O Desafio de Oito Anos na Direção Editorial dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia

O Desafio de Oito Anos na Direção Editorial dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Autores:

Luiz Felipe P Moreira

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782Xversão On-line ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.109 no.6 São Paulo dez. 2017

https://doi.org/10.5935/abc.20170190

Quando assumimos a posição de Editor-Chefe dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia em janeiro de 2010, nos deparamos com um periódico de mais de 60 anos de existência, que já tinha atingido sua completa maturidade a partir do gigantesco trabalho desenvolvido pelos grandes mestres da cardiologia nacional que nos antecederam como editores. Figurando em todos os indexadores internacionais de maior relevância, os Arquivos constituíam o principal veículo de divulgação das pesquisas científicas brasileiras na área das doenças cardiovasculares, representando o maior patrimônio da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Nesse contexto, várias propostas foram implantadas com o objetivo de consolidarmos nossa estrutura editorial e alcançarmos a posição de principal fórum científico em cardiologia da América Latina.1

A trajetória dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia nos últimos oito anos caracterizou-se principalmente por ações relacionadas à melhora de seu processo editorial e pela incorporação de novas tecnologias de edição e de novas mídias digitais. Para fazer frente à grande demanda de artigos submetidos para publicação, que hoje somam mais de 500 artigos por ano, os Arquivos passaram a melhorar o seu sistema de submissão eletrônica e os processos de revisão e de editoração, garantindo respostas mais rápidas aos autores e uma publicação de melhor qualidade editorial para os artigos selecionados. Atualmente, o prazo médio de avaliação e correção dos artigos é de cerca de quatro meses, enquanto o prazo de publicação nas línguas portuguesa e inglesa situa-se ao redor de quatro a cinco meses, sendo ainda proporcionada aos autores a publicação prévia de seu artigo no PubMed num prazo de menos de oito meses a partir de sua submissão inicial, garantindo aos pesquisadores a rápida inserção de seu trabalho na literatura internacional. Paralelamente, trabalhamos na incorporação das principais práticas editoriais empregadas pelos periódicos internacionais de maior prestígio, como as políticas recomendadas pelo International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE) e pela Associação de Editores dos periódicos filiados à European Society of Cardiology, além da inclusão de processos de revisão de linguagem, de revisão estatística e antiplágio. Disponível em formato eletrônico em pdf desde 2011, os Arquivos também passaram a contar desde julho de 2012 com formatos compatíveis com os principais tabletes e smartphones, possibilitando o acesso ao periódico de forma integral nos principais sistemas de acesso à mídia eletrônica.

Tendo recebido ao longo desta gestão mais de 4700 artigos científicos submetidos para publicação, os Arquivos Brasileiros de Cardiologia foram responsáveis pela publicação de 1813 artigos entre 2010 e 2017, sendo 1014 contribuições originais (56%) e 101 artigos de revisão (6%), como mostra a Figura 1. Na Figura 2, podemos observar a distribuição dos artigos publicados de acordo com sua área de inserção, o que esteve sob a responsabilidade de dez Editores-Associados. Podemos observar que os artigos relacionados a aspectos da cardiologia clínica, incluindo o acompanhamento de pacientes portadores de diversas afecções, como a doença arterial coronária e a insuficiência cardíaca, representaram cerca de 25% do total de artigos divulgados pelos Arquivos. Trabalhos relacionados à pesquisa básica e ao estudo de métodos diagnósticos corresponderam a mais 25% das publicações, enquanto que as outras áreas abordadas pelo periódico, como epidemiologia, hipertensão, cardiologia intervencionista, cardiologia cirúrgica, arritmias cardíacas, cardiologia pediátrica e exercício e reabilitação, representaram de 4% a 11% dos manuscritos aceitos para publicação. Os números apresentados destacam a publicação de cerca de um terço dos artigos submetidos, tendo sido observados índices de aceitação de 29% para os artigos originais e de 34% para os artigos de revisão.

Figura 1 Número de artigos publicados por ano no período de 2010 a 2017. 

Figura 2 Percentual de artigos publicados por área de inserção no período de 2010 a 2017. 

Cerca de 80% dos artigos publicados foram encaminhados por pesquisadores brasileiros, sendo mais de 50% oriundos dos programas de pós-graduação de nosso país. Nesse sentido, é de grande relevância o fato de que, entre cerca de 3000 artigos originais publicados por autores brasileiros em periódicos indexados pela Thomson Reuters na base de dados do Web of Science, na área da cardiologia e ciências cardiovasculares, entre 2010 e 2017, em torno de 24% foram veiculados pelos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, deixando clara a importância do periódico para a ciência cardiológica brasileira.2 Por outro lado, o número de artigos encaminhados por pesquisadores de outros países e de trabalhos desenvolvidos em colaboração internacional tem aumentado progressivamente ao longo dos anos, sendo escritos principalmente por pesquisadores dos Estados Unidos, Portugal, Turquia, Espanha, China e Canadá (Figura 3). Esse fato, associado à significativa elevação do número de artigos científicos submetidos atualmente para publicação, ocasionado pelo aumento da produção científica nacional e internacional, tem elevado progressivamente o índice de rejeição de artigos submetidos por pesquisadores brasileiros pelos Arquivos, dificultando a publicação inclusive de dissertações e teses oriundas de programas brasileiros de pós-graduação em periódicos de indexação internacional.

Figura 3 Número de artigos publicados no período de 2010 a 2017 de acordo com a origem dos autores. 

Com a ascensão da produção científica brasileira e de países latino-americanos em cardiologia e em ciências cardiovasculares observada na última década, passamos a ocupar posição de maior relevância no cenário internacional, abrindo a perspectiva de uma ampliação da qualificação de nossos periódicos.3 No entanto, a partir da publicação do primeiro fator de impacto dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia em 2010, de acordo com a base de dados do Journal Citation Reports da Thomson Reuters,4 observamos a manutenção de índices semelhantes daquele parâmetro ao longo dos últimos oito anos, sem que houvesse uma participação elevada de citações do próprio periódico (Figura 4). Essa situação ocorreu apesar da progressiva elevação do número de citações obtidas pelos artigos publicados nos Arquivos, destacando-se o fato de que essa elevação ocorreu principalmente por causa do aumento das citações de autores estrangeiros (Figura 5).

Figura 4 Evolução do fator de impacto de 2010 a 2016, de acordo com o “Journal of Citation Reports” da Thomson Reuters. 

Figura 5 Número de citações obtidas pelo periódico no período de 2010 a 2016 de acordo com a origem dos autores. 

A ausência de elevação do fator de impacto dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, à semelhança do que ocorre com a maioria dos periódicos publicados no Brasil, pode ser explicada pelo fato de que a publicação dos artigos de melhor qualidade científica de autores brasileiros ocorre predominantemente em periódicos publicados em outros países, sendo essa escolha justificada exatamente pelo maior fator de impacto apresentado por aqueles periódicos.5 No entanto, podemos observar que os índices de citação obtidos por artigos de autores brasileiros são mais baixos do que a média internacional, mesmo quando eles são publicados em periódicos de maior impacto, apontando para a necessidade de uma maior valorização dos periódicos publicados em nosso país, sem que esse fato represente uma limitação para divulgação dos artigos publicados.6,7

Por outro lado, temos que considerar atualmente a existência de um grande número de artigos de autores brasileiros com mérito científico considerável no âmbito da cardiologia, que não encontram veículos adequados de divulgação, quando são recusados pelos Arquivos Brasileiros de Cardiologia. Nesse contexto, foi apresentada há quatro anos a proposta de ampliação das publicações nacionais em cardiologia sob a responsabilidade da Sociedade Brasileira de Cardiologia, com a formação de uma família de periódicos, à semelhança das principais revistas internacionais. Essa iniciativa, que começou com a transformação da revista do Departamento de Imagem Cardiovascular no periódico ABC Imagem, não obteve sucesso por causa da submissão de um número reduzido de artigos relacionados a cada uma das áreas específicas do conhecimento e pela dificuldade de sua indexação por causa da manutenção do nome da publicação em português.

Após diversos contatos com editores de periódicos de publicação internacional e com a direção do SciELO (Scientific Electronic Library Online), principal plataforma latino-americana de indexação e disponibilização de revistas científicas, ficou clara a necessidade de termos um novo periódico com nome e conteúdo totalmente em língua inglesa, situação atualmente obrigatória para a obtenção da indexação nos principais sistemas de acesso internacionais. No entanto, as publicações científicas oriundas de países com caraterísticas culturais específicas, como os países de língua portuguesa, devem ser guiadas por políticas que levem em conta tanto a necessidade de ampla divulgação de seu conteúdo em nível internacional, como também a sua adequada divulgação entre os membros de sua própria comunidade profissional.8 Nesse sentido, foi observado o desejo da manutenção do nome de nosso principal periódico em português, por parte de nossos dirigentes e associados, colaborando com a preservação de seus 70 anos de história e com a perspectiva de continuar a ter o seu conteúdo veiculado para a totalidade dos cardiologistas brasileiros.

No início de 2016, foi então definida pelo Conselho dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia (CONDARQ) a viabilização de um novo periódico com nome e conteúdo em inglês, associado à manutenção de nossa principal revista com as suas características atuais. Essa proposta, seguindo orientação da presidência do SciELO, abriria a perspectiva de uma rápida indexação do novo periódico, o qual permaneceria filiado aos Arquivos, apesar de ter uma denominação própria, não existindo competição entre os periódicos associados, mesmo na presença de um conteúdo semelhante de publicações. Esse fato é garantido pela administração conjunta das duas revistas pela mesma Sociedade Brasileira de Cardiologia, pelas políticas comuns de submissão e de revisão por pares, e pelos diferentes níveis de indexação e de impacto relacionados aos periódicos. Por outro lado, a administração conjunta das revistas proporciona diminuição dos custos financeiros relacionados à sua manutenção, maior agilidade e compartilhamento do processo editorial e de revisão por pares, ampliação de sua visibilidade pela divulgação concomitante de seus conteúdos e maior incentivo ao debate científico relacionado aos temas abordados pelos trabalhos publicados.

Com base nos argumentos acima mencionados, o CONDARQ decidiu a incorporação do Internacional Journal of Cardiovascular Sciences, periódico na ocasião publicado pela Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro, pela Sociedade Brasileira de Cardiologia. De acordo com as orientações do SciELO, a incorporação do novo periódico pela Sociedade Brasileira de Cardiologia facilitou sua indexação final por aquela plataforma internacional, fato ocorrido em menos de um ano após o início do processo mencionado, abrindo-se a perspectiva de sua rápida indexação agora também nos sistemas PubMed, PubMed Central e Scopus.9

Durante o ano de 2016, foram definidas as bases da transferência do processo editorial do Internacional Journal of Cardiovascular Sciences para o grupo responsável pelos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, procedendo-se a seguir à integração dos dois periódicos, com a construção de páginas de acesso e de sistemas de submissão comuns. Foi definida a prioridade dos Arquivos com relação ao sistema de submissão de artigos e os mecanismos de encaminhamento dos manuscritos de relevância recusados para publicação na revista principal para o International Journal. Esse mecanismo foi responsável pelo encaminhamento de mais de 150 artigos para a nova revista nos últimos 15 meses, colaborando com a manutenção da regularidade da sua publicação e com a publicação indexada de um número significativo de artigos brasileiros, que anteriormente não teriam uma perspectiva de rápida divulgação em periódicos indexados em nível internacional, sendo grande parte deles oriundos de programas de Pós-Graduação. Finalmente, procedeu-se à escolha por concurso, realizado de maneira concomitante, dos futuros Editores-Chefes das duas revistas para o período de 2018 a 2021, sendo valorizados durante o processo aspectos relacionados à interação entre os periódicos. A implantação definitiva desse projeto, fundamentado nas orientações dos principais indexadores internacionais, continua a aguardar sua aprovação final pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, deixando ainda em aberto essa importante perspectiva.

A partir dos dados apresentados a respeito da trajetória dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia nos últimos oito anos, podemos concluir que entregamos à Sociedade Brasileira de Cardiologia um periódico estruturado de acordo com as recomendações editoriais seguidas pelos principais periódicos científicos internacionais, com a agilidade e a infraestrutura adequadas para a manutenção de sua posição como principal veículo de divulgação da ciência brasileira em cardiologia e ciências cardiovasculares. No entanto, não conseguimos alcançar sua efetiva internacionalização, bem como finalizar o processo de reestruturação da política de publicações da Sociedade Brasileira de Cardiologia, o que é sem dúvida fundamental para a continuidade do crescimento científico de nossa especialidade e para a formação de novos pesquisadores por meio de nossos programas de Pós-Graduação.

Ao concluirmos a desafiadora missão da condução dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia no período de 2010 a 2017, sem dúvida deixamos para o próximo Editor um desafio ainda maior. As expectativas futuras do periódico incluem a continuidade do crescimento de seu processo de internacionalização, com a ampliação da participação de editores associados, revisores e autores estrangeiros. No entanto, essa evolução deverá ocorrer sem deixar de lado o compromisso das publicações científicas da Sociedade Brasileira de Cardiologia continuarem a representar o principal veículo de divulgação da ciência brasileira no âmbito da cardiologia e das ciências cardiovasculares.

REFERÊNCIAS

1 Moreira LF. [The great challenge of a new reality]. Arq Bras Cardiol. 2010;94(1):1. doi: .
2 Moreira LF. The Arquivos Brasileiros de Cardiologia and the dissemination of cardiovascular science research in Brazil. Arq Bras Cardiol. 2014;102(1):1-2. doi: .
3 Colantonio LD, Baldridge AS, Huffman MD, Bloomfield GS, Prabhakaran D. Cardiovascular research publications from Latin America between 1999 and 2008. A bibliometric study. Arq Bras Cardiol. 2015;104(1):5-15. doi: .
4 Moreira LF. The Archives and the publication of its first impact factor. Arq Bras Cardiol. 2010;95(1):1-2. doi: .
5 Evora PR, Moreira LF. The representativeness of the Arquivos Brasileiros de Cardiologia for Brazilian Cardiology Science. Arq Bras Cardiol. 2015;104(2):94-6. doi: .
6 Moreira LF. Is there any influence of journal impact factor on the citation index of articles published in Brazilian journals with international scope? Arq Bras Cardiol. 2015;105(1):1-2. doi: .
7 Moreira LF. Impact of Brazilian papers in cardiology and cardiovascular sciences in the last decade. Arq Bras Cardiol. 2017;108(1):1-2. doi: .
8 Moreira LF. Cardiology journals from Portuguese-Speaking Countries: challenges and opportunities. Int J Cardiovasc Sci. 2017;30(4):283-4. doi: .
9 Moreira LF. Role of the International Journal of Cardiovascular Sciences in the increase of Brazilian publications in Cardiology and Cardiovascular Sciences. Arq Bras Cardiol. 2016;107(1):1. doi: .
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