“Nise, o coração da loucura”: representações femininas em um filme sobre a terapêutica ocupacional

“Nise, o coração da loucura”: representações femininas em um filme sobre a terapêutica ocupacional

Autores:

Christianne Luce Gomes,
Cristiane Miryam Drumond de Brito

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional

versão On-line ISSN 2526-8910

Cad. Bras. Ter. Ocup. vol.27 no.3 São Carlos jul./set. 2019 Epub 22-Ago-2019

http://dx.doi.org/10.4322/2526-8910.ctoao1730

Abstract

Introduction

This article integrates a more comprehensive research on the representations of women in contemporary Latin American films, shown in the cinema, in order to identify possibilities of female empowerment. The film analyzed in this article is Nise - the heart of madness, which focuses on the work begun in the 1940s by Nise da Silveira in a psychiatric hospital in Rio de Janeiro.

Objective

The purpose of this text is to analyze how the protagonist of this film is represented. In this process, were considered the sociocultural contexts, the identity markers and the conflicts that constitute the character Nise; the links it establishes with the men in the film, and the possibilities for women's empowerment.

Method

The methodology had a qualitative approach and involved three strategies: bibliographic research, film analysis and interviews, which contributed to understand how the public assimilates the female characters.

Results

The results showed that Nise was portrayed in the film as an empowered woman and professional who did not accept violent mental treatments. She has developed groundbreaking work with her small team, transforming an abandoned therapeutic space into an art studio for internees.

Conclusion

Nise inaugurates an occupational therapy that contrasts with the pragmatic and inhuman psychiatry of the time when using the language of art to discover the human being with his expressive narratives and articulated in networks. She resisted every form of oppression imposed by her colleagues and fought for the human and libertarian right of both women and those considered insane.

Keywords:  Motion Pictures; Art Therapy; Occupational Therapy

1. Considerações Iniciais

O cinema é uma forma de arte mediada por imagens e sons, que constitui uma experiência de lazer apreciada por pessoas de diferentes idades e segmentos sociais do mundo inteiro. O que é projetado nas telas do cinema atrai o olhar dos espectadores e difunde valores que vão sendo assimilados por meio de filmes, que também são assistidos pelas TVs, DVDs, computadores, tablets e smartphones com acesso à Internet. Essa experiência influencia as interações sociais cotidianas e difunde significados. Muitos deles dizem respeito, por exemplo, à maneira como as mulheres são retratadas no cinema. Como elas são representadas nos filmes que assistimos? São enunciadas possibilidades de empoderamento para as mulheres?

Questões como essas lançam relevantes desafios para a terapia ocupacional. Afinal, essa área reconhece o lazer2 como uma atividade da vida diária, se apropria de diferentes formas de arte – como o cinema – em seu campo de formação/atuação profissional, e carece de pesquisas sobre a relação do universo feminino com a constituição da própria terapia ocupacional. O estudo dessas temáticas se faz cada vez mais necessário, especialmente em sociedades como a brasileira, na qual as relações desiguais de gênero se perpetuam histórica e culturalmente, cerceando as possibilidades de empoderamento.

Empoderamento é um processo por meio do qual as mulheres vão em busca de recursos que lhes permitam ter voz, visibilidade, influência, capacidade de ação e de decisão diante das situações de exclusão decorrentes da hegemonia/dominação masculina. O acesso a esses recursos nem sempre é fácil e simples, por isso é preciso desenvolver ações estratégicas mais ou menos coordenadas para obtê-los. Como as pessoas que pretendem ser empoderadas muitas vezes já estão em desvantagem – o que dificulta a obtenção desses recursos –, são necessárias intervenções externas por parte de governos, universidades, movimentos sociais, ONGs, etc. (HOROCHOVSKI; MEIRELLES, 2007). Tais intervenções precisam comprometer-se com o combate à exclusão e com a promoção dos direitos das mulheres, enfrentando as históricas desigualdades e assimetrias em relação aos homens. O empoderamento aqui delineado está ligado à superação, ou pelo menos, à criação de condições para o enfrentamento de explorações diversas. Implica, portanto, um horizonte emancipatório para as mulheres.

A compreensão dessas desigualdades, bem como o seu enfrentamento, precisa ser problematizada. Nessa direção, o presente artigo propõe seu estudo e análise por meio do cinema, uma forma de arte e experiência de lazer que, como foi mencionado, ainda é pouco pesquisada pela terapia ocupacional. Cabe esclarecer que as discussões desenvolvidas neste artigo são parte integrante de uma pesquisa, mais abrangente, sobre as representações das mulheres em filmes latino-americanos contemporâneos, visando identificar possibilidades de empoderamento feminino (GOMES, 2018).

O filme analisado no presente artigo é Nise – o coração da loucura (Figura 1), que focaliza o trabalho iniciado na década de 1940 pela médica Nise da Silveira em um hospital psiquiátrico do Rio de Janeiro. Esse longa-metragem de ficção (NISE, 2015), Direção de Roberto Berliner, é protagonizado pela atriz Glória Pires e foi baseado no livro “Nise – Arqueóloga dos Mares”, de autoria do jornalista Bernardo Horta. A análise dessa cinematografia foi impulsionada por algumas indagações: De que maneira a personagem Nise da Silveira é representada? Quais são os contextos, os marcadores identitários e os conflitos que a constituem? Que tipo de vínculo ela estabelece com os homens do filme? Quais possibilidades de empoderamento são enunciadas nesse filme?

Figura 1 Cartaz do filme Nise, o coração da loucura. Fonte: Cineart (2016).  

Assim, o objetivo deste artigo é analisar de que maneira as personagens do filme Nise – o coração da loucura, em especial a protagonista da trama, são representadas. Nesse processo, são considerados os contextos socioculturais, os marcadores identitários e os conflitos que constituem a personagem Nise da Silveira; os vínculos que ela estabelece com os homens do filme e as possibilidades de empoderamento feminino.

O próximo tópico apresenta a metodologia adotada na pesquisa. Em seguida, o artigo aborda o contexto do filme – subúrbio do Rio de Janeiro, década de 1940 –, tendo em vista contextualizar a sociedade e o campo profissional em que Nise da Silveira atuou: um hospital psiquiátrico. Posteriormente, são desenvolvidas análises baseadas na proposta terapêutica construída por Nise, conforme as vivências que são apresentadas no filme. O penúltimo tópico, por sua vez, discute a relação da protagonista com os homens do filme, seguida de considerações finais.

2. Método

A metodologia desta investigação qualitativa envolveu três estratégias: pesquisa bibliográfica, análise fílmica e entrevistas. A pesquisa bibliográfica foi desenvolvida por meio do estudo de livros, artigos publicados em periódicos e também de outros textos, tais como dissertações e teses (LAVILLE; DIONNE, 1999), tendo em vista fundamentar as discussões propostas, neste artigo, sobre as representações das mulheres no filme Nise – o coração da loucura.

O lócus da investigação foi um cinema que atendeu os seguintes critérios: (a) estar localizado em Belo Horizonte, (b) conceder, formalmente, anuência institucional para a realização da investigação, (c) possuir bilheteria para vender ingressos dos filmes exibidos nas suas salas e (d) ter programação que contempla filmes latino-americanos com certa regularidade.

A opção pelo recorte latino-americano deve-se, principalmente, a duas razões: mesmo que os filmes latino-americanos tenham alcance limitado em termos de distribuição e exibição no circuito comercial brasileiro, restringindo-se quase sempre a mostras e festivais de cinema, eles tematizam peculiaridades sociais, culturais, históricas e políticas que são próprias da região, diferentemente daqueles que são produzidos em outros continentes, sobretudo nos Estados Unidos. Além disso, o recorte geográfico está de acordo com uma das linhas do Grupo de pesquisa Luce (UFMG/CNPq), dedicada ao estudo de diferentes práticas de lazer na América Latina.

Os filmes latino-americanos considerados na pesquisa foram aqueles exibidos no cinema estudado durante os 9 meses da fase de coleta de dados. Esse período simbólico foi considerado suficiente para a investigação, dado o dinamismo da programação semanal das 4 salas que compõem aquele espaço. Os critérios de seleção de cada filme foram os seguintes: ser produzido em um país latino-americano, ser longa-metragem de ficção e mencionar pelo menos uma personagem feminina na sinopse divulgada pelo próprio cinema (GOMES, 2018). Apenas 15 filmes atenderam os critérios da pesquisa, sendo 3 da Argentina3, 1 do Chile4 e 11 do Brasil5.

Como se vê, a quantidade de filmes brasileiros selecionados na pesquisa é expressiva em comparação com os filmes dos demais países latino-americanos, mas, não se pode afirmar que isso indica uma maior valorização da nossa produção nacional. Se a exibição de filmes brasileiros não fosse obrigatória no Brasil6, talvez estivessem ausentes das salas de cinema existentes no país. Afinal, as produções hollywoodianas predominam no mercado cinematográfico mundial, deixando pouco espaço para a distribuição e projeção de filmes de outros países e conformando, assim, o gosto do espectador.

Outro aspecto a ser salientado é que o terceiro critério de seleção dos filmes (mencionar pelo menos uma personagem feminina na sinopse) foi determinante na pesquisa. A sinopse dos filmes exibidos no cinema pesquisado foi uma primeira evidência da relação desigual de gênero, e da invisibilização das mulheres nesse contexto. Em geral, os filmes são dirigidos e protagonizados por homens, refletem o ponto de vista masculino e, quase sempre, configuram as personagens femininas apenas como um suporte para eles. Isso não ocorreu com alguns filmes selecionados na pesquisa, entre os quais Nise – o coração da loucura, analisado neste artigo.

As entrevistas foram feitas com espectadoras e espectadores fruidores desses filmes, com o intuito de compreender como as personagens femininas eram representadas. Para isso, logo após a sessão o público presente era convidado, aleatoriamente, para colaborar voluntariamente com a pesquisa por meio da concessão de uma entrevista sobre o filme assistido. Para cada filme deveriam ser realizadas, no mínimo, três entrevistas individuais.

Todos os voluntários entrevistados assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), que foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais, assim como todo o protocolo da investigação. As entrevistas foram gravadas e transcritas integralmente. O anonimato de cada pessoa foi preservado, sendo seu depoimento citado na pesquisa por meio da abreviatura do nome e do último sobrenome, seguidas da idade e indicação da letra “F” para as mulheres, ou “M” para os homens entrevistados. No caso do filme Nise, as três pessoas entrevistadas foram designadas pelas siglas G.F.69F, E.M.39F, e V.A.54F (GOMES, 2018).

A análise fílmica buscou fundamentos em França (2002) e Vanoye e Goliot-Lété (1994) e foi sistematizada em três momentos, que demandaram: (a) assistir ao filme no cinema, para tomar conhecimento de seu conteúdo, (b) assistir ao filme pela segunda vez, procurando articulá-lo com o problema investigado, que é a representação das mulheres no cinema latino-americano, e (c) aprofundar a análise fílmica, identificando e analisando as cenas consideradas mais relevantes para a pesquisa.

As análises foram subsidiadas pela “sociologia das ausências” e pela “sociologia das emergências” (SANTOS, 2002), tendo em vista a importância de superar o modelo de racionalidade ocidental dominante. Enquanto a sociologia das ausências se debruça sobre aquilo que é produzido como não-existente, transformando objetos impossíveis em possíveis e elementos ausentes em presentes; a sociologia das emergências propõe a ampliação simbólica de uma realidade específica – neste caso, das representações das mulheres no cinema.

3. Nise e o Contexto do Filme

Na sociedade brasileira das primeiras décadas do século XX, as mulheres deveriam cumprir, com inquestionável prioridade, as funções sociais de esposas, mães e donas de casa. No contexto do filme aqui analisado, além de se responsabilizarem pelas tarefas domésticas, algumas mulheres poderiam exercer atividades profissionais que não exigissem força física ou que não fossem tradicionalmente realizadas pelos homens, como o magistério, por exemplo. Assim, pouco a pouco as mulheres foram se inserindo no mercado formal de trabalho (OLIVEIRA; FURTADO, 2014).

Como pondera Maruani (2009, p. 85), uma mulher “ter um emprego significa ter trabalho e salário, mas significa também ter um espaço na sociedade”. Nise foi uma dessas mulheres trabalhadoras. No filme baseado em sua biografia, ela é retratada como a única médica que trabalha em um hospital psiquiátrico.

O filme foi inspirado na vida dessa psiquiatra nascida em Alagoas, a primeira aluna mulher a se formar na Faculdade de Medicina da Bahia, numa turma de 150 homens. O filme engloba um curto período de tempo no início da década de 1940, quando Nise retoma o trabalho no Hospital Psiquiátrico Pedro II, localizado no bairro Engenho de Dentro, no subúrbio do Rio de Janeiro. Ela iniciou o trabalho de terapia ocupacional com oficinas de marcenaria, sapataria, encadernação, costura, trabalhos agrícolas e atividades expressivas: pintura, dança, modelagem, escultura e música.

Como será tratado mais adiante, sua concepção da loucura é baseada na psicologia analítica de Jung (BRITO, 2001). Embora não seja mostrado no filme, ela está retornando ao trabalho após cumprir dois anos de prisão e cinco de reclusão. Ela foi presa durante o Estado Novo por se envolver em atividades que contestavam o governo Vargas, e era acusada de “ser comunista” porque frequentava círculos marxistas.

A primeira cena do filme, quando ela se coloca diante da frieza do muro de concreto e do pequeno portão que dá acesso ao interior do hospital, é uma metáfora do que virá pela frente. Ela bate, mas ninguém aparece para atendê-la. Ela insiste e bate com mais força várias vezes, sem sucesso, até que se vê obrigada a esmurrar o portão, que por fim é aberto para que ela entre. A determinação e a persistência demonstradas nos minutos iniciais do filme serão imprescindíveis para o trabalho psiquiátrico que ela terá que desenvolver naquela instituição.

Como foi salientado por uma entrevistada:

Aquela cena é muito impressionante. Porque aquela cena inicial já mostra o que ela vai enfrentar. Então é uma barreira intransponível, é um paredão de metal. E logo ali ela já bate, não abre, bate outra vez, insiste e não abre. Então chega uma hora que ela se lança totalmente para que aquela porta se abra, aquela muralha. Isso aí já foi, pra mim, muito representativo, sabe. Da força da mulher representada ali na Nise, e da capacidade de adentrar nesses espaços. Espaços de pavor (G.F.69F).

Naquele hospital simples, Nise é encaminhada para um auditório onde os médicos estão reunidos e um deles demonstra os tratamentos psiquiátricos considerados como os mais modernos na época: o eletrochoque e a lobotomia (Figura 2). A presença de Nise naquele ambiente provoca de imediato um estranhamento porque ela é a única mulher da equipe médica.

Figura 2 Personagem Nise observa o uso das novas técnicas psiquiátricas. Fonte: Adoro Cinema (2016).  

O palestrante afirma que técnicas como eletrochoque e lobotomia estava se popularizando e deveriam ser adotadas por todos naquele hospital. Nise fica estarrecida com os rumos da medicina psiquiátrica e questiona abertamente o uso de práticas agressivas e desumanas, com resultados irreversíveis e tão lesivos para as pessoas internadas com distúrbios mentais. Essa atitude chamou a atenção de uma entrevistada:

Naquela posição dos homens, dos enfermeiros usando a força física e a violência, ela vem com a questão do cuidado, questionando a violência. Tem uma fala dela, que é a fala do início do filme, que me marcou muito: “Eu não acredito na cura pela violência” (E.M.39F).

Diante de sua recusa em adotar as novas técnicas violentas, Nise é incumbida da Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação (STOR), um setor desvalorizado e desacreditado pelos profissionais daquele hospital. Ela se dirige ao fundo do edifício e se apresenta como a nova chefe da seção para os enfermeiros Lima e Ivone, que deverão auxiliá-la em seus trabalhos cotidianos com as pessoas internadas naquela instituição psiquiátrica.

Nise não tem dificuldades para exercer sua autoridade. Constata que o local está totalmente abandonado e sua primeira providência é fazer uma limpeza e retirar os entulhos que ali foram depositados, solicitando a colaboração dos enfermeiros. Lima se recusa a fazer esse tipo de tarefa, mas, Ivone se prontifica a ajudá-la. A enfermeira Ivone é negra, colaborativa e acessível7.

Sobre essa profissional, foi comentado em uma das entrevistas:

Me chama a atenção a Nise, mas também a enfermeira, a Ivone, ela também me chamou muita atenção. A Nise pela sua força, pela sua potência, pela crença que ela tem no trabalho dela, no que ela pode desenvolver e aonde ela quer chegar, uma firmeza muito grande com os propósitos dela enquanto profissional e médica psicoterapeuta, e acreditar nessa força do trabalho em si. E a Ivone me chamou atenção porque ela não tinha uma postura. Ela era uma profissional que não tinha relevância alguma, mas que passa a acreditar no processo e ela acredita nisso e vai. Então ela se torna uma cúmplice do trabalho que a médica vai fazer. Além de ser uma enfermeira negra. De ser uma pessoa com todos os problemas que a etnia sofre, da pobreza. Ela não era uma esquizofrênica, mas o papel dela era menor, era secundário. Aí ela ganha um destaque nisso (V.A.54F).

Nise da Silveira, junto com Ivone, inicia um trabalho que aponta também para a luta das mulheres e da condição delas no Brasil. Como elas seriam ouvidas, já que historicamente as mulheres sempre ocuparam lugar social de inferioridade, estando vulneráveis a diversos tipos de discriminação? Soma-se a essa preocupação o fato de uma ser nordestina e a outra, negra.

Embora passe despercebido no filme, a enfermeira Ivone é, na realidade, a sambista que ficou conhecida como “dona Ivone Lara”, uma mulher que também esteve à frente do seu tempo. Apesar da origem pobre, negra e de subúrbio, Ivone Lara tornou-se ícone do samba, desbravando muitos espaços considerados próprios do universo masculino. Essa “dama do samba”, segundo Scheffer (2016), foi uma das primeiras assistentes sociais negras do Brasil. Com o auxílio de Ivone, Nise desenvolve no hospital psiquiátrico um trabalho sensível que se contrapõe à ciência masculina e branca da época.

Assim, sob a liderança firme de Nise, é instaurado o tratamento humanizado e cuidadoso com seres humano considerados loucos, socialmente marginalizados, isolados e discriminados. Essa linha de trabalho é um contraponto à razão médica, privilégio reservado aos homens, no qual sua função era atuar nos meios físicos e químicos, consertando os enguiços mecânicos (SILVEIRA, 1992). Nise, por meio de seu trabalho terapêutico humanizado, contesta essa racionalidade.

4. A Proposta Terapêutica Construída por Nise

“Estou cada vez menos doutora e cada vez mais Nise” (NISE, 2015).

Para desenvolver o trabalho terapêutico, uma das primeiras atitudes tomadas por Nise, no filme, é chamar de “clientes” as pessoas internadas naquele hospital psiquiátrico. Ela explica que “pacientes” deveriam ser os profissionais da saúde, no sentido de estarem abertos a exercitar a paciência no cuidado.

Inicia-se, então, um processo de penetrar no universo dos esquizofrênicos, de aproximar-se deles, de conhecer melhor suas dores e angústias e, ao mesmo tempo, melhorar suas condições de vida (CASTRO; LIMA, 2007). Nise dá voz aos internados e escuta atentamente o que eles revelam sobre si mesmos. Permite que eles a toquem e que um deles solte os seus cabelos presos em um coque. Ela tenta despertar o interesse do grupo brincando com uma bola improvisada com a meia fina que ela própria usava. Providencia tintas, pincéis, papéis, telas, tecidos e argila e estimula os internados a trabalharem com esses materiais. A equipe é ampliada com a participação voluntária de dois estudantes do curso de Belas Artes. O enfermeiro Lima, que a princípio demonstrou resistência em aceitar os novos tratamentos propostos por Nise, vai constatando os resultados positivos do trabalho e se torna mais um parceiro profissional da médica.

Nesse percurso, por meio da expressividade artística e de estudos baseados em Jung, ela comprova a capacidade criativa e o aprendizado dos esquizofrênicos (CASTRO; LIMA, 2007). O que importava para Nise era os seus clientes darem forma, mesmo que rudimentar, ao inexprimível pela palavra, as imagens carregadas de energia, desejos e impulsos (Figura 3).

Figura 3 Nise observa o trabalho terapêutico dos “loucos”. Fonte: Guatá Cultura em Movimento (2016).  

Para Nise, as imagens simbólicas exprimem processos psíquicos (SILVEIRA, 1992). Como esse trabalho terapêutico ultrapassava sintomas, ela partia do pressuposto que os psicóticos, à medida que expressavam imagens inconscientes, criavam algo novo e transformador da realidade psíquica e da realidade compartilhada (CASTRO; LIMA, 2007).

Essa mulher, alagoana, ativista política em pleno Estado novo e pioneira no campo da terapêutica ocupacional, propôs um novo olhar e sistematizou uma nova forma de cuidar de pessoas consideradas loucas, portanto marginalizadas socialmente. No filme, ela demonstra uma força que foi relatada nas entrevistas:

Uma mulher super forte, determinada, com uma leitura de mundo muito bem elaborada, com a certeza muito definida do que ela queria fazer, quais eram os objetivos dela no hospital, com a capacidade de enfrentar esses desafios, que não foram poucos (V.A.54F).

[Chama a atenção] a personalidade revolucionária da Nise. Ela era naturalmente revolucionária, isso é fantástico [...]. A sensibilidade humana fora do normal, fora de série, uma grande sensibilidade e também a determinação dela. A coragem de enfrentar um ambiente assim, além de ser extremamente machista, extremamente cruel, que é o mundo médico daquela época (G.F.69F).

Nise, como exemplo de profissional e de mulher, a força feminina, a capacidade de mudança dela, no cenário daquela época, na década de 1940, ainda. Então, me impressionou muito [...] a força de mudança, a perseverança, o amor pela profissão e pelos pacientes (E.M.39F).

[...] apesar da mulher já ter se inserido bastante [no mercado de trabalho], os cargos de chefia ainda são ocupados por figuras masculinas. E naquela época ela teve uma posição de enfrentamento muito grande. Primeiro, por ser mulher, segundo no meio médico psiquiátrico, e terceiro, por uma inovação no método (E.M.39F).

É interessante destacar o subtítulo do filme, que qualifica Nise como “o coração” da loucura. A palavra coração pode estar representando o afeto e o acolhimento vivenciados na seção de terapêutica ocupacional. Para Nise da Silveira é necessário erigir um ambiente acolhedor e afetivo e, no filme, o terapeuta, os profissionais auxiliares e até mesmo os cães exercem um papel afetivo catalisador que cria condições para que as pessoas cindidas psiquicamente, possam se reorganizar. Para ela, o afeto cria condições de confiança (SCHLEDER; HOLANDA, 2015). Nessa linha de trabalho, além de os materiais expressivos serem disponibilizados aos internados, Nise e seus auxiliares também ficavam disponíveis a eles, sem interferir na criação. Essa relação foi denominada, por Nise, de afeto catalisador, uma vez que potencializava reações significativas que permitiam um contato com a realidade e com os outros (PEREIRA et al., 2016).

O coração, nesse âmbito, simboliza o feminino que acolhe, que engendra novas formas de existir, sendo Nise essa mulher e profissional que catalisa potenciais criativos com muita sensibilidade (Figura 4). Como afirmou uma entrevistada:

Figura 4 Princípios do acolhimento e escuta adotados por Nise. Fonte: Pipoca Moderna (2016)

Eu acho que a mulher, pode-se dizer que pela sensibilidade, teria um papel de humanização (G.F.69F).

A ação de Nise na seção de terapêutica ocupacional vivifica o arquétipo da Grande Mãe, o útero gerador da terra, provedora de todas as necessidades (WHITMONT, 1991). No período considerado, mitologicamente, como o início dos tempos – Paleolítico, por volta de 100.000 a 10.000 a.C. –, os estudiosos costumavam situar as origens do culto da Deusa, representadas por estátuas chamadas “Vênus Paleolíticas”. Essa representação divina, elaborada pela humanidade, é considerada pioneira e simboliza a Grande Mãe, geradora da vida (OLIVEIRA, 2005).

O encontro de Nise com os seus clientes potencializa-se na figura de mãe como divindade que gera, nutre e protege (NEUMANN, 2003). Até então, esses internados – considerados loucos – nunca tinham tocado em um profissional da área da saúde de maneira suave como fizeram com Nise. O que eles conheciam era a violência do eletrochoque, da camisa de força e do aprisionamento.

A luta pela existência da subjetividade desses loucos dialoga com o arquétipo da atualidade no qual o Patriarcado prevalece. Nise, como já dito, tem que esmurrar o portão para entrar no universo masculino da ciência e da medicina, mas sua ação não negligencia o afeto e o sensível, geralmente classificados como atributos femininos. O fato dela ser mulher e revolucionária pode ter facilitado a conduta de acolhimento, mas um homem também é capaz de exercer essa função acolhedora e humanizada. É necessário atentar para os perigos de naturalizações sexistas, que perpetua valores impregnados culturalmente.

Colaborando na inculcação de valores sexistas, diferentes mecanismos caracterizam sexualmente os gestos ou impõem papéis que reforçam os sentidos de mulher sensível, frágil e emotiva, em contraposição ao homem forte, racional e produtivo. Bourdieu (1996, 2002) discute a dominação masculina como uma forma de violência simbólica e considera a importância que os processos de socialização e educação adquirem na construção de cada pessoa. Essa construção não se limita ao social, pois, homens e mulheres aprendem os gestos, os movimentos e as falas que lhes são determinados e impostos pela cultura.

5. A Personagem Nise e os Homens do Filme

“Para navegar contra a corrente são necessárias condições raras: espírito de aventura, coragem, perseverança e paixão” (NISE, 2015).

No filme, Nise não tem filhos. Ela é casada com Mario, um médico sanitarista, e eles vivem juntos, com alguns gatinhos. Ambos se formaram na mesma turma da Faculdade de Medicina da Bahia e ela era a única mulher daquele grupo, composto por mais de 150 estudantes homens. No filme, Nise e Mario são companheiros e carinhosos um com o outro. A narrativa só apresenta informações sobre Mario quando ele está em casa, com Nise. Ele faz tarefas domésticas, providencia um bolo surpresa para comemorar o aniversário dela e escuta com atenção as dificuldades e os avanços alcançados pelos internados no hospital psiquiátrico a partir do trabalho terapêutico realizado por sua esposa.

Chamou a atenção de uma entrevistada a vida particular e simples de Nise, vivida:

Ali com o marido, com os gatinhos. Esse outro lado mais pessoal, vamos dizer assim, a vida pessoal dela eu acho que chama a atenção pelo contraste com a fortaleza que ela é (G.F.69F).

Outra entrevistada considera que o marido não a apoia totalmente, quando ele indaga:

Você vai enfrentar isso? Lá não é lugar pra você. De uma certa forma ele valoriza, mas também não acredita que ali ela possa desenvolver um bom trabalho. É isso a sociedade brasileira. O que os homens fazem é isso, tentar colocar ela o tempo todo no lugar de mulher submissa que tem que as leis, as regras, e fazer aquilo da forma como está posto. Mas graças a Deus ela não faz isso (V.A.54F).

A pergunta acima, no entanto, pode ser vista como um cuidado dele com Nise, e preocupação com os desgastes experimentados por ela no trabalho. Mario, inclusive, incentiva que ela escreva uma carta para Jung compartilhando a proposta terapêutica que vinha realizando no Rio de Janeiro e se alegra quando ela recebe uma resposta. Esse episódio é interessante porque Nise se surpreende ao constatar que Jung pensa que a pessoa responsável por admirável trabalho é um médico, e não uma médica. Ela comenta, descontraída: “Olha só, Jung também é machista”.

Mesmo tendo que enfrentar inúmeras dificuldades, o filme retrata Nise como uma mulher decidida e perseverante. Por isso, ela

Conseguiu boas parcerias com o mundo masculino. A começar ali do marido que parece que vivia muito bem com ela, a entendia. E com os artistas: tiveram sintonia com ela, entenderam, ela conseguiu fazer essa ponte, essa ligação. E também com o Jung, que era um espírito muito diferenciado pra época. Então ela teve essa conexão com esse mundo masculino, essa intelectualidade forte. Ela também tinha isso, intelectualmente ela era uma pessoa muito forte. E também com os próprios pacientes. Ela tinha uma lida muito boa tanto com as mulheres quanto com os homens. Ela era uma pessoa realmente muito equilibrada (G.F.69F).

Apesar dos êxitos alcançados pelos internados que estavam sob os cuidados de Nise, seus colegas de profissão não aprovam a proposta terapêutica que ela desenvolvia e faziam de tudo para boicotá-la. Ela não se dobrava e permanecia firme (Figuras 5).

Figuras 5 O grupo de internados antes e depois do trabalho terapêutico. Fonte: Sigamos Juntas (2016); Festival do Rio (2016)

O crítico de arte Mário Pedrosa ficou surpreso com a qualidade das obras produzidas pelos internados e deu ideias para que Nise seguisse em frente. Quando seu trabalho foi desqualificado por um médico na exposição de arte que ela promoveu no próprio hospital, ela bradou: “O meu instrumento de trabalho é o pincel. O seu, é o picador de gelo”.

Com essa frase impactante, Nise coloca em evidência os trabalhos cruéis e invasivos no campo da psiquiatria e da saúde mental, aos quais ela se contrapôs. A lobotomia consiste em uma intervenção cirúrgica que, naquela época, era realizada com o auxílio do picador de gelo, um “avançado” instrumento utilizado para retirar uma parte do cérebro. Apesar de seus danos irreversíveis, muitas vezes a lobotomia era feita sem autorização prévia do paciente ou de seu responsável. A eletroconvulsoterapia era empregada para deixar o paciente inconsciente e a anestesia, quando aplicada, era local.

O filme mostra que os colegas de profissão de Nise, adeptos de práticas invasivas na psiquiatria, ficavam contrariados e incomodados com os êxitos do trabalho terapêutico que ela desenvolvia. Eles colocaram inúmeros obstáculos e chegaram ao absurdo de eliminar cruelmente os cães que foram introduzidos por Nise naquele contexto para estimular a afetividade dos internados. Muitas práticas de lazer vivenciadas por eles, como passeios e piqueniques em locais públicos, foram proibidos.

Agora os médicos é aquela história, o poder instituído. É uma distorção, eu acho, do mundo masculino, aquele abuso de poder, aquela autossuficiência, então nisso daí ela foi muito positiva. Ela mostrava uma atitude de que estava disposta a enfrentar. Ela enfrentou. Ela foi muito forte nesse sentido. Ela relacionou bem com esse mundo machista, poderoso. Porque ela enfrentou e ela venceu (G.F.69F).

Ela é extremamente determinada, muito forte, muito firme. E ela não desconsidera os homens. Tem até esse movimento: Quem são vocês? Quem vocês pensam que são em relação a mim? Vocês pensam que são fortes, eu também sou forte. Ela enfrenta os homens. E os homens em relação a ela, é uma relação de dominação, porque um deles fala assim: Quem manda aqui somos nós. A forma de tratar os doentes a gente já decidiu. Você vai ficar lá na terapia ocupacional porque lá é lugar de mulher, não é aqui. Então acho que ela se impõe diante dos homens (V.A.54F).

Neste filme, os marcadores identitários que constituem Nise são gênero e profissão, sendo igualmente válidos para algumas personagens femininas que interagem com ela. De modo geral, todas as personagens femininas são representadas de uma forma interessante e positiva nesta cinematografia brasileira.

[Nise] propriamente, mostrando o espírito forte da mulher. A enfermeira que entendeu logo a questão e deu a sua colaboração. A artista que ajudou também tinha essa postura diferente, interessante. E a própria paciente, aquela mulher gorda [Adelina] também estava se virando ali, realizando o desejo dela, buscando sexo... desde aquela hora em que ela estava produzindo aquela bonequinha a partir de nada. Aquela figura também é muito interessante porque ela estava mergulhada no nada, vamos dizer assim, mas ela estava tirando alguma coisa dali. Ela estava produzindo (G.F.69F).

Se não fosse a Glória Pires talvez a gente não daria tanta credibilidade pra Nise. Porque a Nise verdadeira é diferente, com aqueles óculos dela de fundo de garrafa, a boca, os dentes. Parecia uma mulher que não transmitia a força que realmente ela tinha, e a Glória Pires foi muito forte nessa personagem. E a fala da Nise real, da Nise da Silveira no final, eu acho que ela resume tudo que o filme tenta dizer. Ela fala que a gente pode viver 20 mil vidas, mas a gente tem que escolher a forma como a gente vai transformar esse mundo e é isso que a Nise é. Essa pessoa que tem garra, que tem determinação, que acredita no propósito que ela tem, e que ela luta e enfrenta todos os desafios (G.F.69M).

Para finalizar as discussões sobre a representação das mulheres neste filme, é pertinente destacar a seguinte reflexão:

A gente não quer nada mais do que o respeito, ser tratada de forma igualitária, de forma justa. Eu estou percebendo que apesar de toda evolução a gente está tendo um retrocesso na sociedade atual, entendeu? Principalmente muito reacionária, conservadora e machista. [...] A impressão que eu tenho é que nossa luta não vai acabar, a nossa luta ainda não acabou e a gente vai ter que resgatar, inclusive, essa Nise aí do filme, que é lutadora (E.M.39F).

Essa entrevistada revela o sentimento de que as mulheres ainda precisam lutar muito, principalmente em momentos de retrocesso social e político com o qual nos deparamos. O trabalho revolucionário de Nise da Silveira, de enfrentamento do ambiente machista em que vivia tem que ser valorizado, pois a luta das mulheres pelo respeito prossegue no Brasil e em vários países do mundo.

Desse modo, Nise da Silveira ampliou a compreensão do feminino no setor terapêutico ocupacional, que até então era visto pelos médicos como um lugar para se realizar atividades meramente braçais. Neste setor desvalorizado, Nise contestou a existência do embotamento afetivo, percebeu em seus clientes intensos afetos e possibilitou a manifestação dos mesmos na arte. Motivada por um intenso amor ao ser humano, ela ousou buscar a pessoa que estava invisibilizada e aprisionada pela patologia. Toda sua pesquisa visou descobrir o melhor caminho para encontrar o outro (CARVALHO; AMPARO, 2006).

Em suma, o filme salienta a luta de Nise para superar o modo violento como as pessoas com sofrimento mental eram tratadas. Essa parece ser uma luta pelo reconhecimento do valor das mulheres e também da terapia ocupacional (BRITO et al., 2015), pela recusa ao poder androcêntrico, existente na estrutura social, como uma justificativa da violência contra as mulheres.

6. Considerações Finais

“Há dez mil modos de percorrer a vida e de lutar pela sua época” (NISE, 2015).

A médica psiquiátrica Nise da Silveira buscava compreender o mundo interno das pessoas “loucas”, presas em manicômios. Inovou o olhar sobre a loucura quando considerou a subjetividade nas relações que as pessoas tidas como loucas estabeleciam com o mundo tanto interno quanto externo. Utilizou a linguagem da arte para descobrir o ser humano com suas narrativas expressivas e articuladas em redes. Em plena década de 1940, essa mulher associou arte, terapia e política, apreendeu a complexidade simbólica no universo da loucura e levou tudo isso ao conhecimento público. Assim, inaugura uma terapêutica ocupacional que contrapõe a psiquiatria pragmática e desumana da época.

Como numa metáfora, o filme toca em vários obstáculos que as mulheres ainda enfrentam na atualidade. Nise, no entanto, reinventa a cada dia essa luta na Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação do Hospital Psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro. Reinventa um espaço antes destinado a guardar entulhos, transformando-o em um grande ateliê de arte. Também amplia esse espaço e inaugura o trabalho extramuros manicomiais, com atividades externas para as pessoas que estavam ali internadas, ampliando as possibilidades de estabelecer novas relações e gerando muitos conflitos: por ser uma mulher, e por propor o convívio social dos loucos para além do manicômio.

Essa personagem da vida real, no filme analisado, resistiu a toda forma de opressão imposta pelos médicos e lutou pelo direito humano e libertário: tanto das mulheres, pois é uma delas, quanto daqueles desqualificados como loucos. Por isso, o filme enuncia várias possibilidades de empoderamento. Nise foi representada como mulher forte e, ao mesmo tempo, acolhedora. O seu trabalho sensível e delicado possibilitou estranhamentos e instaurou novos regimes de sensibilidade, introduzindo uma nova lógica no regime asilar e fora dele (LIMA, 2009).

Mesmo sendo criticada por colegas e tendo seu trabalho boicotado, ela não desistiu e continuou em frente, acolhendo cada pessoa considerada louca nesse ambiente manicomial e enfrentando com firmeza todos os obstáculos produzidos pela hegemonia masculina na psiquiatria.

Filmes biográficos, mesmo quando são ficcionais, como este, sempre correm o risco de distorcer a realidade, criando mitos. Mas Nise já era reconhecida dessa forma por seus pares desde a década de 1970, como foi relatado por uma entrevistada:

Ela era um mito e ela inspirou muito a nós todos que buscávamos uma compreensão do ser humano, da loucura. Aliás, ela me inspira até hoje (G.F.69F).

Em suma, as discussões empreendidas neste artigo indicam que a personagem Nise desvela várias possibilidades de empoderamento emancipatório para as mulheres em um contexto intensamente machista. O posicionamento dessa personagem revolucionária e transformadora é um convite para que outras mulheres e homens lutem pela quebra de estereótipos, pela ampliação dos direitos das mulheres e pelo respeito a todas as pessoas.

REFERÊNCIAS

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