Mortalidade por suicídio no Estado do Paraná segundo meios utilizados: uma análise epidemiológica

Mortalidade por suicídio no Estado do Paraná segundo meios utilizados: uma análise epidemiológica

Autores:

Natalina Maria da Rosa,
Rosana Rosseto de Oliveira,
Guilherme Oliveira de Arruda,
Thais Aidar de Freitas Mathias

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Brasileiro de Psiquiatria

versão impressa ISSN 0047-2085versão On-line ISSN 1982-0208

J. bras. psiquiatr. vol.66 no.2 Rio de Janeiro abr./jun. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/0047-2085000000153

ABSTRACT

Objective

To analyze the epidemiological distribution of suicide mortality, according to the methods used in the state of Paraná.

Methods

This is a descriptive study of suicide mortality and methods used in Health Macro-regional of residence listed in the Mortality Information System, 1996-2000 and 2009-2012, and analyzed by descriptive and inferential statistics, chi-square test/c2 and association measurement/Odds Ratio.

Results

There was an increase in the percentage variation of the suicide mortality rate by hanging in the most of the State Health Macro-regionals, for both sexes. However, suicide by firearm, autointoxication by pesticides and other methods showed decline from the period 1996-2000 to 2009-2012. The hanging was associated with male gender and age over 45 years, from 1996 to 2000, and to education over 12 years, not having a partner and death at home, for the period 2009 to 2012. It was observed greater percentage variation in suicide mortality rate in the West Macro-Region.

Conclusion

The survey of the specific characteristics of suicide mortality methods in the state is a necessary component for the implementation of preventive interventions to reduce suicide.

Key words: Suicide; epidemiology; primary health care; mental health.

INTRODUÇÃO

O suicídio é um grave problema de saúde pública mundial, com a ocorrência de aproximadamente 900 mil óbitos por ano1. Está diretamente associado à utilização de meios de maior grau de letalidade como enforcamento, arma de fogo, precipitação de lugares elevados2, além do persuasivo efeito Werther (óbitos por influência de divulgação na mídia)3,4.

A tendência da ocorrência de óbitos por suicídio varia de acordo com o local em análise. Estudo desenvolvido na Alemanha pelo Federal Statistical Office of Germany constatou tendência decrescente nas taxas de mortalidade por suicídio entre os anos de 1998 e 2010, em virtude do grau de letalidade do meio escolhido. Meios menos letais como autointoxicação (por exemplo, pesticidas) e afogamento foram os mais utilizados3.

Estudo comparativo revela que na China a autointoxicação por pesticida representou 73,5% de todos os meios para o suicídio, comumente mais utilizados por adultos jovens de 15 a 34 anos de idade, residentes em zonas rurais5. Em contrapartida, nos Estados Unidos da América (EUA), o Web-Based Injury Statistics Query and Reporting System (WISQARS™) verificou crescimento da taxa de mortalidade por suicídio entre 2000 e 2010 (10,4-12,1 por 100.000 habitantes, respectivamente) decorrente do aumento de enforcamentos em 52%6. Assim como nos EUA, o Brasil também apresentou crescimento significativo de 62,5% na taxa de mortalidade por suicídio entre 1980 e 2012 (3,3-5,3 por 100.000 habitantes)7 e, em grande parte desse período (1980 a 2006), o enforcamento foi o principal meio utilizado pelos suicidas2.

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a maioria dos suicídios pode ser prevenível. O Suicide Prevention Program (SUPRE) foi uma iniciativa da OMS para reduzir o número de vidas perdidas por esse agravo. Globalmente, a partir desse manual foram elaboradas estratégias de prevenção e controle do suicídio. No Brasil, as Diretrizes Nacionais para a Prevenção do Suicídio foram implementadas segundo as particularidades governamentais e populacionais de cada Unidade Federada (UF)8.

Ressalta-se, contudo, que o planejamento estratégico de prevenção e controle do suicídio não é uma realidade para a maioria das UF, inclusive para o Paraná. Desse modo, o reconhecimento das mudanças emergentes nos meios utilizados pelos suicidas e os possíveis efeitos destes sobre as taxas de suicídio são de particular importância, na medida em que servem como base para a formulação de estratégias para sua prevenção. Apesar disso, poucos estudos com esse objetivo foram realizados no Brasil. Nesse sentido, este estudo teve por objetivo analisar a distribuição epidemiológica da mortalidade por suicídio, segundo os meios utilizados no Estado do Paraná, de 1996 a 2012.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo epidemiológico, descritivo, no qual foram analisados os registros relacionados ao meio utilizado para o suicídio no Estado do Paraná, referentes ao período de 1996 a 2012, constantes no banco de dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e dados das estimativas populacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ambos disponíveis no sítio eletrônico do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus).

O Paraná, localizado na região sul do Brasil, é constituído por 399 municípios, que estão agrupados em quatro Macrorregionais de Saúde (Leste, Norte, Noroeste e Oeste). Nesse cenário, a população deste estudo constituiu-se dos suicídios de residentes nas quatro Macrorregionais de Saúde durante os 17 anos pesquisados. Foram analisados os óbitos por suicídios (ou lesões autoprovocadas) de indivíduos com idade igual ou superior a 15 anos. Para verificar a variação percentual e a distribuição da mortalidade por suicídio, de acordo com os meios utilizados, optou-se por se considerar apenas os extremos do período estudado: primeiro quinquênio de 1996 a 2000 e último quadriênio, entre 2009 e 2012.

Os dados sobre suicídio foram codificados de acordo com as categorias diagnósticas da 10ª revisão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-10, constantes no capítulo XX, referente às causas externas de morbidade e de mortalidade (códigos X60-X84), todas sob o título “lesões autoprovocadas intencionalmente”9. Os meios utilizados para o suicídio foram agrupados em quatro categorias: autointoxicação por pesticida (X68); enforcamento (X70); arma de fogo (X72-X75) e outros meios (medicamentos e substâncias farmacológicas: X60-X64 e X66 e X67; gases e produto químico: X65 e X69; afogamento: X71; fogo e objetos quentes: X76 e X77; objeto cortante e contundente: X78 e X79; precipitação de lugar elevado: X80; objeto em movimento e impacto de veículo a motor: X81 e X82; meios especificados ou não: X83 e X84.

Foram analisadas variáveis sociodemográficas: sexo (masculino e feminino), idade (15 a 44, 45 a 64, e 65 anos e mais), escolaridade (nenhuma, 1 a 7, 8 a 11, e 12 anos e mais), situação conjugal (com companheiro, sem companheiro); e local de ocorrência dos óbitos por suicídio (ruas e áreas públicas, domicílio, e hospital). Os dados foram compilados no software Microsoft Office Excel 2013 e organizados em tabelas com frequências absolutas e relativas. Utilizou-se o teste de qui-quadrado/c2, realizado em análise bivariada no software Epi Info 7. Adotou-se como medida de associação o odds ratio (OR), com respectivo intervalo de confiança de 95%, considerando-se o nível de significância de 5%.

Calcularam-se as taxas de mortalidade por suicídio conforme meio utilizado, pela razão entre o número de óbitos por suicídio em maiores de 15 anos, e a população com idade superior a 15 anos, na mesma região e período, multiplicado por 100.000.

Para quantificar a variação percentual dos meios utilizados para o suicídio, realizou-se a razão da subtração entre as taxas de 1996 a 2000 e 2009 a 2012, pela taxa de 1996 a 2000, multiplicado por 100. Com o número de óbitos e a população para cada período (1996 a 2000 e 2009 a 2012), geraram-se tabelas de contingência 2x2, em que o óbito para cada meio utilizado para o suicídio foi considerado a exposição, e a população que não foi a óbito (população total menos o número de óbitos por cada meio utilizado para o suicídio), a não exposição. O teste qui-quadrado/c2 foi utilizado, então, para analisar a associação entre as variáveis independentes e os óbitos por suicídio, determinando-se as diferenças entre as taxas como significantes quando p < 0,05.

Por se tratar de uma pesquisa com dados secundários, foi solicitada a dispensa do termo de consentimento livre e esclarecido ao Comitê Permanente de Ética em Pesquisa Envolvendo Seres Humanos da Universidade Estadual de Maringá (COPEP/UEM), com aprovação sob o parecer 781.253/2014.

RESULTADOS

No Estado do Paraná, durante o período estudado, 10.344 pessoas tiveram o suicídio como registro de causa básica de óbito. Em dados não documentados em tabelas, verificou-se que alguns campos do banco de dados do SIM apresentaram incompletude em suas informações. Dentre esses campos, destaca-se a ausência de 3.419 (33,1%) dados referentes a escolaridade, 457 (4,4%) do local de ocorrência e 320 (3,1%) dados de situação conjugal. Ao considerar a totalidade de registros, constatou-se que a taxa média de mortalidade por suicídio no Estado do Paraná entre 1996 e 2012 foi de 8,4 óbitos por 100.000 habitantes, com redução de 19,4%, ou seja, de 9,3 passou para 7,5 óbitos por 100.000 habitantes.

Na análise da variação percentual da taxa de mortalidade pelos meios utilizados para o suicídio, de 1996/2000 para 2009/2012, observou-se aumento da taxa de mortalidade por suicídio pelo enforcamento na maioria das Macrorregionais de Saúde do Estado, para ambos os sexos. Por sua vez, a variação percentual da taxa de mortalidade por suicídio pelo disparo de arma de fogo indicou redução significativa em todas as Macrorregionais, com destaque para Macrorregional Leste. Quanto à variação percentual da taxa de mortalidade por suicídio pela autointoxicação voluntária por pesticida, com exceção da Macrorregional Leste, as demais conferiram decréscimo significativo. Ao comparar as quatro Macrorregionais, a Macrorregional Oeste exibiu taxas e percentuais mais elevados para o sexo masculino e feminino, porém foi a macrorregional que obteve menor queda estatisticamente significativa na variação percentual da taxa de mortalidade por suicídio no sexo masculino (Tabela 1).

Tabela 1 Taxas de mortalidade por suicídio, segundo sexo e meio, no Paraná e macrorregionais de saúde. Paraná, Brasil, 1996 a 2012 

Macrorregional Masculino Feminino

1996/2000 2009/2012 1996/2000 2009/2012

n % Tx n % Tx Var% n % Tx N % Tx Var%
Leste 1073 100 6,9 852 100 5,3 -23,2* 258 100 1,7 226 100 1,4 -15,2
Enforcamento 600 55,9 7,8 599 70,3 7,6 -2,8 102 39,5 1,3 98 43,4 1,2 -7,6
Arma de fogo 289 26,9 3,8 98 11,5 1,2 -67,0* 69 26,7 0,9 27 11,9 0,3 -62,4*
Autointoxicação 64 6 0,7 66 7,7 0,8 +0,4 32 12,4 0,4 23 10,2 0,3 -30,9
por pesticida
Outros meios 120 11,2 1,6 89 10,4 1,1 -27,8* 55 21,3 0,7 78 34,5 0,9 +36,4*
Norte 471 100 7,8 364 100 6,2 -19,8 124 100 2 94 100 1,6 -21,4*
Enforcamento 203 43,1 6,8 228 62,6 8 +17,7 39 31,5 1,2 39 41,5 1,3 +2,7
Arma de fogo 102 21,7 3,4 51 14 1,8 -47,6* 17 13,7 0,6 3,0 3,2 0,1 -81,9*#
Autointoxicação 102 21,7 3,4 42 11,5 1,5 -56,8* 27 21,8 0,9 14 14,9 0,5 -46,8*
por pesticida
Outros meios 64 13,6 2,1 43 11,8 1,5 -29,6 41 33,1 1,3 38 40,4 1,2 -4,9
Noroeste 405 100 7,3 307 100 5,6 -22,8* 89 100 1,6 78 100 1,4 -10,7
Enforcamento 187 46,2 6,8 204 66,4 7,7 +12,3 27 30,3 1,0 46 59 1,6 +71,7
Arma de fogo 83 20,5 3,0 39 12,7 1,5 -51,6* 6 6,7 0,2 2 2,6 0,1 -66,4
Autointoxicação 92 22,7 3,4 27 8,8 1,0 -69,8 30 33,7 1,1 9 11,5 0,3 -69,8*
por pesticida
Outros meios 43 10,6 1,6 37 12,1 1,4 -11,4 26 29,2 0,9 21 26,9 0,7 -18,6
Oeste 467 100 9,4 407 100 8,2 -12,4* 118 100 2,4 96 100 1,9 -18,2
Enforcamento 292 62,5 11,8 300 73,7 12,4 +4,5 66 55,9 2,6 70 72,9 2,8 +5,4
Arma de fogo 114 24,4 4,6 53 13 2,2 -52,7* 19 16,1 0,8 5 5,2 0,2 -73,9*
Autointoxicação 32 6,9 1,3 14 3,4 0,6 -55,5* 12 10,2 0,5 4 4,2 0,2 -66,9*#
por pesticida
Outros meios 29 6,2 1,2 40 9,8 1,7 +40,3* 21 17,8 0,8 17 17,7 0,7 -19,6*
Paraná 2352 100 14,9 1930 100 12,2 -17,7* 589 100 3,6 494 100 3,0 -17,3*
Enforcamento 1282 54,5 8,1 1331 69,0 8,4 +4,0 234 39,7 1,4 253 51,2 1,5 +6,6
Arma de fogo 588 25,0 3,7 241 12,5 1,5 -58,9* 111 18,8 0,7 37 7,5 0,2 -67,1*
Autointoxicação 226 9,6 1,4 149 7,7 0,9 -33,9* 101 17,1 0,6 50 10,1 0,3 -51,2*
por pesticida
Outros meios 256 10,9 1,6 209 10,8 1,3 -18,1* 143 24,3 0,8 154 31,2 0,9 +6,2

* Significância estatística (p < 0,05); # Teste Exato Fisher.

Tx: taxa; Var%: variação percentual das taxas de mortalidade por suicídio.

No período de 1996 a 2000, o sexo e a faixa etária apresentaram-se associados ao suicídio por enforcamento, de forma que ser do sexo masculino e ter idade superior a 45 anos apresentaram chances maiores do que o sexo feminino e a faixa etária de 15 a 44 anos. As ocorrências de suicídio que envolveram indivíduos com escolaridade igual ou superior a 12 anos de estudo, sem companheiro, o domicílio e o hospital como local de ocorrência apresentaram significativamente menores proporções e chances de enforcamento. No que se refere ao período de 2009 a 2012, constatou-se que ser do sexo masculino, não ter companheiro e o domicílio como local de ocorrência dos óbitos mostraram-se associados e com maiores chances, enquanto ter escolaridade igual a 12 anos e como local de ocorrência o hospital apresentaram chances menores para suicídio por enforcamento (Tabela 2).

Tabela 2 Mortalidade por suicídio decorrente de enforcamento, segundo características sociodemográficas e local de ocorrência do óbito. Paraná, Brasil, 1996 a 2012 

Características 1996/2000 2009/2012

n % p OR (IC95%) n % p OR (IC95%)
Sexo 1516 1584
Feminino 234 39,7 - 1 253 51,2 - 1
Masculino 1282 53,1 < 0,001 1,7 (1,4-2,0) 1331 69,0 < 0,001 2,1 (1,7-2,5)
Idade 1854 1584
15 a 44 anos 1149 52,5 - 1 983 66,3 - 1
45 a 64 anos 512 61,0 < 0,001 1,4 (1,2-1,6) 434 62,8 0,113 0,8 (0,7-1,0)
65 anos e mais 193 61,5 0,002 1,4 (1,1-1,8) 167 66,8 0,873 1,0 (0,7-1,3)
Escolaridade 471 1514
Nenhuma 143 50,9 - 1 78 66,7 - 1
1 a 7 anos 261 57,4 0,086 1,2 (0,9-1,7) 942 68,1 0,747 1,0 (0,7-1,5)
8 a 11 anos 31 45,6 0,432 0,8 (0,4-1,3) 362 67,3 0,897 1,0 (0,6-1,5)
12 anos e mais 36 35,3 0,006 0,5 (0,3-0,8) 132 50,4 0,003 0,5 (0,3-0,7)
Situação conjugal 1452 1565
Com companheiro 698 58,9 - 1 549 69,7 - 1
Sem companheiro 754 53,8 0,009 0,8 (0,6-0,9) 1016 75,8 0,002 1,3 (1,1-1,6)
Local de ocorrência 1298 1582
Ruas e áreas públicas 874 77,6 - 1 344 65,4 - 1
Domicílio 370 43,4 < 0,001 0,2 (0,1-0,2) 1175 78,5 < 0,001 1,9 (1,5-2,4)
Hospital 54 9,2 < 0,001 0,0 (0,0-0,0) 63 15,8 < 0,001 0,0 (0,0-0,1)

OR: odds ratio; IC95%: intervalo de 95% de confiança.

Quanto ao suicídio por disparo de arma de fogo, no período de 1996 a 2000, verificaram-se maiores chances para as ocorrências que envolviam o sexo masculino, algum nível de escolaridade, ausência de companheiro e o hospital ou o domicílio como local de ocorrência da morte. Tomando-se a categoria “nenhuma escolaridade” como referência, observou-se que as demais se mostraram associadas, com incremento na razão de chance conforme aumento da escolaridade. Verificou-se semelhança no período de 2009 a 2012 em relação ao sexo e à escolaridade, porém não ocorreu o mesmo para a situação conjugal, em que não ter companheiro apresentou significativamente menor proporção e chance. O local de ocorrência, por sua vez, não se mostrou associado (Tabela 3).

Tabela 3 Mortalidade por suicídio decorrente de arma de fogo, segundo características sociodemográficas e local de ocorrência do óbito. Paraná, Brasil, 1996 a 2012 

Características 1996/2000 2009/2012

n % p OR (IC95%) n % p OR (IC95%)
Sexo 699 278
Feminino 111 18,9 - 1 37 7,5 - 1
Masculino 588 24,3 0,004 1,3 (1,1-1,7) 241 12,5 0,001 1,7 (1,2-2,5)
Idade 699 278
15 a 44 anos 518 23,7 - 1 169 11,4 - 1
45 a 64 anos 128 15,2 < 0,001 0,5 (0,4-0,7) 79 11,4 0,979 0,9 (0,7-1,3)
65 anos e mais 53 16,9 0,007 0,6 (0,4-0,8) 30 12,0 0,781 1,0 (0,7-1,6)
Escolaridade 173 260
Nenhuma 27 9,6 - 1 4 3,4 - 1
1 a 7 anos 85 18,7 < 0,001 2,1 (1,3-3,4) 129 9,3 0,011 3,4 (1,2-9,4)
8 a 11 anos 19 27,94 < 0,001 3,6 (1,8-7,0) 79 14,7 < 0,001 4,8 (1,7-13,5)
12 anos e mais 42 41,2 < 0,001 6,5 (3,7-11,5) 48 18,3 < 0,001 6,3 (2,2-18,0)
Situação conjugal 676 273
Com companheiro 278 23,4 - 1 127 16,1 - 1
Sem companheiro 398 28,4 0,004 1,2 (1,0-1,5) 146 10,9 < 0,001 0,6 (0,4-0,8)
Local de ocorrência 595 278
Ruas e áreas públicas 120 10,6 - 1 59 11,2 - 1
Domicílio 336 39,4 < 0,001 5,4 (4,3-6,8) 160 10,7 0,737 0,9 (0,6-1,3)
Hospital 139 23,7 < 0,001 2,6 (1,9-3,4) 59 14,8 0,103 1,3 (0,9-2,0)

OR: odds ratio; IC95%: intervalo de 95% de confiança.

Em relação ao suicídio pelo meio autointoxicação por pesticida no período de 1996 a 2000, verificou-se associação com o sexo, a faixa etária, a escolaridade e o local de ocorrência, de modo que as chances para ocorrência do suicídio foram significativamente menores para o sexo masculino, a idade igual ou superior a 65 anos e maior escolaridade, e maiores para o hospital e o domicílio como locais de ocorrência. No período de 2009 a 2012, observou-se que escolaridade entre oito e 11 anos, não ter companheiro e o domicílio como local de ocorrência do óbito representaram menores chances para o suicídio. Já o local de ocorrência permaneceu associado ao óbito por autointoxicação por pesticida, com maiores chances relacionadas ao hospital (Tabela 4).

Tabela 4 Mortalidade por suicídio decorrente de autointoxicação por pesticida, segundo características sociodemográficas e local de ocorrência do óbito. Paraná, Brasil, 1996 a 2012 

Características 1996/2000 1909/2012

N % p OR (IC95%) n % p OR (IC95%)
Sexo 391 199
Feminino 101 17,5 - 1 50 10,1 - 1
Masculino 290 12 < 0,001 0,6 (0,5-0,8) 149 7,7 0,082 0,7 (0,5-1,0)
Idade 391 199
15 a 44 anos 266 12,1 - 1 110 7,4 - 1
45 a 64 anos 100 11,9 0,851 0,9 (0,7-1,2) 68 9,8 0,054 1,3 (0,9-1,8)
65 anos e mais 25 7,7 0,030 0,6 (0,4-0,9) 21 8,4 0,586 1,1 (0,7-1,8)
Escolaridade 136 188
Nenhuma 75 26,7 - 1 14 12 - 1
1 a 7 anos 51 11,2 < 0,001 0,3 (0,2-0,5) 128 9,3 0,336 0,7 (0,4-1,3)
8 a 11 anos 4 5,9 < 0,001# 0,1 (0,0-0,4) 28 5,2 0,006 0,4 (0,2-0,7)
12 anos e mais 6 5,9 < 0,001 0,1 (0,0-0,4) 18 6,9 0,099 0,5 (0,2-1,1)
Situação conjugal 380 194
Com companheiro 181 15,3 - 1 88 11,2 - 1
Sem companheiro 199 14,2 0,444 0,9 (0,7-1,1) 106 7,9 0,011 0,6 (0,5-0,9)
Local de ocorrência 336 199
Ruas e áreas públicas 44 3,9 - 1 38 7,2 - 1
Domicílio 66 7,7 < 0,001 2,0 (1,3-3,0) 45 3,0 < 0,001 0,3 (0,2-0,6)
Hospital 226 38,6 < 0,001 15,4 (10,9-21,7) 116 29,1 < 0,001 5,2 (3,5-7,8)

OR: odds ratio; IC95%: intervalo de 95% de confiança; # Teste Exato Fisher.

Sobre os outros meios de suicídio, nos dois períodos estudados, as chances de ocorrência foram menores para o sexo masculino, com proporção de óbitos significativamente menor do que o sexo feminino. Também em ambos os períodos, o local de ocorrência mostrou-se associado, maior chance de ocorrência do óbito para o hospital. No período final, não ter companheiro apresentou, significativamente, maior proporção e chance de óbitos por outros meios, ao passo que o domicílio apresentou, de forma significativa, menor proporção desses óbitos, indicando assim menor chance de ocorrência (Tabela 5).

Tabela 5 Mortalidade por suicídio decorrente de outros meios, segundo características sociodemográficas e local de ocorrência do óbito. Paraná, Brasil, 1996 a 2012 

Características 1996/2000 2009/2012

n % p OR (IC95%) n % p OR (IC95%)
Sexo 399 363
Feminino 143 24,2 - 1 154 31,1 - 1
Masculino 256 10,6 < 0,001 0,3 (0,2-0,4) 209 10,8 < 0,001 0,2 (0,2-0,3)
Idade 399 363
15 a 44 anos 256 11,7 - 1 221 14,9 - 1
45 a 64 anos 100 11,9 0,872 1,0 (0,7-1,3) 110 15,9 0,538 1,0 (0,8-1,3)
65 anos e mais 43 13,7 0,306 1,1 (0,8-1,6) 32 12,8 0,383 0,8 (0,5-1,2)
Escolaridade 126 338
Nenhuma 36 12,8 - 1 21 17,9 - 1
1 a 7 anos 58 12,6 0,979 0,9 (0,6-1,5) 184 13,3 0,160 0,7 (0,4-1,1)
8 a 11 anos 14 20,6 0,100 1,7 (0,8-3,4) 69 12,8 0,144 0,6 (0,3-1,1)
12 anos e mais 18 17,7 0,229 1,4 (0,7-2,7) 64 24,4 0,162 1,4 (0,8-2,5)
Situação conjugal 80 97
Com companheiro 29 2,5 - 1 24 3,0 - 1
Sem companheiro 51 3,6 0,080 1,5 (0,9-2,3) 73 5,4 0,010 1,8 (1,1-2,9)
Local de ocorrência 336 362
Ruas e áreas públicas 88 7,8 - 1 85 16,2 - 1
Domicílio 81 9,5 0,185 1,2 (0,9-1,6) 117 7,8 < 0,001 0,4 (0,3-0,5)
Hospital 167 28,5 < 0,001 4,7 (3,5,6,2) 160 40,2 < 0,001 3,4 (2,5-4,7)

OR: odds ratio; IC95%: intervalo de 95% de confiança.

DISCUSSÃO

O resultado da análise epidemiológica da mortalidade por suicídio entre os residentes do Estado do Paraná mostrou variações no meio utilizado para o suicídio entre os períodos de 1996 a 2000 e 2009 a 2012. O conhecimento dessas variações pode servir de subsídio aos gestores de políticas públicas do Estado, na implementação de estratégias mais eficazes para dificultar o acesso dos residentes aos meios mais utilizados para o suicídio. Estudo sobre óbitos por causas externas no Paraná reforça que a análise da distribuição da mortalidade deve nortear as ações preventivas nos diversos setores e níveis governamentais10.

O Estado do Paraná apresentou taxa de mortalidade por suicídio (8,4 óbitos por 100.000 habitantes) superior à taxa nacional (5,7 óbitos por 100.000 habitantes)11 e também dos Estados da Bahia (3,9 óbitos por 100.000 habitantes)12 e São Paulo (4,6 óbitos por 100.000 habitantes)13. Embora a taxa de mortalidade por suicídio no Estado do Paraná tenha sofrido queda, ainda se mantém alta, sinalizando a necessidade de ações preventivas e assistência oportuna aos casos de risco.

Constatou-se, também, aumento das taxas de mortalidade por suicídio pelo enforcamento entre o quinquênio de 1996 a 2000 e o quadriênio de 2009 a 2012. Por outro lado, o suicídio por arma de fogo, autointoxicação por pesticidas e outros meios apresentou declínio nos períodos estudados. Ressalta-se que o acesso do indivíduo ao meio para a morte torna-se um fator contributivo para elevar a mortalidade por suicídio. Além disso, o meio utilizado para o suicídio varia de acordo com a cultura e região de cada país6.

No Paraná, o enforcamento, o disparo de arma de fogo e a autointoxicação por pesticida representaram 85,8% dos meios utilizados para o suicídio. O perfil dos meios utilizados para o suicídio entre os americanos assemelha-se ao encontrado nesta análise, pois representa 93% do total de todos os meios6. A prevalência de suicídio por enforcamento neste estudo se justifica por ser um meio de fácil acesso e de alto grau de letalidade, achado que coaduna com a literatura4,13,14.

Uma iniciativa pertinente de atenuação da mortalidade por suicídio concentra-se na restrição do acesso aos meios, principalmente os resultantes de atitudes impulsivas15. Nesse contexto, os resultados da presente pesquisa sugerem que regulamentos mais rigorosos para armas de fogo, pesticidas e outros meios de suicídio possam ter contribuído para o aumento do suicídio pelo enforcamento, embora sem significância estatística. Dados semelhantes a esses foram encontrados em estudo na República da Coreia, EUA e Finlândia4.

Vale ressaltar que alguns países tiveram experiências positivas de diminuição da mortalidade por suicídio a partir de estratégias nacionais simples e de intervenções locais específicas16. A exemplo disso, dispositivos de armazenamento e restrição na importação de agrotóxicos foram iniciativas do Sri Lanka; legislação mais rigorosa para a posse de arma de fogo, na Austrália; restrição do sensacionalismo da mídia, em Hong Kong, e capacitação dos profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) na identificação de comportamentos suicidas foi o empreendimento do Reino Unido15.

O sexo e a faixa etária mostraram-se variáveis associadas ao suicídio no Estado do Paraná, devidamente ponderados o meio utilizado e o período analisado. A constatação de que no período de 1996 a 2000 os adultos e idosos mais velhos e os indivíduos do sexo masculino tiveram maiores chances de cometer suicídio por enforcamento, além de corroborar achados de estudo de mortalidade por suicídio em idosos brasileiros14 e estatísticas de mortalidade dos EUA6, sinaliza a importância de esforços na prevenção da atenção à saúde para esses indivíduos, principalmente ao considerar que esse grupo etário possui maior determinação para morrer15,17.

Dados da International Association for Suicide Prevention (IASP) revelaram que o risco de suicídio é elevado entre os homens de meia-idade, adultos mais velhos e ainda mais agravante entre aqueles com idade acima de 75 anos. Sendo assim, os idosos têm maior intenção suicida e tendem a usar meios mais letais do que as pessoas mais jovens. Ressalta-se, ainda, que a debilidade física decorrente da idade diminui as chances de sobrevivência após a tentativa de suicídio no fim da vida15.

Exaustivamente, a literatura aponta que os principais fatores de risco para o suicídio, em especial entre os adultos mais velhos, são decorrentes de doença física, enfermidades terminais, isolamento social, problemas familiares ou sociais (aposentadoria ou a inatividade compulsória), uso de drogas de abuso ou substâncias psicoativas. Entretanto, o histórico de tentativas de suicídio anteriores e transtornos mentais (essencialmente a depressão) denota maior vulnerabilidade para o suicídio nesse estrato etário14,17. Desse modo, a depressão é, sem dúvida, o transtorno mental mais impactante e, acima de tudo, o maior responsável pelo elevado número de mortes prematuras entre adultos e idosos17.

No período de 2009 a 2012, ser do sexo masculino, não ter companheiro e o domicílio como local de ocorrência dos óbitos mostraram-se associados aos óbitos por enforcamento. Esse achado é consistente com estudo epidemiológico em Jequié na Bahia12 e em análise do comportamento da mortalidade por suicídio no México18, o qual evidenciou que grande parte dos suicídios ocorre em indivíduos sem relações afetivas estáveis. No que concerne ao local de ocorrência da morte, os mexicanos optaram pelo próprio domicílio, possivelmente, por ser um local mais acessível para consumar o ato e por causar maior impacto emocional sobre os membros da família18.

No primeiro período, indivíduos do sexo masculino com nove a 12 anos de escolaridade foram os mais acometidos pelo suicídio por arma de fogo. Realidade também foi configurada em estudo realizado nos EUA entre os anos de 2003 a 200519. Em estudo de autópsia psicológica realizado em Antioquia20, assim como em estudo realizado no Brasil11, Minas Gerais21, Santa Catarina22 e no presente estudo, verificou-se forte associação do suicídio por arma de fogo com o sexo masculino.

Vale salientar que, diferentemente dos paranaenses, a maioria dos brasileiros que se valeram do uso de arma de fogo para cometer o suicídio tinha baixa escolaridade e a morte ocorreu nas ruas e áreas públicas11. Em uma análise epidemiológica do suicídio no Brasil verificou-se que, em virtude do seu alto grau de letalidade, a arma de fogo, também, foi o segundo meio de escolha para o suicídio22, sinalizando que a implementação de estratégias de restrição do acesso a meios fatais pode ser uma medida efetiva para prevenção do suicídio4,15,23.

Uma hipótese sustentável para o decréscimo da taxa de mortalidade por suicídio pelo disparo de arma de fogo no Paraná e Macrorregionais de Saúde refere-se ao rigor quanto ao registro, posse e comercialização desse artefato mediante a instauração do Estatuto do Desarmamento. Aliada a esse estatuto, a Campanha Nacional do Desarmamento, realizada desde 2004, soma esforços para conscientizar a população sobre o perigo e risco de manter uma arma em casa e, com a entrega voluntária, retirar de circulação o maior número de armas possível. Esse conjunto de medidas tenciona o declínio do índice de criminalidade e, indiretamente, contribui para a redução do suicídio24.

Suicídio por autointoxicação com pesticida esteve relacionado ao sexo masculino entre agricultores da 11ª Regional de Saúde do Paraná25, de três províncias na China5, na área rural da Coreia do Sul26 e do Sri Lanka23. Esse achado se contrapõe à realidade encontrada na presente análise, haja vista que o percentual de suicídios por autointoxicação com pesticida foi superior na população feminina e a ocorrência do óbito no hospital esteve fortemente associada a esse meio. Presume-se que os óbitos por meios de menor grau de letalidade ocorram nos hospitais, pois, ao atentarem contra a própria vida, os potenciais suicidas recebem atendimento pré-hospitalar e, posteriormente, são assistidos em uma instituição hospitalar, apresentam complicações do quadro e acabam por vir a óbito neste local27.

Uma das hipóteses que ainda justificaria a escolha da autointoxicação por pesticida como meio para o suicídio no Paraná pauta-se no fato de ser um Estado de economia predominantemente agrícola e um dos maiores consumidores de agrotóxicos com alto potencial de periculosidade. Cumpre ressaltar que, de todo agrotóxico de classes I e II utilizado no Brasil, cerca de 80% são consumidos na agricultura paranaense28. A autointoxicação por pesticida é um dos principais motivos para os elevados índices de suicídio em áreas rurais de muitos países em desenvolvimento29.

Quanto aos outros meios para o suicídio, a prevalência do sexo feminino encontrada neste estudo apresentou comportamento semelhante ao estudo realizado no Brasil2, na China30, em Taiwan31 e Zurique32. Nesses estudos basicamente foram considerados precipitação de lugares elevados, gases e vapores, afogamento e submersão, permanência diante de um objeto em movimento, fumaça, fogo, chamas e medicamentos.

Estudo no Sri Lanka apontou o grande número de medicamentos estocados no domicílio como uma possível causa da mortalidade por suicídio, tanto na população rural quanto urbana23. A facilidade para aquisição de fármacos contribui de forma substancial para os altos índices de intoxicação acidental e intencional. Com vistas à promoção da saúde, o governo federal, em âmbito nacional, recomenda a venda fracionada de medicamentos nas farmácias e drogarias33, particularmente de psicofármacos para transtornos mentais1.

Nesse enfoque, os resultados deste e de vários estudos1,4,11,15,32 apontam que, para melhor análise dos aspectos relacionados à mortalidade por suicídio, é necessário entender a relação entre suicídio e as atuais mudanças psicossociais, vividas pela população, principalmente em relação ao aumento de pessoas com transtornos mentais17. Configura-se um atributo valoroso quando se busca investigar os meios emergentes utilizados para o suicídio no mundo ou em uma localidade em específico.

Considerando-se a atual conjuntura, na qual o Estado do Paraná não contempla programas de prevenção do suicídio, promulga-se a urgente necessidade de capacitar a equipe de profissionais das Redes de Atenção à Saúde em prover a identificação precoce de indivíduos da comunidade na iminência do suicídio. Dentro dessa premissa, destaca-se que, no primeiro semestre de 2016, a Secretaria Municipal de Saúde de Maringá, pertencente a 15ª Regional de Saúde do Paraná – Macrorregional Noroeste, iniciou a capacitação de profissionais da área da saúde para a prevenção e posvenção do suicídio, além da instauração do primeiro comitê de prevenção do suicídio no Estado. Também, destaca-se a capacitação de voluntários para as atividades do Centro de Valorização da Vida – CVV, entidade amplamente envolvida com o apoio emocional e a prevenção do suicídio34.

Vale ressaltar também que os paranaenses portadores de sofrimento psíquico podem ser assistidos tanto pela APS quanto pelos Centros de Atenção Psicossocial – CAPS. O Estado possui cerca de 142 CAPS, oferecendo uma taxa de cobertura considerada muito boa (0,83 por 100.000 habitantes)35. Entretanto, a distribuição espacial do CAPS não é igualitária para todo o Estado. Os residentes da Macrorregional Oeste, por exemplo, possuem baixa cobertura assistencial do CAPS, denotando ser um preditor causal do elevado percentual e taxas dos meios utilizados para o suicídio.

Diante dessa premissa, almejam-se maior envolvimento dos profissionais da APS quanto à assistência às pessoas com transtorno mental leve ou moderado e organização dos serviços em rede de atenção à saúde regionalizada, com estabelecimento de ações intersetoriais para garantir a integralidade do cuidado35.

Segundo a OMS, não existe uma maneira de impedir todos os suicídios, mas a maioria pode ser evitada. A baixa adesão de muitos países a estratégias de prevenção da mortalidade por suicídio decorre do estigma social enfrentado pelas pessoas com transtornos mentais e suicidas, em especial pela falta de consciência do suicídio como um problema de saúde pública e do tabu existente em muitas sociedades para discuti-lo abertamente. A sensibilização de todos e a quebra dos tabus acerca do suicídio são importantes passos para os países avançarem na prevenção da mortalidade por suicídio36.

CONCLUSÕES

A partir dos resultados apresentados, o presente estudo verificou que o aumento da mortalidade por suicídio por enforcamento está relacionado principalmente com a redução significativa dos outros meios. É importante destacar que, diante dos resultados, a maior acessibilidade e o grau de letalidade inerente ao enforcamento podem explicar o aumento do número de suicídios por esse meio. Além disso, observou-se que a Macrorregional Oeste apresentou taxas e percentuais mais expressivos.

Logo, medidas de maior rigor para restringir o acesso aos meios letais para o suicídio são indispensáveis para seu controle. Diante do exposto, essa pesquisa contribuiu no sentido de apontar as mudanças emergentes nas variações percentuais entre as taxas de mortalidade pelos meios utilizados para o suicídio no Paraná, haja vista a necessidade de estudos futuros para explicar tais alterações.

Nesse sentido, o conhecimento das características potencialmente associadas à utilização dos meios para o suicídio pode direcionar intervenções preventivas e qualificar as equipes de saúde para a assistência às pessoas com risco de suicídio e/ou que necessitam de atendimento de urgência após tentativa no âmbito dos serviços de saúde. Dessa forma, acredita-se que o presente estudo constitui-se em mais um meio que subsidia o acesso à informação sobre o suicídio e seus fatores de risco, a tomada de decisão para o enfrentamento desse problema de saúde pública e a ampliação da discussão acerca do tema.

No entanto, algumas limitações estão presentes neste estudo. Uma delas diz respeito à dificuldade de encontrar estudos comparativos que contemplem análise epidemiológica da mortalidade por suicídio em outras regiões do país, sobretudo, com enfoque nos meios específicos, impossibilitando uma discussão externa mais precisa dos resultados. Acresça-se o fato de que o uso de dados obtidos do SIM apresenta incompletude de informações, o que pode ser indicativo de subnotificação ou incorreto preenchimento das declarações de óbitos.

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