O papel do médico frente à medicina de precisão

O papel do médico frente à medicina de precisão

Autores:

Tatiana Ferreira de Almeida

ARTIGO ORIGINAL

Einstein (São Paulo)

versão impressa ISSN 1679-4508versão On-line ISSN 2317-6385

Einstein (São Paulo) vol.17 no.3 São Paulo 2019 Epub 27-Jun-2019

http://dx.doi.org/10.31744/einstein_journal/2019ed4979

Todos os dias, médicos se deparam com diagnósticos e tratamentos idênticos, que geram desfechos diferentes. Ser capaz de individualizar os cuidados é um desejo antigo da medicina. Neste contexto, a medicina de precisão leva em consideração a variabilidade genética individual, os fatores ambientais e o estilo de vida, para encontrar as melhores abordagens terapêuticas e de prevenção para grupos específicos de indivíduos.(1) Há aproximadamente 15 anos, a discussão sobre medicina de precisão tomou um novo rumo com as novas tecnologias computacionais e os avanços em biologia molecular, que possibilitaram um crescimento exponencial na quantidade de dados.(2)

Classicamente, o indivíduo busca ajuda do médico quando ele sai de seu estado de saúde habitual. O médico recolhe as informações e, baseado nos achados clínicos e em seu conhecimento técnico e pessoal, toma as decisões quanto ao tratamento e às medidas de prevenção para o indivíduo. Em um cenário que inclua a medicina de precisão, as informações clínicas são coletadas no prontuário eletrônico desde o nascimento; suas redes sociais indicam hábitos e estilo de vida; seus dispositivos eletrônicos monitoram sinais vitais e deslocamentos a todo segundo; o genoma completo traz 2 milhões de variantes diferentes, além da possibilidade de ampliação dos omics, com transcriptoma, metaboloma e microbioma. Todas essas informações serão processadas em algoritmos matemáticos e usadas para estabelecer os padrões e determinar os tratamentos e medidas preventivas. Da mesma forma que o algoritmo reconhece cães e gatos em fotos, ele poderá identificar os grupos de recém-natos em risco para hipertensão, diabetes e autismo, por exemplo.(3)

Neste novo cenário clínico, o paciente procura o médico em seu estado de saúde habitual com informações processadas computacionalmente. Os centros médico-hospitalares passam a uma posição secundária como difusor de saúde e tratamento, enquanto empresas de tecnologia passam a ter a guarda dos dados e os modelos matemáticos de saúde. Estes baseiam-se em indivíduos e eventos passados, extremamente eficazes em indicar quais os desfechos esperados para a vida saudável daquele indivíduo, sem necessariamente dispor da explicação fisiopatológica.(4)

No contexto atual, a medicina de precisão está sendo aplicada com cautela, como forma de diminuir as incertezas do manejo clínico do paciente, principalmente em relação a tratamento de tumores e farmacogenômica. Os estudos clínicos para a comprovação de eficácia dos achados genômicos e modelos preditivos precisarão ser ajustados à nova realidade. Com o aumento dos dados disponíveis e a diminuição dos grupos de interesse, as estatísticas atuais e as formas de interpretação dos ensaios clínicos precisam passar por uma adaptação.(5)

O médico terá que definir a conduta não só para um tratamento de doença, mas também para a manutenção e a melhora da saúde, levando em consideração informações de modelos preditivos que podem ser caixas pretas e novos modelos de estudos clínicos.

REFERÊNCIAS

1. Sankar PL, Parker LS. The Precision Medicine Initiative’s All of Us Research Program: an agenda for research on its ethical, legal, and social issues. Genet Med. 2017;19(7):743-50. Review.
2. Ginsburg GS, Philips KA. Precision medicine: from science to value. Health Aff (Millwood). 2018;37(5):694-701. Review.
3. Eyal G, Sabatello M, Tabb K, Adams R, Jones M, Lichtenberg FR, et al. The physician-patient relationship in the age of precision medicine. Genet Med. 2018;21(4):813-5.
4. Kricka LJ. History of disruptions in laboratory medicine: what have we learned from predictions? Clin Chem Lab Med. 2019;57(3):308-11.
5. Kimmelman J, Tannock I. The paradox of precision medicine. Nat Rev Clin Oncol. 2018;15(6):341-2.
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