O uso das redes sociais virtuais como um instrumento de cuidado para adolescentes hospitalizados

O uso das redes sociais virtuais como um instrumento de cuidado para adolescentes hospitalizados

Autores:

Camila Amaral Borghi,
Regina Szylit,
Carolliny Rossi de Faria Ichikawa,
Michelle Freire Baliza,
Uyara Talmatare Jesus Camara,
Heloísa Cristina Figueiredo Frizzo

ARTIGO ORIGINAL

Escola Anna Nery

versão impressa ISSN 1414-8145versão On-line ISSN 2177-9465

Esc. Anna Nery vol.22 no.1 Rio de Janeiro 2018 Epub 07-Dez-2017

http://dx.doi.org/10.1590/2177-9465-ean-2017-0159

INTRODUÇÃO

Com a evolução tecnológica, a forma com que os adolescentes comunicam-se com seus amigos sofreu mudanças. Hoje, dentro do espaço virtual (a internet), os adolescentes utilizam as redes sociais virtuais e as plataformas de mensagens instantâneas para se manterem conectados constantemente com seus amigos, independentemente de onde estão ou do que estão fazendo.1,2

As redes sociais virtuais e as plataformas de mensagens instantâneas promovem o senso de pertencimento a um grupo de amigos, por meio da facilidade de comunicação entre eles.2 Quando as redes sociais virtuais, como o Facebook®, são utilizadas de forma pública, elas assumem o papel de uma autodivulgação do adolescente, devido às curtidas e aos comentários nas fotos postadas com amigos, lugares visitados, músicas e interesses pessoais.2

Atualmente, o Facebook® é a maior rede social online, com aproximadamente 1,5 bilhão (1.440.000.000) de usuários no mundo.3 Ele é utilizado como um espaço de encontro, interação e discussão de ideias e temas de interesse comum. Seus usuários podem criar perfis online com informações pessoais, compartilhar fotos e vídeos, participar de grupos sobre tópicos relacionados a interesses pessoais, postar comentários e comunicar-se com amigos por meio de mensagens instantâneas em tempo real.3

A fase da adolescência é caracterizada por profundas mudanças físicas, psíquicas e sociais que repercutem no comportamento do adolescente. Todas essas características acabam sendo potencializadas devido à situação de saúde do adolescente, principalmente quando ele encontra-se doente e necessitando ser hospitalizado. A hospitalização constitui-se como uma experiência desagradável e estressante, fazendo com que o adolescente vivencie sentimentos de angústia, medo e ansiedade.4 As manifestações podem ser atribuídas às dificuldades enfrentadas pelo adolescente hospitalizado, devido ao brusco distanciamento do ambiente familiar e do convívio social, à mudança da rotina e também pela perda do controle de sua vida.4

As redes sociais virtuais são uma poderosa ferramenta para promover a atenção e o cuidado a esses adolescentes hospitalizados, porque elas facilitam a comunicação deles com seus amigos e familiares, além de serem um espaço que favorece a oportunidade de esses adolescentes dividirem a experiência de hospitalização e aprenderem com outros que vivenciaram situação semelhante.5

Uma pesquisa6 realizada com adolescentes hospitalizados, portadores de algum tipo de enfermidade crônica, mostrou que os adolescentes utilizam a internet com frequência. Para eles, o Facebook® é o site mais utilizado, porque nele os adolescentes conseguem ser "normais" e conseguem manter-se informados sobre sua vida social - como os outros adolescentes. Por outro lado, outra pesquisa constatou que adolescentes com algum tipo de enfermidade crônica acabam sendo seletivos quanto a dividirem seus sentimentos e pensamentos sobre seu diagnóstico, sua medicação e seu tratamento, evitando falar sobre esses tópicos nas redes sociais.6,7

Há crescente número de comunidades virtuais e blogs sobre pessoas com algum tipo de enfermidade; espaços que se tornam cada vez mais importantes para as pessoas compartilharem sua experiência da doença e trocarem informações sobre o tratamento.8

Considerando o uso das redes sociais como algo importante no cotidiano dos adolescentes e reconhecendo o ambiente virtual como um meio de comunicação que impulsiona elementos importantes para a elaboração de sentimentos e percepções, este estudo buscou compreender como as redes sociais virtuais são utilizadas por adolescentes e sua importância durante o processo de hospitalização.

MÉTODO

Analisando como caráter único a experiência de adolescentes hospitalizados e o uso das redes sociais virtuais, optou-se por realizar um estudo qualitativo-descritivo, apoiado no método etnográfico, especialmente na Etnografia Virtual.9 A partir da perspectiva teórica de análise das experiências humanas, optamos por utilizar o Interacionismo Simbólico, que tem como foco de estudo a natureza da interação social.10

A pesquisa etnográfica acontece a partir da imersão do pesquisador no ambiente estudado, caracterizando-a como uma pesquisa que não apenas descreve os acontecimentos, mas os situa culturalmente, permitindo a sua interpretação.9 A etnografia virtual tem como finalidade estudar as práticas sociais na internet e o significado destas para os participantes, facilitando, assim, a compreensão do comportamento e da cultura do usuário em ambiente virtual.9

Este estudo passou pela aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa, de acordo com a Resolução nº 466, de 12/12/2012, sob o parecer nº 544.059, referente à pesquisa com seres humanos. Para a participação na pesquisa, os representantes legais dos adolescentes e eles próprios receberam informações sobre o estudo e também sobre a garantia de anonimato.

Ao todo, 11 adolescentes aceitaram participar da pesquisa, seus responsáveis legais foram comunicados e a pesquisa foi explicada. Após a autorização, os responsáveis assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) juntamente com o adolescente participante (Termo de Assentimento); esses dois termos continham a explicação da pesquisa e a garantia de anonimato dos participantes.

Durante a coleta e a análise dos dados, alguns procedimentos foram adotados visando garantir a proteção da privacidade e o sigilo das informações, como solicitar a autorização dos adolescentes para fazer parte da rede de amigos em suas redes sociais, tendo acesso a todo o conteúdo postado; e assegurar o sigilo e a não divulgação de nome e informações pessoais presentes no perfil dos adolescentes participantes.11

Por utilizarmos o ambiente virtual como local de estudo, apenas a inserção virtual não nos revelou muito a respeito sobre a comunidade estudada - adolescentes hospitalizados; com isso, foi necessário conhecer primeiramente esses adolescentes e identificar em que momento de suas histórias de vida ocorreu a hospitalização - assim, foi possível compreender seus pensamentos, sentimentos, memórias e formas de enfrentar as diferentes situações. Por este motivo, as observações virtuais foram intercaladas com entrevistas individuais e presenciais com os adolescentes hospitalizados.

A pesquisa foi realizada com adolescentes de 13 a 17 anos, hospitalizados há pelo menos 48 horas em unidades de Clínica Pediátrica, Clínica Médica e Clínica Cirúrgica de um hospital-escola público, de nível terciário, do município de São Paulo. Para participar da pesquisa, os adolescentes deveriam ter uma conta ativa em alguma rede social virtual e ter acesso à conta durante a hospitalização. Cabe esclarecer que havia dois computadores disponíveis na unidade de internação pediátrica; ademais, o hospital disponibilizava sinal de internet (wifi) livre aos pacientes, os quais podiam utilizar seus próprios dispositivos (smartphones, tablets e notebooks).

Os pesquisadores se inseriram nas unidades hospitalares, a fim de serem reconhecidos pelos funcionários e pacientes da instituição no decorrer de seis meses, de junho a novembro de 2015. Durante esse período, 23 adolescentes foram abordados pelos pesquisadores e convidados a participar da pesquisa - dois adolescentes não mostraram interesse em participar do estudo, quatro adolescentes não se adequaram ao perfil, por não utilizarem redes sociais online, e seis pacientes, ao serem abordados, estavam utilizando as redes sociais no momento, porém não se adequavam à faixa etária da pesquisa.

Com a autorização dos responsáveis, os pesquisadores adicionaram os adolescentes participantes, como amigos virtuais, em suas contas da rede social virtual - podendo, com isso, ter acesso às postagens dos adolescentes hospitalizados. No dia seguinte, foi realizada uma entrevista presencial, sendo que os responsáveis foram convidados a permanecer durante o relato dos adolescentes. A questão disparadora para a entrevista foi a seguinte: "Durante este período de hospitalização, você utilizou alguma rede social virtual?". Logo após, foram realizadas outras perguntas, questionando-os sobre a importância, a finalidade e a frequência do uso do Facebook® durante a hospitalização.

A coleta e a análise dos dados foram adaptadas a partir do método etnográfico para lidar com conteúdos online em comunidades virtuais,12 constituído a partir das seguintes etapas:

  • Registro e análise do conteúdo postado pelos adolescentes usuários da rede social online durante e após uma semana de sua hospitalização.

  • Relatos de campo obtidos a partir de encontros presenciais, em que os pesquisadores realizaram uma entrevista semiestruturada com os adolescentes.

Vale ressaltar que os perfis das redes sociais virtuais dos adolescentes foram analisados durante o período de internação e de acordo com a observação participante - buscando postagens e comentários relacionados ao processo de hospitalização; já as entrevistas foram realizadas com o auxílio de um gravador digital, posteriormente transcritas para análise dos dados.

A organização e a interpretação dos dados coletados foram feitas de acordo com a análise de conteúdo, que permitiu analisar os conteúdos verbais (a partir da transcrição das entrevistas), escritos e visuais (a partir das postagens na rede social online) dos dados13 - este processo consistiu em preparar, organizar e relatar os resultados.13 Nos primeiros passos da análise, referentes à fase de preparação, ocorreram a coleta dos dados (a partir das entrevistas e das observações realizadas no ambiente virtual), a transcrição do material e sua leitura detalhada.

As falas dos entrevistados foram apresentadas por meio de um código, composto pela palavra "Adolescente", seguido de um número de 1 a 11, idade e motivo da internação, para garantia de seu anonimato.

Os 11 adolescentes que participaram do estudo tinham idade entre 13 e 17 anos (6 do sexo masculino e 5 do sexo feminino) e foram internados por diferentes motivos, como dengue, fratura, crise asmática, pneumonia, cirurgia e diabetes mellitus. Todos os adolescentes utilizaram o Facebook® como rede social virtual principal durante a hospitalização.

RESULTADOS

Por meio deste estudo, que teve como objetivo compreender como as redes sociais virtuais são utilizadas por adolescentes e a sua importância durante o processo de hospitalização, foi possível identificar três categorias: "Podendo utilizar as redes sociais virtuais durante a hospitalização"; "Utilizando o chat do Facebook® para manter-se conectado aos amigos"; e "Buscando apoio dos amigos por meio das redes sociais virtuais".

Podendo utilizar as redes sociais virtuais durante a hospitalização

Os adolescentes hospitalizados fizeram postagens com textos que falavam sobre seu cotidiano, sobre seus sentimentos, contando como fora seu dia e o que faziam no momento, tornando públicas suas atividades. Para isso, utilizavam os recursos de postagem de fotos, vídeos, músicas, textos e mensagens, utilizavam também os chats para interagir com seus amigos e familiares.

Eu uso a internet todo dia; prefiro usar meu celular, não gosto do computador aqui do hospital... Todo dia, eu entro no Facebook®, eu posto frases que eu vejo que eu gostei de alguém... postei uma frase: Dificuldade não existe para fazer você desistir, mas sim para te deixar mais forte (Fala - Adolescente 1, 13 anos, apendicite).

No hospital, consigo usar o Facebook® melhor que em casa, para falar com meus amigos e pra postar como eu estou me sentindo... meu celular foi roubado, então eu uso o computador do hospital (Fala - Adolescente 3, 14 anos, correção de refluxo).

A hospitalização está sendo um pouco boa, porque dá pra mexer no Facebook®, e falar com meus amigos, e um pouco ruim porque não dá para ver eles, porque era para eu tá na rua uma hora dessas (Fala - Adolescente 2, 14 anos, diabetes mellitus).

Utilizando o chat do Facebook® para manter-se conectado aos amigos

Durante o período de hospitalização, a utilização do chat configurou-se como um meio de atividade para os adolescentes, pelo qual eles se comunicavam com seus amigos e familiares em tempo real.

Aqui (no hospital) eu usei o Facebook® para olhar fotos e ficar conversando com alguns amigos meus, por mensagem... eu não postei nada... mas no chat eu fiquei falando daqui do hospital, que eu fiquei internado, e também de uns trabalhos aí, que estavam faltando na escola (Fala - Adolescente 7, 16 anos, pneumonia).

Eu não postei nada que estava internado... conversei com meus amigos no chat, falei que eu tô internado, aí eles falaram tá bom (Fala - Adolescente 1, 13 anos, apendicite).

Percebeu-se um caráter social e de entretenimento nesse uso, uma maneira de diversão e de se manter ocupado no ambiente hospitalar, mantendo contato com os grupos de amigos. Os adolescentes conversavam sobre assuntos diversos, nem sempre relacionados à internação, numa tentativa de se distanciar do contexto estranho do hospital e acompanhar acontecimentos de seu cotidiano fora do hospital. Dessa forma, as redes sociais online contribuíram para a continuidade das relações sociais dos adolescentes e sua família.

Eu queria usar mais o Facebook®, mas também de madrugada eu também fico, mas eu fico conversando com as pessoas. Eu converso muito. O que eu mais faço é conversar, daí não tem como eu ficar colocando toda hora coisas.... eu mais uso o chat! Converso com as minhas amigas, meus amigos, minhas tias, tios, minhas primas, é tudo assim, converso com meu irmão (Fala - Adolescente 10, 17 anos, crise asmática).

Meus amigos que vieram aqui no sábado que postaram que eu tava aqui (internado no hospital [...] eu avisei eles pelo chat (Fala - Adolescente 2, 13 anos, diabetes mellitus).

Uso o Facebook® para conversar mesmo... uso o chat... falei sobre o que aconteceu com umas cinco pessoas... eles falaram que eu ia melhorar, que eu ia ficar bom logo, que ia sair logo daqui (Fala - Adolescente 4, 15 anos, fratura em membro inferior direito).

Buscando apoio dos amigos por meio das redes sociais virtuais

As redes sociais virtuais foram utilizadas como uma plataforma para a demonstração de apoio e suporte de amigos e familiares para os adolescentes hospitalizados. Foi por meio das diferentes ferramentas, que existem nessas redes sociais virtuais, que mensagens e comentários foram postados nas páginas públicas destes adolescentes, permitindo que todos tivessem acesso ao que era publicado.

Ah... eu escrevo que estou internada, que eu quero sair daqui logo, dessa clínica, daí várias pessoas perguntam o por que... eu postei assim, mas sabe quando a gente se arrepende? Eu me arrependi, porque tem gente que fica curiosa, daí a gente tem que ficar explicando toda hora... eu gosto quando perguntam, mas algumas vezes não, porque é toda hora (Fala - Adolescente 6, 16 anos, crise asmática).

Eu fiz um post, escrevi 'Então né gente, a dengue me pegou e eu tô internada', daí o pessoal comentou e curtiu... o comentário é como apoio, né? Ah eu me senti alegre de ver que tem um monte de gente que lembra de mim (Fala - Adolescente 9, 13 anos, dengue).

Os adolescentes expressavam sensação de bem-estar e de agradecimento ao receberem essas mensagens, com manifestações de apoio de amigos e parentes. A continuidade das relações sociais e o suporte social oferecido pelas redes sociais online contribuíram para que os adolescentes vivenciassem, de maneira mais tranquila, a experiência de hospitalização - e isto contribuiu para amenizar sentimentos como angústia e ansiedade.

Obrigado por todos que estão me dando essa força, deus abençoe vcs... estou melhor, tudo ocorreu bem. Deus esta no comando de tudo, vou melhorar rapido e logo, logo estou de volta fazendo palhaçada, feliz junto com todos... sou forte e nao é essa doença que vai me fazer desistir, deus é o meu médico e ele esta no comando!!! Obrigado (Postagem - Adolescente 1, 13 anos, apendicite).

O apoio recebido pelas postagens dos amigos e familiares se mostrou um recurso importante de acolhimento para os adolescentes internados, que se sentiam felizes e agradecidos ao se depararem com mensagens de reforço e desejos de melhora.

Por meio de postagens e comentários, nas redes sociais online, os adolescentes receberam demonstrações de suporte e solidariedade de seus amigos e familiares, muitas dessas mensagens eram de apoio religioso e espiritual.

Tem coisas que não tem explicações é angustiante é triste mas sei que a vitória esta garantida. Jájá vai tá melhor e fazendo nossa vida mais feliz. Te amo demais minha maninha (Postagem do irmão do Adolescente 11, de 14 anos, apendicite).

Melhoras gatinha já deu tudo certo, Deus tem planos maravilhosos na sua vida e ele nunca desampara um filho seu, vc é a menina dos olhos de Deus um vaso de honra. To na torcida para a sua recuperação e que você volte melhor do que já estava bjs tudo de bom (Postagem de uma amiga do Adolescente 5, de 15 anos, pneumonia).

Irmão fica tranquilão que Deus esta c vc viu, vou ver com sua mãe em que hospital você está, vou te dar um abração bem forte irmão, te amo muito vc é meu amigo de mil cota, entre nós foi muita alegria, muita tristeza, muita briga, etc. Te amo muito irmaozão vc vai sair dessa, viu, Deus está com vc viu, nunca vou te abandonar, vc sabe que eu estou aqui para oq der e vier, sem perreco kk, então é isso, vou ver se da pra mim ir te ver amanhã e te dar aquele abraço. Te amo Lek, melhoras ai, te amo (Postagem de um amigo do Adolescente 8, 13 anos, dengue).

DISCUSSÃO

Por meio da análise de conteúdo, ancorada na perspectiva da etnografia virtual, foi possível alcançar uma interpretação inovadora dos dados dessa pesquisa, que leva a compreender o papel das redes sociais virtuais durante o processo de hospitalização e como elas contribuem para amenizar o processo de hospitalização dos adolescentes.

Os dados demonstraram que todos os adolescentes participantes utilizam o Facebook® como principal rede social virtual, indo ao encontro com os resultados de uma recente pesquisa, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil,14 que indicaram que cerca de 15 milhões de adolescentes possuem acesso à internet, sendo que a maioria a utiliza em busca de diversão, para se comunicar com os amigos, realizar trabalhos escolares e utilizar serviços de busca de informações. Destes adolescentes, 85% possuem um perfil em alguma rede social virtual, sendo o Facebook® a plataforma mais utilizada pelos adolescentes (94%) - Google+® e Instagram® também foram citados pelos adolescentes na pesquisa.

A internet é uma estrutura que conecta computadores e outros equipamentos e possibilita o registro, a produção, a transmissão e a recepção de informações, permitindo, assim, a comunicação entre as pessoas.15 A facilidade de transmissão de informação fez da internet uma grande ferramenta de divulgação e de buscas na área da saúde. As procuras vão desde doenças, e seus tratamentos, até prevenção de patologias, nutrição, higiene e serviços de saúde.16

Na área da saúde, a internet foi apontada como uma poderosa estratégia para manejar diversas condições clínicas, oferecendo melhorias na qualidade de vida dos usuários, promovendo maiores autonomia, pró-atividade e autoconfiança - além de possibilitar maior liberdade de escolhas, auxiliando, assim, nos processos de tomadas de decisões de paciente17 e família. Com toda essa informação acessível, a internet pode ser considerada como um instrumento de empoderamento do paciente, por ser um recurso para a promoção da saúde e de suas implicações para o cuidado individual e coletivo.17

Além da facilidade em buscar informações, a internet está cada vez mais presente na rotina das pessoas devido à expansão das redes sociais virtuais.18 Nesses espaços virtuais, encontramos crescente número de páginas e comunidades sobre pessoas com algum tipo de enfermidade e sobre perda de entes queridos. São espaços virtuais importantes, porque as pessoas conseguem compartilhar informações sobre a doença, o tratamento, o medicamento, a perda e sobre como estão enfrentando tais experiências.18

Adolescentes de todo o mundo estão cada vez mais compartilhando informações sobre suas vidas em rede sociais online;19 para eles, as redes sociais online são um meio importante de expressão, comunicação e interação com seus grupos.1 Essas redes sociais online apresentam muitos benefícios para os adolescentes, como a socialização e a comunicação, pois permitem que eles desenvolvam muitas das atividades importantes no cotidiano. Estar conectado permite ao adolescente fazer novos amigos, compartilhar fotos e trocar ideias, além possibilita oportunidades para adquirir conhecimentos e aprendizados. Lições de casa podem ser realizadas em grupo online, facilitando assim a troca de informações.19,20

Outro benefício das redes sociais online é a contribuição para o desenvolvimento de um senso de identidade, pois o compartilhamento de informações sobre si proporciona, aos usuários, a oportunidade de moldar sua identidade individual conforme a própria seleção de informação a seu respeito.21

O processo de hospitalização é visto pelo adolescente como a perda do contato com amigos e familiares, o afastamento da escola e da sua residência, além da perda da liberdade e da privacidade. Esta afirmação justifica a grande frequência que o adolescente internado permanece online,22 mostrando, assim, a importância do uso das tecnologias e do acesso às redes sociais online como uma importante fonte de entretenimento e ocupação.23

Muitos adolescentes, principalmente os portadores de doenças crônicas, não utilizam a internet apenas para procurarem informações sobre sua doença ou procurarem pessoas com um diagnóstico semelhante, mas sim para permanecerem informados sobre sua vida social e seus relacionamentos com os seus amigos.5 Os adolescentes, quando hospitalizados, têm necessidade de buscar a normalidade em suas vidas e participar de atividades comuns ao seu dia a dia, mesmo estando em tratamento; para isso, buscam receber suporte social ao compartilhar informações sobre sua experiência.24

É importante que os profissionais de enfermagem reconheçam as redes sociais virtuais como uma forma de interação e apoio social aos adolescentes durante a hospitalização, uma vez que elas permitem que eles mantenham um elo com o mundo e a realidade que os cercam.

Como limitação deste estudo, destacamos o fato de os dados terem sito coletados em uma única instituição de caráter público.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os adolescentes utilizam as redes sociais online como forte veículo de comunicação, em que partilham momentos das suas vidas por meio das postagens. Este estudo possibilitou compreender como as redes sociais online representam um papel muito importante não somente na vida cotidiana, mas também no processo de hospitalização dos adolescentes. As redes sociais exercem o papel de uma plataforma de expressão de sentimentos e percepções para que os adolescentes hospitalizados interajam com o "mundo" externo ao ambiente hospitalar e para que recebam mensagens de suporte e solidariedade de amigos e familiares.

Percebe-se a importância dos recursos disponíveis no hospital para facilitar o acesso às redes sociais online, como redes sem fio de acesso à internet, computadores e dispositivos móveis - tais como smartphones e tablets.

Os profissionais de saúde devem considerar a importância do uso das redes sociais online pelos adolescentes hospitalizados, estimulando o acesso e buscando providenciar recursos no ambiente hospitalar para ampliar e facilitar a sua utilização.

CONTRIBUIÇÕES PARA A ENFERMAGEM

Mais estudos envolvendo esta temática serão necessários, dada à importância e à atualidade do assunto; entretanto, é necessário que o profissional de saúde compreenda como as redes sociais se constituem como espaços de interações e aprendizado para o desenvolvimento e o bem-estar dos adolescentes e, com isso, reconheçam seus benefícios e riscos. Assim, o profissional poderá estreitar sua relação com os adolescentes, auxiliando-os neste processo de adoecimento e hospitalização e melhorando as intervenções realizadas com este tipo de paciente.

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