O que a crescente prevalência de obesidade significa para o tratamento da asma e de doenças das vias aéreas?

O que a crescente prevalência de obesidade significa para o tratamento da asma e de doenças das vias aéreas?

Autores:

Jodie L Simpson,
Hayley A Scott

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Brasileiro de Pneumologia

versão impressa ISSN 1806-3713versão On-line ISSN 1806-3756

J. bras. pneumol. vol.46 no.1 São Paulo 2020 Epub 02-Mar-2020

http://dx.doi.org/10.1590/1806-3713/e20200048

Há uma epidemia global de obesidade e, coincidindo com isso, uma alta prevalência de obesidade coexistindo com asma. Pesquisas sugerem que adultos com asma e obesidade têm asma mais grave, pior controle da doença, função pulmonar reduzida e exacerbações mais frequentes do que indivíduos com asma que não são obesos.1 Eles também têm uma resposta reduzida à farmacoterapia para asma, incluindo β2 agonistas, corticosteroides inalatórios e montelucaste.2 A eficácia reduzida de medicamentos de manutenção e de alívio provavelmente desempenha um papel importante na piora dos desfechos da asma. No entanto, ainda não entendemos corretamente o impacto que a obesidade tem sobre os desfechos da asma, os mecanismos responsáveis ou a abordagem de manejo ideal, o que representa um grande problema.

Em um estudo publicado nesta edição do JBP, Souza et al.3 examinaram a prevalência de sintomas respiratórios e asma de acordo com o índice de massa corpórea, além de avaliar os fatores associados à asma em mais de 1.000 adultos com 40 anos de idade ou mais. O estudo foi uma subanálise transversal do estudo Respira Floripa, no qual a população do estudo era proveniente de uma região metropolitana no Brasil. Os participantes relataram sintomas respiratórios e foram submetidos a testes de função pulmonar. Os autores demonstraram que o diagnóstico de asma é mais comum em indivíduos obesos e que o diagnóstico médico de asma era três vezes mais frequente em indivíduos obesos do que naqueles com peso normal. Isso está de acordo com os resultados de uma meta-análise de 2007 que mostrou que a obesidade precede o desenvolvimento da asma, quase dobrando as chances de sua incidência. Souza et al.3 também mostraram em seu estudo que a prevalência de sintomas respiratórios, principalmente dispneia e sibilância, é maior em obesos, independentemente do status tabágico. Notavelmente, os autores descobriram que, entre os não fumantes, sintomas de expectoração crônica e de sintomas semelhantes aos de bronquite crônica eram mais comuns em obesos, enquanto a prevalência de expectoração crônica não diferia por categoria de peso em fumantes atuais e ex-fumantes. Esse achado sugere que o fumo mascara os efeitos induzidos pela obesidade na produção de muco. Entre os não fumantes, a rinite foi comum e sua prevalência foi maior nos obesos, enquanto essa prevalência foi semelhante entre fumantes atuais e ex-fumantes, independentemente do índice de massa corpórea. O estudo de mundo real de Souza et al.3 é importante pois contribui para a nossa compreensão do impacto da obesidade em adultos com asma.

Embora os mecanismos responsáveis pela associação entre obesidade e asma não sejam claros, é provável que eles sejam devidos a uma combinação de influências inflamatórias e mecânicas. O aumento da obesidade parece ser o resultado de mudanças no estilo de vida, sendo a má nutrição e a inatividade física os principais fatores. Tais alterações levam ao excesso de tecido adiposo, juntamente com alterações na microbiota e no sistema imunológico, incluindo aumentos em IL-6 e TNF-α.4 A obesidade é caracterizada pelo aumento de neutrófilos no tecido adiposo e em circulação.5,6 Nosso grupo4 e outros7-9 observaram um aumento de neutrófilos no escarro de adultos obesos com asma, o que sugere que os efeitos inflamatórios sistêmicos da obesidade se estendem às vias aéreas de indivíduos suscetíveis com asma. Em relação aos efeitos mecânicos, o tecido adiposo na parede torácica reduz o movimento da parede torácica e o volume da cavidade torácica, enquanto o tecido adiposo abdominal limita a insuflação pulmonar, reduzindo a capacidade do diafragma de se deslocar para baixo.10 Isso pode contribuir para a redução da função pulmonar e para a sensação de dispneia em adultos obesos com asma.

O manejo eficaz da asma em indivíduos obesos requer uma abordagem individualizada e multidisciplinar, incluindo a avaliação e o tratamento de comorbidades. Souza et al.3 constataram que sibilância e dispneia eram mais comuns em obesos. Em outro estudo realizado por nosso grupo,11 demonstramos que uma perda de peso de 5-10% é eficaz para melhorar o controle da asma (incluindo sintomas de sibilância e dispneia), bem como a função pulmonar e a qualidade de vida relacionada à asma, em adultos com sobrepeso ou obesos com asma. Tomados em conjunto, esses achados sugerem que, embora a obesidade piore sintomas como sibilos e dispneia, uma modesta perda de peso pode efetivamente reduzir esses sintomas. Souza et al.3 também observaram que a prevalência de doenças cardíacas e diabetes era maior em indivíduos obesos, que também apresentavam uma maior incidência de asma. Isso indica o aumento da carga de doenças crônicas na população acima de 40 anos e, como doenças cardíacas e diabetes também estão associadas ao aumento da inflamação sistêmica, ressalta a necessidade de se avaliar e gerenciar a inflamação sistêmica e a das vias aéreas em indivíduos com asma. Uma maior circunferência de pescoço em obesos também sugere que a avaliação e o manejo da apneia do sono provavelmente são críticos e podem melhorar a qualidade de vida das pessoas com asma. Embora existam alguns estudos sugerindo possíveis formas de tratamento, são necessárias muito mais pesquisas. Devido à escassez de pesquisas na área, não há diretrizes para o manejo da asma associada à obesidade. Estudos adicionais como o discutido aqui são urgentemente necessários para que diretrizes de gerenciamento possam ser desenvolvidas.

Em conclusão, Souza et al.3 fornecem novos dados importantes sobre a associação entre a obesidade e o diagnóstico de asma, bem como as consequências clínicas da obesidade em indivíduos com a doença estabelecida. Os achados corroboram os de estudos anteriores nessa área e facilitarão o desenvolvimento de diretrizes clínicas para o manejo da asma associada à obesidade, que atualmente não existem. Mais pesquisas são necessárias para determinar a forma ideal de tratamento para gerenciar sintomas e melhorar os desfechos de pacientes com asma associada à obesidade.

REFERÊNCIAS

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3 Souza ECC, Pizzichini MMM, Dias M, Cunha MJ, Matte DL, Karloh M, Maurici R, Pizzichini E. Body mass index, asthma, and respiratory symptoms: a population-based study. J Bras Pneumol. 2020;46(1):e20190006.
4 Scott HA, Gibson PG, Garg ML, Wood LG. Airway inflammation is augmented by obesity and fatty acids in asthma. Eur Respir J. 2011;38(3):594-602.
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9 Chen JH, Qin L, Shi YY, Feng JT, Zheng YL, Wan YF, et al. IL-17 protein levels in both induced sputum and plasma are increased in stable but not acute asthma individuals with obesity. Respir Med. 2016;121:48-58.
10 Salome CM, King GG, Berend N. Physiology of obesity and effects on lung function. J Appl Physiol (1985). 2010;108(1):206-211.
11 Scott HA, Gibson PG, Garg ML, Pretto JJ, Morgan PJ, Callister R, et al. Dietary restriction and exercise improve airway inflammation and clinical outcomes in overweight and obese asthma: a randomized trial. Clin Exp Allergy. 2013;43(1):36-49.
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