Mulheres usuárias de crack: Conhecendo suas histórias de vida

Mulheres usuárias de crack: Conhecendo suas histórias de vida

Autores:

Adriana Fertig,
Jacó Fernando Schneider,
Gustavo Costa de Oliveira,
Agnes Olschowsky,
Marcio Wagner Camatta,
Leandro Barbosa de Pinho

ARTIGO ORIGINAL

Escola Anna Nery

versão impressa ISSN 1414-8145versão On-line ISSN 2177-9465

Esc. Anna Nery vol.20 no.2 Rio de Janeiro abr./jun. 2016

http://dx.doi.org/10.5935/1414-8145.20160042

RESUMEN

Objetivo:

Conocer el significado y los efectos del uso de crack por mujeres, a partir de sus historias de vida.

Métodos:

Estudio cualitativo, del tipo Historia de Vida, desarrollado entre Mayo y Agosto de 2012 en una Unidad de Internación Psiquiátrica de un hospital de Porto Alegre (RS), utilizando el referencial de Daniel Bertaux como soporte metodológico. Fueron realizadas entrevistas con seis mujeres.

Resultados:

El conocimiento del contexto social en el consumo de crack por mujeres revela un universo de sentidos donde hay una complejidad cuanto al fenómeno que va más allá de interpretaciones simplificadas e ideas preconcebidas. Además, los testimonios descortinaran realidades permeadas por la violencia, desorden familiar y dependencia química.

Conclusión:

Esta investigación puede contribuir para la implementación de acciones en salud mental, reglamentadas por las necesidades de las usuarias de crack, permitiendo una atención direccionada al social, herramienta de transformación de la realidad.

Palabras clave: Enfermería Psiquiátrica; Salud mental; Mujeres; Cocaína; Crack; Drogas ilícitas

INTRODUÇÃO

Desde as civilizações antigas, a humanidade sempre esteve permeada pelo consumo de substâncias psicoativas, abrangendo uma multiplicidade de usos, abusos e efeitos. O processo histórico do uso de drogas demonstra que os contextos sociais e culturais prescrevem a apresentação das substâncias, dosagens, formas de uso e significado individual e coletivo, atribuído ao consumo, caracterizando-se um modo de vida típico das sociedades de consumo antigas e contemporâneas1,2.

No cenário atual, o fenômeno crack vem se constituindo como centro das discussões na sociedade brasileira, em virtude da prevalência do consumo, e por ser considerada uma droga de relevante impacto social3. Apesar de estudos epidemiológicos apontarem maior prevalência de uso de substâncias psicoativas entre homens, tem-se constatado um aumento do consumo de drogas, entre as quais o crack, por mulheres4,5.

Entretanto, ainda se identifica que o consumo de crack por mulheres carece de estudos que retratem essa problemática em âmbito nacional. Com isso, investigar o significado e as repercussões do uso de crack por mulheres, a partir de histórias de vida, vai ao encontro da lacuna de conhecimento identificada, configurando-se um momento de por em evidência a mulher que vivencia o uso de crack e de levantar suas demandas de saúde mental6.

O fato de mulheres estarem consumindo mais drogas abriga a complexidade do meio social e das relações humanas no mundo contemporâneo. O crescimento do número de mulheres que fazem uso de crack pode refletir em mudanças nas relações humanas intersubjetivas e no papel da mulher na sociedade, mobilizando, subjetivamente, essa mulher a buscar no crack o prazer em resposta às novas exigências sociais que produzem frustrações e sofrimento psíquico7.

Nessa perspectiva, o entendimento da trajetória de vida das mulheres usuárias de crack tem se revelado importante para a constituição de intervenções em saúde mental direcionadas a essas pessoas. Além disso, a observação das histórias de vida dessas mulheres, também, pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias de prevenção e educação no campo da saúde, por meio de reflexões e discussões acerca dos motivos do uso do crack por mulheres, bem como as consequências para a saúde e a vida delas.

Desse modo, se faz necessário conhecer as histórias de vida de mulheres usuárias de crack, considerando as suas trajetórias de vida como um dos meios de visualizar a problemática do crack, a fim de construir um modelo de organização de trabalho em saúde voltado para essa temática. Nesse sentido, torna-se elementar que se considere valores, crenças, desejos, ideias e vínculos das usuárias. Com isso, haverá possibilidade de ir além da definição de um diagnóstico e/ou prescrição de um medicamento, permitindo-se à usuária de crack participar de ações propostas pelos serviços de saúde e da construção do seu cuidado4.

Assim, a necessidade de espaços que propiciem a liberdade, escuta ativa, autonomia, bem como a inserção da mulher usuária de crack na terapêutica em saúde mental, por si só, justificam a importância de se conhecer as histórias de vida dessas mulheres. Nesse prisma, este estudo torna-se relevante por dar voz às usuárias de crack, por meio dos depoimentos sobre suas experiências vividas em seu cotidiano, podendo-se, assim, subsidiar o desenvolvimento de ações em saúde mental pautadas nas necessidades dessas usuárias.

Diante do exposto, o objetivo deste estudo é conhecer o significado e as repercussões do uso de crack por mulheres, a partir de suas histórias de vida.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, oriundo da tese de doutorado "Histórias de vida de mulheres usuárias de crack", sendo utilizado o referencial metodológico de História de Vida de Daniel Bertaux. O foco central do processo foi registrar a história de vida de mulheres usuárias de crack, delineando um olhar mais concreto da trajetória de vida de cada uma dessas pessoas8.

O Método de História de Vida constitui uma narrativa utilizada pelo sujeito para exprimir os conteúdos de uma parte de sua experiência vivida. De acordo com esse referencial, o relato de vida é o resultado de uma forma peculiar de entrevista, a entrevista narrativa, em que o pesquisador solicita a uma pessoa que conte toda ou parte de sua experiência vivida8.

O estudo foi realizado em uma unidade de internação psiquiátrica feminina, em um hospital no Município de Porto Alegre, estado do Rio Grande do Sul, no período de maio a agosto de 2012. A unidade possui 24 leitos, dos quais cinco são destinados a usuárias de substâncias psicoativas, sendo, em sua maioria, usuárias de crack. A escolha do campo foi intencional, devido à vinculação dos pesquisadores como docentes de práticas pedagógicas da disciplina Enfermagem em Saúde Mental, nessa unidade.

Os dados foram coletados por meio de entrevistas abertas com seis mulheres usuárias de crack, tendo como critérios de inclusão: ter 18 anos de idade ou mais; o motivo da internação ser devido ao uso de crack; e estar internada há, pelo menos, uma semana. Salienta-se que foram realizadas seis entrevistas, com o total de mulheres usuárias de crack que se encontravam internadas no período da coleta de dados, finalizando, assim, a produção dos dados.

As entrevistas com as participantes foram individuais e realizadas em um único encontro, em local reservado na unidade, com média de uma hora de duração, sendo elas gravadas e, posteriormente, transcritas na íntegra. Nessa etapa, utilizou-se a seguinte questão norteadora: "Fale-me a respeito de sua vida, que tenha relação com o uso de crack".

As informações obtidas foram submetidas à análise temática em consonância com o referencial metodológico de Daniel Bertaux. De acordo com esse referencial, a análise temática de uma entrevista tem por objetivo explicitar as informações e significados pertinentes nela contidos. A maioria dessas informações e significados não aparece na primeira leitura, surgindo umas atrás das outras no transcurso das leituras sucessivas, uma vez que cada leitura revela novos conteúdos semânticos8.

A partir disso, a fim de desvelar as experiências evidenciadas nas falas de mulheres usuárias de crack acerca de sua história de vida, os relatos foram analisados, conforme o referencial metodológico de Bertaux, por meio dos seguintes passos: 1) primeira leitura, objetivando conhecer o teor dos depoimentos; 2) segunda leitura para selecionar pontos principais nas falas; 3) agrupamento dos aspectos em comum das unidades de significado, isto é, as convergências que possibilitam o emergir de categorias; 4) apresentação do significado obtido para o panorama geral dos dados.

A partir das convergências das unidades de significado, emergiram três categorias, relacionadas com história de vida de mulheres usuárias de crack: 1. As mulheres e o significado de fazer uso de crack; 2. Repercussões do uso de crack na vida das mulheres; 3. Expectativas das mulheres usuárias de crack e o futuro, tratamento e apoio familiar. Neste artigo, apresentaram-se as categorias: "As mulheres e o significado de fazer uso de crack" e "Repercussões do uso de crack na vida das mulheres".

A fim de garantir o anonimato das participantes entrevistadas na pesquisa, as mulheres usuárias de crack foram identificadas na redação pela letra "E" acompanhada do número correspondente à ordem das entrevistas (de E1 a E6).

Para a execução da pesquisa foram seguidos os aspectos éticos necessários ao desenvolvimento de pesquisas com seres humanos, conforme a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde. Assim, distribuiu-se o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido aos participantes da pesquisa, em duas vias, ficando uma em poder da participante e outra do pesquisador.

O projeto foi registrado e aprovado pela Comissão de Pesquisa da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ainda, foi avaliado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Materno Infantil Presidente Vargas, recebendo parecer favorável a sua execução sob o nº 03/2012.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Nesta pesquisa, a mulher usuária de crack é reconhecida a partir de sua história de vida, de modo que, nas suas experiências vividas, são explicitados significados e repercussões do uso da droga, que possibilitaram apresentar o fenômeno em duas categorias: as mulheres e o significado de fazer uso de crack; repercussões do uso de crack na vida das mulheres.

As mulheres e o significado de fazer uso de crack

No decorrer das entrevistas, observou-se nos depoimentos um cenário de sofrimento psíquico causado pelo uso de crack, da forma que o significado do uso permeou as falas das mulheres. Assim, as experiências vivenciadas mostraram-se constituídas por episódios de violência, desestrutura familiar, bem como por dependência do crack.

Nessa perspectiva, inicialmente, as falas deixaram transparecer que as mulheres ficam expostas e/ou vulneráveis as violências, tanto físicas quanto psicológicas:

Um cara uma vez chegou a puxar uma faca. [...] Ele puxou a faca e tive que desistir do pagamento. Acontece muito. (E2)

[...] Eu estava grávida de sete meses, e um cara tentou me matar sufocada. (E6)

Sofri violência uma vez. Fui e o cara me agarrou à força. Acho que ele estava muito chapadão, muito alucinado, me agarrou, e daí nós transamos. (E4)

A partir do conjunto de relatos, nota-se que as mulheres usuárias de crack sofrem diversos tipos de violência em seu contexto social, salientando-se a violência sofrida decorrente da prostituição, que propicia acontecimentos negativos na vida dessas mulheres.

Consoante a isso, estudo recente apontou que a prostituição é uma forma da mulher se sustentar financeiramente e, depois, uma maneira de adquirir a droga desejada. Ainda, prostituir-se proporciona autonomia, poder e algumas vantagens frente aos homens, principalmente, para a obtenção da droga6.

No cotidiano das usuárias de crack, a violência social configura-se como um dos elementos que impactam negativamente a saúde dessas pessoas, pois pode ser perpetrada por cônjuges, familiares, clientes de práticas sexuais, traficantes e, também, pela polícia. No Brasil, o cenário atual evidencia que essas mulheres estão, mesmo em seu meio social, vulneráveis a situações de estupro, agressões físicas e psíquicas, e tentativa de homicídio, uma vez que a sociedade ainda reproduz o olhar estigmatizante e reducionista ao ser feminino9,10, e os usuários de drogas ilícitas, em geral.

Considerando essa conjuntura, usar crack pode significar a fuga da realidade sofrida, como também a manutenção de um "mundo paralelo", em que há prazer ao se fazer o uso da droga, apesar do contexto de violência social. Assim, o crack adquire importância na vida do indivíduo, em que há constante urgência em consumi-lo e, posteriormente, mudança de valores que até, então, norteavam suas condutas, pois o foco passa a ser o uso de crack11.

Paralelo a isso, o indispensável consumo de crack margeia a dependência química das usuárias, em que há uso da droga em detrimento da necessidade física, psíquica e social. Nesse contexto, o significado do uso de crack para o usuário perde-se em si mesmo, visto que o indivíduo desvaloriza-se em detrimento à valorização da droga, porque pode cometer furtos, atos violentos e mentir em troca do crack12, como se visualiza nos relatos:

A gente acha que é capaz de fazer qualquer coisa! De se prostituir, de matar, de roubar, de ferir. [...] Já roubei lojas, me prostituía. (E4)

A droga sempre teve acima de tudo pra mim. Cheguei a me prostituir, fazer programa para conseguir o crack. (E1)

Eu fui garota de programa, um mês depois de ter começado a usar drogas. Eu enganei meu namorado, eu menti para ele um tempão e foi mais por isso que a gente terminou. (E5)

Os depoimentos evidenciam a valorização da droga por parte das mulheres, demonstrando alguns critérios diagnósticos de dependência química, tais como o estreitamento do repertório de vida devido à busca e ao consumo do crack, o abandono de atividades que, anteriormente, eram prazerosas e o desejo quase incontrolável pela droga (fissura). Tais atitudes são precursoras de comportamentos de risco entre as usuárias, colocando-as em situação de vulnerabilidade em seu contexto de vida.

Os contornos obsessivos da busca pelo crack, constantemente, prejudicam a capacidade de escolha e discernimento das usuárias, na medida em que suas atitudes passam a ser focadas para a obtenção de mais crack, mesmo com a notória degradação física, psíquica e moral12. No entanto, constatou-se divergência em estudo recente em relação ao aspecto moral, uma vez que os resultados apontaram que a maioria das mulheres nega a prática de condutas criminosas, ressaltando não necessitar roubar para adquirir o crack6.

Fica evidenciado o avanço no conhecimento científico, sendo que nesta pesquisa um depoimento expressa a possibilidade de efetivação de qualquer atitude para a obtenção da droga. Nesse sentido, ressalta-se que a violência e marginalização relacionadas a atos ilícitos são abordadas em outros estudos científicos, os quais destacam essas situações como um problema social que está atrelado ao uso do crack, propiciando novas demandas de saúde às usuárias e demais atores sociais13,14.

Por outro lado, torna-se elementar para entender o significado do uso de crack por mulheres, a investigação da dinâmica familiar. Com isso, pode-se esclarecer o contexto familiar dessas usuárias, essencial para compreender os fatores sociais e as influências negativas e positivas que motivam as mulheres a consumir drogas15. Assim, considera-se importante para desvelar o fenômeno crack, a exposição das experiências vivenciadas no âmbito familiar, conforme expressa nos depoimentos:

A minha mãe estava sempre na rua, nos bares quando eu era pequena. [...] Meu pai fugiu da minha mãe quando eu tinha 10 anos. Eu não gosto de lembrar, [...] ele abusava de mim, e eu não podia contar pra minha mãe. (E6)

Quando a minha mãe engravidou de mim, [...] ela brigava muito com meu pai. E eles acabaram se separando. [...] eu sou carente de tudo, de mãe, de pai. (E5)

Minha mãe era dependente química, ela morreu com 25 anos. [...] Ela tava sempre na droga, e meu pai não me registrou. Não conheci meu pai. (E4)

Através do meu marido, comecei a usar. Eu fui criada pela minha avó, não tenho convívio com a minha mãe. [...] Tenho uns dez irmãos, mas nem conheço todos. O meu pai é alcoólatra. (E2)

Foi notável a desestruturação familiar identificada na fala de cada usuária de crack, levando-se a refletir sobre as dificuldades sociais enfrentadas por essas pessoas e, especialmente, o significado do consumo da droga. A visualização do contexto familiar amplia o entendimento da problemática do crack, dado que ao se aproximar da família, pode-se desvelar as condições econômicas, sociais e culturais em que se insere a mulher usuária de crack, o que contribui para a compreensão de potenciais causas do consumo da droga, as quais favorecem e "empurram" essas mulheres para o consumo do crack, bem como, contribui para a busca de mecanismos de apoio para inserir essa usuária em seu contexto familiar e social.

O crack tem se mostrado um fenômeno devastador e desagregador no âmbito familiar, por gerar situações de desordem e/ou desorganização da família, provocadas pelas condições de incerteza impostas pela droga16. Apesar disso, salienta-se que a proposta deste estudo não se concentra em culpabilizar os familiares frente ao uso de drogas por mulheres. Todavia, torna-se importante evidenciar que a família desempenha um papel elementar no desenvolvimento dos seus membros, sendo a principal responsável em propiciar relações sociais e afetivas entre os seus entes, configurando-se como um importante fator que pode favorecer e proteger os indivíduos do consumo de drogas.

Desse modo, nessa categoria, observou-se um cenário de vida das usuárias de crack permeado pela desestruturação familiar, como também pela violência e dependência química do crack. Assim, o significado do uso de crack por mulheres mostrou-se amplo, uma vez que essa problemática perpassa conceituações, hipóteses e prognósticos a respeito das usuárias de crack, abrangendo os contextos sociais e a subjetividade que constituem a existência dessas mulheres.

Frente ao exposto, considera-se relevante refletir e arraigar essas questões relativas à temática do crack e suas repercussões na vida das mulheres, descritos na segunda categoria.

Repercussões do uso de crack na vida das mulheres

Nesta categoria foi possível desvelar outras facetas do fenômeno estudado, referente às repercussões do uso de crack na vida das mulheres, por meio dos relatos dessas usuárias.

O consumo de drogas não está isolado do seu contexto social, pois o cotidiano de cada pessoa configura-se como fator essencial para o início do uso de drogas, bem como também reflete as consequências desse consumo. Assim, os aspectos relacionados ao contexto social do consumo do crack têm estreita relação com os danos à saúde do usuário17. Na análise das entrevistas, observou-se que o uso do crack suscitou mudanças negativas na vida das mulheres, de modo que essas usuárias passaram a viver na rua e a conviver com pessoas ligadas ao tráfico de drogas, conforme se observa nas falas:

O crack leva à destruição. [...] Dormia na rua porque meus tios não aguentavam mais, eu roubava demais em casa. Trocava por dinheiro, daí eu ia e comprava pedra. (E4)

Tudo mudou. Quando usava crack, ficava na rua, direto. Não dormia em casa. Eu ficava na rua e não dormia. (E1)

Eu gostava mais de dormir na rua mesmo, com a galera, um monte de gente. Quando estava frio, a gente se esquentava , ficava todo mundo grudado. (E6)

Eu era amiga dos traficantes. Namorei um deles, então eu ficava no meio ali. [...] Eu estava morando nessa "boca" praticamente. Eu estava quase todos os dias lá. Eu usava droga direto. (E5)

Os depoimentos permitem visualizar que as usuárias, a partir de suas experiências vividas, sinalizam a dificuldade social imposta pelo consumo de crack, havendo modificações nos padrões cotidianos como morar na rua e a vinculação a organizações criminosas, para o uso de drogas e/ou aquisição de dinheiro. Ao adentrar no contexto social dessas usuárias, há possibilidade de se compreender o sentido do crack para cada mulher, o que pode ser o combustível e a direção para construção de ações em saúde mental adaptadas ao mundo de vida dos atores sociais envolvidos no processo.

A realidade do cotidiano no território é de convivência cada vez mais com o uso de drogas. A escassez de suporte social - tratamento de saúde em rede, emprego e apoio à família - e a dificuldade de acesso e vínculo aos serviços de saúde, têm contribuído no agravamento da situação do uso de crack na atualidade. Desse modo, torna-se iminente a responsabilidade compartilhada entre os diferentes setores da sociedade, propondo à população ações em saúde mental de enfrentamento coletivo do fenômeno crack15,18.

Frente a isso, práticas em saúde que segmentam a usuária de crack devem ser substituídas por ações que almejem o cuidado psicossocial, modo de atenção comprometido em atender demandas psíquicas, como também sociais, evidentes no processo vital dessas mulheres, sem descuidar dos aspectos físicos. Assim, o cuidado em saúde mental ao usuário de crack perpassa a atenção focada no uso da droga, direcionando o olhar para o sofrimento psíquico individual e coletivo, bem como para as demandas sociais como o desemprego, afastamento escolar, visualizados nos depoimentos:

Minha vida virou um inferno, eu já não estudava mais (E1).

Não trabalhava. Quem me sustentava era a minha mãe. (E3)

Um sofrimento pra mim. [...] Por causa disso não parava em emprego. Parei de estudar. Com certeza teria sido mais tranquilo sem o crack. (E2)

Eu tinha começado a trabalhar e acabei me soltando mais pra vida. [...] Eu não pensei na consequência. Vicia na primeira vez, se fumar tá viciado. (E5)

Ao relatar o fato de terem se desvinculado da escola ou emprego, as entrevistadas demonstraram que o uso de crack e a dificuldade de estabelecer atividades permanentes no cotidiano estão interligados, devido à necessidade de se obter e consumir a droga. Geralmente, isso decorre da síndrome da dependência química, fator que limita as ações da usuária em seu cotidiano e, ao mesmo tempo, motiva a busca da droga por meio de alternativas lícitas e/ou ilícitas17.

Um dos relatos expressa o sofrimento da usuária quanto a sua dificuldade em permanecer no emprego e na escola, o que poderia se consolidar em atividades para contribuir com a terapêutica, uma vez que o trabalho e estudo podem facilitar sua (re)inserção no meio social e na família. Vale salientar, ainda, a diversidade de arranjos sociais expressados pelo uso do crack, pois alguns indivíduos têm padrões de uso que não comprometem o seu funcionamento social, dissociando da ideia de que todo consumidor de crack tende à marginalidade. Nesses casos, diversas pessoas têm conseguido manter o emprego e a relação com a família15. Por outro lado, este estudo revelou que as usuárias de crack têm enfrentado dificuldades em seu meio social, vivenciando perdas afetivas, materiais e conflitos familiares, conforme é apresentado a seguir:

Muita coisa eu perdi por causa do crack, meus filhos, principalmente. Perdi um deles por causa disso. Meu segundo filho, eu perdi com seis meses de gravidez. (E6)

Eu me droguei muito, daí tentei matar a minha mãe. A minha vida depois de usar o crack foi só coisa ruim. (E3)

Mudou tudo. Minha vida era tranquila e ficou pesada. Tudo mudou. Depois comecei a brigar em casa. Cheguei a brigar com a minha mãe, com meus sobrinhos, com meus irmãos. (E1)

Eu já perdi tanta coisa. Já fiz tanta gente sofrer. A minha mãe é a única que está do meu lado. O resto da minha família ninguém se dá mais comigo, ninguém fala mais comigo. (E5)

É importante notar que as repercussões do uso de crack no âmbito familiar do indivíduo não devem ser entendidas como um modo de culpabilizar, discriminar e julgar as pessoas que consomem a droga, mas, sim, uma possibilidade de se refletir e discutir a problemática do crack em espaços de coletividades, dessa forma, todos os atores sociais possam olhar esse fenômeno como uma questão individual, familiar e social. Dentro dessa conjuntura, o cuidado em saúde mental à família da usuária de crack pode se tornar o lócus para efetivação de ações no cotidiano, como meio que pode vir a ser favorecedor da adesão do indivíduo ao processo terapêutico.

Todavia, nota-se que ocorre uma grande mudança comportamental dos usuários a partir do frequente consumo de drogas. Com isso, o usuário pode evitar relação com familiares, romper relações com amigos e isolar-se, além de frequentes faltas à escola e ao trabalho, e a falta de um objetivo de vida19.

Conforme os relatos das usuárias, também, explicitam as dificuldades sociais enfrentadas no núcleo familiar, composto por conflitos auto e interpessoais devido ao uso do crack. Além disso, no cotidiano das mulheres, as falas demonstram situações de risco a todos os integrantes da família, como a heteroagressão e o rompimento de vínculos afetivos, o que pode acentuar o sofrimento psíquico destes e, ainda, resultar em acontecimentos trágicos, tais como homicídio e suicídio.

Diante do exposto nessa categoria, constatou-se que o fenômeno crack é complexo, repercutindo amplamente na vida das usuárias, pois, há consequências do consumo dessa droga no âmbito individual, familiar e social. Partindo das experiências vividas pelas mulheres, observou-se também que o afastamento do emprego e escola, as vivências nas ruas, vínculo com traficantes, bem como os conflitos familiares, nitidamente, evidenciam o mundo de vida dessas mulheres e, além disso, podem constituir o arcabouço analítico de ações em saúde mental, contribuindo para a construção de um cuidado em saúde, a partir do contexto de vida de cada mulher.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A relação entre mulher e o consumo de crack traz vários questionamentos e suscita reflexões sobre o modo como se manifesta esse uso de drogas no sexo feminino. Historicamente, a condição feminina atrai uma gama de suscetibilidades, favorecendo julgamentos e questionamentos sobre os padrões de comportamento socialmente aceitáveis e determinados de acordo com as normas preconizadas pela cultura.

Este estudo abordou a problemática do uso de crack por mulheres, identificando o significado e as repercussões desse a partir de suas histórias de vida, segundo o referencial metodológico de História de Vida de Bertaux, oportunizando as mulheres expressarem suas experiências vividas em relação ao crack. Desse modo, houve possibilidade de se ampliar o conhecimento sobre a temática, na medida em que se permitiu um novo olhar ao campo da saúde e da enfermagem.

Por outro lado, o presente estudo permitiu identificar motivos para o início do uso de crack, apontando fatores de risco presentes nas trajetórias de vida dessas mulheres para que fosse possível visualizar o significado do uso de crack. Ainda, os depoimentos descortinaram realidades sofridas, permeadas por violência, desestrutura familiar, dificuldades financeiras, aliadas a elementos que são inerentes à vida das mulheres participantes desta pesquisa.

Conhecer a trajetória de vida das mulheres usuárias de crack permitiu identificar significados do uso de crack expresso por elas, que devem fazer parte do planejamento das ações dos dispositivos sociais e de saúde que atendem essa população. Esses significados apontam para necessidades que transcendem às ofertas que, tradicionalmente, são de responsabilidade do setor saúde (tratamento, prevenção de doenças e educação em saúde), pois envolvem também outros setores da sociedade (educação, trabalho, justiça) e a família para serem atendidas.

Na prática clínica, tais aspectos devem ser pautados em ações que tenham em seu horizonte a busca da minimização dos danos sociais e à saúde dessas mulheres, bem como a resolução de problemas (quando possível), promovendo a (re)inserção social delas. Assim, o modo psicossocial de atenção em saúde mental dialoga com essa perspectiva na medida em que defende o cuidado de maneira integral tendo os componentes de cidadania e justiça social entre os seus pressupostos.

Ademais, salienta-se que uma generalização dos resultados desta pesquisa não seria indicada, já que o estudo trouxe a problematização de uma realidade, em que houve limitação quanto ao número de participantes, bem como a realização da pesquisa em um único cenário. Mesmo assim, considera-se o consumo de crack por mulheres um relevante e profícuo campo para novas investigações na área da saúde mental, no sentido de evidenciar que, no contexto da atenção psicossocial, há necessidade de se problematizar as formas de organização dos serviços e as concepções de trabalhadores, usuárias e familiares no processo de cuidar.

É notória a característica multifacetada da problemática do uso de crack por mulheres, sendo necessárias mais pesquisas que abordem esta temática, a fim de contribuir para a construção do conhecimento científico e o fortalecimento da rede de saúde mental para atender essa demanda. A partir do reconhecimento e valorização da história de vida da pessoa, ampliam-se as possibilidades de construção de uma atenção integral na prática clínica da equipe multidisciplinar, considerando a subjetividade de cada um e o seu contexto social.

Sendo o fenômeno do uso de drogas um recurso que acompanha o ser humano ao logo de toda a história, ao estudá-lo, há necessidade de nos colocar em uma posição que considere o contexto como um elemento central para o entendimento de cada ser ou de cada grupo que se pretende estudar. Afinal, estudar sem a atitude de conhecer, entender e de compreender o outro, indica uma carência na abordagem ao ser humano, essencial para a construção de ações em saúde pautadas nas necessidades sociais.

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