Novas raças, novas doenças: a possibilidade colonizadora por meio da mistura racial em History of Brazil (1810-1819) de Robert Southey

Novas raças, novas doenças: a possibilidade colonizadora por meio da mistura racial em History of Brazil (1810-1819) de Robert Southey

Autores:

Flávia Florentino Varella

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.23 supl.1 Rio de Janeiro dez. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/s0104-59702016000500002

Porcos, dólares espanhóis e ratazanas não são os únicos incômodos e comodidades que realizaram a circunavegação e podem ser encontrados aonde quer que os navios europeus tenham chegado. As doenças também encontram o seu caminho de uma parte do mundo habitado para a outra, onde quer que lhes seja possível existir

(Southey, 1829, p.57-58).1

Robert Southey escreveu a primeira história filosófica do Brasil, entendida como macronarrativa autônoma à história de Portugal (Araujo, Pimenta, 2008, p.89). Os três volumes de History of Brazil, escritos em inglês, foram publicados pelo homem de letras em 1810, 1817 e 1819, em Londres, e abarcam um longo período dessa história, que vai da chegada dos portugueses ao território hoje conhecido como Brasil até a transferência da Corte, em 1808. Southey nasceu na cidade de Bristol, Inglaterra, em 1774 e veio a falecer em 1843, em Keswick, acometido por Alzheimer ou algum outro tipo de doença degenerativa (Speck, 2006, p.251). Ao longo da vida, Southey teve os mais vastos interesses literários, escreveu diversas obras poéticas e três histórias – a do Brasil, a da Guerra Peninsular e uma incompleta, de Portugal –, além de numerosos ensaios. Capistrano de Abreu chegou a sugerir que History of Brazil serviu, em diversos aspectos, de modelo para Francisco Adolfo de Varnhagen na elaboração de sua obra História geral do Brasil. Essas observações acabaram por contribuir para emprestar a História geral a mácula de imitação da obra de Southey (Mollo, 2005, p.2). Manoel Bomfim alimentou ainda mais a disputa e a comparação entre os dois historiadores, reservando epítetos pouco elogiosos a Varnhagen, enquanto apontava Southey como um dos verdadeiros historiadores nacionais (Gontijo, 2003, p.144). History of Brazil vem, desde sua publicação, sendo constantemente revalidada como uma obra importante tanto como horizonte para a historiografia posterior quanto como trabalho meticuloso de pesquisa.

A apologia à mistura das diferentes raças feita por Robert Southey em History of Brazil não é um tema novo de estudo. Maria Odila da Silva Dias (1974) explorou, de forma bastante circunscrita, a importância dessa questão quando associou a mistura racial ao suposto imperialismo de Southey. A seu ver, a missão civilizadora – o fardo do homem branco a que o título de seu livro alude – “implicava o direito de destruir civilizações e culturas atrasadas, que eram obstáculos ao progresso de outros povos. Tratar-se-ia para eles [conservadores – como Southey – ou reformadores radicais utilitaristas] de um dever humanitário de destruição” (p.120-121). No entendimento de Dias, o resultado da mistura racial proposto em History of Brazil acarretaria no predomínio “do cristianismo, da civilização europeia e do poder inglês” (p.123). Certamente Southey achava legítima a ocupação do território americano pelos europeus, mas porque levava à população nativa os benefícios da verdadeira religião e possibilitava a inserção dessa parte do globo terrestre no conjunto das sociedades civilizadas (Craig, 2007, p.165). Southey (1809, p.312) não era um implacável destruidor de culturas não europeias, nem um relativista cultural avant la lettre, mas achava que “a ordem da natureza é que os animais devem dar lugar ao homem, e, entre os homens, o selvagem ao civilizado”.2 O que deveria ser um processo natural, em sua opinião, lamentavelmente era, algumas vezes, levado a cabo por meio da violência.

Proponho que a importância da argumentação em relação à mistura racial desenvolvida por Southey não estava fundamentalmente ligada às práticas imperialistas britânicas, mas à possibilidade de desenvolvimento e colonização do Brasil. Não existiria, nesse sentido, um imperialismo do homem branco, como indicou Dias; pelo contrário, Southey sugeriu que a colonização do Brasil foi bem-sucedida, até pela felicidade do cruzamento das raças, que permitiu ao europeu não sucumbir às adversidades e diferenças do Novo Mundo. Sem a mistura dos componentes das raças europeia, negra e indígena, a natureza provavelmente devoraria o biologicamente inapto colonizador. É preciso ter em mente que a colonização não era vista apenas como uma iniciativa militar, mas também biológica e ecológica (Bewell, 1999, p.XI).

Gostaria de esclarecer, de imediato, que optei pela utilização da palavra mistura (mixture, intermixture, blend) ao me referir à mistura das raças por ser um termo que constava no horizonte linguístico de Southey. Dias, ao contrário, povoa o léxico de Southey com as palavras mestiçagem e miscigenação para se referir à mistura de raças, além das anacrônicas classe, capitalismo e colonização comercial. O verbete miscigenação (miscegenation), por exemplo, ganhou entrada em dicionários de língua inglesa apenas na segunda metade do século XIX, em sintonia com as novas teorias raciais científicas que definiam a qualidade do cruzamento entre pessoas consideradas de diferentes raças.3 O conceito de raça empregado por Southey era sensivelmente diferente daquele que viria a ser articulado, pouco tempo depois, para organizar as raças de acordo com a cor da pele e estabelecer uma hierarquia entre elas. Em inícios do século XIX, raça era um conceito social que ajudava a normatizar as diferenças humanas, mas não a classificá-las de acordo com padrões delimitados pela ciência biológica (Smedley, 2007, p.2). Portanto, dentro de um contexto relacionado às doenças e à sobrevivência, o termo raça foi empregado para explicar por que os indivíduos ou grupos particulares ficavam doentes, pareciam ser resistentes a certas doenças ou disseminavam epidemias. Como no Brasil ocorria uma importante mudança na alimentação, nos hábitos e no clima em relação ao que o europeu ou mesmo o africano estava acostumado, considerava-se natural que uma nova raça, que pudesse reestabelecer esse equilíbrio entre homem e ambiente, viesse a ser constituída.

Diversos pesquisadores da obra de Southey já salientaram a importância que o uso metafórico de vocábulos ligados à doença – como infectado (infected), contagioso (contagious) e pestilento (pestilential) – teve em seus escritos, de modo geral (Craig, 2007), e como, em particular, a varíola foi uma doença que recebeu sua atenção privilegiada (Fulford, 2001). Ao longo de seus principais artigos no periódico Quarterly Review, Southey utilizou o vocabulário da doença e da infecção para remeter-se aos problemas relacionados à divergência de opinião na política, à decadência moral e ao cisma religioso, que considerava afetar a Grã-Bretanha naquela época (Connell, 2005, p.247). Southey, certamente, também utilizou esse sentido metafórico dos termos relacionados à doença para narrar aspectos da história brasileira e das missões jesuíticas que ficavam nas proximidades com a Argentina e o Paraguai. Em sua opinião, por exemplo, o Paraguai era infestado (infested) pelos índios agacês, e a permanência no território brasileiro das sete cidades que ficavam na divisa do Uruguai com o Brasil teria sido fácil caso este último não houvesse sucumbido à doença (disease) chamada febre revolucionária endêmica (endemic revolutionary fever), ou seja, a independência (Southey, 1810, p.117, 1822, p.323).

Porém, ainda não foi investigada, em History of Brazil, a existência de uma linguagem da diversidade biológico-climática,4 entendida como um discurso explicativo estável relacionado não apenas à forma com que as doenças surgiam, eram modificadas e transferidas, mas também às estratégias para se permanecer saudável. Essa linguagem serviu de pano de fundo para a necessidade da mistura inter-racial e sua avaliação positiva. Diferentemente do que propõe a medicina contemporânea, nas primeiras décadas do século XIX, a explicação teórica para o desenvolvimento das doenças nos corpos humanos e sua mutabilidade centrava-se no clima – na diferença de temperatura das diversas regiões do globo – e na compleição corporal de cada indivíduo, e não em microrganismos. A compleição corporal ou constituição de cada pessoa era definida pela interação do seu humor particular com o clima ou “ar” em que vivia e a alimentação praticada. Além disso, era consenso que exercícios, o sono ou a vigília, a evacuação (que incluía a sangria) e as emoções tinham impacto considerável na saúde e no temperamento humanos (Earle, 2010, p.694). Segundo a teoria humoral hipocrática, o corpo humano continha uma mistura de quatro fluídos – a bile negra, a bile amarela, o sangue e a fleuma –, e, apesar de cada indivíduo ter a sua própria compleição, era razoavelmente consensual que certas raças tinham tendência a gerar indivíduos de certo temperamento. Os espanhóis, por exemplo, eram comumente vistos como donos de um temperamento colérico, resultado da preponderância da bile amarela (Earle, 2010, p.691). O conhecimento que Southey tinha das práticas médicas vinha da leitura e de sua própria experiência como enfermo. Em momento algum constrói sua análise citando Hipócrates ou mesmo Galeno, prática muito comum entre os escritores não diplomados em medicina (Earle, 2013, p.48-49). A teoria dos quatro humores, se bem que com algumas reformulações, foi um dos princípios centrais da medicina ocidental até grande parte do século XIX, e, de acordo com ela, a saúde ou a doença dependiam do equilíbrio entre os humores e o mundo externo. Dentro desse entendimento da medicina, a doença seria o resultado de um desequilíbrio causado, principalmente, pelo clima ou pela alimentação (Allamel-Raffin, Leplège, Martire Junior, 2011, p.18-19). Neste artigo focarei apenas a dimensão climática, os problemas que envolviam a “transplantação” de corpos para locais diferentes daqueles em que foram adaptados e como a mistura com o sangue nativo poderia contribuir para uma raça mais resistente às doenças que ou transmutavam-se ou eram geradas nesse novo clima.

Clima e aclimatação: a linguagem da diversidade biológico-climática em History of Brazil

Era comum, nas primeiras décadas do século XIX, atribuir doenças não a microrganismos, mas a agentes externos que alteravam o equilíbrio interno de um indivíduo, sendo que a doença poderia transformar-se em outra ou manifestar-se de forma diferente em pessoas diferentes. Somente a partir da segunda metade do século XIX a doença foi preponderantemente pensada como existindo fora do corpo; antes disso, o diagnóstico focava os sintomas, e “as doenças eram vistas como uma sucessão aberta de eventos que poderiam seguir ampla variedade de trajetórias” (Edler, 2006, p.384). As doenças individuais e epidêmicas não eram a resposta do corpo humano a um agente causador da doença, mas, em vez disso, eram o resultado da susceptibilidade e interações individuais com o ambiente em que viviam. Fazia parte do senso comum pensar que as doenças possuíam grande capacidade de adaptação e modificação em novas constituições e novos climas, tópico que ganhou particular interesse com a descoberta do Novo Mundo.

Guilherme Piso (1611-1678) foi um dos principais escritores a registrar a nosologia e a profilaxia das doenças encontradas no Brasil colonial. Southey ajuizava sua obra Historia Naturalis Brasiliae de grande valor,5 mas confundiu algumas proposições sobre a sífilis encontradas nesse livro. Piso (1957, p.118-121) argumentava que existiam, ao menos, dois tipos de lues ou sífilis, uma endêmica do Brasil, denominada lues indica ou bubas, e outra europeia, a lues gálica, introduzida em território brasileiro apenas com a chegada do europeu colonizador. Deixava claro, portanto, que existiam diversos gêneros de sífilis e não confirmava a origem exclusivamente americana dessa doença, uma vez em que existiam variedades originárias de diferentes regiões do mundo. Tendo isso em vista, Southey (1810), erroneamente, pensava concordar com o médico e naturalista que a sífilis “é originalmente uma doença americana, modificada por ‘transplantação’ [transplantation] para a constituição europeia; uma opinião que está de acordo com suas observações [de Piso] sobre os efeitos físicos produzidos pela ‘mistura’ [mixture] das diferentes raças” (p.328; destaques meus).6 A sífilis “era ‘uma velha doença assumindo uma nova forma através da passagem de uma raça para outra’” (Southey, 6 fev. 1809; destaque meu).7 Nessa confusão de informações, Southey altera a gênese da sífilis, porém mantém intacto o argumento, bastante presente até meados do século XIX, de que o surgimento de novas doenças poderia dar-se também por transplantação a novas constituições e que existia uma ligação entre essa mudança e o cruzamento entre raças diferentes.

Tendo em vista que o cruzamento entre as novas e velhas raças era uma possibilidade iminente em um mundo colonizado, era importante aos envolvidos nas empreitadas colonizadoras saber de que forma novas doenças – como supostamente seria a sífilis – se comportariam ao ser transplantadas a novas constituições e climas e, igualmente, a forma de combatê-las. Na perspectiva de Southey, aconteciam, no Novo Mundo, dois fenômenos diversos em relação às doenças. O primeiro deles dizia respeito à modificação da doença por transplantação a novas constituições físicas, observada em europeus e nativos. O segundo estava relacionado à mistura das raças, uma vez que “a mistura [mixture] e cruzamento [intermixture] de três raças diversas, europeia, americana e africana, tinha engendrado novas moléstias [diseases], ou pelo menos novas compleições [constitutions], com que tanto se modificavam as enfermidades antigas, que o mais hábil físico ficava perplexo à vista de desconhecidos sintomas” (Southey, 1862a, p.464-465). Existia, portanto, com a colonização e o cruzamento entre as diferentes raças, tanto uma mudança nas doenças existentes como a formação de novas.

Da observação do meio vegetal derivava grande parte do entendimento de como o ser humano se comportaria ao ser transplantado para ambientes diversos daquele em que nascera e se adaptara. Southey (1862a, p.467) pensava que no Brasil “não há exemplo de terem os homens brancos sofrido tão pouco na sua natureza física, transplantados além dos limites que lhes foram assinados”. De outra forma, eram também bastante comuns dentro dos projetos coloniais o envio e o recebimento de espécies para estudo biológico. Nessas trocas de informações, muitas espécies brasileiras foram levadas para estudo em centros de pesquisa europeus da época, porém, mais importante do que isso, do Velho Mundo foram trazidos diversos tipos de plantas para ser introduzidos no Brasil, e, assim, verificar-se a sua capacidade de adaptação a um ambiente distinto do original. Portanto, essa “era uma atividade importante na medida em que se acreditava que o clima e o meio eram fatores determinantes nas diversas conformações das espécies, bem como nas suas diversas atribuições” (Gesteira, 2004, p.14).8 Os reinos animal e vegetal estavam interligados pelo princípio de reação ao clima em que viviam. Se a doença mudava de acordo com o clima para o qual era transplantada – o que abarcava também uma mudança de corpo, uma vez que cada indivíduo era entendido como compondo um “clima” próprio – o mesmo fenômeno acontecia com as plantas e os animais. Existia uma diversidade na fauna e na flora do Novo Mundo que levava o observador a pensar que, “pela diversidade de climas, aparecessem diferenças não só nos homens, como também nos animais e nos vegetais” (Piso, 1957, p.48).

Os climas tinham força quase que preponderante em relação às espécies de vida, podendo também decidir sobre as doenças que acometeriam as pessoas. Segundo Piso (1957, p.72; destaque meu):

as modernas navegações do Novo Mundo confirmam que, assim ‘como variam os hábitos e gêneros de vida dos povos segundo os diversos climas do mundo, assim também diferem as doenças e os gêneros de morte; e assim como as antigas doenças costumam extinguir-se, do insólito giro e inclinação dos astros, bem como do clima da terra austral, soem gerar-se novas. Algumas passam a outras regiões do mundo, outras não’; umas, por causa da mudança do sistema de vida, deixaram de grassar (atestam os autores acerca do Egito).

Portanto, o clima de determinado local poderia contribuir para a proliferação ou a erradicação de determinada doença, como era o caso da que acometeu, segundo Southey (1862d), o filho mais velho de Antônio Luís de Sousa Teles de Meneses, governador-geral do Brasil e marquês das Minas: “não tinha a peste cedido inteiramente, e a fortuna foi não ser ela ‘de natureza que pudesse ser transportada [transported] para a Europa’” (p.22; destaques meus). Os portugueses, nesse caso, foram felizes, pois o navio que partiu com o enfermo do Brasil aportara em costa lusitana trazendo uma doença que não era capaz de se adaptar ao novo clima e, por isso, extinguiu-se.

Não existia, portanto, um rompimento epistemológico profundo entre o entendimento dos escritores dos séculos XVII e XVIII e o de Southey, em início do século XIX, sobre a importância do clima para a constituição das pessoas e sobre como as doenças, os reinos vegetal e animal respondiam à mudança climática. Concordavam também que o cruzamento das diversas raças gerava novas compleições, que, como enxertos, carregavam aspectos diferentes do cruzamento original. De acordo com Piso (1957, p.72):

Mais ainda: além de que o céu, as estações do ano, a diversidade das águas e dos alimentos e o gênero de vida de todo em todo diferente mudam sem dúvida os temperamentos, acresce também ‘o cruzamento das várias nações’. Assim os europeus coabitam com mulheres americanas, geram Mamelucos; com etiopisas, Mulatos; e os americanos, fazendo-o com as negras africanas, os denominados Cabocles. … ‘Como se não só degenerassem os vegetais e animais transplantados, mas também os povos levados para outras regiões e misturados a nações estrangeiras perdessem a índole nativa’, tal como os rios que, entrando no mar salgado, perdem a doçura própria das águas (destaques do autor em itálico, destaques meus entre aspas).

A mistura das raças mostrava-se inevitável devido ao intercurso afetivo entre as raças europeia, americana e africana, mas Piso, em sua análise, deixa entrever certa negatividade nessa mistura. Essa dimensão não existe nas proposições de Southey, nas quais o cruzamento era entendido como imperativo para uma povoação bem-sucedida do Brasil, uma vez que o colonizador, por mais que bem adaptado, não sobreviveria sem a ajuda da mistura com as demais raças. O desafio de colonizar um território tão vasto como o brasileiro e com tantos climas diferentes impunha-se, e a mistura racial foi a resposta encontrada por Southey para superar as doenças e as adversidades climáticas, já que a aclimatação era sempre incerta.

As teorias que envolviam a aclimatação, ou seja, a investigação do processo de transformação contínuo que os organismos vivos sofriam em ambientes diferentes daqueles em que foram gerados e se desenvolveram, tiveram desenvolvimentos importantes ao longo do século XIX (Anderson, 1992). Atualmente, o termo aclimatação é empregado para indicar a mudança metabólica que ocorre nos corpos humanos ao trocar de ambiente. Esse fenômeno fisiológico ocorre, por exemplo, quando uma pessoa que vive no nível do mar se muda para uma altitude sensivelmente mais elevada. A aclimatação, usualmente, ocorre em curto período de tempo e não é transmitida aos descendentes. Para Southey, contudo, aclimatação era um fenômeno biológico diverso. O verbo aclimatar (acclimate) teve seu primeiro emprego em língua inglesa registrado em 1792.9 Ao longo das décadas seguintes, seu destaque foi notório nos contextos europeu e brasileiro, indicando grande interesse nos estudos sobre as influências climáticas nos organismos (Anderson, 1992, p.135; Lisboa, 2013; Caponi, 2007). Na década de 1810, porém, não existia uma preponderância semântica do termo na Inglaterra, que, às vezes, era considerado estrangeirismo devido à sua etimologia francesa. Muitos preferiam o saxônico naturalizar (naturalize). Southey empregou os dois verbos em History of Brazil de forma indistinta, se bem que tenha dado preferência ao francesismo.

Ao longo da colonização do Novo Mundo, o conceito relacionado de aclimatação foi articulado para explicar como recém-chegados a climas particulares ou regiões geográficas ficavam doentes mais facilmente do que indivíduos mais aclimatados, por já viver em uma determinada área ou clima por mais tempo. Acreditava-se que, a partir do momento em que os recém-chegados se aclimatavam, eles não ficavam doentes com tanta facilidade. Era possível, se bem que não para todos, adaptar-se a novos climas e superar as doenças existentes seja por meio da modificação da natureza – pela mistura das raças –, seja pela aclimatação dos homens. Na opinião de Southey, as doenças, nativas ou não, acometiam, preponderantemente, os estrangeiros, como, por exemplo, havia acontecido com os neerlandeses no Nordeste brasileiro, chegando a ponto de um marinheiro, “‘na sua aversão a uma ilha [a Ilha de São Tomás] que a tantos bravos causara a morte, pedi[r] que o não sepultassem em terra tão maldita’, mas que o atirassem ao mar a dez ou doze léguas de distância” (Southey, 1862b, p.17-18; destaque meu). Os marinheiros certamente eram uma classe (des)privilegiada quanto a doenças, pois deveriam aclimatar-se aos lugares em que viajavam por força de sua profissão ou, fatalmente, sucumbiriam a elas. Caso desse gênero tinha acontecido, segundo o relato de Southey, na capitania da Bahia, onde várias pessoas foram vítimas de uma pestilência (pestilence) que já tinha matado duas mil pessoas no Recife:

Aqui morriam de vinte a trinta pessoas diariamente, e dentre duzentas que adoeceram num dia, apenas duas escaparam, tão geralmente mortal era a moléstia. Uma única casa não passou sem ter algum doente, e algumas ficaram inteiramente desertas. No campo nem foi tão geral nem tão destruidora a peste. ‘Atacava ela exclusivamente a raça branca e entre esta particularmente os marítimos; eram pela maior parte europeus e talvez que indivíduos e família se achassem mais ou menos expostos conforme estivessem também mais ou menos aclimatados’. Muitos anos já depois de ter a moléstia deixado de ser ‘endêmica, ainda caíam vítimas dela estrangeiros que de outros países ou do sertão vinham a qualquer das cidades em que havia raivado o flagelo’ (Southey, 1862c, p.329-330; destaques meus).

Essa mesma doença, não nomeada, deixava “isento do contágio os negros e todas as raças mistas [mixed race]” (Southey, 1862c, p.331).

Atualmente, é notória a hipótese de que muitos ameríndios sucumbiram rapidamente às doenças do Velho Mundo por causa da falta de imunidade. Para Southey, porém, a diminuição da população indígena estava relacionada ao costume de algumas tribos de criar apenas um filho, ao infanticídio, às guerras e ao canibalismo. Além desses e de outros fatores, por causa da “‘grande e repentina mudança de uma vida errante para outra fixa”, “as moléstias” causaram “terríveis estragos entre os conversos’” (Southey, 1862b, p.384; destaque meu). A compleição indígena era adaptada a certo equilíbrio que foi quebrado com a sedentarização, como era o caso dos cayaguas, em que “foram muito infelizes os Jesuítas, e se logravam atrair alguns às reduções, era tal ‘o efeito de uma vida estacionária e talvez do ar livre e da luz’, que eles, na frase de Techo, ‘morriam como plantas que criadas à sombra não podem suportar o sol’” (Southey, 1862c, p.56; destaques meus). Deste modo, Southey (p.398) acreditava que

‘há causas físicas pelas quais se torna frequentemente mortal a transição do estado selvagem para o domesticado’. Não pode a construção animal suportar uma ‘mudança total e repentina de alimentos, hábitos e ocupações’. Se não são apanhadas novas, morrem as aves antes de se costumarem ao cativeiro; e a diferença por que elas passam no seu ‘modo de subsistência’, dificilmente será maior do que essa que sofre o homem passando de uma vida errante para outra fixa. ‘A frequente mudança de ares parece ter sido quase indispensável a uma raça que nunca jamais fora sedentária’ (destaques meus).

Era como se os indígenas deixassem de ser aclimatados ao Brasil após a mudança para as missões e a consequente alteração na dieta e nos costumes. Eles tinham uma constituição adaptada a determinado modo de vida, que era alterado ao ser introduzidos aos hábitos europeus. O corpo dos indígenas respondia da mesma forma aos mesmos princípios do adoecer que os demais corpos (Earle, 2013, p.171).

A importância do clima e do meio ambiente era uma questão maior que envolvia não apenas a salubridade do local, já que, segundo Southey (1862a, p.464; destaques meus), “‘saudáveis como são os ares’ do Brasil, tornavam-se fatais a muitos, cujos ‘hábitos’ de vida e costumes haviam sido contraídos em ‘temperatura diferente, como às próprias plantas’, diz Piso, é frequentemente fatal a mudança embora ‘transplantadas para solo mais rico e mais feliz clima’”. Logo, um clima salubre e favorável não necessariamente seria benéfico a constituições que foram adaptadas a outra temperatura e que, por causa dela, adquiriram certos hábitos. O consumo diário de carne e vinho, por exemplo, deveria ser evitado pelo europeu recém-chegado ou brasileiro nato que desejasse ter uma velhice feliz no Brasil (Southey, 1810, p.327). Explicava Piso (1957, p.58) que “os alimentos do gênero dos nutrientes ou dos calefacientes, se forem regulados, enchem os corpos de sangue e calor. Se o não forem, costumam gerar humores frios e aquosos”.

É crucial, portanto, o destaque dado por Southey aos hábitos como reflexo de um comportamento adaptado ao clima. Climas diferentes geravam hábitos e costumes diversos, e para aclimatar-se era necessária a mudança dos hábitos que eram benéficos para outra temperatura, caso contrário, o corpo seria visitado pela doença. Não é possível afirmar com precisão como, na perspectiva de Southey, o processo de aclimatação acontecia e quais os elementos indispensáveis para uma aclimatação bem-sucedida, porém parece verdadeiro que se deveria buscar uma adequação dos hábitos passados com os necessários ao novo clima, mantendo os que traziam benefício à saúde. Os neerlandeses, por exemplo, conseguiram aplacar a insalubridade da cidade de Recife, experimentando

menor dano do que se lhes vaticinara, menor talvez do que outro qualquer povo experimentaria, servindo o ‘seu passadio’ [diet], mais substancial do que o dos portugueses, e o ‘hábito de fumar’ para neutralizar os perniciosos efeitos das exalações miasmáticas, sobre acharem-se também os ‘corpos’ [constitutions] desde muito habituados a semelhante atmosfera. As mulheres, porém, sofriam muito com a ‘mudança do clima’, por não beberem nem fumarem, e, como ao princípio sucedera com as portuguesas, ‘criavam muito poucos filhos’, sendo para elas uma necessidade ter ‘amas índias ou negras’, que nunca desmamavam a criança antes do fim do segundo ano, e até poucas vezes tão cedo (Southey, 1862c, p.421; destaques meus).

Os neerlandeses foram, portanto, beneficiados pelo hábito de fumar e por uma dieta mais adequada às suas condições climáticas no Recife. Suas constituições eram já previamente adaptadas ao miasma pantanoso, porém não impediam que suas mulheres tivessem dificuldade de procriar a espécie, sendo necessário que raças mais bem aclimatadas, como a indígena e a negra, entrassem em cena para ser possível a subsistência das novas gerações. Portanto, sem as amas índias e negras, os neerlandeses seriam extintos, e, lembra Southey, (1862a, p.466):

nos primeiros tempos poucas crianças chegavam a criar as portuguesas; de três não escapava uma; mas afinal aprenderam dos selvagens, ‘a prescindir do peso dos cueiros e faixas, a deixar a cabeça livre, fazer frequente uso de banhos frios, e não se considerou mais o clima como mortífero para os recém-nascidos’. Nestas coisas e no conhecimento das ervas, que é o mais que nos podem ensinar, pouco temos por ora aprendido dos selvagens (destaque meu).

Se, por um lado, era necessário abrir mão de hábitos consolidados como saudáveis para os climas de origem, por outro, existiam lugares mais propícios e menos propícios para a constituição europeia. As proximidades da povoação de Santo Antônio, na capitania de Rio Negro, eram vistas por Southey como totalmente inóspitas ao europeu, enquanto o indígena era extremamente bem adaptado:

impunemente ali não residem europeus, por causa da ‘insalubre atmosfera’. Não é de esperar que o Japura obtenha população branca enquanto os Rios Negro e Branco a não tiverem excessiva, mas já ‘a civilização principiou entre os naturais que vêm ao mundo com constituições [constitutions] adaptadas ao lugar do seu nascimento’ (Southey, 1862e, p.346; destaques meus).

Caso contrário acontecia na cidade do Rio de Janeiro, em que a constituição europeia era mais bem adaptada do que a nativa: “‘europeus sentiam menos os maus efeitos da atmosfera do que os nativos, que nenhuma quantidade de gerações parecia aclimatar’” (Southey, 1819, p.815; destaque meu).10 Essa dificuldade de aclimatação das gerações nascidas na cidade advinha, em boa parte, de sua dificuldade em se adaptar à atmosfera. De fato, “salubre [healthy] não era a cidade, edificada em terreno baixo, apenas acima do nível do mar, deixando-se estagnar [em pântanos] à volta por toda a parte as águas que por detrás dela desciam das montanhas” (p.815). O inverno era “a estação mais doentia [unhealthy], bem que, se eram os pântanos a causa, deveriam no verão ser mais perceptíveis os efeitos: mas era que no inverno não faltava calor que atuasse sobre esses pântanos, e mais continuamente, por serem menos frequentes as chuvas” (Southey, 1862e, p.463). O miasma produzido no Rio de Janeiro era mais condizente com a constituição europeia, adaptada a regiões similares.

Além de considerar o desenvolvimento das doenças e dos seres humanos dentro de um parâmetro de explicação do reino vegetal, Southey também entendia que o adoecer era algo racialmente determinado, uma vez que diferentes constituições teriam doenças diferentes (Fulford, 2001, s.p.):

eu tenho uma espécie de teoria sobre essas doenças [as febres], que eu não entendo muito bem, – mas alguém entenderá, um dia desses. Elas são tão análogas aos vegetais, como se criassem raízes, crescessem, amadurecessem e decaíssem. Aquelas que são eruptivas florescem e semeiam; pois as pústulas da varíola, & c. é [sic], para todos os efeitos, a flor da doença, ou a frutificação pela qual é perpetuada. Assim sendo, essas doenças, como vegetais, escolhem o seu próprio solo – algumas plantas gostam de argila, outras de areia, outras de greda, ‘por isso a febre amarela não criará raízes em um negro, nem a framboesia em um homem branco’. É um palpite para uma nova teoria; ao mesmo tempo você verá verdade na analogia (Southey, 1850, p.257; destaque meu).11

O primeiro surto de varíola em território brasileiro ocorreu no Maranhão, em 1555, provavelmente por intermédio de colonos franceses (Toledo Jr., 2006, p.23). Como salientava Southey (1862e, p.519; destaque meu), “em princípios deste século [XIX] ainda se não praticava a vacina, não sendo isto provavelmente devido nem a ignorância nem a preconceito, ‘mas ao número dos negros, e à certeza de que se seguiria grande mortalidade entre eles de qualquer forma que se introduzisse a moléstia’”. A variolização só foi praticada no Brasil em finais do século XVIII, pouco antes da descoberta da vacina por Edward Jenner (Toledo Jr., 2006, p.25). Além dos negros, os indígenas também eram considerados bastante vulneráveis à varíola. Os mamelucos paulistas, segundo Southey, “‘sofriam terrivelmente de bexigas ... talvez em consequência do seu sangue índio’. Quem ouvia declarar tal a sua moléstia, ficava tão prostrado como se fosse a sua sentença de morte que houvessem proferido” (Southey, 1862e, p.512; destaque meu). Nada melhor, portanto, para tentar suprimir essa vulnerabilidade racial do que o cruzamento com outras raças que se mostravam não apenas mais aclimatadas, mas também imunes a certas doenças. Obviamente, esse processo, como bem demonstra a condição dos paulistas – mistura de europeus e índios –, não produzia uma raça perfeita, mas, em certo sentido, mais resistente aos novos desafios históricos. Em suma, Southey considerava que o indígena não sobreviveria à alteração do clima brasileiro e às novas doenças, assim como o europeu, por mais que se esforçasse, não poderia transformar o Brasil em uma nova Europa.

A mistura das raças em History of Brazil e a formação do paulista

O clima – como meio ambiente – estava diretamente relacionado com o estabelecimento e a formação dos hábitos e da moral das pessoas, mas também dizia respeito à possibilidade de sobrevivência das raças em ambientes diversos daqueles a que estavam adaptadas. Em ensaio publicado no Quarterly Review, em 1812, em que abordava conjuntamente os livros do mineralogista sir George Mackenzie (1780-1848), Travels in the island of Iceland, during the summer of the year 1810, e do botânico William Jackson Hooker (1785-1865), Journal of a tour in Iceland, in the summer of 1809, Southey parece sugerir que a mistura racial que se dava no Brasil com a colonização portuguesa também tinha acontecido na Europa, na época gótica:

Eles [os islandeses] tinham tomado posse de um país que era desabitado e ganhando-o, assim, por meio da ocupação ao invés da conquista, os grandes males do sistema feudal não existiam entre eles. A escravidão era desconhecida entre os islandeses e eles evitaram aquelas idades de opressão e barbárie, ‘pelas quais todos os reinos góticos passaram em seu progresso, antes que os conquistadores e os conquistados fossem misturados [blended] em um só povo’ e uma língua comum tivesse sido produzida ‘pela mistura entre si [intermixture]’ (Southey, 1812, p.51; destaques meus).12

Se a mistura das raças não era um fenômeno sem precedentes dentro da história da humanidade, a combinação entre os componentes dessa mistura certamente o era e, por isso, poderia formar um novo resultado, como foi o caso dos mamelucos, raça derivada do cruzamento do europeu com o indígena. Em última instância, para Southey, não existia uma incompatibilidade entre a constituição europeia e o clima brasileiro, não obstante todas as dificuldades geradas aos colonos europeus pelos seus hábitos e pelas suas constituições. Todavia, era impossível negar que tinha acontecido uma melhoria nessa constituição ao ser modificada pela introdução, principalmente, do sangue indígena por meio da mistura entre colonizador e colonizado. Southey (1862c, p.404-405) afirmava:

‘que a raça [stock] europeia pode muito bem com o trabalho que nestes climas’ é necessário para o bem-estar do homem, exuberantemente o provam as inauditas fadigas por que passavam os portugueses em busca de escravos que por eles fizessem esse trabalho. ‘Eram os primeiros conquistadores da América os mais robustos e esforçados dos homens, assim como eram também os mais desumanos: nas colônias espanholas tinha havido grande e geral degeneração, mas no Brasil estava ainda em todo o seu viço o ardor das empresas, e não só se haviam aclimatado aqui no decurso do tempo os portugueses, mas graças à grande mistura de sangue indígena, tinham as constituições de nascença adaptadas ao clima em que nasciam’ (destaques meus).

Southey (16 nov. 1809) considerava o mameluco uma raça ruim (bad breed), não por qualquer imperfeição física ou moral de origem, mas “porque aprenderam o mal de ambas as raças e o bem de nenhuma delas”. Não existia, portanto, nenhuma degradação em si causada pelo cruzamento das duas raças, mas uma degradação moral que os mamelucos herdaram do comportamento reprimível de ambos os lados do cruzamento. Apesar das expedições de captura de índios para escravização e de busca de minas de ouro que estavam envolvidas, os mamelucos paulistas mantinham a iniciativa (enterprise) característica do europeu, sendo predominantemente conhecidos pelo seu espírito aventureiro (Southey, 1817, p.567). Os mamelucos paulistas eram herdeiros da intrepidez ibérica, que, em muitos lugares, havia cessado com o passar dos séculos. Southey (1862a, p.467-468) propunha que enquanto “crescia uma raça de homens, ferozes sim e intratáveis, mas que com a ‘mistura do sangue indígena’, adquiriam uma atividade constitucional e incansável” (destaques meus), os espanhóis, no Paraguai, negligenciavam as descobertas feitas pelos primeiros conquistadores, deixavam que a mata tomasse conta dos caminhos já abertos e abandonavam os costumes e até mesmo a língua espanhola. Muito por causa da política de castas adotada pelo governo espanhol, que inferiorizava os cruzamentos inter-raciais, os conquistadores espanhóis não conseguiram sustentar a posição de colonizador e desbravador. O temperamento (character) espanhol formado no século XVI, “prudente no conselho, vigoroso na ação, frio, expedito, resoluto, inflexível”, já encontrava poucos representantes em finais do século XVIII (Southey, 1862e, p.257). Dessa forma, argumentava Southey, enquanto os espanhóis, com sua política de castas, visivelmente degeneravam, os paulistas mantinham vivo o espírito português das grandes navegações. Caso essa mistura não tivesse ocorrido, provavelmente, o Brasil teria vivido a mesma inércia que tinha acometido o lado espanhol. Foi graças aos paulistas que foi assegurada “à casa de Bragança as mais ricas minas, e maior extensão da América do Sul, de toda a terra habitável a região mais formosa” (Southey, 1862a, p.468).

Os habitantes de São Paulo, conhecidos posteriormente como bandeirantes, eram um exemplo dos benefícios dessa mistura racial, uma vez que grande parte dos paulistas era oriunda do cruzamento de brancos com índios:

Pela sua situação tinha a cidade como que cortadas as relações com as outras povoações: pouca ou nenhuma comunicação tinha com Portugal, e o comércio não o havia por falta de saídas, mas o solo era fertilíssimo e ameno o clima. A semelhante lugar deviam naturalmente afluir aventureiros, desertores e réus de polícia: aliaram-se eles com as índias ‘e a mescla [mixture] de sangue indígena, que por todo o Brasil foi grande, em nenhuma parte foi talvez maior do que aqui. Com este cruzamento [mixture] melhorou a raça, desenvolvendo-se o espírito de empresa europeu em constituições adaptadas ao país’ (Southey, 1862b, p.413-414; destaque meu).

Southey afirmava, com clareza, que não existia nenhuma inferioridade racial nessa mistura, pelo contrário, era bastante benéfica ao combinar o espírito empreendedor europeu com a constituição indígena, que, por ser nativa, era mais bem adaptada ao clima e, com isso, mais resistente e mais capacitada à sobrevivência. Os índios eram, em sua opinião, uma raça dócil, que possuía inúmeras qualidades, como ser calma, inofensiva, asseada, acostumada com pouco e resistente à fadiga (Southey, 1819, p.762). Estas últimas características haviam herdado os paulistas de seus ancestrais indígenas e lhes rendiam uma energia quase que inabalável, disposta a grandes empreendimentos. Os paulistas eram audaciosos, dotados de coragem, sem lei, remorso, e com um forte sentimento nacional (p.348). Infelizmente, para Southey, a intrepidez paulista era frequentemente empregada em expedições de captura de índios para escravização e busca de minas de ouro.

A extração de ouro não havia produzido nem uma “indústria regular nem bons hábitos” na capitania de Minas Gerais, por exemplo, porém muitas regiões como Goiás e Mato Grosso teriam permanecido não conquistadas e até inexploradas “se não fosse pelo espírito empreendedor [enterprize] provocado pela paixão pelo ouro” (Southey, 1819, p.820). Era claro para Southey que ambas as empreitadas traziam malefícios, fosse pela dizimação e pelo sofrimento dos naturais, fosse pelo enriquecimento rápido por meio da mineração. Southey apontava que o caráter repreensível das ações dos paulistas estava relacionado, principalmente, aos efeitos da lei e da religião praticadas:

os mamelucos cresciam sem freio de ‘lei nem religião’. ‘Lei’, mal se pode dizer que existisse numa terra onde qualquer [um] praticava impunemente quantas mortes queria, e quanto ‘a religião, era suprida por uma grosseira idolatria, de tão pouca influência sobre os costumes dos seus aderentes, que estes, cometendo os mais horríveis e flagrantes crimes, continuavam a ter-se por bons católicos, alimentando a mais viva fé na Virgem Maria e nos santos do paraíso’ (Southey, 1862b, p.414; destaques meus).

Nem os mamelucos, nem os indígenas eram inferiores, muito menos o europeu. A atitude desenfreada dos paulistas, que nada mais eram do que mamelucos, em busca de escravos e minas de ouro não residia em falha de caráter advinda da mistura das raças, mas do escasso cumprimento das leis e do culto de uma religião baseada na idolatria, que absolvia todas as faltas de seus fiéis por meio da confissão. À medida que a lei começasse a ser cumprida, ter-se-ia um melhoramento do temperamento e da moral não apenas dos paulistas, mas de todos os residentes do Brasil (Southey, 1819, p.871).

Por mais que Southey não pudesse deixar de salientar e reprimir algumas ações dos paulistas, era igualmente impossível deixar de notar que eram “uma raça de homens mais ardida [enterprizing] ainda do que a dos primeiros conquistadores” (Southey, 1862b, p.419). Era inegável a importância exploratória dos mamelucos, que se tornaram uma raça com iniciativa (enterprize), como seus pais portugueses, e altamente resistente ao clima, como suas mães indígenas. Na opinião de Southey (1819, p.21), iniciativa (enterprize) era o que movia as nações em direção à prosperidade. Não é de espantar, portanto, o elogio de Southey (1862e, p.500-501) aos paulistas na afirmação de que “das classes baixas de S. Paulo se dizia que estavam muito adiantadas em civilização comparadas com as de qualquer povoação do Brasil, notando-se nas elevadas um nobre sentimento de nacionalidade”; reinava o espírito altivo entre os paulistas.

A condição de São Paulo, na época da vinda da família real, era fortemente devedora aos seus habitantes mesclados, os mamelucos. Na opinião de Southey, o sucesso da colonização portuguesa era fruto também de sua política colonial, que diferia radicalmente da espanhola, no que dizia respeito ao cruzamento das raças. Apesar das críticas às colonizações portuguesa e espanhola, Southey não acreditava que ambas seguiam a mesma diretriz de forma unívoca. Enxergava a política colonial dos portugueses no Brasil em relação à mistura racial como mais bem sucedida do que o sistema de castas imposto na América espanhola:

Posto, porém, que a este respeito [a imprensa] menos favorecido do que as colônias espanholas, era o Brasil mais feliz em ponto da mais alta importância. Não tinha ali semeado os germens da guerra civil a fatal distinção de castas, que tanto mal produziu na América espanhola e por força há de causar onde quer que prevalece [sic]. Era isto, porém, o resultado da necessidade, não dos mais sãos conselhos. Com o seu limitado território e escassa população não podia Portugal seguir a injusta e ciumenta política dos espanhóis, deprimindo os crioulos para tê-los mais sujeitos. ‘Tão respeitado, tão elegível para todos os cargos era o mameluco, como o homem de sangue inteiro, como o natural da mãe pátria. Nenhuma lei degradava o mulato ou o negro livre, nem tão pouco a opinião pública o fazia. E assim se ia operando silenciosamente essa amalgamação de castas e cores que quaisquer que sejam as convulsões por que tiver que passar o Brasil, o livrará da mais cruel das guerras civis’ (Southey, 1862c, p.471; destaque meu).

Em início do século XIX, já extinta a caça às tribos nativas, os índios “viam os brancos [Portuguese], não como invasores ou inimigos, mas como um povo arraigado [rooted] no país… convidando-os a partir com eles a terra como irmãos, e tomar parte nos cômodos e vantagens de uma vida fixa e segura” (Southey, 1862e, p.497). A felicidade dos povos oriundos das misturas entre as raças advinha, em grande parte, da ausência de distinção de castas. Apesar de, como povo cristão e civilizado, os portugueses assumirem “uma superioridade que os índios sentiam e reconheciam”, isso não era visto “como direito de casta [cast] [ou de cor] ou de conquista, mas como inerente ao seu estado de ilustração, convidando os índios a deixarem-se instruir, tornando-se membros livres da mesma sociedade em termos de perfeita igualdade” (p.498). Essa política portuguesa, na opinião de Southey, fez com que, “dentro em poucos anos todos os índios, acolhidos ao grêmio da civilização, profe[ssassem] a fé dos portugueses, e adota[ssem]-lhes a língua e os costumes, fundindo-se com eles num só povo” (p.498). O resultado dessa prática colonial portuguesa, fruto da falta de contingente capaz de povoar o Brasil, fazia com que “a raça não branca [mixed breed], em todos os seus graus, isenta dessas odiosas incapacidades que nas colônias espanholas a degradava, … índios e negros tinham sido condecorados com honras e admitidos a cargos de autoridade e confiança” (p.97). Nesse sentido, Southey pensava que a colonização portuguesa teria um melhor resultado, pois, eventualmente, surgiria uma população unida e coesa no Brasil (Craig, 2007, p.158). A mistura das raças foi um ponto decisivo na interpretação de Southey sobre o Brasil ao ser alçada a posição crucial na formação do país (Lima, 2012, p.128-129). É impossível dizer que Southey considerava a colonização portuguesa um modelo a ser seguido por completo, contudo, Portugal era um país com valentes, fiéis e perseverantes homens. O Brasil teve a felicidade de ter sido colonizado por homens com virtudes tão louváveis.

Considerações finais

O destaque dado em History of Brazil aos mamelucos paulistas não tem comparação com o recebido por qualquer outra mistura de raças. A espécie (breed) gerada pela mistura de negros e indígenas, por exemplo, os caribocas, é citada de passagem como sendo ordeira, industriosa e altamente respeitada (Southey, 1819, p.841). A mistura de brancos e negros, os mulatos, também tem papel secundário em History of Brazil. De fato, não apenas os mamelucos têm maior visibilidade como os indígenas, de forma geral, ocupam inúmeras páginas a mais do que os negros, que são mencionados por Southey muito pontualmente. A raça negra, para Southey (1819, p.552), era mais resistente, trabalhadora ativa e inteligente que a indígena. Enquanto os mamelucos eram encontrados com maior frequência no interior, os mulatos preponderavam no Recife e nas outras cidades costeiras. Na opinião de Southey, os mamelucos eram “mais bem-apessoados que os mulatos, e de temperamento mais independente, pois que embora o negro despreze o índio, o mulato sempre olha para os seus parentes brancos com consciência d[e] inferioridade como se na pele trouxesse o ferrete da escravidão, enquanto que não pensava assim o mameluco” (Southey, 1862e, p.428-429). Muito se dizia sobre a imoralidade dos mulatos, acusando-os de serem vingativos e dissolutos, que praticavam crimes de parricídio, incesto e de toda espécie, “não se vá, porém, supor que na cor da pele traga esta raça depravada uma levedura de malvadez, ‘um pecado original privativo da composição do seu sangue’”, faltava-lhes apenas exemplo de presteza e bem dirigida iniciativa (enterprize) (p.480; destaque meu). A cor preta da pele africana poderia ser entendida segundo a leitura feita por Aristóteles e Plínio, em que a coloração escura derivava de uma mudança humoral. O calor do sol secava o corpo, que produzia um resíduo bilioso que escureceria a pele. Também poderia ser vista de acordo com a maldição de Cam, filho de Noé, relatada no Gênesis. O filho de Cam, Canaã, foi amaldiçoado por Noé para ser o “servo dos servos”, pois Cam não guardou o pudor de seu pai ao vê-lo dormindo nu. Essa sugestão de que a pele escura africana veio de uma maldição bíblica misteriosa marca o corpo africano como fundamentalmente diferente e inferior ao corpo do branco europeu (Earle, 2013, p.191-192). Provavelmente Southey conhecia ambas as interpretações sobre a coloração preta da pele africana e tentava combatê-las ao afirmar que a cor da pele nada dizia sobre uma raça.

A centralidade do indígena na mistura racial proposta por Southey talvez esteja relacionada à ambição colonizadora de civilizá-lo mediante certos ajustes em seu modo de vida, ao passo que transformar africanos em europeus não se mostrou como projeto reivindicado por ninguém. Há muitos séculos, o africano vinha sendo entendido como parte de uma raça difícil de ser modificada, principalmente pela cor da sua pele, ou mesmo entendia-se que não havia o que modificar, pois a característica força bruta associada ao africano era vista como algo positivo (Earle, 2013, p.193-201). Assim, o indígena ganhou papel de destaque em History of Brazil ao mesmo tempo que as demais possibilidades de mistura raciais não foram postas em relevo, mas também não foram inferiorizadas: “a mistura de raças que tem tido lugar [no Brasil], é conjuntamente um melhoramento físico e uma grande vantagem política” (Southey, 1862e, p.329).

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