Nutrição e Cardiologia: Interface que não Pode Ser Ignorada

Nutrição e Cardiologia: Interface que não Pode Ser Ignorada

Autores:

Paula S. Azevedo,
Sergio A. R. Paiva,
Leonardo A. M. Zornoff

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.103 no.2 São Paulo ago. 2014

https://doi.org/10.5935/abc.20140121

A alimentação e a nutrição são uma área do conhecimento com características próprias. Na primeira metade do século XX, os objetivos principais das ciências nutricionais consistiam na descoberta de nutrientes essenciais, na caracterização de seu papel fisiológico e bioquímico e na descrição das consequências de suas deficiências1. Muito frequentemente, o modelo fundamental desses estudos era o crescimento dos animais2.

Contudo, nos últimos 50 anos, a expansão dos conhecimentos trouxe à alimentação e à nutrição objetivos mais amplos, inseridos em uma complexidade organizacional, tendo como foco células, órgãos, organismos e comunidades, estendendo-se, assim, de moléculas a populações. Os desafios enfrentados para a compreensão dos mecanismos fisiopatológicos envolvidos e para a prevenção e eventual solução dos problemas clínicos consequentes constituíram estímulo decisivo para o desenvolvimento de novos campos de conhecimento dentro da área de alimentação e nutrição. Dentre eles emergiu como de extrema importância a relação entre alimentação, obesidade e doenças frequentemente associadas à obesidade, as chamadas doenças crônicas, como a hipertensão arterial, a doença coronariana, o diabetes melito, as dislipidemias, o câncer etc3.

Acrescentem-se as modificações havidas em relação aos micronutrientes. No passado, eram considerados nada mais que cofatores em reações bioquímicas. Atualmente, considera-se que funcionam como antioxidantes, têm função na comunicação entre células e ação reguladora sobre os genes4. Nesse contexto surgiu a nutrigenômica, que estuda justamente a interação entre o gene e o nutriente em nível molecular5.

Além dos macro/micronutrientes essenciais, alguns compostos químicos, presentes em sua maioria em frutas e hortaliças, exercem uma potente atividade biológica. Esses compostos são chamados de compostos bioativos ou, algumas vezes, de fitoquímicos, e podem desempenhar diversos papéis em benefício da saúde humana6.

Os comentários assinalados mostram a quantidade expressiva de objetos de estudo da área de alimentação e nutrição. Nesse sentido, considerando que muitos desses objetos fazem interface com a cardiologia, acreditamos ser relevante o questionamento de essa área do conhecimento estar sendo devidamente representada nos artigos publicados pelos Arquivos Brasileiros de Cardiologia (ABC) nos últimos anos, na área de pesquisa básica/experimental.

Desse modo, em análise dos artigos publicados nos ABC nos últimos anos, pudemos observar trabalhos que tratam das alterações relacionadas com carências nutricionais. Outro aspecto que chama a atenção é que os temas mais recorrentes foram a obesidade e a dislipidemia como fatores de risco e moduladores da doença cardiovascular. Nesse sentido, a área básica/experimental mostrou a obesidade como modelo experimental de alterações da expressão gênica das proteínas reguladoras da homeostase do cálcio7, acarretando alterações nos colágenos I e III, induzindo a remodelação cardíaca8.

A relação da alimentação com as doenças cardiovasculares está presente em estudos clínicos originais, revisões sistemáticas e na seção "Ponto de vista". Da mesma forma, os compostos bioativos não foram esquecidos pelos nossos pesquisadores. Assim, substâncias como polifenóis e betacaroteno foram abordadas em alguns estudos experimentais.

O nome polifenóis ou compostos fenólicos refere-se a um amplo e numeroso grupo de moléculas encontradas em hortaliças, frutas, cereais, chás, café, cacau, vinho, suco de frutas e soja9. O resveratrol é um composto polifenólico encontrado em uvas frescas, suco de uva e vinho, e seus efeitos anti-inflamatórios e antiaterogênicos foram estudados utilizando coelhos alimentados com dieta hipercolesterolêmica10. Do mesmo modo, o estudo de Brito e cols. mostra que o uso do resíduo fermentado de café, com teor de compostos fenólicos superior ao resíduo não fermentado, reduziu a área de lesão aórtica de camundongos knockout Apo E e pode apresentar potencial efeito benéfico sobre as doenças cardiovasculares, especialmente a aterosclerose11.

O betacaroteno é um carotenoide com atividade de provitamina A e outras funções, presente na dieta de seres humanos, em frutas e vegetais coloridos. O estudo de Novo e cols. mostra que ratos suplementados com betacaroteno apresentam efeitos benéficos, caracterizados pelo aumento da comunicação intercelular, com potencial para diminuição de arritmias e melhora do sistema de defesa antioxidante12.

Pelo exposto, a alimentação e a nutrição foram uma área com muitas contribuições em nossa revista. Importantemente, essas publicações foram experimentais e clínicas, abordando diferentes temas, em diferentes seções e em diferentes formatos. No entanto, existem ainda muitas lacunas a serem preenchidas a respeito da alimentação e nutrição na área de cardiologia. Por essa razão, acreditamos que esse tema continuará a ser objeto de estudo nos ABC, incluindo a área básica/experimental, permanecendo como campo promissor para novas pesquisas.

REFERÊNCIAS

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Brito LF, Queiros LD, Peluzio Mdo C, Ribeiro SM, Matta SL, Queiroz JH. Effect of dry coffee residues fermented with Monascus ruber on the metabolism of Apo E mice. Arq Bras Cardiol. 2012;99(2):747-54.
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