versão On-line ISSN 2317-1782
CoDAS vol.29 no.6 São Paulo 2017 Epub 18-Dez-2017
http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20172017007
Com os avanços tecnológicos e científicos das últimas décadas, o implante coclear deixou de ser um instrumento apenas de investigação científica tornando-se um efetivo recurso clínico capaz de melhorar a qualidade de vida de adultos e crianças com deficiência auditiva neurossensorial bilateral de graus severo e/ou profundo bilateral.
Este dispositivo de sofisticada tecnologia caracteriza-se como uma prótese computadorizada composta por um componente interno e outro externo, que fornece impulsos elétricos para estimular as fibras neurais remanescentes da cóclea(1).
Os resultados clínicos obtidos na população em geral usuária de IC, ao longo das últimas décadas, evidenciam a efetividade deste dispositivo eletrônico em fornecer estimulação periférica suficiente para a acessibilidade dos sons da fala, com impacto positivo direto na qualidade de vida em geral de seus usuários(2).
Inúmeras conquistas já foram alcançadas, tanto no que se refere às técnicas cirúrgicas, aos critérios de seleção dos candidatos, à evolução tecnológica aplicada aos dispositivos atuais, bem como aos métodos de avaliação, habilitação e reabilitação auditiva a serem utilizados no contexto clínico(3).
Contudo, nem todos os usuários de IC se beneficiam do acesso aos sons da mesma maneira, havendo, na prática clínica, uma variabilidade entre os resultados encontrados. Apenas o desempenho obtido nas habilidades auditivas e de linguagem por si só não são suficientes para justificar a variabilidade de resultados encontrados na população usuária deste dispositivo eletrônico(4,5). A necessidade de utilizar uma medida que compreenda outros fatores além dos aspectos relacionados à audição e à linguagem tem motivado os pesquisadores da área a utilizar medidas de qualidade de vida para avaliar os benefícios e limitações do IC.
Com isso, a avaliação da qualidade de vida representa uma importante informação do impacto e da efetividade de tratamento, de modo a complementar os resultados obtidos pelas medidas clínicas e avaliar o impacto da perda auditiva e do uso do IC em diferentes domínios(6).
A tendência mundial é a construção ou adaptação de questionários que avaliem a qualidade de vida dos diferentes tipos de tratamentos na área da saúde. Os instrumentos genéricos para avaliação da qualidade de vida podem ser utilizados em pacientes com diferentes problemas de saúde e são desenvolvidos com o objetivo de dimensionar o impacto da doença e a efetividade do tratamento na qualidade de vida, sem apresentar especificidade em relação à doença e/ou tratamento do indivíduo.
Entretanto, pelo fato de terem um caráter genérico e, com isso, compreenderem uma ampla faixa de problemas de saúde, alguns itens avaliados podem não ser relevantes para uma doença e/ou tratamento, tornando-os menos sensíveis para populações específicas(7).
Neste sentido, instrumentos específicos para a avaliação da qualidade de vida em uma determinada população são capazes de fornecer dados mais precisos, já que os itens que compõem o questionário são elaborados de modo a contemplar aspectos específicos relacionados a uma determinada doença e/ou tratamento.
Em 2000, os pesquisadores holandeses Hinderink, Krabbe e Broek desenvolveram um instrumento para avaliação da qualidade de vida de adultos usuários de IC, denominado Nijmegen Cochlear Implantation Questionnaire (NCIQ)(8).
Trata-se de um instrumento específico, utilizado por diversos pesquisadores, para a avaliação de uma variedade de aspectos relacionados à qualidade de vida da população adulta usuária de IC, evidenciando o impacto do uso deste dispositivo eletrônico nas situações de vida diária de seus usuários, na percepção dos sons da fala, bem como na avaliação do custo-benefício deste tipo de intervenção(9-11).
Além disso, o NCIQ também pode ser utilizado no monitoramento do impacto das inovações tecnológicas e do processo de reabilitação auditiva na qualidade de vida de adultos usuários de IC ao longo do tempo de uso do dispositivo(12-14).
A investigação mais detalhada de aspectos relacionados à qualidade de vida mostra-se de grande importância não só para a área clínica, mas também para a formulação de políticas públicas de saúde, no sentido de que os recursos públicos possam ser destinados para atender a diferentes necessidades sociais e intervenções específicas para esta população. Destaca-se, portanto, a necessidade de se disponibilizar para os profissionais da área uma ferramenta clínica capaz de investigar os resultados do IC na qualidade de vida de seus usuários, considerando que, até o presente momento, no Brasil, ainda não está disponível um instrumento específico para avaliação da qualidade de vida em adultos usuários de IC.
Assim, o objetivo deste estudo foi traduzir e adaptar culturalmente o Nijmegen Cochlear Implantation Questionnaire (NCIQ) para o Português Brasileiro e descrever os resultados de qualidade de vida em adultos usuários de Implante Coclear (IC).
A presente pesquisa foi desenvolvida ao longo de 12 meses, no Laboratório de Investigação Fonoaudiológica em Audiologia Educacional da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, com o apoio da Associação de Deficientes Auditivos Implantados (ADAP) e constou de duas etapas: tradução e adaptação cultural do Nijmegen Cochlear Implantation Questionnaire (NCIQ) para o Português Brasileiro; e estudo prospectivo e clínico de avaliação da qualidade de vida em um grupo de adultos usuários de Implante Coclear.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição de origem (nº 797419/14) e todos os participantes concordaram em participar da pesquisa e assinaram Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE).
O questionário Nijmegen Cochlear Implantation Questionnaire (NCIQ) caracteriza-se como um questionário específico, para a avaliação da qualidade de vida em adultos usuários de IC e com alta consistência interna. É composto por 60 questões divididas em três domínios gerais, com seus respectivos subdomínios: físico (percepção básica do som, percepção avançada do som e produção de fala), psicológico (autoestima) e social (atividade e funcionamento social)(8).
O NCIQ foi formulado com 10 itens em cada subdomínio. Cada questão possui cinco alternativas de resposta, sendo que nas 55 primeiras questões as possíveis respostas são: 1= nunca; 2= às vezes; 3= regularmente; 4= geralmente; e 5= sempre. As cinco questões finais possuem as respostas 1= não; 2= insatisfatório; 3= satisfatório; 4= bom; e 5= muito bem. Há também, para todas as questões, uma sexta categoria de resposta, caso o item não seja considerado pertinente às condições do indivíduo (não aplicável). No mínimo, sete dos dez itens devem ser preenchidos para concluir um subdomínio específico. A pontuação para cada resposta em subdomínio é atribuída da seguinte forma: (1 = 0, 2 = 25, 3 = 50, 4 = 75 e 5 = 100). Depois de finalizada a soma de todos os itens de um subdomínio, divide-se o valor total pelo número de respostas completas.
A tradução e adaptação semântica e cultural do NCIQ para o Português Brasileiro foi autorizada pelos autores do questionário pertencentes à Universidade de Nijmegen(8) e seguiu a técnica proposta pela Scientific Advisory Committee of Medical Outcomes Trust(15), incluindo as fases descritas a seguir:
Tradução do NCIQ para o Português Brasileiro por tradutor juramentado sem envolvimento com a pesquisa;
Revisão da tradução inicial realizada por dois profissionais bilíngues (português e inglês) da área da Audiologia;
Tradução reversa, realizada por tradutor sem nenhum envolvimento com a pesquisa; e
Avaliação da equivalência entre os dois questionários – o original cedido pelos autores e a versão reversa para o inglês, realizada pelos mesmos fonoaudiólogos bilíngues.
Para a análise da tradução do questionário, foi realizada uma descrição dos aspectos vivenciados ao longo do processo de tradução, no que se refere às divergências semânticas entre os tradutores e a equivalência entre as versões inglesa e do português brasileiro. Depois da análise de concordância e realização das eventuais modificações na versão traduzida do questionário, a versão final do NCIQ traduzida para o Português Brasileiro foi enviada via correio aos indivíduos de pesquisa.
No total, 49 usuários de IC foram contatados e convidados a participar do estudo, os quais contemplaram os seguintes critérios de inclusão: idade entre 18 e 60 anos; ensino médio completo como escolaridade mínima; deficiência auditiva adquirida após o desenvolvimento da linguagem oral e tempo de uso do IC igual ou superior a doze meses. Contudo, somente 24 indivíduos responderam ao questionário NCIQ-P na íntegra, constituindo assim o grupo de indivíduos da pesquisa.
No que se referiu ao gênero, a divisão dos indivíduos mostrou-se equilibrada, com discreto predomínio do gênero masculino (54%). Em relação à escolaridade, a maioria dos indivíduos possuía Ensino Superior (70%) e Ensino Médio (21%). A média de idade foi de 36 anos, tendo o indivíduo mais jovem 18 anos e o mais velho 60 anos. O tempo de uso do implante coclear, em média, foi de 8 anos, variando entre 1,5 e 18 anos.
Os dados obtidos após o preenchimento do questionário foram submetidos à análise estatística no software SPSS versão 21. A análise descritiva foi realizada pela frequência e sua porcentagem para as variáveis qualitativas e pela mediana e intervalo interquartil para as variáveis quantitativas.
Para a avaliação da confiabilidade global do NCIQ, no que se referiu à consistência interna para a versão Português Brasileiro dos domínios existentes no questionário, foi utilizado o teste Alpha de Cronbach. O Alfa de Cronbach é uma ferramenta estatística que quantifica, numa escala de 0 a 1, a confiabilidade de um questionário. O valor mínimo aceitável para se considerar um questionário confiável é 0,7. O teste de Kruskal-Wallis foi utilizado para comparar os grupos de acordo com o gênero; e o coeficiente de correlação de Spearman, para investigar a relação entre a pontuação e o tempo de uso do implante coclear (para o cálculo do tempo de uso do IC foi considerada a data da ativação do dispositivo). O nível de significância adotado foi de 5%.
A versão traduzida do NCIQ compreendeu as sessenta questões propostas pela versão original, divididas em três domínios gerais, com seus respectivos subdomínios: Físico (Percepção básica do som, Percepção avançada do som e Produção de fala), Psicológico (Autoestima) e Social (Atividade e Funcionamento Social).
No que se referiu ao conteúdo semântico das questões, na comparação entre as duas traduções, foram encontradas pequenas divergências para os termos Impairment - traduzido como problema auditivo, Hobbies - traduzido como passatempo, Front door - traduzido como porta de entrada e Sticking up for yourself - traduzido como colocar-se. Estas divergências não interferiram na tradução do NCIQ, uma vez que, ao longo da tradução reversa deste instrumento, não foram encontradas discrepâncias nos termos e sentido das questões quando comparados com a versão original em inglês.
A versão traduzida do questionário NCIQ (Anexo A) foi aplicada nos indivíduos de pesquisa e respondida em sua totalidade, não sendo encontradas dificuldades em relação à compreensão das questões. O título do questionário traduzido para o Português Brasileiro foi definido como Questionário Nijmegen de Implantes Cocleares (NCIQ-P).
O coeficiente de Alpha de Cronbach calculado para todos os domínios e subdomínios existentes no NCIQ-P representou a confiabilidade global do questionário (0,78), demonstrando boa consistência interna, tanto para os domínios existentes no questionário como para a análise geral NCIQ-P (Tabela 1).
Tabela 1 Valores do coeficiente de alpha de Cronbach para os domínios e subdomínios do NCIQ-P
Domínio | alpha de Cronbach |
---|---|
Percepção básica do som | 0,76 |
Percepção avançada do som | 0,90 |
Produção da fala | 0,77 |
Psicológico | 0,72 |
Limitação de atividades | 0,92 |
Interações sociais | 0,75 |
Total | 0,78 |
Foram observados benefícios nos diferentes aspectos relacionados à qualidade de vida, uma vez que pontuações elevadas foram obtidas tanto na pontuação geral do NCIQ-P (70,25) quanto nos domínios social (71,1), físico (70,9) e psicológico (66,5).
Dentre os subdomínios do questionário, aqueles que apresentaram maior média foram: percepção avançada dos sons (76,8), limitações em atividades (73,1) e percepção básica dos sons (72,7) (Figura 1).
As pontuações obtidas em cada domínio e seus respectivos subdomínios foram analisadas em relação ao tempo de uso do IC e ao gênero dos indivíduos participantes. Não foi encontrada correlação entre o tempo de uso do IC e os domínios e subdomínios do NCIQ-P (Tabela 2); bem como a variação dos escores do NCIQ-P não diferiu entre os gêneros (Tabela 3).
Tabela 2 Correlação entre o tempo de uso do IC e os domínios/subdomínios do NCIQ-P
Domínios/Subdomínios | R** | p |
---|---|---|
Físico | -16%* | 0,47* |
Percepção Básica dos sons | 5% | 0,82 |
Percepção avançada dos sons | -21% | 0,32 |
Produção de fala | -24% | 0,27 |
Social | 0%* | 0,99* |
Limitações em atividades | -1% | 0,95 |
Interações sociais | 8% | 0,72 |
Autoestima | -21%* | 0,33* |
*Valores estatisticamente significantes (P<0,05);
**R: coeficiente de correlação de Spearman
Tabela 3 Medidas descritivas para os domínios e subdomínios do NCIQ de acordo com o gênero
Domínios/Subdomínios | Gênero | Média | Desvio padrão | Mediana | Q1* | Q3* | Mínimo | Máximo | p |
---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
Percepção Básica dos sons | F | 71,4 | 15,7 | 75,0 | 65,0 | 81,3 | 35,0 | 92,5 | 0,9 |
M | 73,8 | 9,4 | 75,0 | 70,0 | 82,5 | 57,5 | 85,0 | ||
Percepção avançada dos sons | F | 73,0 | 21,6 | 62,5 | 56,3 | 95,2 | 42,5 | 100,0 | 0,4 |
M | 80,0 | 15,6 | 82,5 | 67,5 | 93,8 | 55,0 | 100,0 | ||
Produção de fala | F | 67,0 | 14,8 | 65,0 | 58,8 | 75,0 | 45,0 | 97,5 | 0,6 |
M | 60,0 | 18,8 | 65,0 | 55,0 | 72,5 | 20,0 | 82,5 | ||
Físico | F | 70,5 | 15,6 | 70,0 | 60,0 | 83,4 | 48,4 | 96,7 | >0,99 |
M | 71,3 | 11,1 | 73,5 | 66,1 | 80,0 | 52,5 | 86,7 | ||
Autoestima | F | 67,5 | 15,6 | 67,5 | 62,5 | 76,1 | 35,0 | 92,5 | 0,5 |
M | 65,6 | 13,9 | 60,0 | 57,5 | 72,5 | 50,0 | 92,5 | ||
Limitações em atividades | F | 76,9 | 13,7 | 72,5 | 68,9 | 82,5 | 55,0 | 100,0 | 0,8 |
M | 69,9 | 16,3 | 75,0 | 65,0 | 77,5 | 32,5 | 88,9 | ||
Interações sociais | F | 73,4 | 8,9 | 70,0 | 67,1 | 77,5 | 65,0 | 88,9 | 0,2 |
M | 65,7 | 11,9 | 67,5 | 62,5 | 75,0 | 45,0 | 83,3 | ||
Social | F | 75,1 | 10,9 | 70,0 | 68,7 | 78,8 | 60,0 | 94,4 | 0,6 |
M | 67,8 | 13,5 | 71,4 | 68,8 | 75,0 | 38,8 | 86,1 |
*Q1: primeiro quartil; *Q3: terceiro quartil
O presente estudo teve como objetivo traduzir e adaptar culturalmente para o Português Brasileiro o Nijmegen Cochlear Implantation Questionnaire (NCIQ), bem como descrever os resultados de qualidade de vida em adultos usuários de IC, de modo a disponibilizar para a comunidade clínica e científica uma ferramenta para a análise da qualidade de vida desta população.
A utilização de um questionário específico para avaliar a qualidade de vida em usuários de IC permite que possam ser identificadas particularidades pertinentes a este grupo clínico de casos, no sentido de providenciar um registro clínico útil, capaz de orientar os objetivos do tratamento e registrar pequenas mudanças após a intervenção(16).
A tradução e a validação do NCIQ para diversos idiomas, entre eles, italiano, espanhol e chinês, proporcionaram uma ampla utilização deste instrumento no cenário clínico atual(17-19).
No que se referiu à tradução e adaptação semântica do NCIQ para o Português Brasileiro, é importante pontuar que os participantes deste estudo não encontraram dificuldades de compreensão no conteúdo das sentenças. Todas as questões foram preenchidas por todos os participantes, dado este que contempla a recomendação dos autores da versão original do questionário e que assegura a equivalência cultural do questionário para usuários do IC falantes do Português Brasileiro(20).
A versão traduzida do NCIQ para o Português Brasileiro apresentou boa consistência interna (valor do coeficiente de α de Cronbach de 0,78), corroborando os dados descritos na literatura(8,18).
Assim, como observado em estudos anteriores, os resultados desta pesquisa evidenciaram que, após um ano e cinco meses de ativação do IC e independentemente do gênero, houve um efeito positivo na qualidade de vida dos usuários para todos os domínios avaliados: físico, social e psicológico(8,21,22).
A pontuação global obtida no grupo de indivíduos avaliados para a versão NCIQ-P, (70,25), aproximou-se dos dados apresentados por outros autores, (74,2) e (63,26), e descritos na literatura científica(18,22).
O domínio social foi o que apresentou maior pontuação, concordando com os dados descritos em estudos anteriores(23,24). Este resultado está associado ao fato de este domínio melhor representar a maneira pela qual o IC interfere positivamente na qualidade de vida de seus usuários à medida que a melhora das habilidades auditivas proporciona benefícios na comunicação, de modo a contribuir para melhor interação social nas atividades de vida diária e ampliar as relações sociais. Outros estudos já haviam descrito que o benefício alcançado na percepção de fala parece ser um preditor para ganhos na qualidade de vida(24-26).
A elevada pontuação obtida neste estudo para os subdomínios percepção básica e avançada dos sons, pertencentes ao domínio físico, também foi descrita na literatura científica da área(10,14,24,27,28).
Possivelmente, estes subdomínios são os que refletem de maneira mais pontual os benefícios diretos do IC, no sentido de propiciar melhor e maior acesso aos sons da fala e, com isso, reduzir o impacto da deficiência auditiva para as situações de comunicação.
Os autores da versão original do NCIQ(8) destacaram que a pontuação expressiva nos subdomínios de percepção básica e avançada dos sons seria plenamente justificada se entendermos que, anteriormente à cirurgia, esses indivíduos estavam em privação auditiva e, após a ativação do IC, passaram a ter acesso aos sons da fala. Outros estudos também já haviam identificado que estes subdomínios se caracterizaram como os aspectos que melhor refletiram os benefícios diretos do uso desta tecnologia(10,27).
No que se referiu ao tempo de uso de IC, não foi encontrada correlação entre esta variável e a pontuação obtida para os domínios e subdomínios do questionário. Outros autores também não encontraram relação significativa entre a avaliação da qualidade de vida e o tempo de uso do IC(23).
É importante destacar que os benefícios obtidos com o IC podem variar dentro do grupo estudado, visto que há inúmeros fatores capazes de interferir nos resultados tais como a etiologia da deficiência auditiva, a idade do diagnóstico e da intervenção, o tempo de privação sensorial, a sobrevivência de elementos neurais a serem estimulados, bem como fatores relacionados à motivação, ao uso e ao apoio familiar. Associado a isso, a subjetividade existente para o termo qualidade de vida também deve ser considerada, uma vez que se relaciona à percepção individual que cada indivíduo tem em relação a sua situação de saúde.
Neste contexto, após a disponibilização do NCIQ-P para a avaliação da qualidade de vida de usuários de IC falantes do Português Brasileiro, a comparação entre os dados obtidos por meio deste instrumento clínico e os resultados dos testes de percepção de fala poderá contribuir de maneira significativa para a compreensão mais detalhada do impacto e efetividade desta tecnologia, bem como para o monitoramento da evolução do paciente ao longo do tempo de uso do IC.
Foi possível traduzir e adaptar culturalmente o NCIQ para o Português Brasileiro de modo a disponibilizar para os profissionais da área um instrumento válido e útil para avaliação dos aspectos relacionados à qualidade de vida após a ativação do IC. Na perspectiva dos usuários, o uso do IC beneficiou a qualidade de vida, principalmente nos domínios físicos e sociais. Não foi verificada correlação entre as variáveis gênero e tempo de uso do IC para os domínios e subdomínios de qualidade de vida existentes no questionário.