O enfermeiro frente à questão da espiritualidade

O enfermeiro frente à questão da espiritualidade

Autores:

Raphael de Brito Pedrão,
Ruth Beresin

ARTIGO ORIGINAL

Einstein (São Paulo)

versão impressa ISSN 1679-4508versão On-line ISSN 2317-6385

Einstein (São Paulo) vol.8 no.1 São Paulo jan/mar. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/s1679-45082010ao1208

INTRODUÇÃO

Nos últimos anos, pesquisas científicas na área da saúde têm sido realizadas com o objetivo de estudar as possíveis influências da espiritualidade na saúde do ser humano. Paralelamente, a espiritualidade vem sendo considerada uma dimensão que deve ser incluída no cuidado global ao paciente.

Em 1988, a Organização Mundial de Saúde (OMS) iniciou um aprofundamento das investigações sobre a espiritualidade, incluindo o aspecto espiritual no conceito multidimensional de saúde. Atualmente, o bem-estar espiritual vem sendo considerado mais uma dimensão do estado de saúde, junto às dimensões corporais, psíquicas e sociais(1).

Religiosidade e a espiritualidade não são sinônimos, sendo que a religiosidade envolve sistematização de culto e doutrina compartilhados por um grupo. A espiritualidade está relacionada a questões sobre o significado e o propósito da vida, com a crença em aspectos espiritualistas para justificar sua existência e seus significados(23).

A espiritualidade pode ser definida como uma propensão humana a buscar significado para a vida por meio de conceitos que transcendem o tangível: um sentido de conexão com algo maior que si próprio, que pode ou não incluir participação religiosa formal(24).

A questão da espiritualidade é muito ampla e sua mensuração bastante complexa, sendo o bem-estar espiritual, ou seja, a percepção subjetiva de bem-estar do sujeito em relação à sua crença, um de seus aspectos passíveis de avaliação. Os instrumentos de mensuração do bem-estar espiritual estão baseados no conceito de espiritualidade que envolve um componente vertical, religioso (um sentido de bem-estar em relação a Deus), e um componente horizontal, existencial (um sentido de propósito e satisfação de vida)(5).

Na Enfermagem, a espiritualidade é uma questão que aparece desde Florence Nightingale, sendo que, no Brasil, a primeira publicação científica sobre o tema data de 1947. No decorrer do tempo, o pensamento da Enfermagem sobre a dimensão espiritual foi se modificando, passando de uma tendência de ver a espiritualidade atrelada à religião para reflexões de caráter ético, bioético, filosófico e a tentativa de compreender os fenômenos da espiritualidade dos pacientes como também do próprio enfermeiro(6).

Em um estudo realizado com docentes de Enfermagem acerca da espiritualidade e a assistência espiritual no ensino de graduação, concluiu-se que existe falta de clareza na Enfermagem sobre o que é espiritualidade, religiosidade e assistência espiritual e que este tema provoca um questionamento pessoal no enfermeiro. Desta forma, é necessária a discussão formal dessa temática no ensino de graduação(7).

Em outro estudo cujo objetivo foi identificar a percepção dos alunos de graduação em Enfermagem, quanto ao atendimento da dimensão espiritual nos campos de estágio, verificou-se que a maioria dos alunos não percebeu o atendimento da dimensão espiritual aos pacientes. E os alunos que afirmaram ter percebido a prestação de assistência espiritual apontaram o Capelão como o principal provedor dessa assistência, mas a grande maioria afirmou que a Enfermagem deve se ocupar da dimensão espiritual dos pacientes(8).

A presente pesquisa teve como foco avaliar o bem-estar espiritual dos enfermeiros; verificar a opinião dos enfermeiros sobre a importância de oferecer ao paciente uma assistência espiritual e se os mesmos tiveram algum tipo de preparo para prestar uma assistência espiritual ao paciente.

OBJETIVOS

Avaliar o bem-estar espiritual dos enfermeiros, verificar a opinião dos enfermeiros sobre a importância de oferecer ao paciente uma assistência espiritual e checar se os enfermeiros obtiveram ou não durante a sua formação profissional algum tipo de preparo para prestar uma assistência espiritual ao paciente.

MÉTODOS

Delineamento do estudo

Trata-se de um estudo quantitativo, de nível I, caráter exploratório e descritivo. Os estudos exploratórios e descritivos visam à busca de informações apuradas a respeito de grupos, instituições, sujeitos ou situações, caracterizando-os e evidenciando um perfil(9). O estudo quantitativo é conduzido dentro do contexto de um conhecimento prévio a partir do ponto inicial de um estudo (colocação da questão) para o ponto final (obtenção de uma resposta), em uma sequência lógica de passos, os quais envolvem tipicamente atividades com elemento conceitual ou intelectual forte que inclui ler, pensar, repensar e rever ideias com criatividade(9).

Foi realizado um estudo transversal em uma amostra de 30 enfermeiros que atuam na Unidade Semi-Intensiva e na Unidade de Oncologia do Hospital Israelita Albert Einstein. Foram aplicadas a Escala de Bem-Estar Espiritual (SWBS)(10) (Anexo A) e um questionário elaborado pelos autores da presente pesquisa (Anexo B).

A Unidade Semi-Intensiva tem 41 leitos e 32 enfermeiros, e a Unidade de Oncologia do Hospital Israelita Albert tem 32 leitos e 33 enfermeiros.

População e amostra

A amostra do presente estudo foi composta por um total de 30 enfermeiros, sendo que: 15 enfermeiros atuam na Unidade Semi-Intensiva e 15 na Unidade de Oncologia do Hospital Israelita Albert Einstein.

O critério de inclusão foi concordar em participar da pesquisa, assinando o termo de consentimento livre e esclarecido.

Instrumento

SWBS

A SWBS tem como objetivo avaliar o bem-estar espiritual geral e foi desenvolvida por Poulotizan e Ellison, em 1982(11), e adaptada para população brasileira por Marques et al.(10).

Esta é constituída de 20 itens, dos quais 10 avaliam o bem-estar religioso (RWB), e os demais, o bem-estar existencial (EWB). Cada um dos 20 itens é respondido em uma escala de seis pontos, a qual varia de “concordo fortemente” a “discordo fortemente”. O sujeito deve graduar afirmações do tipo “Eu acredito que Deus está preocupado com meus problemas” para o RWB e do tipo “Eu me sinto realizado e satisfeito com a vida” para o EWB. Os escores das duas subescalas são somados para obtenção da medida geral de SWBS. O bem-estar espiritual é entendido como uma sensação de bem-estar que é experimentada quando existe um propósito que justifique nosso comprometimento com algo na vida, e esse propósito envolve um significado último para a vida. O bem-estar religioso é considerado como aquele referente a uma comunhão e relação pessoal íntima com Deus ou com uma força superior(12).

Paloutzian e Ellison sugerem como pontos de corte para o escore geral da SWBS os intervalos de 20 a 40, 41 a 99 e 100 a 120, para baixo, moderado e alto, respectivamente(11). Nas duas subescalas, os intervalos são de 10 a 20, 21 a 49 e 50 a 60 pontos(13). Na análise deste estudo, os resultados da SWBS foram denominados positivos para escore alto, e negativo para o moderado e o baixo(11).

Questionário

Foi aplicado um questionário com questões abertas e fechadas acerca dos seguintes itens: dados sociodemográficas, opinião dos enfermeiros sobre a importância de oferecer ao paciente uma assistência espiritual e a preparação do enfermeiro em prestar uma assistência espiritual.

O questionário foi elaborado pelos autores do presente estudo.

Procedimentos

Coleta de dados

A coleta dos dados foi realizada após aprovação do projeto de pesquisa pela Comissão Científica da Faculdade de Enfermagem do Hospital Israelita Albert Einstein e pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Israelita Albert Einstein, bem como autorização da instituição. Num segundo momento, os enfermeiros atuantes na Unidade Semi-Intensiva e na Unidade de Oncologia foram convidados a participar do estudo e aqueles que aceitaram, assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido e responderam a dois questionários: SWBS e o questionário elaborado pelos autores.

Análise dos dados

Os resultados foram analisados por meio de estatística descritiva (média, desvio padrão, mediana e porcentagens) e apresentados em tabelas.

RESULTADOS

Características sociodemográficas

No grupo estudado de 30 enfermeiros, 70% eram do sexo feminino. A idade teve uma variação de 23 a 59 anos, com média de 32,8 anos, mediana de 33 anos e desvio padrão de 9,7 anos. Quanto ao estado civil, 46,6% dos enfermeiros eram solteiros. Com relação à religião, a maioria (60%) dos enfermeiros referiu adotar o catolicismo, e a grande maioria (80%) dos enfermeiros referiu ser praticante da religião. Com relação ao ano de formatura, 57% dos enfermeiros formaram-se entre os anos de 2000 e 2007, (Tabela 1).

Tabela 1 Distribuição das características sociodemográficas dos enfermeiros 

Variável n %
Sexo
Masculino 9 30
Feminino 21 70
Idade
20 a 29 anos 8 28
30 a 39 anos 17 58
Acima de 40 anos 4 14
Estado civil
Solteiro 14 47
Casado 12 40
Divorciado 4 13
Religião
Católica 18 60
Espírita 5 17
Evangélica 3 10
Adventista 3 10
Sem religião 1 3
Praticante da religião
Sim 24 80
Não 6 20
Ano de formatura
1989 a 1999 13 43
2000 a 2007 17 57

Avaliação do bem-estar espiritual dos enfermeiros

Quanto ao desempenho na SWBS, observou-se que 76,6% dos enfermeiros apresentaram escores positivos no SWB. Na subescala de EWB, 80% dos enfermeiros apresentaram escores positivos e com relação à subescala de RWB, 76,6% dos enfermeiros obtiveram escores positivos (Tabela 2).

Tabela 2 Distribuição dos enfermeiros quanto à escala de bem-estar espiritual (SWBS) e subescalas 

Escala de bem-estar espiritual n %
Bem-estar espiritual (SWB)
Positivo 23 76,6
Negativo 7 23,3
Bem-estar existencial (EWB)
Positivo 24 80
Negativo 6 20
Bem-estar religioso (RWB)
Positivo 23 23,3
Negativo 7 76,6

Considerou-se positivo para escore alto e negativo para escores moderado e baixo.

Com relação ao desempenho na SWBS, a média geral foi de 107,26, e para as subescalas de EWB e RWB foram de 54,4 e 53,2, respectivamente.

A opinião dos enfermeiros sobre a importância de oferecer ao paciente uma assistência espiritual

Com relação à opinião dos enfermeiros sobre a importância de oferecer ao paciente uma assistência espiritual, a grande maioria (83%) respondeu afirmativamente.

Do total de 25 enfermeiros, que responderam afirmativamente sobre a importância de oferecer ao paciente uma assistência espiritual, 40% dos enfermeiros ofereceram como justificativa “para proporcionar bem-estar e conforto ao paciente” (Tabela 3).

Tabela 3 Justificativas oferecidas pelos enfermeiros sobre a importância de oferecer ao paciente uma assistência espiritual 

Justificativas n %
Para proporcionar bem-estar e conforto ao paciente 10 40
Dada a cultura e religião que o paciente pertence, a assistência espiritual não é só importante como indispensável 4 16
Desde que o paciente ou a família dê abertura ou se pronuncie a respeito 3 12
Faz parte do tratamento holístico 3 12
Não apenas o paciente necessita de assistência espiritual, mas todos nós, independentemente da religião 2 8
Outros 2 8
Não respondeu 1 4
Total 25 100

Do total de cinco enfermeiros, que responderam negativamente sobre a importância de oferecer ao paciente uma assistência espiritual, 60% dos enfermeiros ofereceu como justificativa “não cabe à Enfermagem interferir nesse assunto”.

A maioria (67%) dos enfermeiros referiu não ter recebido uma formação profissional para prestar assistência espiritual ao paciente no curso de graduação em Enfermagem, 93% dos enfermeiros não obteve formação durante o curso de pós-graduação e 87% responderam que não obtiveram formação profissional para prestar assistência espiritual ao paciente em outros cursos de Enfermagem.

DISCUSSÃO

No presente estudo, verificou-se que a maioria dos enfermeiros apresentou escores positivos na escala de bem-estar espiritual, enquanto em um estudo realizado com alunos de psicologia da Universidade Católica de Pelotas, 84,6% dos estudantes obtiveram escores negativos. Também nas subescalas EWB e RWB, os escores dos enfermeiros foram mais altos do que aqueles obtidos pelos estudantes de Psicologia(10).

O desempenho obtido pelos enfermeiros na SWBS mostrou médias mais altas do que os resultados obtidos em pesquisa realizada com estudantes de Psicologia da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Esses resultados também foram mais altos do que as médias de estudo realizado por Volcan et al. em pesquisa com 464 universitários das áreas de Medicina e de Direito, em que o escore médio de bem-estar espiritual foi de 90,4, sendo de 45,6 e 45,1 para as subescalas existencial e religiosa, respectivamente(13).

Quanto à opinião dos enfermeiros sobre a importância de oferecer ao paciente uma assistência espiritual, a maioria dos enfermeiros respondeu afirmativamente. Esse resultado é similar àquele de uma pesquisa realizada com graduandos de Enfermagem, no qual a maioria dos graduandos referiu ser importante a Enfermagem se ocupar da dimensão espiritual do paciente(8).

O fato de a maioria dos enfermeiros ter referido considerar importante oferecer ao paciente uma assistência espiritual pode estar relacionado com uma tendência atual na Enfermagem em ter uma visão do ser humano dentro de uma perspectiva holística, sendo que o preceito básico do holismo é que o todo individual (corpo, mente e espírito) é mais do que a soma de suas partes. Essas dimensões interagem e, assim, tratando uma delas, as demais serão afetadas. Desta forma, a dimensão espiritual é considerada como parte integrante do indivíduo, sendo necessário que os enfermeiros façam uma avaliação da dimensão espiritual do paciente e façam uma intervenção quando necessário(7).

Do total de enfermeiros que responderam afirmativamente sobre a importância de oferecer ao paciente uma assistência espiritual, menos da metade dos enfermeiros ofereceu como justificativa “proporcionar bem-estar e conforto ao paciente”. Essa opinião está congruente ao conceito multidimensional de saúde preconizado pela OMS, em que o bem-estar espiritual vem sendo considerado mais uma dimensão do estado de saúde, junto às dimensões corporais, psíquicas e sociais(1).

A maioria dos enfermeiros referiu não ter recebido formação profissional para prestar assistência espiritual ao paciente em nenhum dos seguintes cursos: graduação em Enfermagem, curso de pós-graduação e outros cursos de Enfermagem.

Em estudo realizado com graduandos de Enfermagem sobre o conhecimento e percepção da importância do atendimento da dimensão espiritual do paciente, concluiu-se que é importante observar o modo com que o tema tem sido tratado nos meios acadêmicos, uma vez que se observou, neste estudo, a carência teórica dos alunos com relação às intervenções sobre as necessidades espirituais dos pacientes(8).

É necessária a discussão formal acerca da espiritualidade no ensino de graduação, pois o objeto de trabalho da Enfermagem é o ser humano na perspectiva do paradigma holístico, ou seja, a compreensão do homem como um ser bio-psico-socioespiritual. Sendo assim, uma forma de iniciar esta discussão poderia ser pela utilização das definições da North American Nursing Diagnosis Association (NANDA) e pelo teste dos indicadores propostos por ela para detectar a “angústia espiritual”(7).

CONCLUSÕES

A avaliação do bem-estar espiritual dos enfermeiros mostrou que a maioria dos enfermeiros apresentou escores positivos, considerando importante oferecer ao paciente uma assistência espiritual.

A maioria dos enfermeiros referiu não ter recebido uma formação profissional para prestar assistência espiritual ao paciente em nenhum dos cursos de Enfermagem concluídos.

Os resultados apontam para a necessidade de que nos cursos de formação profissional e/ou de educação continuada da Enfermagem se amplie o espaço de reflexão e discussão acerca da espiritualidade e da assistência espiritual ao paciente.

REFERÊNCIAS

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