O mapa corporal narrado: relato de experiência de pesquisa com aporte teórico de Bourdieu

O mapa corporal narrado: relato de experiência de pesquisa com aporte teórico de Bourdieu

Autores:

Juliana Alves Viana Matos,
Kênia Lara Silva,
Marie-Carmen Garcia

ARTIGO ORIGINAL

Escola Anna Nery

versão impressa ISSN 1414-8145versão On-line ISSN 2177-9465

Esc. Anna Nery vol.22 no.3 Rio de Janeiro 2018 Epub 06-Ago-2018

http://dx.doi.org/10.1590/2177-9465-ean-2017-0407

INTRODUÇÃO

Neste artigo relatamos a utilização do mapa corporal narrado (MCN) como possibilidade para a pesquisa qualitativa. O empenho em novas técnicas de produção e análise de dados vem sendo experimentado no campo das Ciências em geral e da Saúde, em particular, procurando responder à constante busca por inovações.

Neste sentido, é importante que o incentivo aos novos métodos não ocorra apenas pela aplicação tecnológica, mas como possibilidade de ruptura paradigmática visando a integração entre teoria e método.1 Conquanto, somente ao estabelecer a relação dialógica entre eles, buscando explicar o objetivo e interpretá-lo é possível realizar a pesquisa científica.2 Na contramão, a ausência de teorias que sustentem a pesquisa científica é um problema que confina a sua utilização como técnica, comprometendo a sua validade.3

Para superar esse limite, faz-se necessário um processo de construção que considere o movimento de articulação constante entre os conteúdos da teoria postulada no fenômeno central analisado.4 Os pressupostos investigativos e os métodos vão criando uma trama ao longo do desenvolvimento da pesquisa, conferindo sentido aos achados e interpretações dos autores.

Importa ressaltar também que o crescimento no uso de novas metodologias vem ao encontro da tentativa de operacionalizar pesquisas que utilizem abordagens problematizadoras e reflexivas. Essas metodologias, mais participativas, respeitam valores, crenças e costumes; e são uma forma de ressignificar os conhecimentos sobre determinado fenômeno.5 Desta forma, é possível engajar os agentes no processo da pesquisa, permitindo uma participação mais ativa e coerente à teoria social crítica.6

Neste artigo, o objetivo central foi analisar o uso do MCN sustentado pela teoria social crítica de Pierre Bourdieu. O método, relativamente recente, foi descrito por Gastaldo et al. (2012)7.

A proposta foi descrita primeiramente como técnica terapêutica utilizada para mulheres e homens que vivem com o vírus HIV e/ou aids.7,8 Posteriormente, foi adaptada como método de geração de dados primários, utilizada para engajar os participantes na reflexão de temas cotidianos.7 Constitui-se num processo de criação de réplicas do corpo em tamanho natural do corpo do participante utilizando desenho, pintura ou outras técnicas artísticas para representar aspectos da vida cotidiana.7

Justificamos o uso do MCN em pesquisas de metodologia participativa nas quais objetivam-se promover a expressão de sentimentos, pensamentos e ideias, para a compreensão de problemas políticos e sociais.7 Assim, buscamos neste e em outros estudos, aparatos científicos e experiências com essa técnica, que estimulam o uso de metodologias visuais como forma de proporcionar engajamento dos participantes.7,9-11

Neste artigo, resultado parcial de uma tese de Doutorado em Enfermagem, apresentamos os pressupostos teóricos e metodológicos para a utilização da técnica do MCN. A tese teve como objetivo central analisar as práticas corporais no campo da promoção da saúde, apoiada no referencial da sociologia crítica. Na busca por assegurar a coerência teórica e metodológica, optamos pelo MCN para captar as práticas corporais sob a perspectiva dos seus participantes.

APROXIMAÇÃO AOS CONCEITOS DA SOCIOLOGIA CRÍTICA

A opção pela sociologia crítica fundamenta-se, particularmente, pelo intento em desvincular o olhar interiorizado para acessar uma posição externa, analisando o fenômeno pelo olhar do seu agente.12 Entre as possibilidades, o aporte advindo da teoria de Bourdieu apresenta-se como opção para as pesquisas desenvolvidas nas ciências da saúde, principalmente por dialogar com outros campos facilitando o trabalho do investigador. A sua utilização exige uma postura ativa e sistemática do pesquisador, rompendo com a passividade empirista que propõe construções teóricas esvaziadas.1

Neste artigo, propomos a utilização dos conceitos bourdieusianos de habitus e hexis corporal.1,13Habitus talvez seja o conceito mais utilizado na obra de Bourdieu, nem por isso ele é fácil de ser compreendido e trazido para o contexto da pesquisa. Bourdieu constrói a seguinte noção de que habitus:

[...] como sistema de esquemas adquiridos que funciona a nível prático como categorias de percepção e apreciação, ou como princípios de classificação e simultaneamente como princípio organizadores de ação, significava construir o agente social na sua verdade de operador prático de construção de objetos.14:26

Quando nos referimos a habitus, estamos falando de uma espécie de estrutura incorporada que será percebida no campo microssocial.14 O conceito opõe-se às teses extremas do estruturalismo, que considera os sujeitos ativos e atuantes, contudo simples "epifenômenos da estrutura".15:7 Assim, o habitus rompe com as contradições entre indivíduo e sociedade, individual e coletivo, consciente e inconsciente, interessado e desinteressado, objetivo e subjetivo.14

O habitus possibilita a legitimação do agente como operador prático da construção do objeto.1 Para Bourdieu "O habitus é esse princípio gerador e unificador que retraduz as características intrínsecas e relacionais de uma posição em um estilo de vida unívoco, isto é, em um conjunto unívoco de escolhas de pessoas, de bens, de práticas".14:22

Transpondo o coletivo e alcançando o individual, compreendemos a hexis corporal, uma das dimensões do habitus16 "[...] que fala imediatamente pela motricidade enquanto esquema postural que é ao mesmo tempo singular e sistemático, pois é solidário de todo um sistema de técnicas do corpo e de instrumentos, e carregado de uma miríade de significações e de valores sociais".17:519

Os usos dos corpos produzidos pelas condições sociais conformam a hexis. Essa relação estabelecida com o corpo não o reduz à imagem física, posto que trata-se de uma representação subjetiva.13 Contudo as experiências práticas incorporam as estruturas do mundo social e se refletem no microespaço do corpo.13 Nessa perspectiva, a relação com o corpo vai sendo incorporada e a hexis corporal incorpora as normas sociais.18

A forma como nos portamos e os diferentes modos de se expressar socialmente fazem parte da maneira particular de cada um ocupar o espaço social. Assim, apesar de percebida no microespaço, a hexis é facilmente transposta às outras esferas e auxiliam na compreensão da sociedade. A representação subjetiva dos corpos e mais profundamente da hexis corporal, acontece por meio de um sistema de classificação social: quer dizer que os corpos ocupam uma posição social proporcional à sua distribuição de propriedades fundamentais.13

A EXPERIÊNCIA NA UTILIZAÇÃO DO MAPA CORPORAL NARRADO

Neste momento, apresentaremos o relato sobre a experiência de utilização do mapa corporal narrado. A pesquisa matricial teve como objetivo central analisar duas práticas corporais no contexto da promoção da saúde: a dança e a capoeira regional. A escolha destas práticas foi precedida de observação participante nos Centros Culturais do município de Belo Horizonte. Os espaços foram investigados quanto às atividades desenvolvidas, horário de funcionamento e público atendido, e foram elencados aqueles que melhor atendiam aos objetivos da pesquisa.

Para atingir os objetivos do estudo, os participantes foram convidados a compartilhar os seus discursos e experiências com a prática corporal analisada por meio do MCN. A técnica em si foi realizada pelo participante e a pesquisadora conduziu e atuou como facilitadora do processo, conforme descrito na literatura.7

Participaram da pesquisa 18 pessoas, nove representantes de cada uma das práticas, o que gerou 18 MCN. Cada um dos participantes desenvolveu um MCN, ao longo de três encontros. Ressaltamos que, com duas participantes foi preciso ampliar o número de encontros para finalizar o trabalho, pois ambas gostavam de se dedicar aos elementos artísticos o que demandou maior tempo para finalizar a atividade.

Assim, foram realizados 58 encontros, que ocorreram entre dezembro de 2016 e maio de 2017. Os encontros foram audiogravados, em seguida transcritos e, na última sessão, os mapas corporais foram fotografados. O tempo médio de cada encontro foi de uma hora e cinco minutos, mas foram conduzidos respeitando o tempo de cada participante. Entendemos que algumas questões podem exigir maiores reflexões, temas delicados por vezes necessitam de um prazo maior antes da retomada ao roteiro como, por exemplo: problemas familiares, perdas pessoais ou traumas. Ao final de cada encontro, o participante era solicitado a visualizar o mapa corporal e narrar o que era capaz de ver, como forma de recapitular o que foi dito e tecer suas considerações sobre a atividade realizada.

O percurso sugerido pelo roteiro semiestruturado partiu do microespaço do corpo, realizando o seu delineamento. A ideia era que, ao longo dos encontros, os atores sintetizassem experiências relacionadas à sua prática corporal. Assim, a atividade proposta no primeiro encontro constituiu na leitura do termo de consentimento livre esclarecido (TCLE) e apresentação da atividade, traçado do contorno corporal e discussão sobre as relações entre prática corporal, corpo e saúde. Aos participantes foi solicitado que escolhessem uma postura que para eles é representativa da prática corporal realizada. No segundo encontro foram trabalhadas as condições de vida do participante e, no terceiro encontro, os elementos facilitadores e dificultadores da prática corporal.

O MCN permitiu que analisássemos: o discurso dos participantes, as imagens produzidas com a técnica, bem como, as narrativas dele advindas. Os dados foram submetidos à análise sociológica, que se iniciou pela leitura crítica dos dados, passando pela definição de categorias de acordo com os níveis de organização social (micro, meso e macro), culminando com a interpretação reflexiva.19

Ressaltamos que foram cumpridas as normas técnicas estabelecidas pela Resolução do Conselho Nacional de Saúde, Nº 466, de 12 de dezembro de 2012. Após os esclarecimentos pertinentes todos os participantes assinaram o TCLE. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa e encontra-se inscrito sob parecer CAAE 55687616.7.0000.5149.

ALGUNS RESULTADOS: REFLETINDO SOBRE O USO DO MAPA CORPORAL NARRADO

O corpo foi ponto de partida para relacionar as práticas corporais e as relações entre as condições sociais. Para explorar diferentes aspectos da vida social, o roteiro contou com questões relacionadas ao cotidiano, o trabalho, as relações sociais e o uso de serviços e dispositivos sociais. Por meio deste exercício, buscamos capturar as condições de vida, o contexto social e como a prática se relaciona a vida cotidiana. O produto, incluindo a narrativa final, e a fotografia do mapa corporal estão exemplificados a seguir (Figura 1).

Fonte: Arquivo da pesquisa, 2017.

Figura 1 Mapa corporal completo da participante 16. 

A história é uma menina negra, afro. Que gosta muito de dançar.

E para ela, ela se sente livre quando ela dança. Faz com que o seu corpo transpareça o que somente os corações estão sentindo.

O símbolo da saúde é um joia.

O símbolo da dança representante da vida dela.

O corpo dela também um bonequinho com os braços abertos, uma forma de demonstrar ser livre.

E o símbolo dos sonhos, que a dança para ela é um sonho. (Participante 16)

A partir do delineamento do corpo, os participantes tiveram a possibilidade de relacionar-se à pratica corporal realizada elencando as posturas que gostam e são capazes de fazer ou que desejariam realizar. Os participantes da capoeira representam a parada de mão (plantar bananeira), técnica essencial para os movimentos avançados e que exige força e equilíbrio (Figura 2).

Fonte: Arquivo da pesquisa, 2017.

Figura 2 Mapa corporal dos participantes indicando a posição parada de mão. 

Assim, inicia-se a representação do "eu" e as suas relações com aspectos ligados ao cotidiano e como praticante da capoeira ou da dança. A escolha desta posição inicial indica quem são estes participantes e qual a sua identidade no contexto da prática analisada, pois está ligada aos hábitos gestuais e posturais que são interiorizadas de maneira natural por acumulação e repetição no interior das práticas corporais.20

Os gestos, os alongamentos e as posturas que são próprios àquele coletivo são um ajustamento às demandas sociais de um determinado grupo. É evidente para os participantes que aquelas posturas serão reconhecidas por seus colegas, mas não necessariamente por pessoas que não realizam aquela prática.

No contexto das práticas corporais, as experiências incorporam as estruturas do mundo social, incluindo a divisão social do trabalho, e se refletem no microespaço do corpo. Desse modo, evidenciamos que o corpo não está restrito à esfera individual e contém componentes subjetivos susceptíveis aos investimentos de cada sujeito. Essa reflexão leva em consideração a frequência dedicada à prática e outros cuidados ligados à sua realização como dietas, controle (ou ganho) de peso, uniforme e vestimenta.13

A manipulação corporal (seja de forma provisória ou permanente) é entendida como essencial à realização das práticas, a modelagem do corpo, a realização dos movimentos tem como objetivo central a legitimação do corpo para conformação e aceitação social. Nos achados ela se revelou, por exemplo, nas vestimentas da qual compreendemos que é importante participar da roda de capoeira vestindo o abadáa assim como, para o bailarino, portar o figurino no momento de se apresentar publicamente.

As histórias de vida indicam as modificações dos agentes e como estes corpos se modelam (ou não) por intermédio da prática realizada. Nos MCN as vivências foram representadas por elementos estruturantes da sociedade e das conformações firmadas por diferentes hexis, elaborando a ponte entre o corpo e as condições sociais. Citam-se como exemplos a sobrecarga de atividades das mulheres e o anseio em ter boa saúde.

A saúde foi representada pelos participantes principalmente com os cuidados ligados à alimentação (Figura 3). Trata-se da maneira de representar a saúde pela fórmula: alimentação - exercício. Na Figura 3a, a participante 4 escreve os alimentos que julga importantes para a sua saúde "Sucos naturais, Carambola, Acerola, Maça com Amendoim; Água Natural; Arroz, Feijão, Tomate, Pimenta, Couve, Alface, Beterraba", enquanto a participante 12 representa graficamente o copo de água para falar da importância do seu consumo à saúde. Concomitantemente, os participantes relatam dificuldade em cumprir as recomendações exigidas para garantir a saúde em sua perspectiva hegemônica, principalmente pela ausência de tempo, resultado do excesso de tarefas ligadas à rotina de trabalho e emprego, estudos e família. Evidenciamos esse fato pelo desenho da ampulheta representada ao lado da água Figura 3b.

Fonte: Arquivo da pesquisa, 2017.

Figura 3 Detalhes do mapa corporal de dois participantes mostrando a relação com a saúde: por meio de palavras (a), com o consumo de água (b). 

Entre as distintas representações, revelou-se a relação entre a divisão social do trabalho entre os corpos femininos e masculinos. A hexis corporal reflete o papel ocupado pelas mulheres na atualidade (Figura 4): as múltiplas jornadas de trabalho, a dificuldade de cuidado de si ante as prioridades da família que são destacados nos mapas corporais. Conforme verificado na Figura 4a, a participante 5 utiliza o texto para exemplificar a demanda dos filhos " Mamãe... Manhêêê... Mãe!!! Mããããeee!!! Mamããããeee", enquanto a participante 7 (Figura 4b) opta por simbolizar todos os membros integrantes da sua família, pessoas que dependem diretamente dos seus cuidados.

Fonte: Arquivo da pesquisa, 2017.

Figura 4 Detalhes do mapa corporal de duas participantes explicitando a hexis corporal. 

O corpo é produto de uma fabricação própria com determinação cultural. Não obstante, o MCN nos permite compreender o agente, sendo que as preferências indicadas pelos participantes ao longo dos encontros oferecem valiosas pistas sobre o habitus interiorizado pelos indivíduos. Alguns participantes realizaram complexas ligações e representações nos mapas, remetendo às relações entre corpo e o mundo social conforme verificado na Figura 2a. Outros demonstraram suas respostas de maneira mais literal, apenas com palavras, Figura 3a.

Na esfera das condições de vida dos participantes, percebemos o anseio em continuar a pratica corporal à qual se dedicam. Para muitos, a descoberta da prática é relatada como um momento aprazível no cotidiano capaz de promover a autoestima e transformação muscular.

Ah tem muita coisa que quando você inicia a dança você consegue imediatamente. Primeiro aumento da sua autoestima, a sua percepção de conseguir aquilo que está sendo proposto seja no alongamento. [...] no primeiro contato que você tem com a dança você já tem. Desde que você seja sensível e esteja desprendido para mergulhar naquilo. Além do mais é uma transformação muscular eu posso dizer quando você experimenta uma dança (Participante 11)

Contudo, à exceção daqueles que fizeram da prática sua fonte principal de renda, como os professores e monitores, não há nenhuma garantia de que no futuro a prática fará parte de sua vida. Os conflitos e dificuldades por vezes tornam esses planos incertos:

Ano retrasado eu comecei a fazer estágio, mas meu estágio como era só meio período não me atrapalhou em nada no começo na capoeira. Depois eu comecei a trabalhar [...] aí eu até dei uma parada assim. Não que eu parei de vez, mas como largava lá tarde, quando eu chegava aqui a aula já tava quase no final. Aí eu ficava sem graça de entrar, eu fiquei até muito chateada com isso. (Participante 7)

[...] assim o meu cotidiano, a correria, os meus sonhos tudo que eu faço. A dança o quê que ela representa pra mim, aonde que ela tá ligada. Aonde que ela já me levou sabe? O quê que ela faz eu esquecer ou superar e aí o quê que eu vou colher lá na frente com tudo isso. (Participante 12)

Evidenciamos no discurso do participante 7 e 12 a dificuldade em conciliar o tempo com a "correria" do cotidiano. Esse é o indicativo de que a rotina laboriosa e os compromissos diários podem, por vezes, impedir o seu comparecimento e/ou a dedicação que desejariam ter à prática. O ponto que se pretendemos realçar é que, o habitus também é produto das condições sociais, indicando que as estruturas sociais contribuem com a transformação e conservação da estrutura de classes.1 Tomamos com exemplo o slogan da participante 5 "A mamãe não se entrega fácil", aqui percebemos como os discursos produzidos em torno dos conceitos de habitus e hexis corporal trazem à luz questões ligadas ao gênero, ao trabalho e às condições de vida.

Ao construir o MCN produzindo discursos sobre as práticas corporais, os participantes teceram reflexões num movimento que caracteriza as metodologias participativas. É possível afirmar que alcançamos o pressuposto da técnica de MCN: os participantes puderam se perceber como agentes de um processo estruturado e estruturante, tendo oportunidade de capturar um momento da vida dos participantes junto a elementos chave de suas vidas.7

Corroborando com os achados de Gastaldo et al.,7 evidenciamos que o MCN permite ao participante se perceber como protagonista, parte integrante e ativa no processo da pesquisa. Diferentemente da postura assumida por alguns estudos que dispõe seus participantes de forma assujeitada, subordinada e dependente, a utilização do MCN permite uma nova racionalidade na relação pesquisador-pesquisado.12 Assim, a inovação no uso do MCN reside na propriedade da técnica em favorecer essas interações no momento em que a pesquisa ocorre com possibilidades de que o ato de pesquisar produza interferências na vida dos agentes.21

Conforme apontado em outros estudos,7,9-11 os desafios do uso do MCN referem-se ao caráter pessoal e subjetivo da técnica que podem levar os participantes a pensarem que estão em uma sessão terapêutica. Apesar da pesquisadora desencorajá-los, alguns participantes se referem aos encontros como "consulta". Dessa maneira, recomendamos que a condução da técnica seja sempre focada em atender os objetivos da pesquisa para que o pesquisador possa compartilhar as produções do encontro com outros pesquisadores num processo que também o coloque e reflexão sobre as implicações e sobre-implicações geradas.

CONCLUSÕES

A busca por inovações e referenciais metodológicos que ajudem a subsidiar as pesquisas em saúde são demandas emergentes tanto para a análise dos dados, mas também como forma de auxiliar na construção de instrumentos que possibilitem a mudança das determinações sociais às quais estamos expostos.12 A investigação qualitativa por intermédio do MCN é capaz de provocar a reflexividade em agentes e pesquisadores, proporcionando uma melhor compreensão das condições sociais, reveladas na pluralidade de estruturas indicadas em seus mapas corporais.

Destacamos o potencial da técnica para gerar dados imagéticos que arquitetam as relações entre micro e macro, numa ação permanente de reprodução do habitus de vida. O MCN representa a aposta em uma metodologia contra-hegemônica que contribui com a participação dos agentes e, simultaneamente, compromete-se com o desenvolvimento científico. A partir da sua utilização, foi possível verificar como os corpos são expressos, sem reduzi-los à imagem corporal, mas como representação objetiva do corpo produzido em contínua interação com o outro. Decerto, trata-se da compreensão deste corpo na perspectiva a autoimagem dos seus agentes e da sua determinação pelo meio.

A realização do MCN com o aporte teórico dos conceitos bourdieusianos possibilita a ampliação do olhar sobre o corpo real e o corpo legitimado, fruto das representações. Outras técnicas apresentam limites para alcançar imagens com elementos que permitam analises neste grau de profundidade. Assim, defendemos que o uso de novas formas de se pesquisar em saúde e enfermagem podem fortalecer e ampliar a compreensão dos fenômenos com os quais lidamos na geração do conhecimento empírico.

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