O Coletivo (com) Preguiça: encontros, fluxos, pausas e artes

O Coletivo (com) Preguiça: encontros, fluxos, pausas e artes

Autores:

Arthur Calheiros Amador,
Eliane Dias de Castro

ARTIGO ORIGINAL

Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão impressa ISSN 1414-3283versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.20 no.56 Botucatu jan./mar. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622015.0576

ABSTRACT

The aim is to present some aspects of artistic production, the moments of creation and aspects that make work the Collective Laziness, - group device of experimentation in artistic languages and practices - which were born in actions developed in the interface between art and health and production. It was gained autonomy and emancipated itself in the forms of production and occupation of cultural territories. Training, participants, artistic languages and image inscription articulate a state of production-process based on the affections, in coexistence and equality of intelligence. These points deeply look at the poetic and expressive uttered fields and propose a common experience of research and inscription of the productions in the artistic cultural circuit. Artistic production is crossed by external or internal agents to the group and is a reciprocal influence that strengthens the collective body, and the participants.

Key words: Art; Creation; Collective; Subjectivity

RESUMEN

Se busca presentar parte de la produccíon del arte y algunos momentos de creación que hacen funcionar el Coletivo Preguiça, - aparato en grupo de ensayos de lenguajes y prácticas artísticos, que nasció desde acciones desarrolladas en la interface entre arte y de la producción de la salud, fue ganando autonomía, se emancipó en su manera de producir y en la ocupación de los espacios culturales. Formación, participantes, lenguajes artísticos y registro de imágenes articulan un processo de producción basado en los afectos, convivencia y equidad de la inteligencia. Estos puntos profundizan la mirada hacia los campos de expresión y poéticas enunciadas, proponen una experiencia común de búsqueda y inscripción de las producciones en el circuito artístico cultural. La producción es permeada por agentes externos o internos al grupo y hay una reciprocidad de influencia fortalecimiento la colectividad y participantes.

Palabras-clave: Arte; Creacción; Colectividad; Subjetividad

Toda a criação, ali no grupo, se faz coletiva

Às vezes individual, mas, ainda, coletiva

Três sedes, um só grupo

A busca por um lugar, que é qualquer lugar

Imperando a preguiça, usada como método

Um café, uma conversa, outro café

Nada parece que vai acontecer

A conversa continua e um lápis é pego

Os trabalhos surgem aos poucos

Cada um tem seu tempo

Uns mais lentos, outros mais rápidos

Também tem os observadores

E os que, no dia, resolvem só conversar

Tudo é compartilhado

As ideias, o conhecimento, as técnicas

Até a preguiça

Nada é produzido e tudo é produção

Dessa produção surgem obras coletivas

Todos trabalhando sobre a mesma matéria

Todos desenvolvendo a mesma temática

Não se identifica quem fez o quê

Ainda assim, as individualidades são mantidas

Do trabalho coletivo sai o individual

E o individual toca no coletivo

Um observa, parece não fazer nada

Toma o seu lugar e parece alheio a tudo

Quando pega seu caderno, a folha ganha vida

A linha toma forma e o desenho fica pronto

Poucos minutos e o nada se materializa em tudo

Um olhar apurado, uma mão que vagueia

Vagueia pelas formas

Capta a essência que por ele é vista

E traduz em linhas

Move o outro a produzir

Ou apenas observar

Para, em um próximo encontro, quem sabe?

Produzir algo também

Ou apenar ir tomar mais um café

Coletivo Preguiça, 2013 

A produção e o Preguiça

O termo “coletivo” deve ser entendido aqui no sentido de uma multiplicidade que se desenvolve para além do indivíduo, junto ao socius, assim como aquém da pessoa, junto a intensidades pré-verbais, derivando de uma lógica dos afetos mais do que de uma lógica de conjuntos bem circunscritos.1 (p. 19)

A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda. Não poderia viajar pelo mundo inteiro.2 (p. 26)

Coletivo Preguiça, 2013 

História de um começo

O “Coletivo Preguiça” é um grupo que mudou seu nome faz pouco tempo, antes conhecido como “Coletivo de Criação”, isso desde 2008. Essa mudança ocorreu em 2013, devido à vontade de seus participantes de criarem um nome que tivesse maior sintonia com os modos de produzir e de se encontrar desse grupo. Também devido a uma experiência com um bicho-preguiça em uma viagem do grupo ao litoral paulista, concluímos que este seria um bom nome. A história de constituição e as transformações que ocorreram com este grupo falam de sua origem em ações na interface da arte e da produção da saúdec. A vontade de alguns participantes de continuarem explorando a criação em artes iniciou a busca de um lugar em meio à rede de cultura da cidade de São Paulo que pudesse acolher essa proposta. Uma característica desse grupo é a de ser formado por alguns participantes que já passaram ou passam por algum tipo de tratamento junto à rede de atenção pública em saúde mental; porém, essa não é uma condição para participar do grupo, qualquer pessoa é muito bem-vinda, por isso, ex-estagiários e outros simpatizantes da proposta compõem a heterogeneidade deste coletivo.

Lugar de/para trabalhar

Dentre os vários locais procurados para acolher os encontros, diferentes fatores e possibilidades foram apresentadas, e a escolha do local para sediar o grupo se deu pelo CCPC (Centro de Cultura Popular da Consolação), que ficava situado na Rua da Consolação, em frente ao Cemitério da Consolação3. Talvez o fator mais determinante para a escolha do CCPC tenha sido o fácil acesso para todos, por ficar próximo ao metrô; também por passarem várias linhas de ônibus bem em frente ao edifício, e pelo fato de termos um bom espaço para desenvolver as atividades. Inicialmente, o grupo era formado por quatro integrantes: a terapeuta ocupacional Naiada Dubard Barbosa e os participantes João Silva de Brito, Fernando Ribeiro e Antônio Carlos Rodrigues Pereira. Depois de estarem instalados nesse espaço, fui convidado a integrar o grupo como artista, e permaneço até hoje, assim como o João, o Antônio, e podemos dizer que o Fernando também. Com a desativação do CCPC em 2009, o Coletivo ocupou um espaço do Núcleo Educativo no Museu da Imagem e do Som em São Paulo.

Desde a sua criação, muitas pessoas já fizeram parte do grupo: algumas passaram, outras voltaram, outras ficaram, e há aquelas que, simplesmente, desapareceram. Irei listar aqui o nome de todos que, de alguma forma, já compuseram seus momentos de produção artística com o Coletivo. Cada um é importante nesse processo, e os nomes, aqui, marcam as singularidades que compuseram esse coletivo: Naiada, João, Antônio (também conhecido como Toninho), Fernando, Milton, Hudson, Pilar, Ródnei, Alex, Camilo, Pablo, Márcia, Tárcio, Rafael, Gabi, Alê, Letícia, Karina, Miguel, Nara, Claudinha, Camila, Viví, Olívia, Dani Oliveira, Marcela, Giovana, Marina, Dani Gerolomo, Ju, Paula, Ariel, Letícia, Jéssica, Fernanda, Barbara, Elô, Natalie, Tiago, Adriane, Rosana, Dani Ursogrande, Ana Carolina, Francisco, Lorena, Aline, Sérgio, Ruth, Bia, Thaís, Bethânia, Belen, Sofia, Ana, Müller, Krebs e Gino. Essas foram todas as pessoas que já passaram pelo grupo e ficaram um tempo, independente de qual o motivo que as levava ali. Hoje, o número de participantes gira em torno de nove pessoas, com a minha coordenação, juntamente com a terapeuta ocupacional e artista plástica Nara Isoda.

Coletivo Preguiça, 2013 

Foram muitas as atividades desenvolvidas durante os encontros ao longo dos anos: desenho, pintura, fotografia, vídeo, escultura em pedra, marchetaria, encadernação, gesso, carimbos, arte postal, grafite; e isso sem falar na organização de portfólio, saídas para exposições, passeios para reconhecer a cidade, cafés, conversas, filmes, modelo vivo, montagem de estúdio fotográfico, viagens etc.

No início dos encontros do grupo, as propostas de atividades eram levadas pelos coordenadores e trabalhadas por todos, mas isso já com grande autonomia dos participantes, pois quase todos tinham uma história de produção e participação em outros grupos. Dessa forma, o caráter do grupo já se desenhava para algo mais participativo quanto às sugestões de atividades. Hoje em dia, o grupo é quem decide o que será feito, não há apenas um propositor, todos propõem as atividades e todos decidem o que fazer. Cada um expõe as suas vontades, elas são discutidas nos encontros e analisadas quanto a sua viabilidade, e sendo coerente com o que o grupo deseja e aceita, é colocada em prática. Sempre guardamos todas as ideias, mesmo as não escolhidas, pois independente de sua viabilidade, em algum momento, elas podem ser colocadas em prática.

Às vezes, não temos algum material necessário para realizarmos a proposta, e, nesse caso, vamos todos juntos comprar o que precisamos, pois, dessa forma, todos aprendem o que e onde comprar. Caso alguém queira produzir algo em outro lugar, fora do grupo, saberá onde encontrar o que precisa, ou mesmo, caso venhamos a precisar de mais materiais, não é necessário ir o grupo inteiro fazer compras, podem ir apenas uma ou duas pessoas.

Estamos na nossa terceira sede no Centro Cultural São Paulo, ao lado da estação Vergueiro do Metrô, e, desde 2013, nós ocupamos uma área com mesas destinadas a qualquer usuário do local, e, para desenvolver as atividades, levamos os materiais a cada encontro.

Conhecimento compartilhado

Uma rodada de troca de saberes possibilitou a pesquisa de linguagens artísticas, de técnicas e materiais durante os encontros. Essa proposta consistia em algum participante apresentar e ensinar, ao restante do grupo, alguma atividade artística com a qual ele se sentisse mais à vontade, proporcionando novas experiências ao Coletivo.

Esse poder comum da igualdade das inteligências liga indivíduos, faz que eles intercambiem suas aventuras intelectuais, à medida que os mantêm separados uns dos outros, igualmente capazes de utilizar o poder de todos para traçar um caminho próprio.4 (p. 20)

O rodízio da troca de saberes começou com a proposta da Nara nos ensinando a fazer encadernação. Talvez essa não seja uma atividade considerada artística por todos, porém, a ideia era a de que tivessem um caderno com o qual se sentissem confortáveis para nele desenhar e fazer anotações a cada encontro, ou estivessem à vontade para utilizá-lo em casa. É importante manter uma regularidade de produção: [...] “O desenvolvimento contínuo da obra deixa claro que não há ordenação cronológica entre pensamento e ação: o pensamento se dá na ação, toda ação contém pensamento”5 (p. 56).

Depois, foi a vez do Toninho, explicando quais os procedimentos necessários para se executar a pintura em tela; seguimos com o Fê, nos ensinando a desenhar a partir da nossa imaginação e não como vemos as coisas, fugindo do tradicional desenho de observação. Dando continuidade, pude ensinar escultura em pedra e como transformar nossos pensamentos em algo tridimensional. Para fechar essa rodada de saberes, o João nos ensinou marchetaria com lâminas de madeira. De acordo com as propostas, algumas exigiam um trabalho mais demorado, com mais tempo para execução. Ao todo, ficamos um semestre completo para desenvolver essa atividade da troca de saberes, e, no semestre seguinte, ela não teve continuidade. Durante a experimentação com a técnica de marchetaria, além dos trabalhos individuais, foi realizada uma obra coletiva, e cada participante podia intervir em alguma parte vazia ou, então, na parte realizada por algum colega.

Coletivo Preguiça, 2013 

Com isso, a obra não possuía a característica específica de um integrante, devido a seus diferentes traços, ela afirmava o caráter coletivo ali impregnado. A cada encontro, um novo pedaço era feito e o trabalho ganhava um novo recorte. “A obra está sempre em estado de provável mutação, assim como há possíveis obras nas metamorfoses que os documentos preservam”5 (p. 30).

Em 2014, o trabalho desenvolvido esteve ligado com a confecção de cartões postais e carimbos. Nestes, também há a intervenção de vários participantes em um único postal, afirmando novamente o caráter coletivo da obra, com traços de todos os participantes.

Coletivo Preguiça, 2013 

Aproximação, contágio coletivo e singularização

Poderíamos ficar discorrendo sobre as atividades desenvolvidas pelo grupo e como é a sua linha de trabalho, mas, agora, iremos focar em um participante e o seu processo de criação, como esse integrante do Coletivo produz suas obras, como acontecem seus processos particulares durante os encontros do grupo, pois, além dos trabalhos coletivos, cada participante tem a sua produção individual. Portanto, compreende-se que todos os fatos, inclusive a inserção no Coletivo Preguiça e muitos outros aparentemente sem importância, compõem o processo de criação, e são fatores que, de alguma forma, influenciam na produção6.

O participante em questão é Tárcio, e a escolha de descrever o seu processo não foi pelo volume de obras produzidas e, sim, pela intensidade e desejo em produzir seus trabalhos. Logo no dia em que ele se apresentou ao grupo, falava muito de sua época como estudante de arquitetura, seus projetos e trabalhos. Quando demos início aos trabalhos em marchetaria, ele se animou para fazer as atividades, pois poderia trabalhar com a precisão da geometria que há na arquitetura. A partir dessa proposta, ele resgatou um caderno antigo, da época da faculdade, para nos mostrar algo mais solto, e ali existiam desenhos de observação incríveis! Pudemos conhecer um outro Tárcio, não aquele do rigor geométrico da arquitetura. Esses desenhos não eram incríveis por serem parecidos com o real, pelo contrário, não era possível saber se eram parecidos, mas, pela coerência em seus traços, eram visíveis as características do artista, diferentes de uma simples cópia da realidade, era um trabalho muito potente.

Incentivamos Tárcio a retomar esse tipo de desenho e produzir novas obras, pois ali havia algo muito próprio dele. Seu estilo de desenho é composto por linhas soltas e simples, mesmo sendo de observação, sua linha é fluída, um traço quase contínuo, como se praticamente ele captasse o desenho em uma olhada. Seus trabalhos não apresentam uma preocupação de composição entre figura e fundo. Ao observar seus traços, há apenas a figura. Por mais que o que ele esteja desenhando tenha um entorno rico em detalhes, isso parece não fazer diferença, ele o destaca do ambiente, tornando uma forma única. Seria, mais ou menos, como dar na mão dele a imagem de uma paisagem com pessoas, e para construir sua obra, ele recortasse apenas uma pessoa e a colocasse em um local separadamente, eliminando todo o resto e dando total destaque para essa figura.

Coletivo Preguiça, 2013 

As obras de arte não necessariamente precisam ser idênticas ao objeto que está sendo representado; o artista possui liberdade para retratar da forma como achar mais adequada, ou, mesmo, se deixar levar por suas linhas. Matisse explicou um pouco sobre isso ao falar de como suas obras surgem:

Sempre parto de alguma coisa – uma cadeira, uma mesa –, mas à medida que o trabalho progride vou perdendo a consciência da forma inicial. No fim, quase perdi a referência do assunto que foi meu ponto de partida.7 (p. 69)

Quanto aos desenhos do Tárcio, seu traço é limpo, não há rasuras, com apenas a linha de contorno e algumas outras para marcar a expressão (no caso de um retrato). Todo o desenho é definido em poucos traços e, depois de terminado, é passado um lápis de cor em cima da linha, tornando cada desenho ainda mais único. O executar a obra não precisa envolver um tempo lentificado.

Alguns pintores passam quase um ano avançando, centímetro por centímetro, o trabalho na tela. Eu passo um ano pensando num quadro e depois, em alguns minutos de desenho, executo-o.8(p. 153)

Hoje, a produção do Tárcio está focada em uma série de retratos realizados em um caderno de formato A5.

Coletivo Preguiça, 2013 

Nessa série de retratos, todos os participantes do coletivo já estão representados, e pessoas que fazem parte da sua vida também começaram a aparecer retratadas. Há um tempo gasto antes com: a escolha do modelo, a observação deste, a escolha do melhor lápis, e a posição em que ficará para desenhar. De acordo com Pareyson9, esse processo recebe um nome: obediência criadora. É um diálogo entre artista e matéria, um misto da vontade do criador e da vontade do meio. Ao mesmo tempo em que o artista tenta dominar os seus materiais e impor as suas vontades, ele também precisa ceder, pois os materiais não aceitam tudo. Há um limite compartilhado entre as duas partes, o artista não consegue subjugar o material com a sua ideia, ele só consegue fazer o que deseja conforme dialoga com aquele.

Coletivo Preguiça, 2013 

O Tárcio constrói seus trabalhos dentro de seu próprio tempo, ou ainda, ele constrói o seu próprio tempo. Durante a execução do trabalho, ele olha para o modelo e começa a fazer os traços, fica sério, não olha para o lado, só o modelo e o papel a sua frente lhe interessam. Por mais que alguém faça um comentário, ele não para e só fica focado no seu fazer. Para quem está de fora e vê essa cena, pode pensar nele como uma pessoa arrogante por não responder ao outro. Mas pelo contrário, o Tárcio é extremamente simpático e conversa com todos; ele entra nesse estado de recolhimento quando está produzindo, e se perde dentro do seu próprio tempo até terminar a obra, e, então, volta a se relacionar novamente.

Tudo isso nos leva ao tempo da construção da obra. Um tempo que tem um clima próprio e que envolve o artista por inteiro. O processo mostra-se, assim, como um ato permanente. Não é vinculado ao tempo do relógio, nem a espaços determinados. A criação é resultado de um estado de total adesão.10 (p. 36)

Força de manutenção

O que une o Coletivo Preguiça? Por que ele ainda continua funcionando se ninguém é obrigado a ir para lá? O que motiva as pessoas durante os encontros? É difícil falar por todos, mas é possível fazer alguns apontamentos.

Os encontros em grupo e o convívio com a multiplicidade das forças de criação articulam um estado de produção-processo pautado nos afetos, na convivência, na horizontalidade da produção do conhecimento. Para os participantes do grupo, ficar em casa e produzir sozinho não tem o mesmo efeito como esse espaço de encontro e trocas gerado pelos participantes. “Quanto ao convívio com a efervescência cultural, é interessante observar que o artista parece necessitar, de modo vital, desse clima”11 (p. 41).

A experiência construída no Coletivo Preguiça pode ser contextualizada como uma prática artístico-social que busca reconstituir o sentido de um mundo comum, num agenciamento relacional e criativo, inovando a experiência produtiva dos participantes. Durante os encontros, ainda que em um ambiente socializado, ninguém é obrigado a produzir ou a fazer o que não quer, é um espaço onde, mesmo em meio ao caos produtivo e as vontades outras, é possível manter a individualidade. “Hoje a prática artística aparece como um campo fértil de experimentações sociais, como um espaço parcialmente poupado à uniformização dos comportamentos”12 (p. 13). As criações de um afetam o trabalho dos demais. São essas afetações, muitas vezes, que impulsionam os trabalhos em construção ou a uma nova obra. Quem estava sem fazer nada pode se sentir acolhido para começar a produzir, é como se fosse um efeito em cascata. Para quem está habituado a trabalhar sozinho, pode parecer difícil alcançar esse estado de compartilhamento e produção na presença de outros artistas. Já Salles11 nos demonstra como podem acontecer os afetamentos:

O artista que está habituado a trabalhar isoladamente, se, por algum motivo, precisa dividir esse espaço, às vezes, enfrenta certo desconforto na coletividade. No entanto, os “escritórios” coletivos, mesmo nas atividades que preveem essa convivência, sempre oferecem algum tipo de conflito e resistência, ao mesmo tempo em que são vistos como extremamente motivadores.11 (p. 58)

Quem participa do Coletivo Preguiça consegue sentir como é essa produção dentro de um grupo, os momentos de descontração, o café, os conflitos e as resistências. Ainda assim, mesmo com as diferenças, todos estão lá, cada um com a sua particularidade. Talvez, o que mantenha o Coletivo unido seja justamente isso: a presença do outro, o convívio, a ligação entre seus participantes, a qualidade das produções artísticas e afetivas que surgem. Todos são bem-vindos a contribuir com alguma crítica ao trabalho, seja para elogiar, ou apontar o que poderia ser melhorado na obra. Na hora de levar a garrafa de café para trazer cheia no próximo encontro, sempre fica um “empurra-empurra”, mas a garrafa aparecerá com um café novo e quentinho. Assim como as bolachas e quitutes que às vezes aparecem para saciar a fome do grupo, isso não é combinado, mas é sempre bem-vindo, e deixa a todos ainda mais acolhidos, pois é um pensamento para o Coletivo.

É um processo construído em conjunto, que liga todos os participantes e mantém a proposta viva, na qual estão sempre se perguntando qual será a viagem do próximo semestre ou com o que e como podemos trabalhar nos próximos encontros?

REFERÊNCIAS

1. Guattari F. Caosmose: um novo paradigma estético. 2a ed. São Paulo: Ed. 34; 2012.
2. Quintana M. Da preguiça como método de pesquisa. São Paulo: Objetiva; 2013.
3. Barbosa ND. Fendas na Cultura: a Terapia Ocupacional e as tecnologias de participação socioculturais [dissertação]. São Paulo (SP): Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo; 2010.
4. Rancière J. O espectador emancipado. São Paulo: Martins Fontes; 2012.
5. Salles CA. Gesto inacabado: processo de criação artística. 3a ed. São Paulo: Annablume; 2007.
6. Amador AC. Subjetividade e materialização: cenas do processo da criação artística [dissertação]. São Paulo (SP): Programa de Pós-Graduação Interunidades em Estética e História da Arte, Universidade de São Paulo; 2014.
7. Matisse H. Apuntes de um pintor: la grande revue, Paris, 1908. In: Morais F, organizador. Arte é o que eu e você chamamos arte. Rio de Janeiro: Ed. Record; 1998: p. 68-79.
8. Salles CA. Gesto inacabado: processo de criação artística. 3a ed. São Paulo: Annablume; 2007.
9. Pareyson L. Os problemas da estética. 2a ed. São Paulo: Martins Fontes; 1989.
10. Salles CA. Gesto inacabado: processo de criação artística. 3a ed. São Paulo: Annablume; 2007.
11. Salles CA. Redes de criação: construção da obra de arte. Vinhedo: Editora Horizonte; 2008.
12. Bourriaud N. Estética relacional. São Paulo: Martins Fontes; 2009.
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