Múltiplas leituras sobre o sertão oeste

Múltiplas leituras sobre o sertão oeste

Autores:

Eurípedes Antônio Funes

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.23 no.3 Rio de Janeiro jul./set. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702016000300014

Ao passar por Goiás, em 1819, o viajante francês Saint-Hilaire, ao mesmo tempo em que lamentava ter que deixar o Brasil, imaginou eventuais leituras que poderiam ser feitas de suas narrativas sobre aquela província, pondo em dúvida o visto e narrado. Diz ele:

se alguns exemplares dos meus relatos resistirem ao tempo e ao esquecimento, as gerações futuras ... ficarão surpreendidas ao verificarem que, nos locais onde erguerão então cidades prósperas e populosas, havia outrora apenas um ou dois casebres que pouco diferiam das choças dos selvagens; que onde estarão retinindo nos ares os ruídos dos martelos e das máquinas mais complexas ouviam-se apenas, em outros tempos, o coaxar de alguns sapos e o canto dos pássaros; que, em lugar das extensas plantações de milho, de mandioca, de cana-de-açúcar, e de algumas árvores frutíferas, o que havia eram terras cobertas por uma vegetação exuberante mas inútil. Diante dos campos cortados por estradas de ferro, e talvez mesmo por veículos mais possantes do que nossas locomotivas de hoje, as gerações futuras sorrirão ao lerem nos livros que houve um tempo em que o viajante podia considerar-se afortunado quando conseguia percorrer, numa jornada, quatro ou cinco léguas (Saint-Hilaire, 1975, p.14).

Prenúncio do que estava por vir.

Quase dois séculos depois vem a público Vastos sertões: história e natureza na ciência e na literatura, resultado de um projeto intelectual coletivo sobre a história do grande oeste do Brasil. Coletânea organizada por Sandro Dutra e Silva, Dominichi Miranda de Sá e Magali Romero Sá, que dá conta do futuro prognosticado por Saint-Hilaire para o vasto e distante cerrado, tomado até então como símbolo do atraso e vocacionado ao moderno. Esse livro faz do sertão objeto de múltiplas interpretações, em diálogo interdisciplinar, sob uma multiplicidade de olhares, associados pela construção da nação, do Estado, e pela conquista da natureza, vista sob o prisma da história ambiental. Chave de leitura sobre a interiorização do Brasil, que em seu nascedouro era uma faixa litorânea, e tudo o que estava a oeste era sertão. Um mundo estranho, difuso, desolado, representado na cartografia de época, século XVIII, como terra dos tapuias, Brasilia barbarorum.

Do livro emergem interpretações sobre a formação da sociedade sertaneja brasileira. Ali, mais do que um espaço geográfico, o sertão é, simbolicamente, percebido como espaço social, que se configura e reconfigura com o avanço das fronteiras. Percebido como distante, torna-se terra da promissão. Paradoxalmente, ora pensado como circunscrito, ora como apresentando possibilidades quase infinitas de expansão, o sertão é sempre fronteira em movimento: às vezes movendo-se lentamente, outras de forma acelerada pelas noções de progresso e de modernidade. Assim, há aqueles que permanecem no sertão, ou a ele retornam, e outros que ali chegam movidos pelos desejos de fazer a vida em uma terra livre, limpa de matos, bichos, índios e posseiros.

A obra se destaca por tomar da história ambiental possibilidades de análise de um processo histórico no qual a natureza não é apenas pano de fundo, mesmo quando se discute sua transformação na perspectiva de dar conta das políticas de ocupação territorial, considerando a fertilidade e as especificidades do solo e subsolos que moviam e movem frentes de expansão. Há de se considerar que a história ambiental não é a história da natureza sem o ser humano nem a de uma natureza tomada apenas como palco.

Os impactos ambientais sofridos ao longo dos séculos, em especial pelo agronegócio, são praticamente irreversíveis. Os que chegavam necessitavam de orientação prática para se organizar em sociedade, na economia e na cultura. Eles haviam trazido seus gados e, com eles, um conjunto de implementos agrícolas e de novas plantas, fazendo desaparecer as consideradas nativas. Uma ação mais perversa que o fogo que limpava a terra. Diante da imensidão das florestas, os pioneiros não achavam que as estavam destruindo; mas hoje se sabe de sua fragilidade. Quando a ocupação chega, a transformação é inevitável.

Os cantos dos pássaros, o coaxar dos sapos e as “terras cobertas por uma vegetação exuberante mas inútil”, segundo Saint-Hilaire no prefácio da obra mencionada, vão cedendo lugar às grandes pastagens, às lavouras extensivas, locomotivas do agronegócio. Torna-se outra a paisagem do cerrado. O habitat de muitas espécies vegetais e animais é destruído, e desaparece também o universo dos “encantados”, que tanto mexeu com o imaginário sertanejo.

O livro está configurado em três partes, consistentemente consolidadas a partir de conceitos-chave: fronteira, sertão, natureza e cultura. A noção de fronteira, fio condutor da obra, é matizada pelas concepções teóricas de Frederick Turner, que em seus estudos sobre a marcha para o oeste dos EUA, em fins do século XIX, cunhou o conceito de frontier, entendida como uma frente de ocupação acelerada pela busca de terras livres, desocupadas de gente e culturas. Inscrevendo-se no campo da história ambiental, o livro traz uma perspectiva interessante de leitura do Brasil a partir do sertão oeste: vasta natureza selvagem, “desertão” humano, terra livre. Ao articular suas partes – analisadas a seguir – por meio das categorias analíticas cultura e natureza, a obra inova na forma de olhar e ler as histórias dos sertões.

Parte 1: História e natureza na interpretação da ocupação do sertão oeste. A ênfase dessa primeira parte é posta sobre a marcha para o oeste, em especial a partir do período varguista, tempos em que terra rica não era sinônimo de ouro, mas de fertilidade, terra úbere. Terra ocupada por sociedades nativas e posteriormente por colonos que imprimiram ali novos sentidos de usos e valores, configurando outras territorialidades, não poupando sua vegetação. Um processo que vem de tempos longínquos, em especial a partir do momento em que a região teve suas fronteiras devassadas pelo processo colonial lusitano. Espaço experimentado por diversos sujeitos, que lhe dão significados e usos que marcam suas culturas e organizações sociais.

Ao longo da segunda metade do século XIX e no século seguinte, fronteiras agrícolas se expandem, e a marcha para o oeste se torna meta de consolidação integracionista. Há uma redescoberta da fertilidade das terras do Centro-oeste, e o negócio da terra é incrementado, em especial nas últimas décadas do século passado. No processo de integração do sertão do planalto central ao projeto de nação que se desenhou com a emancipação política da América portuguesa, as estradas se configuram como fios que alinhavam o centro do Império às regiões políticas e economicamente hegemônicas, incorporando padrões modernos que terminariam abafando arcaicas estruturas sociais e econômicas.

Parte 2: História e natureza na ciência. Destaca o fato de transdisciplinaridade não procurar a dominação de determinadas disciplinas, mas a abertura de todas elas ao que as atravessa e as ultrapassa, trazendo à tona a multiplicidade fantástica dos modos de conhecimento, assim como o reconhecimento da multiplicidade de indivíduos produtores de novos saberes. Nesse tópico, a história ambiental e a história das ciências se entrecruzam nos olhares dos viajantes, agentes estatais e cientistas sobre o bioma do cerrado e no encontro entre a antropossociedade e os ecossistemas, e as interações possíveis.

Imensas chapadas, topo dos planaltos, paisagens que impressionaram e, às vezes, desorientaram viajantes: espaço imenso, deserto, e solo bastante regular, coberto ora por pastagens naturais salpicadas de árvores raquíticas, ora exclusivamente por gramíneas, algumas outras ervas e subarbustos. Nesse vasto planalto, onde estão os marcos fundacionais de Brasília, símbolo da modernidade e da grande marcha para o Centro-oeste, cruzavam-se importantes estradas coloniais estabelecidas no processo de ocupação dos sertões. Caminhos que cortavam o sertão cerrado do planalto central, onde os homens se sentem diminutos mesmo diante de suas florestas anãs, com árvores “raivosas”, com encantos peculiares e um esplendoroso pôr do sol. Sertão da imensidão onde, nas palavras de Manoel de Barros (2010, p.7), “distâncias somavam a gente para menos”.

Parte 3: História, natureza e literatura. Diálogo com os conceitos de sertão, lugar do incerto e fronteira, assim como com elementos ficcionais, e a importância desses temas e ideias na cultura brasileira norteiam os textos que compõem esse tópico.

Uma vertente que emana das identidades de atores sociais, na subjetividade de seus mundos e nas inter-relações de natureza e sociedade. Processos mediante os quais se atualizam as identidades que acarretam, ao longo da história, formas de ser no mundo; identidades que se inscrevem na natureza e que escrevem sua história. São espaços vividos, praticados, experimentados pelos sujeitos. Espaços de cruzamentos e de mobilidades pluriétnicas, onde se gestam novas territorialidades, identidades e modos de vida que qualificam as sociedades sertanejas, edificadas por uma multiplicidade de homens e mulheres que ganham cores e almas na escrita literária, como a de Bernardo Élis. Um regionalismo que transcende as fronteiras do seu sertão e se insere num universo mais amplo.

Por fim, há de se considerar que a frente do agronegócio para o oeste fechou. Mas, como o tempo não para, a história não tem fim, o círculo não se fecha, árvores continuam a tombar ao som dos tratores de esteira e a terra a arder no enlaçar do fogo rumo ao norte; um oeste que está para além do cerrado. Viajemos nessa obra sobre uma imensidão de paisagens, onde natureza e homens fizeram histórias, pois quem conta do sertão conta do Brasil.

REFERÊNCIAS

BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya. 2010.
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem à província de Goiás. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp. 1975.
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