O Social na Epidemiologia. Um legado de Cecília Donnangelo

O Social na Epidemiologia. Um legado de Cecília Donnangelo

Autores:

Solange L'Abbate

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.22 no.3 Rio de Janeiro mar. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232017223.06412016

Neste livro, os organizadores prestam justa homenagem à Profª Maria Cecília de Ferro Donnangelo, ao publicar “A conceptualização do social na interpretação da doença: balanço crítico”, aula ministrada por Cecília na Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo em outubro de 1982, preservada pelo sociólogo Olavo Vianna Costa. No Prefácio, os organizadores assinalam: “esta obra revela uma contribuição de Cecília Donnangelo, numa área raramente objeto específico em sua notável produção nos primórdios do esforço brasileiro de construção do campo da Saúde Coletiva”.

Três meses depois, em janeiro de 1983, Cecília faleceu num trágico acidente. Num pequeno texto no final do livro, sua filha Lígia Donnangelo de Oliveira Miranda fala da comoção sentida ao ouvir a voz da mãe na aula gravada: “com a preservação dessa voz descobri que não apenas as crianças ficam órfãs, minha mãe tinha deixado muitos órfãos, de todas as idades, de todas as formas de filiação”, uma Legião de Órfãos, dentre os quais me incluo, pois Cecília foi coorientadora do meu mestrado, defendido em maio do mesmo ano da FFLCH da USP.

O livro é organizado em três partes: a primeira trata do contexto, a segunda é a própria aula e da terceira constam quatro capítulos comentando a aula.

No primeiro texto “Uma conversa sobre epidemiologia com Cecília Donnangelo: afinal de que social estamos falando?” Marina Ruiz Matos, cientista social presente à aula, assinala o significado da entrada de cinco sociólogos, dentre os quais ela própria, no Centro de Informações de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, em 1980, e da dificuldade desses profissionais de introduzir o social na análise dos dados epidemiológicos quantitativos. Para superar tal desafio, os cientistas sociais se reuniam com Cecília em busca de resposta à questão: “afinal como e em que o sociólogo pode contribuir para a área da saúde?”, o que foi importante para a introdução do social nos dados epidemiológicos obtidos pelo Centro.

No segundo texto, “Cecília Donnangelo Hoje”, publicado em 1992, na Revista Saúde e Sociedade, Ricardo Bruno Mendes Gonçalves recusa-se a tratar Cecília como “vulto histórico”. Ao contrário, considera que “sua dimensão teórica permanece viva e fecunda”, sobretudo por ter apreendido a socialidade das práticas de saúde, particularmente da prática médica, reflexão relevante para o profissional de saúde repensar seu trabalho cotidiano. Conclui que é na dimensão de educadora, militante e investigadora que se destaca a maior grandeza do trabalho de Cecília, no qual “a busca racional da Verdade é indissociável da busca do Bem”.

No texto seguinte, “A pedagoga Maria Cecília Ferro Donnangelo, 1940-1983: restos de memória, indícios para a história”, André Mota e Lilia Blima Schraiber revelam a trajetória de Cecília Donnangelo, desde seu nascimento, em 1940, em Araraquara/SP, cidade na qual foi criada, em 1959, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, onde Cecília se formou como pedagoga. Um dos seus professores, Luiz Pereira, pedagogo e sociólogo, tornou-a colaboradora de suas investigações sociológicas voltadas para questões do ensino. A formação como educadora e socióloga foi fundamental para sua atuação como docente na Faculdade de Medicina da USP, onde iniciou em 1964 no Depto. de Medicina Legal, transferindo-se cinco anos depois para o Depto. de Medicina Preventiva, durante a chefia do Prof. Guilherme Rodrigues da Silva. Neste depto., Cecília trabalhou por 16 anos, demonstrando toda sua competência pedagógica, na proposta inovadora do Curso Experimental de Medicina, instituído em 1966. Adotado com sucesso, o curso foi fechado em 1974 pelo então diretor da Faculdade, Carlos da Silva Lacaz, apoiado pela congregação, com o argumento de que a proposta produzia uma “fusão curricular” no curso médico. Impedida de atuar na graduação, Cecília passou a se dedicar à Pós-Graduação, onde além de ministrar cursos, orientou dissertações e teses de profissionais de diversas formações e instituições e produziu, a partir de seu doutorado e livre docência, publicados nos livros “Medicina e Sociedade” (1975) e “Saúde e Sociedade” (1976), os fundamentos da Sociologia da Saúde.

Segue o texto da aula e o enorme desafio: como resumi-lo? Quem assistiu a alguma aula ou conferência da Cecília lembra-se do seu estilo: apresentação de conteúdos complexos, discutidos à exaustão, o que se transfere para seus textos, como é o caso deste, produto da sua aula. Cecília afirma, de início, que o social está inserido na própria definição da Epidemiologia como “ciência que investiga o processo saúde/doença das populações”. A questão é indagar qual a diferença do conceito de social na epidemiologia clássica e na epidemiologia adjetivada de social. Na primeira, devido, sobretudo, à influência da prática médica, o social é naturalizado e definido a partir do indivíduo e o grupo nada mais é do que o somatório de indivíduos, e as propostas de intervenção se apoiam na mudança de comportamento individual. A segunda procura corrigir este tipo de concepção, mas sem jamais abandonar a noção de processo saúde/doença. Se na epidemiologia convencional, saúde/doença é reduzido ao indivíduo, na epidemiologia social é a sociedade que se manifesta no processo saúde/doença dos indivíduos, o que representa uma tarefa nova e inacabada, cujas questões foram politizadas, devido ao uso de análises marxistas, substituindo o conceito de indivíduo pelo de classe, principalmente na produção latino-americana. Mas deve-se reconhecer que embora o processo saúde-doença seja socialmente produzido, quem adoece e morre é o indivíduo. Cecília sintetiza sua análise afirmando que não se deve confrontar as duas epidemiologias, num embate para ver o que é “o bom” e o que é “o mau”. Elas são formas diferentes de trabalhar a realidade.

Os quatro textos seguintes reconhecem a relevância dos conteúdos da aula, e debatem suas próprias análises relacionadas à Epidemiologia.

Jaime Breilh em “Cecília Donnangelo y ethos tecnocrático de la salud pública actual. (Esencia contrahegemónica de su memória)” aborda o atual caráter do neoliberalismo latino-americano, e de como isto vem afetando a Saúde Pública e a Saúde Coletiva, sobretudo em relação ao tipo de conhecimento de caráter funcionalista, com base em novas formas tecnológicas-cibernéticas que, mesmo sendo úteis, trazem latentes o que o autor denomina ciber-control ou represión cibernética. Apesar de a produção da Cecília ser anterior a este momento, Breilh demonstra o quanto suas análises são relevantes para podermos compreender criticamente este contexto, devido ao esclarecimento sobre as enormes diferenças quanto aos modos de entender o social, pois Cecília destaca acertadamente que o social jamais pode ser considerado como um elemento externo, mas que são “las tendencias que comprenden lo social como una totalidad, en ningún caso reductible a lo individual, que sólo puede comprenderse mediante concepciones renovadas de la salud y que comportan intervenciones sociales”.

A seguir, José Ricardo de C. M. Ayres, em “O social na Epidemiologia: reflexões metacríticas”, imagina o que Cecília Donnangelo comentaria ao conhecer a trajetória do campo da Saúde Coletiva nos últimos 30 anos, recorrendo à Hermenêutica Filosófica, para reconhecer, na atualidade, a relevância da reflexão da Cecília, sem, no entanto, tomá-la como “mero espelho de nós mesmos”. Para Ayres, o primeiro movimento da argumentação de Donnangelo corresponde ao fato da dificuldade da Epidemiologia Social superar a adoção acrítica do conceito de doença o que a levou a reconhecer na questão da nutrição e da saúde mental, maiores “possibilidades a serem exploradas no projeto político da Epidemiologia Social”. Para o autor, duas novidades vêm dar continuidade às análises de Donnangelo: a Antropologia, sobretudo com a valorização das abordagens qualitativas e a Hermenêutica com sua crítica ao estruturalismo, a recusa em aceitar a separação entre sujeito-objeto e a crítica de tratar a razão como atributo a priori de “um sujeito epistêmico universal”.

Cassia B. Soares, Carla A. Trapé, Tatiana Yonekura e Celia Maria S. Campos, em “Marxismo, trabalho e classes sociais: epidemiologia crítica como instrumento da saúde coletiva”, inserem a epidemiologia social no contexto da medicina social, disciplina fundada na Alemanha no século XIX, relacionada a movimentos mais antigos como a filosofia social que toma a saúde como direito estabelecido na Revolução Francesa. Assinalam a relevância da teoria marxista apoiada, sobretudo, na noção de classe social, com ênfase nas características do trabalho no capitalismo, na epidemiologia social/crítica produzida na América Latina (Laurell, Breilh e Garcia) e brasileira (Possas, Victora, Silva e Costa). Ressaltam, enfim, que a análise de Donnangelo não foi e não será superada, porque refere-se tanto a aspectos estruturais da formação social dominante, como também a questões teórico-metodológicas.

Finalmente, em “O social na epidemiologia”, Hésio Cordeiro assinala a relevância das contribuições de Donnangelo em duas perspectivas: a primeira, a de ter proposto que, no conceito de História Natural da Saúde-Doença de Leavell-Clark, Natural fosse substituído por Social e a segunda, ao articular “medicina-estrutura social e sociedades capitalistas”, ter conceituado a medicina com uma prática técnica e social, integrada ao conjunto das demais práticas sociais, e, portanto, sujeita aos mesmos determinantes econômicos, políticos e ideológicos.

Ao tratar de algumas contribuições seminais de Cecília Donnangelo no campo da Epidemiologia Social, comentadas por vários autores, este livro será, sem dúvida, de enorme relevância para os profissionais da Saúde Coletiva.

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