O debate sobre o problema da historicidade da ciência durante o século XX

O debate sobre o problema da historicidade da ciência durante o século XX

Autores:

Rodolfo Luís Leite Batista

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.26 no.1 Rio de Janeiro jan./mar. 2019

http://dx.doi.org/10.1590/s0104-59702019000100023

A produção acadêmica mostra a importância de que as teorias e as práticas científicas sejam investigadas à luz de seu desenvolvimento desde o passado, motivo pelo qual a história da ciência se instituiu como domínio autônomo do conhecimento. Construída em debate (e também embate) disciplinar com a história, a filosofia e a sociologia, a história da ciência tem proposto questionamentos teóricos, alguns respondidos de diferentes maneiras ao longo do tempo, outros ainda não totalmente solucionados. Produzir uma narrativa em história da ciência suscita problemas metodológicos e epistemológicos para o pesquisador. De um lado, a escolha das fontes e a adoção do referencial teórico podem gerar dificuldades práticas para o trabalho investigativo; de outro, o caráter histórico da constituição da ciência interroga a escrita da história da ciência. É nesse cenário que se insere o livro Um papel para a história: o problema da historicidade da ciência ( Condé, 2017 ).

Mauro Condé, professor da Universidade Federal de Minas Gerais, tem contribuído para o debate contemporâneo sobre a filosofia, a história e a historiografia da ciência, divulgando vários livros acerca do tema ( Condé, 2004 , 2012 , 2013 ; Salomon, Condé, 2015 ). Em sua obra mais recente, resultado de curso ministrado em 2013 na Escola Paranaense de História e Filosofia da Ciência e publicado pela Editora UFPR, ele argumenta que a concepção de que a ciência tem uma historicidade própria se formou em um contexto bastante específico de produção teórica, mais precisamente no debate empreendido a partir das ideias de Alexandre Koyré, Edgar Zilsel, Ludwik Fleck, Thomas Kuhn e Ludwig Wittgenstein. Partindo da apresentação das tensões originadas pelas posições desses pensadores, Condé defende que a historicidade deva ser compreendida como condição indispensável para os modos de instauração do conhecimento científico e consequentemente para a história da ciência. É impossível pensar a constituição da ciência fora de seu contexto social e da história em que está imersa. Nesse sentido, a obra resenhada não se trata propriamente de “um livro de história da ciência, mas de como podemos pensar filosoficamente a escrita da história da ciência” (Condé, 2017, p.19). Do ponto de vista formal, ela é escrita em linguagem clara e rica em citações diretas dos filósofos estudados, priorizando a argumentação teórica em detrimento de uma narrativa cronológica da história da ciência. A organização dos capítulos é bastante didática, permitindo ao leitor acompanhar o desdobramento do argumento já a partir de seus títulos. Desse modo, a leitura é sugerida tanto para pesquisadores experientes quanto a iniciantes no campo que desejam conhecer um panorama do debate acerca da historicidade da ciência.

A obra A estrutura das revoluções científicas , de Thomas Kuhn (2007) , é central na argumentação proposta por Condé, que, ao longo do livro, apresenta as disputas que antecederam e sucederam sua publicação, em 1962. No primeiro capítulo, ele expõe a problemática sobre o papel da sociedade, da história e da teoria na construção da ciência moderna, sintetizada no debate, a partir da década de 1930, entre internalistas e externalistas, representados por Alexandre Koyré e Edgar Zilsel, respectivamente. Embora não tenha chegado a uma solução epistemológica, essa querela possibilitou que historiadores e sociólogos da ciência refletissem a respeito de seus campos de atuação e definissem métodos de investigação. Na mesma década de 1930, Ludwik Fleck argumentava que a história cumpre importante função na configuração da ciência, tema discutido no segundo capítulo. Para o autor, esse “cientista das ciências” ( Condé, 2017 , p.66) não recebeu a importância que lhe era devida em sua época, tendo seu pensamento difundido somente pela obra kuhniana. O terceiro capítulo apresenta os diálogos de Thomas Kuhn com Karl Popper e David Bloor, a partir dos anos 1960. Condé, alinhando-se ao pensamento kuhniano, opõe-se a posturas que subestimam ou superestimam a historicidade da ciência. Esses exageros consideram que o conhecimento é ou exclusivamente resultado de relações individualizadas entre sujeito e natureza ou fruto de negociações sociais, tomando a historicidade como um relativismo, posição que foi criticada por Thomas Kuhn em seus últimos textos. O capítulo final retoma o pensamento de Ludwig Wittgenstein e de Ludwik Fleck, apontados por Kuhn como possibilidade de resposta a relativismos. Com base na noção de “gramática da ciência”, Condé compreende que o conhecimento científico é “um tipo de tessitura entre o social e sua linguagem, por um lado, e a natureza, por outro” (p.28). Dessa forma, a historicidade permite caracterizar a ciência como uma “interação entre sociedade, linguagem e natureza” (p.28).

Finalmente, cabe ressaltar que, em um texto de complexidade de argumentação e clareza de exposição crescentes, fatores que dificultam apresentá-lo em uma curta resenha, Condé retrata de maneira exitosa “quando e como a ideia de historicidade da ciência se estabeleceu” (p.22). Nesse sentido, a relevância de seu livro está em apresentar como a noção de historicidade tem respondido ao problema epistemológico do papel da história para o conhecimento científico. Sabendo da fecundidade da questão e reconhecendo os limites de seu livro, o autor aponta ainda desdobramentos para a investigação filosófica e sugere pesquisas sobre o tema entre filósofos franceses (como Gaston Bachelard, Georges Canguilhem e Michel Foucault), percurso preterido em relação à tradição mais difundida na América do Norte. No sentido social e lingüístico, novos passos também poderão ser dados a partir da “gramática da ciência”, ampliando a instigante reflexão sobre a relação entre história, sociedade e ciência.

REFERÊNCIAS

CONDÉ, Mauro Lúcio Leitão. Um papel para a história: o problema da historicidade da ciência. Curitiba: Editora UFPR. 2017.
CONDÉ, Mauro Lúcio Leitão (Org.). Thomas Kuhn: a estrutura das revoluções científicas (50 anos). Belo Horizonte: Fino Traço. 2013.
CONDÉ, Mauro Lúcio Leitão. Ludwik Fleck: estilos de pensamento na ciência. Belo Horizonte: Fino Traço. 2012.
CONDÉ, Mauro Lúcio Leitão. As teias da razão: Wittgenstein e a crise da racionalidade moderna. Belo Horizonte: Argvmentvum. 2004.
KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva. 2007.
SALOMON, Marlon; CONDÉ, Mauro Lúcio Leitão (Org.). Alexandre Koyré: história e filosofia das ciências. Belo Horizonte: Fino Traço. 2015.
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