O percurso educativo dialógico como estratégia de cuidado em sexualidade com idosas

O percurso educativo dialógico como estratégia de cuidado em sexualidade com idosas

Autores:

Daysi Mara Murio Ribeiro Rodrigues,
Célia Maria Gomes Labegalini,
Ieda Harumi Higarashi,
Ivonete Teresinha Schülter Buss Heidemann,
Vanessa Denardi Antoniassi Baldissera

ARTIGO ORIGINAL

Escola Anna Nery

versão impressa ISSN 1414-8145versão On-line ISSN 2177-9465

Esc. Anna Nery vol.22 no.3 Rio de Janeiro 2018 Epub 05-Mar-2018

http://dx.doi.org/10.1590/2177-9465-ean-2017-0388

INTRODUÇÃO

As discussões no entorno da sexualidade, embora ainda carregadas de preconceitos e interdições, há tempos evocam relações de poder e denunciam estratégias de controle do indivíduo e da população, característica da sociedade moderna.1 Acontece, porém, que o controle e o poder são assimétricos nas relações de gênero e a sexualidade é um forte aliado na normatização da conduta feminina em todas as faixas etárias, mediado pelo controle do homem.2

No que se refere às mulheres idosas, há de se considerar a domesticação da conduta feminina nas décadas passadas aliada à concepção de que o idoso é assexuado.3 Essa realidade implica em pouca atenção de saúde à essa área e necessita de superação, uma vez que a sexualidade no envelhecimento é geralmente negligenciada pelos profissionais de saúde em virtude do despreparo e da valorização do corpo jovem, saudável e sexualmente ativo em nossa cultura - um reforço para o preconceito da sexualidade no envelhecimento tanto quanto de sua compreensão ampliada.3-5

Atualmente, esse panorama torna evidente e necessária a inserção de ações de saúde que contemplem visão positiva do envelhecimento,6,7 dentre as quais se destaca o cuidado de enfermagem, cujas práticas educativas são inerentes. Nesse contexto, as abordagens dialógicas e emancipatórias da educação em saúde se configuram como estratégias de cuidado inovadoras por se situarem como ferramenta promotora da saúde.7

Nessa direção, as concepções dialógicas de Freire podem subsidiar o processo cuidativo-educativo8 dialógico da enfermagem na proposição de ações educativas libertárias, pautada no diálogo autêntico, como ato de liberdade,9 contrapondo-se à manipulação e imposição das concepções de sexualidade e de envelhecimento.

Cabe destacar que o diálogo é o encontro entre as pessoas que se solidarizam, refletem e agem a fim de transformar o seu mundo, superando as opressões.9 Assim sendo, subsidia a prática cuidativa-educativa em saúde crítica e transformadora, e quando direcionada à promoção da saúde, como na sexualidade, apresenta-se como a nova perspectiva de cuidado e é priorizada nas atuais políticas públicas de saúde,10 corroborando as premissas do envelhecimento ativo.

Nesse interim, a prática educativa é parte integrante do cuidado em saúde, especialmente pela enfermagem e objetiva à construção compartilhada do saber sobre o processo saúde-doença-cuidado-educação.8

No entorno da sexualidade, há de se reconhecer como uma necessidade humana básica e, portanto, contemplada pela assistência de enfermagem,8 de forma indissociável do cuidado e da educação. Se pautada na educação crítica e emancipatória, o processo cuidativo-educativo em sexualidade deverá voltar-se à elaboração e ao fortalecimento da cumplicidade entre profissionais e usuários, de forma a assegurar aos indivíduos o direito de decidir quais estratégias são mais apropriadas para cuidar, promover, manter e recuperar sua saúde.11

Dessa forma, buscar novos horizontes de cuidado de enfermagem com mulheres idosas torna-se imprescindível para sua emancipação e qualidade de vida. Acredita-se que isso possa se dar pela prática educativa crítica e libertadora,9 capaz de romper com o preconceito atrelado à temática da sexualidade no envelhecimento.

Assim, este estudo teve como questão de pesquisa: Como poderia ocorrer a definição do conteúdo do diálogo para colaborar com o conhecimento crítico de mulheres idosas no que se refere à sexualidade no envelhecimento? Para tanto, objetivou-se desvelar o conhecimento crítico mediado por um percurso cuidativo-educativo dialógico em sexualidade com mulheres idosas.

MÉTODO

Tratou-se de um estudo qualitativo e participativo, mediado pela pesquisa-ação12 educativa e delineado pelo itinerário de pesquisa de Freire,9 composto pelas fases: investigação temática; codificação/decodificação; e desvelamento crítico em quatro Círculos de Cultura (CC).

A investigação - componente da pesquisa - esteve atrelada, em todo processo, com a prática educativa em sexualidade - componente da ação. Desse modo, garantiu-se a participação efetiva das mulheres idosas e das pesquisadoras no problema em foco - a sexualidade no envelhecimento - de modo cooperativo e participativo,12 ampliando de forma coletiva e dialógica a criticidade acerca da temática.

O estudo foi realizado em um grupo de socialização para a terceira idade de um município de pequeno porte no noroeste do Paraná-Brasil. A escolha do mesmo foi intencional, uma vez que o contato prévio das pesquisadoras, desde novembro de 2012, permitiu observar a necessidade de práticas educativas relacionada à sexualidade, por ser tema clamado pelas participantes.

Para o presente estudo, foram incluídas as mulheres que atendiam aos seguintes critérios: 1) ser participante do grupo de socialização para a terceira idade; 2) ser idosa, ou seja, ter 60 anos de idade ou mais; 3) ter condições mentais para responder a entrevista, mensuradas pelo Mini Exame do Estado Mental; e 4) aceitar participar dos encontros do estudo.

O grupo possuía em média 52 mulheres, sendo que nove não eram elegíveis para a presente pesquisa, por não serem idosas. Das 43 mulheres com idade igual ou superior a 60 anos, 15 aceitaram participar do estudo e a totalidade dessas participantes atendeu aos critérios de inclusão expostos.

Por meio do itinerário de pesquisa de Freire (Figura 1), planejaram-se as atividades educativas problematizadoras pautadas no caráter histórico e na historicidade da sexualidade, contextualizado nas vivências do grupo para promover a comunicação eficiente, dialógica e emancipadora.9

Fonte: as autoras (2017).

Figura 1 Percurso metodológico da pesquisa-ação educativa dialógica, Maringá-PR, 2014. 

Cabe destacar que as fases de pesquisa e de ação, bem como as do Itinerário Freiriano se interpõem no desenvolvimento do CC.9 O percurso metodológico é descrito na figura a seguir a fim de apresenta-lo, didaticamente, mas este é complexo e por vezes delineia as fases concomitantemente.

A fase de pesquisa iniciou-se na investigação temática, essa se deu em dois momentos complementares: as entrevistas semi-estruturadas e em um CC.9

As entrevistas foram agendadas, realizadas pela pesquisadora na residência das idosas em horário definido por elas. Ocorreram entre os meses de abril e maio de 2014, com duração média de 30 minutos e foram gravadas em aparelho celular com o programa Easy Voice Recorder® e transcritas na íntegra.

Dessas entrevistas emergiram as situações-limite - concebidas como realidades objetivas que resultam na percepção que os homens têm de seus problemas ou sua realidade, em um momento histórico definido.9,13 Normalmente, são situações reconhecidas pelas pessoas e que necessitam ser alteradas por estas em comunhão, com vistas à superação de antigos paradigmas,13 ou seja, as percepções das idosas, naquele momento, sobre a sexualidade e que poderiam ser modificadas para sua vivência livre de preconceitos e interdições. Seguiu-se para a eleição de temas geradores9 que constituiriam o conteúdo programático da ação educativa desenvolvida em quatro CC.

Cabe destacar que os CC integram as fases de pesquisa e de ação, concomitantemente, e são espaços de aprendizado coletivo, dessa forma, aprende-se em "reciprocidade de consciências". Nesse contexto, pesquisadora e pesquisadas passam a ser atoras-pesquisadoras que compartilham saberes e práticas e constroem novas concepções e posturas, ultrapassando a consciência ingênua, assim, criticamente promovem autonomia e empoderamento.9

O primeiro CC teve como finalidade, validar as situações-limites e os temas geradores, confirmando-os por meio do diálogo autêntico e participativo, e definindo os conteúdos programáticos dos demais CC. Iniciou-se com a dinâmica intitulada Construção do Contrato,14:25 a fim de realizar um contrato de convivência entre os participantes, definiu-se: o horário dos encontros subsequentes; a escolha do nome do grupo; a dinâmica e organização do grupo; e atividades/ações que gostariam ou não que acontecessem.

Para a validação e imersão nas situações-limite, o tema sexualidade foi apresentando através de cartazes espalhados pelo salão com frases extraídas das entrevistas sem qualquer menção à declarante. A partir de então, iniciou-se a reflexão da situação presente, existencial e concreta, considerando o conjunto de aspirações do grupo pelo qual se poderia organizar o conteúdo programático da educação,9 elencando os temas geradores de cada situação-limite.

A clarificação dos temas geradores, ou temas significativos que se encontravam contidos no universo temático mínimo, ou seja, quais seriam as subtemáticas da sexualidade, envolvidas na sua percepção, que deveriam ser dialogadas por meio de outros CC, foram essenciais para compreender a realidade na perspectiva das envolvidas. É preciso que se afirme que já por ocasião deste momento dialógico foi possível a inserção das participantes numa forma crítica de (re) pensarem seu mundo.9

Assim, diante dos temas geradores, realizou-se a Codificação/Decodificação dos conteúdos programáticos que serviram de subsídios para os próximos CC. Foram realizados mais três CC a fim de romper com as situações-limite e empoderar as mulheres idosas para vivenciar sua sexualidade de forma livre e autônoma. Para isso, foram utilizadas como estratégias educativas: dinâmicas de grupo e vídeos que estimularam o Desvelamento crítico de todos os temas que permeiam o universo das idosas.

Os CC tiveram duração média de 57 minutos e foram registrados em aparelho gravador Panasonic®, auxiliado pelo Diário de Campo em que a pesquisadora pode anotar suas percepções acerca da dialogicidade e criticidade das participantes, destacando os pontos de maior interesse para a temática em foco.

O desenvolvimento do estudo obedeceu à Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, com apreciação ética nº 615.632/2014 (CAAE: 26890314.0.0000.0104). As participantes manifestaram seu consentimento por meio de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e foram renomeadas com nome de flores, por elas escolhidos, a fim de garantir anonimato e confidencialidade.

RESULTADOS

Caracterização das participantes

A média de idade das 15 participantes do estudo foi de 66 anos, variando entre 60 e 74 anos. A renda familiar variou entre um e seis salários (média de três salários mínimos). A escolaridade foi de 6,4 anos, em média. Em relação ao estado civil: oito mulheres eram casadas, quatro viúvas e três divorciadas. Dez participantes relataram ter vida sexual ativa. O tempo de participação no grupo de socialização variou entre um e cinco anos.

Percurso educativo

Na investigação temática, por meio das falas das participantes delinearam-se as situações-limite e os temas geradores, imprescindíveis para os demais passos do itinerário de Freire, apresentados a seguir.

Os relatos demostram que as idosas possuem fragilidade em conceituar sexualidade, definindo-a como apenas o ato sexual ou não sabendo o significado da palavra, conforme relatos:

Sexualidade, eu não sei o que é não. Às vezes a gente pensa que é, e não é, fica meio em dúvida. (Lírio).

Eu não sei o que é sexualidade. (Acácia).

Sexualidade faz parte da vida da gente, um casal, a dois, né? E faz parte da vida, só que eu sou separada há uns dez ano, e eu não sinto falta, do sexo, sabe? (Amarílis)

Eu acho que sexualidade é ter relação, entre eu e meu marido. (Flor-de-lis)

Sexualidade eu acho que são os órgãos genitais das pessoas, e também uma vida sexual ativa. (Azálea)

Deste modo, fazem-se necessárias ações educativas que esclareçam o conceito e ampliem o olhar das idosas para a sua sexualidade, de modo que as mesmas possam vivencia-la sem preconceitos e tabus, promovendo a saúde sexual e geral. Este achado define a 'Situação-limite 1: O universo desconhecido da sexualidade'.

Além disso, as mulheres desse estudo expressaram as divergências percebidas por elas nas questões relativas à vivência da sexualidade por homens e mulheres:

O homem sente prazer primeiro que a mulher. Eu acho que o momento do orgasmo do homem é diferente da mulher. A mulher tem que ser mais acariciada, mais... Tem que se sentir mais desejada, pra ela sentir o orgasmo; e o homem é mais rápido. (Rosa)

Eu acho que homem e mulher são diferentes, no modo que eu penso, é diferente. Os homens têm mais fogo. (Cravo)

Sei lá, pra homem é tudo mais fácil, esquenta mais rápido. (Girassol)

Homem é diferente (risos). Mulher ama, homem usa (risos). (Tulipa)

As atribuições, limites e direitos de homens e mulheres são - preconceituosamente - distintos na sociedade, principalmente na brasileira. A sexualidade, o prazer e o relacionamento são as mais evidentes, e foram por séculos utilizadas como forma de controle e dominação das mulheres, assim, emerge a 'Situação-limite 2: A divergência da sexualidade por homens e mulheres'.

Além dos preconceitos de gênero, a faixa etária é uma forma de normatização, e os idosos sofrem pelas imposições sociais pejorativas e que os desvalorizam, principalmente nas sociedades ocidentais. Dessa forma, as participantes têm como referência - para a sexualidade -as jovens que já foram um dia, ao passo que, enquanto idosas, utilizam o passado para reforçar o conceito do presente:

Quando meu marido era vivo, o sexo era bom. Nós erámos jovens. (Margarida)

Agora já não ligo mais, não. Eu não nego, não recuso. Pra mim se não tiver não faz diferença. Antigamente fazia falta, hoje é diferente. (Dália)

Quando eu era mais nova, lógico, tinha mais desejo. Sentia mais falta. Agora, já nem tanto. Consigo me controlar mais, não ter mais tanta necessidade. (Orquídea)

Eu espero ser sempre assim: calminha. Pra não precisar de homem (risos). Não quero mais arranjar namorado, eu estou muito bem assim. (Gardênia)

Aos idosos são negados os prazeres da vida, dentre eles o sexo e a sexualidade. O idoso é concebido pela sociedade e pelos próprios profissionais de saúde como seres assexuados, pois associa-se o sexo à reprodução e à vida saudável, impedindo que mulheres idosas possam viver sua sexualidade e o sexo de forma livre e saudável, além de descobrirem novas forma de prazer, configurando a 'Situação-limite 3: O sexo como configuração da juventude'.

Os achados subsidiaram o desenvolvimento do planejamento e das atividades educativas, em consonância com o referencial teórico-metodológico de Freire,9,13 este encontra-se sistematizado no quadro a seguir:

Quadro 1 Percurso da pesquisa-ação seguindo Itinerário de pesquisa de Freire, Maringá-Pr, 2014. 

Investigação temática Codificação/ Decodificação Desvelamento Crítico
Situações-limite Temas Geradores Conteúdos Programáticos Estratégia educativa
O universo desconhecido da sexualidade Ato sexual;
Sexo;
Desconhecimento da temática
Conceito ampliado de sexualidade Dinâmica de grupo: Afinal, o que é sexualidade?

Objetivo: Compreender sobre o conceito ampliado de sexualidade
Percepção biopsicossocial da sexualidade
A divergência da sexualidade por homens e mulheres Homem e mulher são diferentes;
Necessidade masculina;
O uso do corpo feminino
Diferenças da sexualidade entre homens e mulheres Dinâmica de grupo: “Se eu fosse”

Objetivo: Refletir sobre divergências e as convergências de gêneros
Compreensão das diferenças sociais e psicológicas da sexualidade
O sexo como configuração da juventude Juventude;
Não tenho necessidade;
Agora não faz diferença;
É hora de parar
A sexualidade nos diferentes ciclos da vida

A configuração da sexualidade na terceira idade
Videodocumentário: Amor e Sexo na Terceira Idade

Objetivo: Refletir sobre as alterações de sexualidade na terceira idade
Compreensão das diferentes formas de prazer possíveis em qualquer fase da vida

Libertação de preconceitos referente à verbalização do tema sexo

Fonte: as autoras, 2017.

DISCUSSÃO

Na investigação temática buscou-se, a partir da apreensão da situação-problema real das participantes, encontrar as situações-limite e, posteriormente, eleger os temas geradores que levassem à reflexão da própria realidade,9 especialmente no que se referia às percepções das participantes do estudo quanto à sexualidade no envelhecimento.

Vale ressaltar que os temas geradores levantados refletem a realidade de vida das participantes e, no transcorrer desse processo, a inserção da questão de pesquisa foi acontecendo naturalmente, permeando os desejos e a necessidade de expressar os sentimentos do cotidiano que interferiam no modo de vida das participantes da pesquisa.15 Assim, a investigação temática foi organizada de modo a desvelar a realidade do grupo, captar a visão dos participantes sobre o assunto a ser problematizado e apreender como lidavam com ele em seu cotidiano.15,16

Portanto, a investigação temática, enquanto metodologia, não podia contradizer a dialogicidade da educação libertadora. Assim, os diálogos particulares, nas entrevistas e os coletivos, nos círculos de cultura permearam essa fase do estudo. O diálogo foi assumido por corroborar Freire, ao incitar que a investigação temática "[...] seja igualmente dialógica. Daí que, além de ser conscientizadora, também proporcione, ao mesmo tempo, a apreensão dos temas geradores e a tomada da consciência dos indivíduos em torno dos mesmos".9:121

A partir desta busca é que se inaugura o diálogo da educação como prática da liberdade, no momento da investigação do chamado universo temático das participantes.

Na fase de codificação e decodificação, analisaram-se os temas geradores levantados, as situações locais vividas pelas idosas e que abriram perspectivas para refletir sobre os problemas que englobavam toda a temática sexualidade, ou referiam-se à um dos elementos desta.17,18 A partir desse emaranhado de realidades objetivas - resultantes da percepção que esses participantes faziam da sexualidade no envelhecimento - se fez presente a 'codificação' dos temas geradores encontrados,9 ou situação concreta existencial, aqui tratada como o conteúdo programático do diálogo.

É no momento de codificação e decodificação das questões problematizadas, partindo do contexto vivido pelas idosas, dos exemplos práticos citados por elas e reelaborados pelo grupo, que se representa uma dimensão da realidade tal como a vivida com vistas à elaboração do conteúdo programático da educação.9,18 Portanto, a partir das situações-limite apresentadas e do encontro dos temas geradores, deu-se inicio ao procedimento de codificação do conteúdo programático da ação educativa, para posterior decodificação e desvelamento crítico nos círculos de cultura que se seguiriam.9

Por tratar-se de uma pesquisa-ação pautada no itinerário de Freire, optou-se por apresentar e discutir os resultados a partir das situações-limites, já que foram elas as desencadeadoras de todo processo educativo.

Na 'Situação-limite 1: O universo desconhecido da sexualidade' destaca-se que a sexualidade é inerente ao ser humano, porém, por vezes, associada apenas à prática do sexo, esquecendo seus desdobramentos, tais como: a compreensão, o companheirismo e a afetividade, indispensáveis em qualquer momento da vida. Portanto, pode ser expressa através do abraço, do toque e do carinho. É preciso compreender que o prazer existe e pode ser explorado além do sexo genital, da penetração. Trocar carinho também é expressão de sexualidade.3,19

Nesse sentido, ressalta-se que, por desconhecer a amplitude da sexualidade, ela é relatada pelas participantes de forma reducionista e restrita ao ato sexual e a uma condição inerente aos jovens. Na discussão inicial da temática, percebe-se a dificuldade de verbalização sobre o tema, fosse por ausência de seu constructo ou por vergonha. Nesse momento também aprendeu-se que o silêncio, como referia Freire, deve ser compreendido como tema a ser levado à discussão, pois interpela a necessidade de superação.9

É possível que a sexualidade tenha sido negada desde a juventude, tampouco agora, na velhice, seria aceita com naturalidade. Assim, faz-se necessário entender a distância entre o caminho da integração sociocultural e o projeto de vida de uma mulher, especialmente a idosa.6

Sabe-se que os idosos sofrem os resultados de seu envelhecimento biológico, passando a conviver com as perdas naturais dessa fase, sofrem também com o modo preconceituoso sobre seu o relacionamento afetivo, amoroso e sexual, emitido pela sociedade, incluindo sua própria família.20 Esse preconceito pode contribuir, em grande parte, para a extinção da prática da sexualidade da terceira idade e para a atribuição de desconhecimento sobre a temática.

A forma de viver e conceituar a sexualidade não surge espontaneamente nessa fase da vida. O aprendizado, ao longo da vida, é que vai definir a maneira como a pessoa se comportará na terceira idade. Portanto, se os idosos atribuíram valores positivos à sexualidade na juventude, com certeza viverão com mais intensidade sua sexualidade quando atingirem a terceira idade, fato que não é comum entre as mulheres idosas.20

Vários fatores desempenham um papel importante no que diz respeito à sexualidade na terceira idade, como as experiências de vida das pessoas, o nível social, de escolaridade, a formação religiosa e familiar. Intervenções educativas adequadas podem ajudar idosas a lidar com os determinantes que afetam negativamente a sua vida sexual, bem como ampliar o conceito em relação ao tema.20

A partir das falas das idosas, emergiu a situação-limite e elencaram-se os temas geradores e em posse desses estabeleceu-se como conteúdo programático o 'Conceito Ampliado de Sexualidade' (Quadro 1). Esse conteúdo foi desenvolvido com a estratégia educativa de dinâmica de grupo, intitulada: Afinal, o que é sexualidade?14 Essa atividade permitiu as participantes à mergulharem no universo temático da sexualidade, aprofundando o conceito de sexualidade nas suas dimensões, biológica, psicológica e sociocultural.

Foi então, no processo da decodificação, que coube à pesquisadora, quanto mediadora, auxiliar na construção do diálogo e "desafiar as idosas cada vez mais, problematizando, de um lado, a situação existencial codificada e, de outro, as próprias respostas que vão dando no decorrer do diálogo",9:157 para posterior desvelamento critico. Assim, para essa situação-limite, desvelaram criticamente a 'percepção biopsicossocial da sexualidade' (Quadro 1), em que puderam expressar novas percepções sobre o conceito de sexualidade, ampliando os saberes iniciais e rompendo com sexo quanto ao ato sexual. Esse caminho dialógico permitiu, igualmente, um processo cuidativo-educativo8,11 que favoreceu a busca e alcance do conhecimento crítico.

A 'Situação-limite 2: A divergência da sexualidade por homens e mulheres' remete à construção histórica e social deste tema. Essa construção social assimétrica, representada por homens dominadores versus mulheres dominadas, estabelece-se e é formada pela família e pela sociedade. É justamente o pátrio poder com a dominação exercida pelo homem sobre as mulheres e as crianças na dinâmica familiar que funda as bases da sociedade contemporânea.

Criam-se relações de gênero desiguais e se faz a ligação do masculino com a ideia de comandar, e do feminino, a de servir. Tal concepção estende-se à sexualidade, com a ideia do homem ser o dominador, possuidor e ativo e a mulher ser subordinada, entregando-se passivamente.3 Isso acompanha o ato sexual, cujo papel da mulher é de servir ao marido e a procriação, não podendo envolver prazer.1,6

A referência à sexualidade para esse grupo de idosas é de que os homens podem vivê-la de forma mais livre, mais intensa, como atributo natural à condição masculina. Isso comprova que, mesmo depois de várias conquistas femininas alcançadas, as idosas de hoje vivem ainda um reflexo das experiências passadas. Nos tempos passados, as mulheres eram consideradas objetos sexuais de seus companheiros, devendo sempre estar disposta e pronta para saciar as vontades destes.1,6

Nesta fase da velhice, ainda estão inseridas as relações de poder do homem sobre a mulher, nos quais, por meio das relações sexuais, o homem se atribui o direito de ter prazer, sem preocupar-se com o prazer da mulher.16,20 Para este, interessa a satisfação de suas necessidades, estando esta relação centrada no ato sexual em si, especificamente no contato biológico, excluindo o psicológico e social presente na sexualidade.

O contexto exposto levou ao segundo conteúdo programático: Diferenças da Sexualidade entre homens e mulheres (Quadro 1). Para dialogar sobre esse conteúdo, conduziu-se no CC a dinâmica "Se eu fosse",14 introduzindo a discussão em relação às diferenças e semelhanças entre homens e mulheres, além de incitar as discussões acerca da igualdade de gênero e proporcionar as idosas do grupo a dialogicidade mediatizada em suas realidades.

Assim, apreendeu-se que o desvelamento crítico aconteceu na medida em que passaram a ter uma 'Compreensão das diferenças sociais e psicológicas da sexualidade' (Quadro 1) - fato esse que foi apreendido pelas novas manifestações que fizeram acerca da situação-limite encontrada no início do percurso educativo. Novamente, o processo educativo-cuidativo8,11 dialógico favoreceu a criticidade.

Na 'Situação-limite 3: O sexo como configuração da juventude', o mito da assexualidade dos idosos é reforçado quando o sexo está diretamente relacionado aos jovens e ao ato sexual genital ainda presente na sociedade contemporânea.6 A sexualidade na velhice tem sido recorrentemente atrelada a imagens negativas, a partir das ideias de degenerescência física, de perda do vigor sexual e da incapacidade reprodutiva, entre outros aspectos que formam o imaginário ocidental sobre essa temática,20 o que precisa ser reconstruído numa perspectiva mais acolhedora da sexualidade no envelhecimento.

De fato, várias transformações são sofridas pelo corpo com o passar dos anos, acompanhadas de um amadurecimento emocional e sexual, que varia de acordo com as potencialidades individuais. A vida sexual, como já era de se esperar, também sofre alterações, mas ela pode existir e permanecer durante toda a vida.21:22

A sexualidade passa a se expressar de forma diferente no envelhecimento em comparação com a idade adulta, nessa fase da vida ultrapassa o ato sexual, pois inclui o amor, o carinho, a troca de palavras e o toque de forma mais expressiva.6,22 Nesse contexto, definiram-se dois conteúdos programáticos: 1. Sexualidade nos diferentes ciclos da vida; 2. A configuração da sexualidade na terceira idade (Quadro 1). O CC foi conduzido por meio da apresentação de um Videodocumentário, intitulado Amor e Sexo na Terceira Idade, e possibilitou novas concepções para antigas amarras que as idosas atrelavam em seu diálogo.

Dessa forma, o desvelamento crítico aconteceu e foi apreendido ao demonstrarem uma nova 'Compreensão das diferentes formas de prazer possíveis em qualquer fase da vida' e 'Libertação de preconceitos referentes à verbalização do tema sexo' (Quadro 1), evidenciando a criticidade em relação à temática.

Essa experiência cuidativa-educativa refutou a educação como ato dirigido e par normativo. Tornou-se uma troca de experiências entre educador e educando em que ambos ampliaram e reconstruíram seus conhecimentos,8,22 de forma crítica. Sendo assim, apresentou-se como processo inovador de cuidado atrelado à educação em saúde para a inserção das mulheres idosas como ativas no processo educativo.8,9

CONCLUSÕES E IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA

Este estudo realizou um percurso cuidativo-educativo dialógico na temática sexualidade, com mulheres idosas. A partir da investigação temática foi possível ultrapassar as situações-limite e chegar aos temas geradores e conteúdos programáticos, realizando práticas educativas contextualizadas e participativas por meio do diálogo autêntico que permitiu desvelamentos críticos.

A dialogicidade favoreceu que desatassem as amarras do preconceito relativo à sexualidade no envelhecimento, bem como edificou a construção do conceito ampliado da temática. Assim, partiu-se do abstrato para o concreto, superaram-se as situações-limites e possivelmente instaurou-se o inédito viável. Tratou-se, portanto, de um processo que permitiu educação libertadora em superação às abordagens educativas tradicionais que comumente se aplicam na enfermagem e que sinalizam necessidade de transformação.

Nesse ínterim, destaca-se a aplicabilidade deste estudo na Atenção Básica em Saúde por meio da Estratégia de Saúde da Família nos grupos educativos realizados pela mesma, a fim de desenvolver cuidado integral e emancipador em saúde.

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