Compartilhar

O fenômeno da violência no Brasil e na América Latina: diversas abordagens teórico-metodológicas

O fenômeno da violência no Brasil e na América Latina: diversas abordagens teórico-metodológicas

Autores:

Otaliba Libânio Morais Neto,
Sônia Margarida Gomes Sousa

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.22 no.9 Rio de Janeiro set. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232017229.11492017

A publicação de um número especial sobre a temática da violência na Revista Ciência & Saúde Coletiva reflete a dimensão desse fenômeno na realidade Latino-Americana como causa de sofrimento e dor nas crianças, adolescentes, idosos, mulheres e homens. A violência é um dos principais grupos de causas de morte e de lesões na população e impacta na diminuição da velocidade do aumento da expectativa de vida em nossos países. Além disso, os artigos, revelam que os pesquisadores estão atentos a essa realidade e contribuem com uma rica produção de conhecimento sobre a magnitude, os determinantes, as desigualdades, os impactos da violência na saúde e na qualidade de vida da nossa população, bem como na avaliação das intervenções de enfrentamento.

O presente volume temático conta com 30 artigos que apresentam diferentes abordagens metodológicas – quantitativa, qualitativa e de revisão sistemática da literatura científica, assim como diferentes fontes de informações. Os artigos podem ser organizados em três eixos temáticos: (i) violência interpessoal que abarca os diferentes ciclos da vida. Na infância e adolescência, os autores abordam a negligencia, o bullying e a violência sexual. Na violência contra a mulher, os artigos analisam a física e o feminicídio, identificando tendências dessas mortes no Brasil. Na violência contra o idoso, os artigos analisam a violência entre parceiros íntimos e o suicídio em portadores de doença terminal; (ii) violência institucional em que os autores analisam aquela envolvendo as mulheres agentes prisionais e a relação entre profissionais de saúde e usuários no âmbito dos serviços de saúde do SUS; (iii) estudos que analisam as estratégias de enfrentamento das violências, seja por meio de intervenções psico-terapêuticas ou da preservação da cultura popular em grupos populacionais específicos.

Dentre os artigos, destacam-se os que utilizam como fonte de dados o Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes do SUS (VIVA). Eles expressam o potencial dessa fonte de informação para estimar a magnitude da violência e para avaliar os fatores determinantes das diversas formas desta no Brasil. As análises apresentam o perfil da violência interpessoal segundo o tipo de violência, o gênero, a raça-cor, escolaridade, os ciclos de vida, bem como identificam os principais agressores e quais os instrumentos utilizados para perpetrar para cada grupo de vítimas. Em dois artigos que utilizam o VIVA, ressalta-se o uso inovador do procedimento de linkage entre esta base de dados e o Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc). Seus resultados apresentam os impactos e as consequências da violência sexual contra as adolescentes femininas, bem como a qualidade da atenção à saúde ofertada a essas vítimas.

No conjunto – apesar das especificidades de cada um –, os 30 artigos expressam investigações científicas de diversas concepções teóricas e metodológicas. Suas conclusões devem ser compreendidas como um convite a novos estudos, que possam ampliar o conhecimento, ainda mais quando se trata de um fenômeno de intensa complexidade, que revela uma teia de relações conformadas por aspectos históricos, sociais, políticos, econômicos, culturais, psicológicos e biológicos. Somam-se aos estudos e pesquisas brasileiras e internacionais que têm buscado aprofundar o saber e avançar no fazer, intervindo desta forma no processo de construção de um pacto de humanidade em oposição à barbárie. Por fim, desejamos aos leitores, pesquisadores e profissionais da área uma boa leitura, que possa inspirá-los a refletir sobre a temática da violência.

Otaliba Libânio Morais Neto
Departamento de Saúde Coletiva, Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública, Universidade Federal de Goiás.
Sônia Margarida Gomes Sousa
Departamento de Psicologia, Pontifícia Universidade Católica de Goiás.