Nursing diagnoses, patient outcomes, and nursing interventions for patients undergoing peritoneal dialysis

Nursing diagnoses, patient outcomes, and nursing interventions for patients undergoing peritoneal dialysis

Autores:

Richardson Augusto Rosendo da Silva,
Moiziara Xavier Bezerra,
Vinicius Lino de Souza Neto,
Ana Elza Oliveira de Mendonça,
Marina de Góes Salvetti

ARTIGO ORIGINAL

Acta Paulista de Enfermagem

On-line version ISSN 1982-0194

Acta paul. enferm. vol.29 no.5 São Paulo Sept./Oct. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0194201600069

Introdução

No Brasil, cerca de 12 milhões de pessoas apresentam algum grau de insuficiência renal e, aproximadamente, 95 mil renais crônicos dependem de diálise ou de um transplante renal para sobreviver. Segundo o Censo da Sociedade Brasileira de Nefrologia, 100.397 brasileiros estavam em tratamento dialítico em 2013, e esse número continua crescendo.(1)

A insuficiência renal crônica está relacionada à diminuição da taxa de filtração, associada à perda das funções reguladoras, endócrinas e excretoras dos rins. As formas de tratamento da insuficiência renal crônica são: diálise peritoneal, hemodiálise e transplante renal.(2,3)

A diálise peritoneal ambulatorial contínua é uma modalidade de tratamento que pode ser realizada no domicílio, mas é um procedimento complexo, que envolve uma série de cuidados e que pode trazer complicações.(4)

Estudo que investigou o processo de cuidar de pessoas com insuficiência renal crônica em tratamento com diálise peritoneal domiciliar mostrou sobrecarga dos cuidadores e indicou a necessidade de um suporte especializado para que a família pudesse cuidar desses pacientes de modo adequado.(5)

Os pacientes também precisam de suporte para que possam colaborar em seu tratamento, e o enfermeiro que atua no cuidado a pacientes em diálise peritoneal deve avaliar a motivação, as habilidades manuais e a cognição desses pacientes, realizando treinamento teórico/ prático direcionado às necessidades de cada paciente.(6)

O paciente com insuficiência renal crônica demanda assistência multiprofissional devido à complexidade da doença e do tratamento. Nesse contexto, o enfermeiro pode promover uma assistência individualizada, integral e humanizada, por meio do Processo de Enfermagem, que direciona o cuidado de enfermagem, facilitando a adaptação do paciente e de sua família à doença e ao tratamento.(7)

O Processo de Enfermagem é um instrumento que o enfermeiro utiliza para organizar o cuidado, documentar sua prática e identificar as necessidades humanas em face aos problemas de saúde. O mesmo é pautado no raciocínio clínico e envolve cinco momentos: investigação, diagnóstico de enfermagem, planejamento, implementação e avaliação.(6)

O diagnóstico, os resultados e as intervenções de enfermagem fazem parte dos elementos essenciais da prática do enfermeiro, os quais contribuem para o julgamento terapêutico dos pacientes acerca das suas reais necessidades de cuidado.(7) Nesse sentido, a identificação desses elementos representa um relevante instrumento no processo de sistematização da assistência de enfermagem no atendimento aos indivíduos portadores de insuficiência renal crônica em tratamento por diálise peritoneal, o qual pode contribuir para a melhoria na qualidade da assistência a essa clientela.

A partir deste contexto, questiona-se: quais as necessidades de cuidados de pacientes com insuficiência renal crônica em diálise peritoneal? Assim, este estudo teve como objetivo identificar os principais diagnósticos, resultados e intervenções de enfermagem, e validar uma proposta de plano de cuidados para pacientes renais crônicos, em tratamento por diálise peritoneal.

Métodos

Estudo transversal, com abordagem quantitativa, seguido de validação de conteúdo por especialistas. A trajetória metodológica seguiu quatro etapas: elaboração dos Diagnósticos de Enfermagem a partir da NANDA Internacional (NANDA-I); proposta inicial de resultados e intervenções de enfermagem, conforme a Nursing Outcomes Classification (NOC) e Nursing Interventions Classification (NIC)(8) e elaboração de um plano de cuidados e validação.

A população foi composta por 82 pacientes cadastrados, submetidos à diálise peritoneal e regularmente acompanhados em um centro de referência para o tratamento de doenças renais, localizado na Região Nordeste do Brasil, bem como por enfermeiros brasileiros, os quais atuaram no presente estudo como especialistas.

O cálculo do tamanho da amostra de pacientes se deu a partir da fórmula para populações finitas, levando em consideração o nível de confiança de 95% (Z∞=1,96), o erro amostral de 5%, o tamanho da população e a prevalência da doença renal crônica na população.(9) Assim, a amostra foi constituída por 68 pacientes, selecionados por conveniência, do tipo consecutiva.

Para a seleção dos pacientes, adotaram-se os seguintes critérios de inclusão: ter diagnóstico médico de insuficiência renal crônica; estar em tratamento por diálise peritoneal; e ter idade igual ou superior a 18 anos. Foram excluídos da pesquisa participantes que apresentavam comorbidades não relacionadas ao quadro renal que pudessem interferir no perfil das respostas humanas desses pacientes.

Já a amostra dos especialistas foi selecionada de forma intencional a partir da avaliação de seus currículos. Para tanto, realizou-se uma busca por meio da Plataforma Lattes, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Os critérios de inclusão foram: ser enfermeiro ter desenvolvido estudo publicado ou de conclusão de titulação (especialização, mestrado ou doutorado) relacionado aos Diagnósticos de Enfermagem em pacientes com insuficiência renal crônica ou ter orientações acadêmicas na área; e, como critério de exclusão, informar no Currículo Lattes apenas o Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação sobre a temática.

Considerando a importância da prática clínica dos enfermeiros para o processo de validação de conteúdo do plano de cuidados e que o mesmo apresentasse uma aplicabilidade prática, analisou-se os currículos dos especialistas selecionados, e além de respeitar os critérios já descritos, optou-se por eleger os que mencionaram na plataforma Lattes, experiência em serviços de Nefrologia de no mínimo cinco anos.(10) Nesse sentido, foram selecionados 14 enfermeiros, doravante chamados especialistas.

Os dados foram coletados por meio de um roteiro de entrevista e exame físico, embasados na Taxonomia II da NANDA-I. Estes foram aplicados nos domicílios dos pacientes no período de janeiro a junho de 2014.

O instrumento de coleta de dados foi adaptado pelos pesquisadores, de estudos sobre perfil de pacientes renais, sistematização da assistência de enfermagem e diagnósticos de enfermagem na área de Nefrologia, sendo compostos por perguntas abertas e fechadas sobre os dados sociodemográficos e clínicos, seguido dos dados relacionados ao tratamento dialítico e pelo roteiro do exame físico.(11-13) Além disso, abordaram-se as características definidoras (sinais e sintomas), fatores relacionados/de risco subdivididos nos 12 domínios (promoção da saúde, nutrição, eliminação e troca, atividade/repouso, percepção/cognição, auto percepção, papéis e relacionamentos, sexualidade, enfrentamento/ tolerância ao estresse, segurança/proteção e conforto) presentes na taxonomia II da NANDA internacional, excluindo o domínio do crescimento e desenvolvimento, por não ter relação com o objetivo desse estudo.(8)

O referido roteiro foi aplicado, sob a forma de pré-teste, a dez pacientes submetidos à diálise peritoneal. Como não houve a necessidade de alterações, os participantes do pré-teste foram incluídos na amostra do estudo.

A análise dos Diagnósticos de Enfermagem foi processual, realizada simultaneamente pelos autores, com a coleta de dados, buscando identificar as características definidoras e os fatores relacionados/ risco de acordo com a NANDA-I.(8) Os pacientes foram avaliados pelos autores do presente estudo e, para a estruturação dos Diagnósticos de Enfermagem, seguiram-se as etapas do julgamento clínico de Gordon.(14)

Após essa etapa, os resultados obtidos passaram por um processo de revisão de forma pareada entre outros dois autores, para assegurar um julgamento consensual, objetivando, assim, maior acurácia. Ambos com o título de Doutor e atuação prática em Nefrologia, com período superior a cinco anos, e experiência na elaboração e implementação do processo de enfermagem a esta clientela, no referido centro onde os dados foram coletados. Além disso, também propuseram os resultados e as intervenções somente para os diagnósticos mais frequentes, com base em sua prática clínica e nas sugestões das classificações da NOC e NIC.(8) Considerou-se como os diagnósticos mais frequentes, aqueles formulados para mais de 50% dos pacientes do estudo.

Após a construção da proposta final do plano de cuidados, a mesma foi submetida a um processo de validação de conteúdo por enfermeiros especialistas da área, que concordaram em participar do estudo, assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), respeitando os preceitos éticos da pesquisa. Assim, foi solicitada a colaboração dos enfermeiros, no sentido de apontar se, na proposta final do instrumento (plano de cuidados), os resultados e intervenções de enfermagem eram pertinentes aos diagnósticos traçados pelos pesquisadores, aplicáveis à área da Nefrologia, e se eram úteis para serem implementados no cuidado ao paciente com insuficiência renal crônica em tratamento por meio da diálise peritoneal. Em caso de discordância das afirmativas, requisitaram-se, se possível, sugestões para sua adequação à realidade da prática de enfermagem.

A avaliação do plano de cuidados ocorreu a partir da classificação de cada item quanto à opinião dos enfermeiros especialistas sobre a concordância ou discordância da permanência dos resultados e intervenções propostos. Além disso, sugestões também poderiam ser feitas a fim de que os conteúdos pudessem ser modificados e incorporados à pesquisa. Após as adequações realizadas, reenviou-se o plano de cuidados aos enfermeiros especialistas para avaliação final. Os resultados e intervenções de enfermagem foram incorporados ao instrumento quando alcançaram um Índice de Concordância ≥0,80 entre os enfermeiros especialistas, sendo considerados validados.

Para o tratamento dos dados coletados na pesquisa, os instrumentos foram numerados e as variáveis contidas nos mesmos foram codificadas e inseridas em banco de dados, utilizando o software Microsoft Office Excel 2009. Posteriormente, os dados foram compilados e processados pelo programa IBM Statistical Package for the Social Science (SPSS), versão 20.0 for Windows, sendo realizada a aplicação do teste Kappa.

O estudo foi registrado na Plataforma Brasil sob o número do Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) 15437013.9.0000.5537.

Resultados

Dentre os 68 participantes do estudo, a maior parte era do sexo feminino (66%), parda (48%), casada (59%), com Ensino Fundamental Incompleto (66%), renda de um a dois salários mínimos (56%), e aposentados (87%). A média de idade foi de 45,6 anos, com mínimo de 20 e máximo de 65 anos. Na tabela 1 estão descritos os 22 diagnósticos identificados, com suas respectivas frequências e percentuais.

Tabela 1 Distribuição dos Diagnósticos de Enfermagem identificados nos pacientes renais crônicos em diálise peritoneal 

Diagnósticos de Enfermagem n(%)
Risco de infecção (00004) 68 (100)
Fadiga (00093) 62 (91,1)
Constipação (00011) 50 (73,5)
Dor aguda (00132) 41 (60,2)
Deambulação prejudicada (00088) 39 (57,3)
Volume de líquidos excessivo (00026) 38 (55,8)
Autocontrole ineficaz da saúde (00078) 22 (32,3)
Disfunção sexual (00059) 20 (29,4)
Baixa autoestima situacional (00120) 20 (29,4)
Ansiedade (00146) 18 (26,4)
Proteção ineficaz (00043) 15 (22,0)
Intolerância à atividade física (00092) 13 (19,1)
Risco de quedas (00155) 11 (16,1)
Padrão de sono prejudicado (00198) 11 (16,1)
Percepção sensorial perturbada: visual (00122) 8 (11,7)
Percepção sensorial perturbada: auditiva (00122) 6 (8,8)
Tristeza crônica (00137) 5 (7,3)
Conhecimento deficiente (00126) 5 (7,3)
Medo (00148) 4 (5,8)
Risco de sentimento de impotência (00152) 3 (4,4)
Dentição prejudicada (00048) 3 (4,4)
Integridade da pele prejudicada (00046) 2 (2,9)

Considerando o elevado número de diagnósticos encontrados, o quadro 1 apresenta os fatores relacionados e as características definidoras dos diagnósticos que obtiveram frequência relativa acima de 50%.

Quadro 1 Distribuição dos Diagnósticos de Enfermagem mais frequentes, de acordo com os respectivos domínios, classes, fatores relacionados/risco e características definidoras 

Domínio/classe Diagnósticos de Enfermagem Fatores relacionados/risco Características definidoras
Segurança e proteção/infecção Risco de infecção (00004) * Procedimentos invasivos, doença crônica
Atividade e repouso/sono e repouso Fadiga (00093) * Anemia Falta de energia
Concentração comprometida
Introspecção
Verbalização de uma constante falta de energia
Deambulação prejudicada (00088) * Capacidade prejudicada de andar em declive
Capacidade prejudicada de subir e descer calçadas
Capacidade prejudicada de subir escadas
Força muscular insuficiente
Eliminação e troca/função gastrintestinal Constipação (00011) * Ingestão insuficiente de líquidos
Atividade física insuficiente
Dor à evacuação
Fezes duras e formadas
Mudança no padrão intestinal
Conforto/conforto físico Dor aguda (00132) * Agentes físicos Comportamento expressivo de irritabilidade
Distúrbio do sono
Expressão facial
Nutrição/hidratação Volume de líquidos excessivo (00026)* Mecanismos reguladores comprometidos Azotemia
Ingestão maior que o débito
Ganho de peso em curto período
Eletrólitos alterados

*códigos numéricos

Com base nos diagnósticos encontrados, foram identificados resultados e intervenções de enfermagem prioritários ao paciente em diálise peritoneal. Estes foram selecionados separadamente pelos autores e posteriormente incluídos no plano de cuidados, os que apresentaram consenso entre os pesquisadores. Assim, dentre os 16 resultados de enfermagem propostos e enviados para os especialistas, 6 obtiveram Índice de Concordância ≥0,8, sendo sugerido o acréscimo do resultado hidratação para o diagnóstico de enfermagem constipação e do resultado resistência para o diagnóstico de enfermagem deambulação prejudicada, totalizando oito resultados ou metas assistenciais.

Já em relação às 35 intervenções elencadas e enviadas para validação, 17 alcançaram Índice de Concordância ≥0,8 e foram mantidas. Os especialistas sugeriram a inclusão de algumas intervenções: identificação de risco (6610) para o diagnóstico de enfermagem risco de infecção; controle hidroeletrolítico (2080) para o diagnóstico de enfermagem volume de líquidos excessivos; e duas intervenções para o diagnóstico de enfermagem dor aguda: ensino (5606) e estabelecimentos de metas mútuas (4410), totalizando 21 intervenções. É valido destacar, que após a sugestão da inclusão de novas intervenções e resultados pelos especialistas, foi realizada outra análise para se obter a concordância superior a 0,8.

Dessa forma, o plano de cuidados foi composto por 6 Diagnósticos de Enfermagem, 8 resultados e 21 intervenções de enfermagem, os quais alcançaram Índice de Concordância ≥0,8 entre os enfermeiros especialistas, conforme mostra o quadro 2.

Quadro 2 Proposta do plano de cuidados para pacientes renais crônicos em diálise peritoneal 

Diagnóstico (NANDA-I) Resultados (NOC) Intervenções (NIC)
1. Risco de infecção (00004) * Estado imunológico (0702) * Avaliação da saúde (6520) *
Controle de imunização/vacinação (6530) *
Educação em saúde (5510) *
Identificação de risco (6610) *
2. Fadiga (00093) * Tolerância à atividade (0005) * Assistência no autocuidado (1800) *
Promoção do exercício: alongamento (0202) *
Identificação de risco (6610) *
3. Constipação (00011) * Eliminação intestinal (0501) *
Hidratação (0602) *
Controle Hídrico (4120) *
Controle hidroeletrolítico (2080) *
Controle de constipação/impactação (0450) *
4. Dor aguda (00132) * Controle da dor (1605) * Controle da dor (1400) *
Ensino: indivíduo (5606) *
Estabelecimentos de metas mútuas (4410) *
Melhora do sono (1850) *
Controle do ambiente: conforto (6482) *
Melhora do enfrentamento (5230) *
5. Deambulação prejudicada (00088)* Movimento coordenado (0212)*
Resistência (0001)*
Promoção da mecânica corporal (0140) *
Controle de energia (0180) *
6. Volume de líquidos excessivos (00026)* Equilíbrio hídrico (0601)* Controle hídrico (4120) *
Controle hidroeletrolítico (2080) *
Monitoração hídrica (4130)*

*códigos numéricos

Discussão

A identificação dos diagnósticos, resultados e intervenções de enfermagem contribui para o delineamento de diferentes ações clínicas de enfermagem. Nesse sentido, o estudo apresenta pontos fortes, que devem ser apontados, como a estratégia de estabelecer uma proposta de plano de cuidados voltado ao paciente em diálise peritoneal, o qual é uma ferramenta importante para alicerçar a prática clínica do enfermeiro, pois direciona o olhar desse profissional para aspectos essenciais a serem avaliados em casos de pacientes em uma situação clínica muito específica, como a diálise peritoneal.

No presente estudo percebeu-se que a intervenção da terapia de dialise peritoneal não foi apontada pelos especialistas no plano. Acredita-se que se deve ao fato de se ter elegido como critério de inclusão, os pacientes submetidos a esse tipo de procedimento.

Nesse sentido, a proposta de plano de cuidados pode contribuir para uma avaliação direcionada aos principais problemas do paciente em diálise peritoneal, facilitando a identificação de resultados e o estabelecimento de intervenções de enfermagem. O plano de cuidados, no entanto, não exclui a avaliação individualizada e nem o levantamento de outros problemas que possam estar presentes. O enfermeiro, ao planejar a assistência, identifica as reais necessidades do cliente, realiza a prescrição de cuidados, supervisiona o desempenho da equipe de enfermagem, e avalia os resultados e a qualidade da assistência.

Neste estudo, o diagnóstico de enfermagem Risco de Infecção (00004) esteve presente em todos os pacientes, o que pode ser explicado pelo fato de que os pacientes foram expostos a procedimentos invasivos e apresentavam uma doença crônica, constituindo-se como fator de risco para infecções.(4) O diagnóstico de enfermagem Risco de Infecção (00004) pertence ao domínio segurança e proteção da NANDA-I, conceituado como o estado iminente de albergar alguma injúria biológica, como vírus, bactéria e fungos, ocasionada por procedimentos invasivos, ou não, afetando, assim, seu sistema imunológico.

Assim, para o diagnóstico Risco de Infecção (00004), a meta é manter o estado imunológico adequado (0702), ou seja, a resistência natural e adquirida(15) por meio das seguintes intervenções: avaliação da saúde (6520), identificação de risco (6610) e a realização do controle de imunização/vacinação (6530). Outra ação do enfermeiro inclui a educação em saúde (5510), por meio da qual deve orientar o paciente quanto à higienização da região próxima à de inserção do cateter na hora do banho e após o banho. A prevenção e o controle de infecção exigem medidas técnicas e comportamentais como a higienização rigorosa das mãos antes e depois dos procedimentos, e utilização de luvas estéreis na troca de curativos, repercutindo na qualidade à saúde e, na consequente, diminuição de esforços, problemas, complicações e custos.(16)

O segundo diagnóstico mais frequente no estudo foi a Fadiga (00093), que compõe o domínio de atividade e repouso da NANDA-I, conceituado como uma sensação física desagradável, com sintomas cognitivos e emocionais descritos como cansaço, e que não é aliviada com o emprego de estratégias usuais de restauração de energia. O quadro de insuficiência renal crônica pode levar a uma perda progressiva da estrutura muscular, pois o quantitativo proteico no líquido extracelular está insatisfatório e, para compensar essa deficiência, os hepatócitos tentam suprir a demanda. Além disso, pacientes renais apresentam o quadro anêmico decorrente da deficiência da eritropoietina. Com isso, a difusão de oxigênio tornase prejudicada, levando as células a produzirem uma grande quantidade de ácido láctico, provocando a saturação da fibra muscular e a consequente fadiga, com possíveis episódios de queda.(16,17)

É importante destacar que a Fadiga (00093) contribui para a restrição do paciente ao leito e, com a deambulação prejudicada, a rede venosa não funciona de forma correta, aumentando o risco de úlcera por pressão, embolia pulmonar e trombose venosa profunda. A Fadiga (00093) afeta diretamente as Atividades da Vida Diária (AVD), reduzindo a funcionalidade dos pacientes. Por isso, uma das metas do plano de cuidados é manter a tolerância a atividade (0005), caracterizada pelas respostas a movimentos do organismo que consomem energia, envolvidos em atividades do cotidiano. Nesse sentido, as intervenções de enfermagem incluem a identificação de risco (6610) e promoção do exercício: alongamento (0202). Outra intervenção consiste na assistência ao autocuidado (1800) por meio de orientações sobre manter um ritmo para as atividades, higiene do sono e suplementação por alimentos ricos em folato (acido fólico) e cianocobalamina (vitamina B12) que contribuem para a maturação das hemácias.(17,18)

Outro diagnóstico de enfermagem frequente nos pacientes em diálise peritoneal foi a Deambulação Prejudicada (00088), que compõe o domínio atividade e repouso da NANDA-I, conceituado como o estado no qual o indivíduo experimenta uma limitação na habilidade para movimentos físicos independentes. Diante desse diagnóstico, a meta é alcançar um movimento coordenado (0212) e resistência (0001). Neste sentido, as intervenções de enfermagem devem ser voltadas para a promoção da mecânica corporal (0140) por meio da estimulação da prática de exercícios ativos e passivos, e a realização do controle de energia (0180) entre as perdas e o consumo.(17,19)

Dentro do domínio de eliminação e troca da NANDA-I, identificou-se, no estudo, o diagnóstico de enfermagem Constipação (00011), definido como a dificuldade e/ou ausência de massa fecal por um determinado período. A causa pode ser de fundo multifatorial em pacientes nefropatas, pois a perda de eletrólitos, a idade avançada, o sedentarismo, o uso de quelantes de fosforo, a deficiência da ingesta hídrica, (decorrente ou não do tratamento) estão vinculados a esse estado fisiológico, no qual o paciente apresenta fezes endurecidas e mudança no ritmo intestinal, reafirmado nas características definidoras e fatores relacionados presentes no referido diagnóstico.(16-20)

A Constipação (00011) em pacientes renais provém da baixa ingesta hídrica e da diminuição da excitabilidade do sistema nervoso periférico, nas vias entéricas, diminuindo os movimentos peristálticos e impactando a massa fecal.(16) Assim, dentro das metas do plano de cuidados para o referido diagnóstico, para a hidratação (0602), conceituada como a quantidade de água nos compartimentos intracelular e extracelular do organismo, e para a eliminação intestinal (0501), que é a capacidade do trato gastrointestinal para formar e evacuar as fezes de maneira eficaz, deve-se realizar as seguintes intervenções: controle hidroeletrolítico (2080), controle hídrico (4120) e o controle de constipação/impactação (0450). As orientações sobre a ingesta hídrica controlada, o consumo de fibras solúveis como pectinas, gomas, mucilagens e algumas hemiceluloses são fundamentais para a normalização do trânsito intestinal.(15-17,21)

O diagnóstico de enfermagem Dor Aguda (00132) também esteve presente nos participantes da pesquisa, pertencente ao domínio de conforto da NANDA-I, conceituada como uma experiência sensorial e emocional desagradável relacionada a dano tissular real ou potencial. A Dor é um fenômeno complexo, resultado da ativação dos receptores nociceptivos decorrentes da liberação de substâncias algiogênicas, que vão sensibilizar terminações nervosas livres, que, por sua vez, levarão a informação dolorosa até o cérebro. Nesse sentido, como meta do plano que está no controle da dor (1605), o enfermeiro deve intervir de forma a melhora do enfrentamento (5230), controle do ambiente: conforto (6482), estabelecimentos de metas mútuas (4410) e melhora do sono (1850). Para tanto, torna-se importante identificar os fatores causais da dor, para propor ações que proporcionem conforto e alívio, assim como a promoção do autocuidado por meio do ensino: indivíduo (5606) sobre métodos de manejo da dor e o uso de terapias complementares para seu alívio.(16,17,21)

A equipe de enfermagem pode atuar no controle da dor (1605) por meio de intervenções não farmacológicas, como a massagem de conforto, as técnicas de relaxamento e a aplicação de métodos físicos, como o uso do calor ou frio. Todas essas estratégias estimulam o sistema proprioceptivo, promovem relaxamento muscular, melhoram a circulação sanguínea local e liberam endorfinas, que contribuem para a modulação da dor.(17,21)

O último diagnóstico de enfermagem com frequência acima de 50% em pacientes em diálise peritoneal foi Volume de Líquidos Excessivos (00026), que faz parte do domínio nutrição da NANDA-I, conceituado como o acúmulo excessivo de líquidos nos espaços tissulares. O excesso de líquidos em pacientes em diálise peritoneal decorre da descompensação dos mecanismos regulatórios, entre as pressões coloidosmótica e hidrostática, que compõem o leito peritoneal.(22,23)Nesse aspecto, para o alcance da meta equilíbrio hídrico (0601), conceituado como o balanceamento entre os líquidos intra e extracelular, o enfermeiro deve estar atento para os possíveis sinais de desequilíbrio hídrico e, assim, realizar as intervenções necessárias como o controle hídrico (4120), controle hidroeletrolítico (2080) e monitoração hídrica (4130) por meio da restrição de líquidos, avaliação da presença de edema e realização do balanço hídrico.(15)

Conclusão

Os diagnósticos de enfermagem mais frequentes nos pacientes renais crônicos em Diálise Peritoneal foram: risco de infecção, fadiga, deambulação prejudicada, constipação, dor aguda e volume de líquidos excessivo. Esses diagnósticos permitiram a elaboração e validação de um plano de cuidados com oito resultados e 21 intervenções. Como implicações para a prática, acreditase que a utilização desse plano poderá representar um relevante instrumento no processo de sistematização da assistência de enfermagem no serviço de Diálise Peritoneal, proporcionando uma melhoria na qualidade da assistência a esta clientela. Além disso, possibilitará a utilização de uma linguagem específica da área, garantindo uma comunicação clara, precisa e objetiva entre todos que compõem a equipe de enfermagem. Por fim, dentre as limitação do estudo, têm-se o pequeno número de pacientes avaliados e a utilização de um instrumento não validado.

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