O ensino na Fisioterapia: momento de revermos a prática?

O ensino na Fisioterapia: momento de revermos a prática?

Autores:

Felipe José Jandre dos Reis,
Michelle Guiot Mesquita Monteiro

ARTIGO ORIGINAL

Fisioterapia e Pesquisa

versão impressa ISSN 1809-2950versão On-line ISSN 2316-9117

Fisioter. Pesqui. vol.22 no.4 São Paulo out./dez. 2015

http://dx.doi.org/10.590/1809-2950/12729022042015

As modificações que ocorreram nos últimos anos na sociedade provenientes da disponibilidade das fontes de informação, da globalização, do uso da tecnologia e das necessidades, demandas e exigências do mercado de trabalho, além das políticas públicas de saúde vigentes no país, repercutiram numa reflexão sobre a dinâmica do processo de aprendizagem e criaram a necessidade de um novo olhar para a formação do profissional de saúde. Atualmente é esperado que o fisioterapeuta desenvolva outras habilidades e competências que vão além do conhecimento técnico e específico, por exemplo: o pensamento crítico, a comunicação, a gestão, a capacidade de resolver problemas, de ser inovador, de garantir o olhar integral para o cuidado em saúde e de trabalhar em equipe. Ainda dentro desse contexto, o fisioterapeuta precisa reconhecer os ambientes em que está inserido (social e profissional) para ser capaz de trabalhar de forma eficaz atendendo à necessidade da população e de aplicar o conhecimento por meio da prática baseada em evidência.

O cenário atual da profissão nos faz refletir sobre como está a formação do fisioterapeuta no Brasil. Apesar dessas necessidades com que o fisioterapeuta se depara, o processo de ensino-aprendizagem tem enfatizado a aquisição de competências técnicas, mas não a compreensão, análise de problemas e aplicação do conhecimento com base nos estudos de maior evidência. Esses modelos de ensino adotados mesclam as influências provenientes da evolução do ensino superior no Brasil. Dentre as heranças, observamos a adoção da hierarquização do ensino, currículos organizados por disciplinas, o professor sendo o detentor do conhecimento e repassador de conteúdos pré-definidos, o ensino fragmentado, o conhecimento dado como pronto e imutável, a desarticulação com a realidade e a incapacidade de aplicar o conhecimento na complexidade de uma situação real.

A prática de ensino conhecida como "educação bancária" considera que o aluno é vazio de conhecimento, tendo o professor como o responsável pela aprendizagem por meio da transferência de conhecimentos. Esse modelo favorece o conhecimento superficial, desenvolvendo habilidades como o hábito de tomar notas e memorizar, passividade do aluno e a falta de atitude reflexiva, "respeito" às fontes de informação, distância entre conhecimentos prévios assim como entre teoria e prática, ausência de problematização da realidade e adoção de modelos prontos e elaborados em outras regiões, além do individualismo e falta de participação e cooperação.

O processo de ensino-aprendizagem não pode ser visto de maneira linear, no qual os conhecimentos adquiridos são adicionados ao longo dos anos. Deve-se considerar que a complexidade do ato de ensinar e aprender envolve dimensões afetivas e cognitivas e por isso as metodologias de aprendizagem, nas quais o aluno compartilha com o docente a responsabilidade e o comprometimento do processo, têm se mostrado favoráveis a uma aprendizagem significativa e ao desenvolvimento de habilidades não cognitivas.

A formação do fisioterapeuta não deve se fixar apenas no desenvolvimento de habilidades específicas, mas na construção de um profissional crítico que, por meio de um processo reconstrutivo, seja capaz de atribuir novos significados e construções. Dessa maneira, um ambiente que estimule a discussão e o pensamento crítico é provavelmente mais favorável para promover a maturidade intelectual necessária. Durante a formação, os graduandos precisam refletir sobre todos os aspectos da sua experiência de aprendizagem, incluindo aquelas que não estão em uma grade curricular ou disciplina específica. É fundamental que o processo de ensino-aprendizagem transponha as barreiras físicas das salas de aula, que considere e reconheça as diferentes áreas dentro da ciência, a práxis inserida em diferentes contextos geopolíticos, sociais e culturais, assim como as múltiplas realidades do homem, tanto no aspecto individual quanto coletivo.

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