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O fascinante estudo das pregas vocais humanas

O fascinante estudo das pregas vocais humanas

Autores:

Domingos Hiroshi Tsuji,
Luciana Miwa Nita Watanabe

ARTIGO ORIGINAL

Brazilian Journal of Otorhinolaryngology

versão impressa ISSN 1808-8694

Braz. j. otorhinolaryngol. vol.80 no.2 São Paulo mar./abr. 2014

http://dx.doi.org/10.5935/1808-8694.20140022

A fala, principal meio de comunicação utilizado pelo ser humano, só foi possível, entre outros fatores, devido à evolução filogenética da laringe. Esta evolução permitiu também o controle extremamente fino da emissão vocal, fato que podemos perceber principalmente ao escutarmos as vozes de cantores talentosos. Todos esses processos são decorrentes de mecanismos complexos, mas o estágio inicial da produção vocal é um fenômeno puramente mecânico, diretamente dependente da vibração adequada das pregas vocais.

Hirano, em 1974, propôs a teoria do complexo corpo-cobertura, segundo a qual a cobertura mucosa se move sobre um corpo relativamente estacionário, constituído por ligamento e músculo vocal.1 Esta observação foi possível através do estudo histológico da prega vocal humana, que apresenta uma estrutura em camadas com distribuição diferenciada de componentes celulares e extracelulares. Este arranjo tem uma relação direta com as propriedades biomecânicas que permitem o comportamento vibratório das pregas vocais.2

Apesar de alguns estudos importantes sobre a ultraestrutura de pregas vocais de fetos e crianças, ainda há muito a ser compreendido sobre o seu desenvolvimento.3,4 Em um estudo recente foi identificada uma ultraestrutura em camadas, qualitativamente semelhante à dos adultos, em pregas vocais de fetos no último trimestre gestacional,5 o que permitiu a inferência de o ligamento vocal já existir mesmo antes do nascimento. A importância de se conhecer com detalhes a estrutura da prega vocal humana normal e as características de seu desenvolvimento pode ter uma implicação na prática clínica diária, pois norteará a tomada de decisões, tais como terapias medicamentosas, tratamentos cirúrgicos e até, talvez num futuro não tão distante, a possibilidade de terapias gênicas no tratamento das mais variadas alterações.

Graças ao brilhantismo e à perspicácia dos mestres do passado, que mesmo com poucos recursos estudaram a laringe, podemos compreender a fisiologia da fonação e nela basear as nossas condutas terapêuticas atuais, principalmente cirúrgicas. Porém, apesar de todo o aparato tecnológico que permitiu os avanços da medicina, ainda há muito o que se estudar sobre a anatomia e a ultraestrutura das pregas vocais, principalmente as infantis, ainda em desenvolvimento.

REFERÊNCIAS

Hirano M. Morphological structure of the vocal cord as a vibrator and its variations. Folia Phoniatr Logop. 1974;26:89-94.
Gray SD. Cellular physiology of the vocal folds. Otolaryngol Clin North Am. 2000;33:679-97.
Sato K, Hirano M, Nakashima T. Fine structure of the human newborn and infant vocal fold mucosae. Ann Otol Rhinol Laryngol. 2001;110:417-24.
Hartnick CJ, Rehbar R, Prasad V. Development and maturation of the pediatric human vocal fold lamina propria. Laryngoscope. 2005;115:4-15.
Nita LM, Battlehner CN, Ferreira MA, Imamura R, Sennes LU, Caldini EG, et al. The presence of a vocal ligament in fetuses: a histochemical and ultrastructural study. J Anat. 2009;215:692-7.