O imperador de todos os males: uma biografia do câncer. Mukherjee S. São Paulo: Companhia das Letras; 2012. 634 p.

O imperador de todos os males: uma biografia do câncer. Mukherjee S. São Paulo: Companhia das Letras; 2012. 634 p.

Autores:

Rosilene Souza Gomes

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.30 no.6 Rio de Janeiro jun. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311XRE010614

O Imperador de Todos os Males: Uma Biografia do Câncer relata a biografia de um personagem inusitado: o câncer. A doença é antropomorfizada não apenas no título do livro, ela é apresentada como uma “entidade letal”, um ser do qual é possível traçar uma biografia. O autor afirma seu desejo de “penetrar a mente” do câncer, “compreender seu comportamento” e “desmistificar seu psiquismo” (p. 13). Há íntima identidade entre o câncer e aquele que o abriga, uma vez que as células cancerosas “são versões mais perfeitas de nós mesmos” (p. 23).

O autor da obra, Siddartha Mukherjee, é de origem indiana e sua formação médica foi realizada nas mais conceituadas instituições dos Estados Unidos. A experiência como oncologista instigou Mukherjee a escrever um diário, uma “visão das trincheiras do tratamento do câncer” (p. 14), e tal projeto tomou proporções mais abrangentes. O livro é um empreendimento de peso – são 634 páginas com referências generosamente citadas em 62 páginas de notas. Engana-se quem imagina que o livro é um aborrecido tratado médico. O texto tem ares de romance e uma qualidade literária que rendeu o prêmio Pulitzer em 2011. O autor entrelaça o produto de pesquisa documental e bibliográfica de forma consistente, com relatos de casos clínicos. Seu trabalho integra tanto o desenvolvimento do conhecimento médico sobre o câncer quanto a história social, cultural e política a ele relacionada, grande parte dela situada nos Estados Unidos.

O livro é composto por seis partes, cada uma dividida em capítulos. O último capítulo consiste em uma espécie de visão panorâmica do desenvolvimento do saber e das intervenções sobre o câncer, partindo da história da rainha persa Atossa – que teve um tumor extirpado por um escravo em 440 a.C. – até os dias atuais.

Em cada parte do livro, o autor aborda determinado aspecto da história de quatro mil anos do câncer, narrado de forma não linear e descontínua. O termo genérico “câncer” nomeia mais de cem doenças que contam com uma característica em comum – o crescimento anormal de células. A unificação dessas variadas manifestações da doença sob a mesma designação decorre, em parte, de um aspecto cultural e político, pois elas compartilham o mesmo estigma e uma história inspirada em uma metáfora bélica. Afinal, é sempre mais fácil lutar contra um inimigo único. Trata-se de uma história de enfrentamento de um inimigo poderoso, o “imperador de todos os males, o rei dos terrores” (p. 14), como escreve um cirurgião do Século XIX, cuja citação Mukherjee utiliza para intitular sua obra. O livro busca responder à inquietante pergunta sobre a possibilidade de que algum dia essa doença tão poderosa possa ser erradicada.

A marca do oncologista se revela no destaque concedido às pesquisas referentes às drogas quimioterápicas e à menção quase idealizada daquele que é considerado o pai da quimioterapia moderna: Sidney Farber. Outro personagem enaltecido é Mary Lasker, socialite de Manhattan que se associou a Farber nos anos 1950, empreendendo com ele uma cruzada contra o câncer.

A pesquisa de Farber para o tratamento da leucemia foi o primeiro dado selecionado para narrar a história do câncer. Essa é a doença de Carla Reed, paciente de Mukherjee apresentada no prólogo, cujo percurso do tratamento acompanhamos ao longo do livro até o seu desfecho. Assim, o início da narrativa não coincide com a cronologia histórica do conhecimento sobre a doença, que remonta a milênios. Segundo o autor, pensamos no câncer como doença moderna porque suas metáforas de superprodução, crescimento irrefreável e descontrole o caracterizam nos dias atuais. Ele é uma patologia do excesso e “morrer, mais do que morte, define a doença” (p. 58).

A narrativa percorre a história da Medicina, mas não é como historiador da ciência médica que Mukherjee escreve. Podemos, no entanto, acompanhar em seu relato as mudanças nos paradigmas do conhecimento sobre saúde e doença, desde a concepção hipocrático-galênica dos humores, passando pela anatomoclínica, o discurso do risco, até a genômica contemporânea.

Nesse percurso, desenvolveu-se o tripé que até hoje compõe a base do tratamento para o câncer: cirurgia, radioterapia e quimioterapia. A radicalidade marcou a história dessas técnicas, uma vez que se considerava que quase tudo era aceitável para enfrentar uma doença que levaria irremediavelmente à morte. O autor descreve o desenvolvimento de cada uma dessas técnicas e destaca que, em suas versões iniciais, elas eram usadas antes de serem conhecidos os seus efeitos e as causas da doença. Ao longo da história ampliou-se o conhecimento sobre o câncer e os tratamentos tornaram-se menos agressivos pelo aprimoramento das técnicas originais e pelas novas tecnologias agregadas.

Os aspectos culturais e sociais relacionados à doença também ganham destaque na obra. Mukherjee observa que “uma doença precisa ser transformada politicamente antes de ser transformada cientificamente” (p. 127). Os capítulos que compõem a segunda parte do livro tratam dessa transformação e de seu produto: a guerra contra o câncer. Suas batalhas ocorreram não apenas nos subsolos dos laboratórios, mas principalmente na mídia e no ativismo político. Na década de 1970, houve uma explosão de campanhas publicitárias, com ampla divulgação sobre a doença, que também se tornou tema de inúmeros filmes e peças literárias.

É possível observar ao longo da narrativa transformações nas formas como o ativismo norte-americano atuou no século passado e início do atual. Mukherjee descreve as associações de Farber com a filantropia em busca de financiamento para as suas pesquisas nos anos 1950. Cerca de vinte anos depois, o ativismo exigia do Estado investimentos para a pesquisa e o tratamento da doença.

Outra transformação relevante refere-se à demanda por tratamento. No final da década de 1960, houve um movimento de mulheres intelectuais estadunidenses que se recusaram a realizar mastectomia radical e exigiram da classe médica pesquisas que comprovassem ser este o melhor tratamento para o câncer de mama. Diferentemente da demanda por menor intervenção, nas décadas de 1980/1990, na esteira do ativismo da AIDS, pacientes exigiam, por meio judicial ou por lobby político, sua inclusão em tratamentos ainda experimentais, a exemplo do que ocorreu no caso do uso compassivo da droga Herceptin, conforme descreve o autor.

Podemos acompanhar no relato de Mukherjee as batalhas médica, jurídica e política em torno de um dos agentes carcinógenos mais reconhecidos: o cigarro. Esse aspecto está ligado a uma mudança na perspectiva da pesquisa e intervenção, em direção às ideias de risco, prevenção, diagnóstico precoce e políticas de rastreamento.

Contemporaneamente, a tentativa de conhecer o câncer com base na biologia básica e na busca por seus mecanismos fundamentais, conduziu a pesquisas moleculares e genéticas, que evidenciaram ser o câncer “uma versão distorcida do nosso eu normal”, título da parte V do livro.

Na sexta e última parte, o autor responde com um alento à pergunta que permeia toda a obra: é possível vencer o câncer? A resposta afirmativa está vinculada à ideia de prevenção e ao desenvolvimento das terapias moleculares e genéticas, assim como ao tratamento de sua virtualidade pela mesma via. Essa esperança, no entanto, não é acessível a todos. Os custos dessas tecnologias são extremamente altos e acirram ainda mais as desigualdades em saúde.

A leitura do livro nos instiga a pensar a doença como um complexo no qual os aspectos biológicos, simbólicos, culturais, sociais e econômicos estão intimamente imbricados e constituem esse personagem a quem chamamos de câncer.

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