Níveis de Atividade Física Em Pacientes Com Doença Arterial Periférica

Níveis de Atividade Física Em Pacientes Com Doença Arterial Periférica

Autores:

Aline Mendes Gerage,
Marilia de Almeida Correia,
Paulo Mesquita Longano de Oliveira,
Aline Cabral Palmeira,
Wagner Jorge Ribeiro Domingues,
Antônio Eduardo Zeratti,
Pedro Puech-Leão,,
Nelson Wolosker,
Raphael Mendes Ritti-Dias,
Gabriel Grizzo Cucato

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782Xversão On-line ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.113 no.3 São Paulo set. 2019 Epub 29-Jul-2019

https://doi.org/10.5935/abc.20190142

Resumo

Fundamento:

Aumentos nos níveis de atividade física diária são recomendados para pacientes com doença arterial periférica (DAP). No entanto, apesar dessa recomendação, pouco se sabe sobre os padrões de atividade física dos pacientes com DAP.

Objetivo:

Descrever os padrões de atividade física de pacientes com DAP sintomática.

Métodos:

Este estudo transversal incluiu 174 pacientes com DAP com sintomas de claudicação intermitente. Os pacientes foram submetidos a avaliações clínicas, hemodinâmicas e funcionais. A atividade física foi objetivamente medida por um acelerômetro, e o tempo gasto em atividades sedentárias, de baixa intensidade, de alta intensidade e atividade física moderada-a-vigorosa (AFMV) foi obtido. A análise descritiva foi realizada para resumir os dados dos pacientes e a regressão logística binária foi utilizada para testar as associações brutas e ajustadas entre a adesão à recomendação de atividade física e os fatores sociodemográficos e clínicos. Para todas as análises estatísticas, a significância foi estabelecida em p < 0,05.

Resultados:

Os pacientes gastaram em média 640 ± 121 min/dia, 269 ± 94 min / dia, 36 ± 27 min/dia e 15 ± 16 min/dia em atividades sedentárias, de baixa intensidade, alta intensidade e AFMV, respectivamente. A prevalência de pacientes que atingiram as recomendações de atividade física foi de 3,4%. Após ajuste para fatores de confusão, observou-se associação inversa significativa entre adesão à recomendação de atividade física e idade (OR = 0,925; p = 0,004), enquanto tempo de doença, ITB e distância total de caminhada não se associaram a esse critério de adesão (p> 0,05).

Conclusão:

Os padrões de atividade física dos pacientes com DAP são caracterizados por uma grande quantidade de tempo gasto em comportamentos sedentários e um baixo envolvimento na AFMV. Pacientes mais jovens, independentemente dos fatores clínicos e funcionais, apresentaram maior probabilidade de atender às recomendações atuais de atividade física.

Palavras-chave: Atividade Motora; Exercício; Caminhada; Doença Arterial Periférica; Claudicação Intermitente

Abstract

Background:

Increases in daily physical activity levels is recommended for patients with peripheral artery disease (PAD). However, despite this recommendation, little is known about the physical activity patterns of PAD patients.

Objective:

To describe the physical activity patterns of patients with symptomatic peripheral artery (PAD) disease.

Methods:

This cross-sectional study included 174 PAD patients with intermittent claudication symptoms. Patients were submitted to clinical, hemodynamic and functional evaluations. Physical activity was objectively measured by an accelerometer, and the time spent in sedentary, low-light, high-light and moderate-vigorous physical activities (MVPA) were obtained. Descriptive analysis was performed to summarize patient data and binary logistic regression was used to test the crude and adjusted associations between adherence to physical activity recommendation and sociodemographic and clinical factors. For all the statistical analyses, significance was accepted at p < 0.05.

Results:

Patients spent in average of 640 ± 121 min/day, 269 ± 94 min/day, 36 ± 27 min/day and 15 ± 16 min/day in sedentary, low-light, high-light and MVPA, respectively. The prevalence of patients who achieved physical activity recommendations was 3.4%. After adjustment for confounders, a significant inverse association was observed between adherence to physical activity recommendation and age (OR = 0.925; p = 0.004), while time of disease, ankle brachial index and total walking distance were not associated with this adherence criteria (p > 0.05).

Conclusion:

The patterns of physical activity of PAD patients are characterized by a large amount of time spent in sedentary behaviors and a low engagement in MVPA. Younger patients, regardless of the clinical and functional factors, were more likely to meet the current physical activity recommendations.

Keywords: Motor Activity; Exercise; Waling; Peripheral Arterial Disease; Intermittent Claudication

Introdução

Pacientes com doença arterial periférica (DAP) e sintomas de claudicação intermitente apresentam comprometimento da marcha, várias comorbidades e aumento do risco cardiovascular,1,2 devido às características e gravidade da doença. O treinamento físico supervisionado tem sido considerado um marco na abordagem clínica terapêutica em pacientes com DAP,3 pois melhora vários componentes da função física e da qualidade de vida.4-6 Da mesma forma, também foram relatados efeitos positivos de programas domiciliares de exercícios monitorados por dispositivo para melhorar a capacidade de caminhada nesses pacientes.7 Entretanto, essas intervenções estão disponíveis para um número restrito de pacientes, limitando a aplicabilidade no contexto de saúde pública. Portanto, recomendações para aumentar os níveis de atividade física continuam sendo a abordagem mais utilizada na prática clínica.

As recomendações atuais de atividade física para a população em geral, incluindo pacientes com DAP, consistem em praticar pelo menos 150 minutos de atividade física moderada ou 75 minutos de atividades físicas vigorosas ou uma combinação equivalente de atividades físicas moderadas a vigorosas (AFMV) por semana.8 Além disso, tem sido recomendado que a AFMV seja realizada em sessões com duração mínima de 10 minutos.(8 )Surpreendentemente, não há dados que indiquem o número de pacientes com DAP sintomática que atingem essas recomendações de atividade física. Como a maioria dos pacientes com DAP sintomática é mais velha, tem várias comorbidades e os sintomas de claudicação intermitente são a principal barreira para a prática de atividade física nesses pacientes,9 limitando a capacidade funcional e de caminhada, espera-se que apenas uma pequena porcentagem dos pacientes atingiriam os níveis recomendados de atividade física.

Assim, este estudo objetivou descrever o padrão de atividade física de pacientes brasileiros com DAP e sintomas de claudicação intermitente de acordo com as recomendações para prática de atividade física, fornecendo informações objetivas sobre o tempo gasto em comportamento sedentário, atividade física leve e AFMV. Além disso, testamos a associação entre adesão às recomendações de atividade física e fatores sociodemográficos e clínicos em pacientes brasileiros com DAP sintomática.

Métodos

Desenho do estudo e questões éticas

Este estudo descritivo foi aprovado pelo Comitê de Ética Local. Antes da coleta de dados, os pacientes foram informados sobre os procedimentos metodológicos e logísticos necessários para participar do estudo, bem como os riscos e benefícios, e assinaram o termo de consentimento livre e informado antes da participação.

Participantes

A amostra geral consistiu em pacientes com DAP sintomática, recrutados em um centro terciário especializado em doença vascular, entre setembro de 2015 e novembro de 2017. O centro terciário é uma unidade específica criada para tratar pacientes com DAP com sintomas de claudicação intermitente. Lá, os médicos instruem os pacientes a: parar de fumar, controlar seus fatores de risco e aumentar seus níveis de atividade física. No presente estudo, nenhuma instrução adicional foi dada, e os pacientes foram solicitados a manter sua atividade física de rotina. Para serem incluídos no presente estudo, os pacientes deveriam: ter DAP (Fontaine Estágio II), índice tornozelo-braquial (ITB) <0,90 em uma ou ambas as pernas e realizar o teste de caminhada de seis minutos (TC6M). Pacientes com vasos não compressíveis, membros amputados e/ou úlceras, diagnóstico prévio de distúrbios neurológicos ou psiquiátricos, ou aqueles classificados como analfabetos foram excluídos.

Medidas

Dados clínicos

Foi realizada uma entrevista presencial padronizada, incluindo avaliação de informações sociais e demográficas, condições de comorbidade (auto-relatadas) e medicamentos. As variáveis sociais e demográficas incluíram idade e sexo (masculino ou feminino). O tempo de diagnóstico da doença foi obtido através da pergunta “Há quanto tempo você tem a doença?”. Dados sobre tabagismo (ex- fumante ou fumante atual, ou não-fumante), obesidade (índice de massa corporal ≥ 30 kg/m2), diabetes (com diagnóstico médico ou medicamentos hipoglicemiantes), hipertensão (pressão arterial sistólica /diastólica >140/90 mmHg ou uso de medicamentos anti-hipertensivos), dislipidemia (uso de medicação hipolipemiante ou com diagnóstico médico), doença coronariana, insuficiência cardíaca e história de câncer (auto-relatada ou análise de prontuários) foram obtidos.

Gravidade da doença

A gravidade da DAP foi obtida pelo cálculo do ITB de acordo com as diretrizes.10 Todas as medidas foram realizadas por um único avaliador treinado, utilizando o Doppler vascular (Medmega DV160, Brasil) e um esfigmomanômetro aneroide.

Capacidade de caminhada

O TC6M foi realizado em um corredor de 30 metros de comprimento, seguindo o protocolo descrito anteriormente.11 Resumidamente, os pacientes foram instruídos a completar o maior número possível de voltas. Os pacientes foram encorajados a “caminhar no ritmo habitual por seis minutos e cobrir o máximo de terreno possível”. Os pacientes foram informados de que poderiam descansar, se necessário. No final de cada minuto, os pacientes receberam feedback sobre o tempo decorrido e incentivo padronizado na forma de frases como “você está indo bem, continue assim” e “faça o melhor que puder”. A distância total de caminhada foi definida como a distância máxima que o paciente foi capaz de andar durante o teste, com ou sem dor nas pernas. Além disso, a capacidade ambulatorial auto-relatada foi avaliada utilizando as versões brasileiras do Walking Impairment Questionnaire (WIQ)12 e o questionário Walking Estimated-Limitation Calculated by History (WELCH).13

Atividade física mensurada objetivamente

A atividade física foi avaliada utilizando-se um acelerômetro triaxial GT3X + (Actigraph, Pensacola, FL, EUA). Cada participante foi instruído a utilizar o acelerômetro por sete dias consecutivos, removendo-o apenas para dormir, tomar banho ou realizar atividades na água. O dispositivo ficava preso a um cinto elástico, fixado no lado direito do quadril. A redução de dados foi realizada utilizando-se o software Actilife, versão 6.02 (Actigraph, Pensacola, FL, EUA), com frequência de amostragem de 60Hz e épocas de 60s. Períodos com valores consecutivos de zero por 60 minutos ou mais foram interpretados como “acelerômetro não usado” e excluídos da análise. Os dados de atividade física foram incluídos somente se o participante tivesse acumulado um mínimo de 10 horas/dia de gravação por pelo menos quatro dias, incluindo um dia de final de semana. A média do tempo total despendido em cada intensidade de atividade física foi calculada utilizando os pontos de corte específicos para idosos,14 adaptados por Buman et al.,15 considerando-se o tempo sedentário (SED) como 0-99 counts/min; atividade física leve de baixa intensidade como 100-1040 counts/min, atividade física leve de alta intensidade como 1041-1951 counts/min e AFMV como ≥1952 contagens/min utilizando o eixo vertical, e analisadas em min/dia, ajustando para o tempo e número de dias em que o dispositivo foi usado. O tempo total gasto em sessões SED e o tempo gasto em sessões de pelo menos atividades leves de alta intensidade e AFMV foram analisados pela soma dos minutos gastos em SED, atividades físicas de alta intensidade e AFMV, respectivamente, em períodos com duração ≥10 minutos. Além disso, calculou-se o percentual de pacientes que atenderam as recomendações atuais de atividade física (≥ 150 min/semana) considerando as sessões de AFMV.

Análise estatística

O tamanho da amostra foi calculado estimando-se um tamanho de efeito de 0,3 na análise qui-quadrada, considerando um erro alfa de 5% e um poder de 80%. O tamanho da amostra necessário para o estudo foi de 143 participantes. Os dados foram armazenados e analisados utilizando-se o software estatístico Statistical Package for the Social Sciences (SPSS, versão 17.0, SPSS Inc, Chicago, IL). A análise descritiva foi realizada para resumir os dados dos pacientes utilizando média, desvio padrão (DP) ou distribuição de frequência (absoluta e relativa), conforme apropriado. A regressão logística binária foi utilizada para testar a associação bruta e ajustada (idade, tempo de diagnóstico da doença, ITB e distância caminhada em seis minutos) entre a adesão à recomendação de atividade física e os dados sociodemográficos e fatores clínicos. Os resultados são expressos como odds ratios (OR) e seus respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%). Para todas as análises estatísticas, a significância foi estabelecida em p < 0,05.

Resultados

As características gerais dos pacientes são mostradas na Tabela 1. A média de idade de todos os pacientes foi de 66,7 ± 9,0 anos e, em média, os pacientes tinham doença moderada (ITB: 0,61 ± 0,18). A maioria dos pacientes tinha hipertensão (88,9%), dislipidemia (85,2%) e diabetes (52,4%) e utilizavam anti-hipertensivos (78%) (diuréticos tiazídicos, bloqueadores dos canais de cálcio, inibidores da enzima conversora de angiotensina, antagonistas dos receptores da angiotensina II, beta- bloqueadores), hipolipemiantes (89%) (por ex., estatinas) e agentes antiplaquetários (85%) (por ex., inibidores irreversíveis da ciclooxigenase, inibidores do receptor da adenosina difosfato). Quarenta e três por cento dos pacientes usavam medicamentos hipoglicemiantes (sulfonilureias, metformina, tiazolidinedionas, inibidores de alfa-glicosidase, meglitinidas), 29% utilizavam vasodilatadores (hidralazina e Minoxidil) e 20% utilizavam antidepressivos (por exemplo, sertralina, fluoxetina, citalopram, escitalopram, paroxetina).

Tabela 1 Características dos pacientes com doença arterial periférica de acordo com o sexo (n = 174). 

Valores
Idade (anos) 66,7 (9,0)
Sexo (% homens) 61,5
Ainda trabalhando (%) 20,5
Tempo de diagnóstico de doença (anos) 7,9 (5,8)
Índice tornozelo-braquial 0,61 (0,18)
Claudicação distância (m) 135,9 (82,4)
Distância no teste de caminhada de seis minutos (m) 326,6 (92,7)
Distancia no WIQ (escore) 22,7 (22,2)
Velocidade no WIQ (escore) 23,2 (15,6)
Escadas no WIQ (escore) 30,7 (25,3)
Teste WELCH (escore) 27,3 (19,1)
Comorbidades e fatores de risco
Índice de Charlson (escore) 3,0 (1,7)
Fumantes atuais (%) 18,1
Hipertensão (%) 88,9
Dislipidemia (%) 85,2
Diabetes (%) 52,4
Obesidade (%) 28,6
Doença arterial coronária (%) 34,5
Insuficiência cardíaca (%) 13,6
Câncer (%) 14,9
Medicamentos
Anti-hipertensivos (%) 78
Antidiabéticos (%) 43
Vasodilatadores (%) 29
Hipolipemiantes (%) 89
Agentes antiplaquetários (%) 85
Antidepressivos (%) 20
Medicamentos
Cardíacos (%) 24
Vasculares (%) 12

WIQ: Walking Impairment Questionnaire; WELCH: Walking Estimated-Limitation Calculated by History.

A Figura 1 mostra a distribuição do tempo gasto em atividades sedentárias, leve de baixa intensidade, leve de alta intensidade e moderada / vigorosa. Os pacientes, com idade entre 43 e 96 anos, gastaram em média 640 ± 121 min/dia, 269 ± 94 min/dia, 36 ± 27 min/dia e 15 ± 16 min/dia em atividades sedentárias, de baixa intensidade, de alta intensidade e atividades físicas moderadas/vigorosas, respectivamente. A maioria dos pacientes (52,9%) gastou menos de 10 minutos em atividades físicas moderadas/vigorosas (esporádicas, sem sessões) por dia.

Figura 1 Tempo gasto em atividades sedentárias, atividades físicas de baixa intensidade, de alta intensidade e atividade física moderada-a-vigorosa (AFMV). 

A Tabela 2 mostra os dados sobre as sessões sedentárias (<100 counts), sessões de alta intensidade e AFMV (≥ 1041 counts) e sessões apenas de AFMV (≥ 1952 counts). Noventa por cento dos pacientes tiveram pelo menos 10 sessões de comportamento sedentário por dia e, em média, a duração total dessa sessão foi de 413,7 ± 151,1 min/dia. Por outro lado, os intervalos sedentários duraram 174,4 ± 51,4 min/dia. Trinta e um por cento dos pacientes não acumularam 10 ou mais minutos consecutivos por semana, pelo menos, em atividades físicas leves de alta intensidade. Considerando apenas as AFMV, 67,7% dos pacientes não acumularam 10 minutos consecutivos (sessões) ou mais nesta intensidade de atividade física durante uma semana. Entre os pacientes que tiveram pelo menos uma sessão de AFMV, a duração dessa sessão foi de 9,7 ± 9,6 min/dia.

Tabela 2 Tempo total gasto em atividades sedentárias, de alta intensidade ou AFMV e sessões de AFMV e intervalos sedentários por semana e por dia em pacientes com DAP (n = 174) 

Variável Em uma semana (média ± DP) Em um dia (média ± DP)
Total de sessões de atividades SED 120,1 ± 32,6 17,2 ± 4,7
Tempo total em sessões SED (min) 2895,6 ± 1057,3 413,7 ± 151,1
Total de intervalos SED 118,7 ± 32,6 17,0 ± 4,7
Tempo total em intervalos SED (min) 8543,9 ± 2518,0 174,4 ± 51,4
Total de sessões de alta intensidade e AFMV 5,7 ± 7,8 0,8 ± 1,1
Tempo total em sessões de alta intensidade e AFMV (min) 84,01 ± 123,8 12,1 ± 17,7
Total de sessões de AFMV 1,5 ± 3,1 0,22 ± 0,44
Tempo total em AFMV (min) 22,7 ± 50,3 3,2 ± 7,2

SED: sedentárias (os); AFMV: atividade física moderada/vigorosa.

A prevalência de pacientes que alcançaram as recomendações de atividade física para a população em geral (≥ 150 min/semana de AFMV em sessões de 10 minutos ou mais) foi de apenas 3,4%. Estratificando-se por idade (Figura 2), essa prevalência foi de 11,1% em pessoas com menos de 60 anos, 2,9% naqueles entre 60 e 64 anos e 1% naqueles com mais de 65 anos. Nenhum paciente com mais de 70 anos alcançou as recomendações de atividade física para a população em geral.

Figura 2 Frequência de pacientes com DAP que atingiram as recomendações atuais de atividade física de acordo com a faixa etária. 

A Tabela 3 mostra a associação bruta e ajustada entre adesão às recomendações de atividade física e características sociodemográficas e clínicas em pacientes com DAP. Após ajuste para fatores de confusão, foi observada uma associação inversa e significante entre a adesão às recomendações de atividade física e a idade (OR = 0,867; p = 0,011), o que significa que para cada ano de vida, as chances são aproximadamente 13% menores de atingir as recomendações de atividade física. O tempo de diagnóstico da doença, o ITB e a distância total de caminhada não foram associados a adesão deste critério (p > 0,05).

Tabela 3 Associação bruta e ajustada entre adesão às recomendações de atividade física e características sociodemográficas ou clínicas em pacientes com DAP (n = 174) 

Variável Análise bruta Análise ajustada*
OR (IC95%) p OR (IC95%) p
Idade 0,87 (0,79; 0,97) 0,01 0,88 (0,80; 0,98) 0,02
Tempo de diagnóstico da doença 0,94 (0,78; 1,12) 0,46 0,98 (0,83; 1,16) 0,82
Índice tornozelo-braquial 0,19 (0,02; 153,41) 0,77 1,14 (0,07; 173,68) 0,96
Distância caminhada no teste de seis minutos 1,01 (0,99; 1,02) 0,12 1,00 (0,99; 1,02) 0,32

*Ajustado por idade, tempo de diagnóstico da doença, índice tornozelo-braquial e distância de caminhada no teste de seis minutos.

Discussão

Os principais achados do presente estudo foram: a) pacientes portadores de DAP com sintomas de claudicação intermitente passavam a maior parte do dia em comportamentos sedentários com pouco tempo em AFMV; b) apenas 3,4% dos pacientes atendiam as recomendações de atividade física para a população em geral; c) pacientes mais jovens, independentemente de fatores clínicos ou físicos, tinham maior probabilidade de atender às recomendações atuais de atividade física para a população em geral.

O ponto de corte utilizado no presente estudo considerou, além das categorias “sedentário” e “atividade física moderada a vigorosa”, as categorias “baixa intensidade” e “alta intensidade”.15 Essa decisão baseou-se nos seguintes aspectos: a) atividades físicas leves são as atividades físicas mais realizadas pelos idosos, principalmente aqueles com limitações de capacidade funcional (por ex., pacientes com DPA); b) a atividade física leve foi amplamente não-especificada para representar toda as atividades entre atividades sedentárias e atividade física moderada a vigorosa (100-1.951 contagens/minuto); c) a associação entre atividade física leve e os parâmetros de saúde aumenta quando são consideradas aquelas atividades físicas leves com alto gasto de energia (atividade física leve de alta intensidade), que se aproximam mais da classificação de AFMV do que de atividades sedentárias.15

No presente estudo, nossa amostra de pacientes com DAP com sintomas de claudicação intermitente gastou 640 min/dia e 15 min/dia em comportamento sedentário e AFMV, respectivamente, o que representa 66,7% e 1,5% das horas de vigília do dia. Esse padrão é semelhante ao observado em pacientes com outras doenças cardiovasculares, incluindo doença coronariana, insuficiência cardíaca congestiva, infarto do miocárdio16 e sobreviventes de AVC.17 Nessas populações, o comportamento sedentário variou de 576 min/dia16 a 606 min/dia,16,17 enquanto a AFMV variou de 8,6 min/dia a 11,4 min/dia. Curiosamente, embora os sintomas de dor (claudicação intermitente) durante o exercício tenham sido relatados como uma das barreiras principais para a prática de atividade física em pacientes com DAP,9 seus padrões de atividade física parecem ser semelhantes aos dos pacientes cardíacos sem comprometimento da marcha. As recomendações atuais de atividade física para a população em geral incluem 150 min/dia de AFMV em sessões com pelo menos 10 minutos de duração. Os resultados deste estudo indicaram que uma porcentagem muito pequena (3,4%) da nossa amostra atendeu às recomendações atuais de atividade física. Esses valores são inferiores aos de estudos anteriores, geralmente realizados com adultos (~ 10%),18 idosos (12%)19 e pacientes com osteoartrite (13% homens e 8% mulheres),20 que geralmente também apresentam limitações físicas.

O número reduzido de pacientes que atenderam às recomendações de atividade física poderia ser explicado pela dificuldade dos pacientes com DAP em realizar atividades físicas moderadas e/ou vigorosas. De fato, como as atividades físicas de maior intensidade podem precipitar a ocorrência de sintomas de claudicação intermitente, os pacientes com DAP geralmente realizam atividades físicas de menor intensidade para evitar os sintomas.

No presente estudo, também analisamos a frequência de pacientes que atingiram as recomendações atuais de atividade física de acordo com a faixa etária. Observamos que nenhum paciente acima de 70 anos atendeu as recomendações atuais de atividade física para a população em geral. Este resultado foi confirmado pela análise multivariada, que revelou que os pacientes mais jovens são mais propensos a alcançar as recomendações atuais de atividade física. Esses resultados estão de acordo com estudos anteriores realizados com uma amostra representativa de adultos dos Estados Unidos21 e com idosos em uma amostra de base populacional do Brasil,19 que demonstrou uma relação inversa entre a idade e a quantidade de tempo gasto em AFMV. A diminuição da atividade física com o aumento da idade pode ser devido a uma piora nas funções físicas associadas à presença das comorbidades, levando ao aumento do comportamento sedentário e ao comprometimento da capacidade funcional.

O ITB, considerado um dos melhores índices prognósticos na DAP22 e capacidade de caminhada, um importante marcador clínico de DAP associado à função endotelial23 inflamação24 e vários indicadores clínicos,2,25 não se associaram ao atendimento das recomendações de atividade física. Esses resultados não são surpreendentes, uma vez que o ITB26 e a capacidade de caminhada têm sido pouco associados à atividade física em pacientes com DAP.27

Estudos anteriores mostraram que baixos níveis de atividade física e altos níveis de comportamento sedentário estavam associados a vários fatores de risco, como pressão arterial elevada,28 rigidez arterial aumentada,29 circunferência abdominal aumentada e níveis de HDL-colesterol reduzido,30,31 em populações saudáveis e clínicas.

Em pacientes com DAP sintomática, um estudo realizado por Garg et al.,32 relatou que a atividade física reduzida estava associada ao aumento da mortalidade e eventos cardiovasculares. Em outras palavras, pacientes que tentaram controlar ou eliminar seus sintomas de claudicação intermitente ao reduzir sua atividade física, pioraram o risco de infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral e morte. Assim, o achado de nosso estudo de que a maioria dos pacientes com DAP não atingiu as recomendações atuais de atividade física destaca a necessidade de intervenções para aumentar a atividade física nesses pacientes. Estudos futuros são necessários para verificar se as diferentes formas de exercício, programas domiciliares ou monitores pessoais de atividade física são mais eficazes para ajudar os pacientes a atingir as recomendações atuais de atividade física.

O presente estudo tem várias limitações. Embora o acelerômetro tenha sido considerado um método padrão-ouro para medir atividades físicas em condições de vida livre, não foi possível medir o tipo e o contexto em que a atividade física foi realizada, o que dificulta a análise de que tipos de atividades foram mais frequentemente realizadas por esses pacientes. Além disso, o acelerômetro não avalia atividades físicas como a hidroginástica e treinamento de resistência, que são comumente realizadas por pacientes idosos, e pode ter subestimado os níveis reais de atividade física de nossa amostra. Como não há recomendação específica de atividade física para pacientes com DAP, utilizamos as recomendações atuais de atividade física para a população em geral. No entanto, ainda não se sabe se esta abordagem é a ideal para pacientes com DAP.

O estudo foi realizado em São Paulo, Brasil, e nossos resultados não podem ser extrapolados para outros pacientes com diferentes culturas e estilos de vida. Não incluímos um grupo populacional global pareado para comparar a prevalência de atividade física entre os pacientes não-PAD e PAD. Por fim, não analisamos o tipo de atividade física realizada por esses pacientes ou a diferença de atividades físicas ao longo do ano. Alguns pacientes avaliados em meses mais frios/chuvosos podem ter sido menos ativos do que aqueles avaliados nos meses de verão.

Conclusão

Este estudo demonstrou que o padrão de atividade física de pacientes brasileiros com DAP e sintomas de claudicação intermitente é caracterizado pelo alto tempo gasto em comportamento sedentário e baixo envolvimento em AFMV, sendo que apenas 3,4% desses pacientes atendem às recomendações atuais de atividade física para a população em geral. Além disso, os pacientes mais jovens, independentemente de fatores clínicos e funcionais, são mais propensos a atender às recomendações atuais de atividade física.

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