 -14,84 – -12,21 < 0,0001 0,92 -10,70 -11,81 – -9,57 < 0,0001
DCV centro-oeste 0,63 -5,17 -6,59 – -3,76 < 0,0001 0,50 -4,70 -6,37 – -3,03 < 0,0001 0,74 -5,64 -6,86 – -4,44 < 0,0001
DIC norte 0,14 0,14 -0,10 – 0,38 0,238 0,16 0,45 0,11 – 0,80 0,012 0,07 -0,17 -0,35 – 0,02 0,072
DIC Nordeste 0,90 1,97 1,73 – 2,22 < 0,0001 0,88 2,41 2,10 – 2,73 < 0,0001 0,90 1,54 1,36 – 1,73 < 0,0001
DIC Sudeste 0,97 -4,64 -4,92 – -4,36 < 0,0001 0,97 -5,47 -5,83 – -5,12 < 0,0001 0,97 -3,81 -4,03 – -3,60 < 0,0001
DIC Sul 0,85 -3,27 -3,76 – -2,78 < 0,0001 0,87 -3,92 -4,47 – -3,37 < 0,0001 0,82 -2,62 -3,10 – -2,17 < 0,0001
DIC centro-oeste 0,48 0,11 -0,21 – 0,44 0,479 0,10 0,43 0,02 – 0,84 0,023 0,06 -0,76 -1,63 – 0,12 0,089
DCbV norte 0,08 -0,24 -0,49 – 0,01 0,056 0,01 0,11 -0,17 – -0,39 0,440 0,45 -0,60 -0,84 – -0,37 < 0,0001
DCbV nordeste 0,38 0,56 0,31 – 0,81 < 0,0001 0,62 0,95 0,68 – 1,22 < 0,0001 0,01 0,14 -0,10 – 0,38 0,234
DCbV sudeste 0,92 -7,51 -8,29 – -6,74 < 0,0001 0,91 -8,27 -9,20 – -7,34 < 0,0001 0,94 -6,74 -7,37 – -6,11 < 0,0001
DCbV sul 0,90 -3,84 -4,38 – -3,40 < 0,0001 0,88 -4,13 -4,68 – -3,59 < 0,0001 0,92 -3,56 -3,94 – -3,18 < 0,0001
DCbV centro-oeste 0,56 -1,81 -2,38 – -1,24 < 0,0001 0,45 -1,72 -2,39 – -1,05 < 0,0001 0,67 -1,91 -2,39 – -1,43 < 0,0001

IC 95%: intervalo de confiança 95%.

A mortalidade por DCV aumentou na região Nordeste no período de 1980 a 2012, como se segue: 27% na população total, 33% nos homens e 18% nas mulheres. Nas demais regiões, observou-se uma redução da mortalidade na população total, nos homens e nas mulheres. As reduções foram mais significativas nas regiões Sul e Sudeste com reduções acima de 95% na mortalidade para o período de 1980 a 2012 (Tabela 1, Figura 1).

Figura 1 Análise de regressão linear simples da mortalidade por doenças cardiovasculares (DCV) em indivíduos com ≥ 30 anos nas cinco regiões do Brasil no período de 1980 a 2012. 

A análise de regressão linear simples mostrou: a mortalidade por DIC ficou inalterada nas regiões Norte (β = 0,02; Raj2 = 0,045; p = 0,237) e Centro-Oeste (β = 0,01; Raj2 = 0,016; p = 0,478); aumentou na região Nordeste (β = 1,98; Raj2 = 0,897; p < 0,0001); e diminuiu nas regiões Sudeste (β = -4,63; Raj2 = 0,973; p < 0,0001) e Sul (β = -3,27; Raj2 = 0,851; p < 0,0001) no período de 1980 a 2012 (Tabelas 2 e 4; Figura 2). Nos homens, a mortalidade por DIC aumentou nas regiões Norte (β = 0,45; Raj2 = 0,160; p = 0,012), Nordeste [ β = 2,41 (IC95%: 2,10-2,75); Raj2 = 0,883; p < 0,0001] e Centro-Oeste (β = 0,43; Raj2 = 0,131; p = 0,039). O aumento mais importante foi na região Nordeste (128%), seguido das regiões Centro-Oeste (22%) e Norte (7%) (Tabelas 2e 4, Figura 3). Nas mulheres, a mortalidade por DIC aumentou na região Nordeste (β = 1,54; Raj2 = 0,900; p < 0,0001), tendo permanecido inalterada, mas com tendência de queda, nas regiões Norte (β = -0,17; Raj2 = 0,071; p = 0,071) e Centro-Oeste (β = -0,76; Raj2 = 0,061; p = 0,089). A região Nordeste teve o maior aumento na mortalidade por DIC (55%) (Tabelas 2 e 4, Figura 3).

Figura 2 Análise de regressão linear simples da mortalidade por doenças isquêmicas do coração (DIC) e doenças cerebrovasculares (DCbV) em indivíduos com ≥ 30 anos nas cinco regiões do Brasil no período de 1980 a 2012. 

Figura 3 Análise de regressão linear simples da mortalidade por doenças isquêmicas do coração (DIC) em homens (H) e mulheres (M) com ≥ 30 anos nas cinco regiões do Brasil no período de 1980 a 2012. 

A análise de regressão linear simples mostrou que a mortalidade por DCbV ficou inalterada, mas com tendência de queda, na região Norte (β = -0,24; Raj2 = 0,840; p = 0,056), aumentou na região Nordeste (β = 0,56; Raj2 = 0,381; p < 0,0001), e teve redução importante nas regiões Sudeste (β = -7,5; Raj2 = 0,924; p < 0,0001), Sul (β = -3,85; Raj2 = 0,905; p < 0,0001) e Centro-Oeste (β = -1,81; Raj2 = 0,562; p < 0,00) no período de 1980 a 2012. O aumento da mortalidade na região Nordeste foi de 15% e a redução foi mais importante nas regiões Sudeste e Sul, respectivamente, de 240% e 101% (Tabelas 3 e 4, Figura 2). Nos homens, a mortalidade por DCbV aumentou na região Nordeste (β = 0,95; Raj2 = 0,616; p < 0,0001), permaneceu inalterada na região Norte (β = 0; Raj2 = 0,020; p = 0,438), e diminuiu nas regiões Sudeste (β = -8,27; Raj2 = 0,911; p < 0,0001), Sul (β = -4,13; Raj2 = 0,881; p < 0,0001) e Centro-Oeste (β = -1,72; Raj2 = 0,455; p < 0,0001). O aumento da mortalidade por DCbV na região Nordeste foi de 26%, tendo as reduções mais significativas ocorrido nas regiões Sudeste e Sul, respectivamente, de 216% e 88% (Tabelas 3 e 4, Figura 4). Nas mulheres, a mortalidade por DCbV permaneceu inalterada na região Nordeste (β = 0; Raj2 = 0,044; p = 0,241) e diminuiu nas regiões Norte (β = -0,60; Raj2 = 0,470; p < 0,001), Sudeste (β = -6,74; Raj2 = 0,937; p < 0,0001), Sul (β = -3,56; Raj2 = 0,921; p < 0,0001) e Centro-Oeste (β = -1,91; Raj2 = 0,061; p < 0,0001). A redução da mortalidade por DCbV nas mulheres foi mais importante nas regiões Sudeste (274%) e Sul (119%) (Tabelas 3e 4, Figura 4). A convergência das tendências de mortalidade por DIC e DCbV observada para as cinco regiões do Brasil ocorreu principalmente devido à redução da mortalidade dessas doenças nas regiões Sudeste e Sul. A convergência da mortalidade por DCbV foi significativa a partir de 1997, enquanto que, para DIC, ocorreu somente a partir do ano de 2007 (Figura 5).

Figura 4 Análise de regressão linear simples da mortalidade por doenças cerebrovasculares (DCbV) em homens (H) e mulheres (M) com ≥ 30 anos nas cinco regiões do Brasil no período de 1980 a 2012. 

Figura 5 Convergência das tendências de mortalidade por doenças isquêmicas do coração (DIC) e doenças cerebrovasculares (DCbV) nas cinco regiões do Brasil de 1980 a 2012. 

Discussão

Este estudo mostrou que as regiões Sudeste e Sul tiveram as maiores reduções na mortalidade por DCV, DIC e DCbV, tendo a região Nordeste apresentado um aumento da mortalidade por essas doenças. Os resultados foram variáveis para as regiões Norte e Centro-Oeste. Esses achados mostram que as regiões Sudeste e Sul tiveram um comportamento semelhante ao dos países mais desenvolvidos, isto é, a persistente tendência de redução da mortalidade por DCV.7,8

Por outro lado, o comportamento das tendências de mortalidade das demais regiões foi semelhante ao de países em desenvolvimento. O menor acesso da população a um sistema de saúde mais adequado e aspectos socioeconômicos e culturais podem justificar essas tendências. Por exemplo, o controle dos fatores de risco foi responsável por pelo menos 50% da redução da mortalidade por DCV nos países mais desenvolvidos.9

Relatório recente da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2013 mostrou melhor desempenho das regiões Sudeste e Sul no diagnóstico e tratamento dos principais fatores de risco para as DCV.10 Os dados da PNS mostraram maior consumo de frutas, verduras e atividade física nas regiões Sudeste e Sul. Em relação aos fatores de risco [hipertensão arterial sistêmica (HAS), dislipidemia e diabetes], as regiões Sudeste e Sul tiveram: maior proporção de indivíduos com ≥ 18 anos de idade com medida da pressão arterial, maior uso de medicação anti-hipertensiva, maior acesso a pelo menos uma medicação obtida do Programa de Farmácia Popular, e mais análise sérica da glicose, do colesterol total e dos triglicérides.10 Em resumo, o acesso ao sistema de saúde pela população foi melhor nas regiões Sudeste e Sul.

Da mesma forma, o relatório da PNS mostrou melhor desempenho das mulheres nas avaliações dos fatores de risco do que dos homens, fato esse que pode inclusive intensificar a já existente proteção natural das mulheres para o processo da aterosclerose e, consequentemente, para os eventos cardiovasculares.

O melhor acesso ao sistema de saúde nas regiões Sudeste e Sul pode também justificar a maior redução da mortalidade por DCbV comparada às DIC. Isso porque a logística envolvida no diagnóstico e tratamento da HAS, principal fator de risco para as DCbV, é significantemente menos complexa do que a necessária para as DIC. Essas últimas têm mais fatores de risco, como dislipidemia, tabagismo, diabetes e HAS, envolvidos e muitas vezes o diagnóstico depende de exames complementares mais complexos.

Além da complexidade do tratamento medicamentoso, observa-se também limitada disponibilidade do tratamento intervencionista restrito aos grandes centros urbanos. Essas limitações diagnósticas e terapêuticas podem justificar a heterogeneidade do risco de morte por infarto agudo do miocárdio nas diferentes regiões do Brasil.11

Da mesma forma, as desigualdades sociais e a baixa escolaridade são condições adicionais associadas com maior mortalidade por DCV.12-14 As regiões Sul e Sudeste têm os maiores índices de desenvolvimento urbano, que é avaliado pelo progresso das regiões em três dimensões básicas: renda, educação e saúde.15,16 Metade da mortalidade por DCV antes do 65 anos pode ser atribuída à pobreza.13 Da mesma forma, a escolaridade tem uma relação inversa com a mortalidade por DCV. Alimentação inadequada, baixa atividade física, consumo de álcool e tabagismo são outros importantes fatores de risco para as DVC e mais prevalentes nas classes sociais menos favorecidas da população.17 Portanto, programas de prevenção primária e secundária nessa camada da população podem ter impacto significativo na morbimortalidade por DCV. Por exemplo, o programa "Estratégia Saúde da Família" facilitou ações de promoção da saúde e aperfeiçoou o processo de prevenção e diagnóstico precoce dos principais fatores de risco para DCV.18

Outro ponto importante observado em nosso estudo foi a convergência das tendências de mortalidade pelas DIC e DCbV das regiões brasileiras. A convergência das tendências de mortalidade por DIC ocorreu a partir de 2007, enquanto que, para as DCbV, foi 10 anos mais precoce. Esse comportamento refletiu na queda mais precoce e acentuada da mortalidade por DCbV, resultando no fenômeno da transição epidemiológica, que é o predomínio da mortalidade por DIC sobre as DCbV.19

As principais limitações deste estudo estão relacionadas à qualidade dos dados brasileiros de mortalidade, tais como erros relacionados com o diagnóstico e precisão dos atestados de óbito, mortes associadas com causas desconhecidas e erros de entrada de dados. O número de certidões de óbito com sintomas, sinais e condições de saúde mal definidas como diagnóstico para a causa da morte é indicador indireto da qualidade-padrão dos dados. Tal número de certificados, apesar da melhora progressiva, ainda é significativo nas regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste.20,21

Estudos de validação para os dados de taxa de mortalidade não estão também disponíveis na maioria dos estados ou cidades no Brasil. Da mesma forma, a redução no número de certidões de óbito com sintomas, sinais e condições de saúde mal definidas como diagnóstico para a causa da morte pode redirecionar para o aumento do número de certidões de óbito por DCV e, consequentemente, refletir artificialmente como aumento da mortalidade por DCV das regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste.

Conclusão

A manutenção dessas tendências de mortalidade nas cinco regiões do Brasil levará em poucos anos a inversão do risco de morte entre as regiões, tornando a região Nordeste e, em menor grau, as regiões Norte e Centro-Oeste, as regiões do Brasil com maiores coeficientes de mortalidade por DCV. Portanto, intensificação de políticas de saúde pública de prevenção das DCV e melhorias das condições socioeconômicas, em especial da região Nordeste, poderão resultar em semelhantes coeficientes de mortalidade para as cinco regiões do Brasil.

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