Músculo Cardíaco e Músculo Esquelético Conectados pelo Sistema Nervoso Autônomo

Músculo Cardíaco e Músculo Esquelético Conectados pelo Sistema Nervoso Autônomo

Autores:

Claudio Gil Araujo,
Jari Antero Laukkanen

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782Xversão On-line ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.112 no.6 São Paulo jun. 2019 Epub 15-Jul-2019

https://doi.org/10.5935/abc.20190097

O sistema nervoso autônomo (SNA) exerce um papel fundamental na manutenção da homeostase celular e da vida humana. O funcionamento do coração e dos músculos esqueléticos é em parte modulado pelos ramos simpáticos e parassimpáticos do SNA tanto em repouso como no exercício.

Dados substanciais da literatura atestam o fato de que indicadores objetivos da força muscular refletem o estado de saúde. Já está bem estabelecido de que a insuficiência cardíaca é tipicamente acompanhada por anormalidades do músculo esquelético que contribuem à intolerância ao exercício e baixa qualidade de vida relacionada à saúde observadas nesses pacientes.1,2 De fato, enquanto uma redução na massa e na força musculares é naturalmente observada no processo de envelhecimento, principalmente após a quinta década de vida, isso torna-se ainda mais relevante em pacientes de meia idade e idosos com insuficiência cardíaca.

Há muitas décadas, o termo “sarcopenia” foi proposto como uma expressão médica para descrever a perda universal e involuntária de massa muscular que ocorre com o aumento da idade.3 No entanto, apesar de vários critérios terem sido propostos para caracterizá-la, do conhecimento crescente para compreender sua fisiopatologia e confirmar sua relevância clínica e epidemiológica, e de seu registro no CID-10,4 ainda hoje, a sarcopenia é raramente avaliada na prática clínica diária.

Em um estudo colaborativo entre Brasil e Alemanha, Fonseca et al.,5 analisaram dados de 116 pacientes do sexo masculino com insuficiência cardíaca e fração de ejeção reduzida, submetidos ao teste de exercício cardiopulmonar máximo em cicloergômetro, usando um protocolo de rampa. Ainda, utilizando-se a técnica de microneurografia, a atividade nervosa simpática muscular foi diretamente registrada do nervo peroneal e a atividade parassimpática estimada pela magnitude da redução da frequência cardíaca nos primeiros dois minutos após o teste de exercício. Foram utilizadas absorciometria de raios-x de dupla energia (DEXA) e força de preensão manual para as medidas de composição corporal e força muscular. Com base nessas medidas e nos critérios padrões da literatura, os autores identificaram presença ou não de sarcopenia no grupo de pacientes. Reconhecemos a originalidade do estudo feito pelos autores, o qual pode dar uma contribuição significativa ao conhecimento existente na área de pesquisa.

Combinando todos esses dados, os autores buscaram uma relação entre anormalidades no músculo esquelético cardíaco e disfunção do SNA, e tentaram quantificar a associação entre as anormalidades do SNA e sarcopenia em pacientes do sexo masculino com insuficiência cardíaca clinicamente estável. Foi identificada sarcopenia em 33 (28%) dos pacientes com insuficiência cardíaca e fração de ejeção reduzida, e esses pacientes apresentaram resultados das variáveis do SNA avaliadas significativamente distintos em comparação ao grupo de pacientes sem sarcopenia.5 Ainda, os autores encontraram uma correlação significativa, ainda que modesta (r=-0,29) entre a massa muscular apendicular e a atividade nervosa simpática muscular. Ao analisar os resultados com mais detalhes, é possível verificar que existe uma sobreposição considerável entre os resultados dos pacientes com insuficiência cardíaca e fração de ejeção reduzida com e sem sarcopenia, o que pode diminuir o valor clínico dos achados.

Baseados no protocolo do estudo de Fonseca et al.,5 nós podemos especular que, caso os autores tivessem usado outros métodos de avaliação, tais como o teste de exercício de 4 segundos,6,7 - um exame muito específico para avaliar a atividade vagal cardíaca - a força de preensão manual em relação ao peso corporal ou à potência muscular máxima,8 ou mesmo um simples teste funcional como o teste de sentar e levantar,9 poderiam ter encontrado outros valores discriminatórios, uma vez que todos esses testes são mais específicos para avaliar dinapenia, condição clinicamente mais relevante que a sarcopenia.10,11

Por fim, é possível que a prática de exercícios físicos regulares seja a maneira mais adequada para melhorar a saúde dos pacientes com insuficiência cardíaca e fração de ejeção reduzida. Assim, esse estudo mostrou uma associação entre disfunção do SNA cardíaco e anormalidades dos músculos cardíaco e esquelético. Isso, somado ao fato de que exercícios aeróbicos e resistidos regulares melhoram a modulação do SNA cardíaco, incluindo a diminuição do risco de fibrilação ventricular na ocorrência de um infarto do miocárdio,12 e que são fortemente recomendados como parte do tratamento médico de pacientes com sarcopenia e para aqueles com insuficiência cardíaca e fração de ejeção reduzida;13 é bastante motivador pensar sobre o próximo passo esperado em pesquisa: um ensaio controlado randomizado com treinamento com exercícios físicos como intervenção. Tal estudo avaliaria se a disfunção no SNA relatada por Fonseca et al.,5 é passível de reversão e, se sim, de que maneira isso melhoraria a qualidade de vida e outros desfechos em saúde dos pacientes com insuficiência cardíaca e fração de ejeção reduzida.

REFERÊNCIAS

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13 Aagaard P, Suetta C, Caserotti P, Magnusson SP, Kjaer M. Role of the nervous system in sarcopenia and muscle atrophy with aging: strength training as a countermeasure. Scand J Med Sci Sports. 2010;20(1):49-64.