Olhando a Ortodontia Interceptativa de uma forma mais abrangente: o que realmente podemos oferecer?

Olhando a Ortodontia Interceptativa de uma forma mais abrangente: o que realmente podemos oferecer?

Autores:

Flavia Artese

ARTIGO ORIGINAL

Dental Press Journal of Orthodontics

versão impressa ISSN 2176-9451versão On-line ISSN 2177-6709

Dental Press J. Orthod. vol.24 no.5 Maringá set./out. 2019 Epub 11-Nov-2019

http://dx.doi.org/10.1590/2177-6709.24.5.007-008.edt

A Ortodontia Preventiva e Interceptativa tem como objetivo prevenir ou atenuar problemas oclusais que estejam ocorrendo no período de transição da dentição decídua para a permanente. No espectro de procedimentos disponíveis, podemos incluir desde a prevenção da cárie interproximal, na intenção de manter o comprimento da arcada dentária, até o tratamento ortodôntico em duas fases, em que a primeira delas seria realizada durante a dentição mista, com a intenção de promover melhor resultado de modificações esqueléticas1. Essa última alternativa de tratamento se tornou motivo de grandes debates e discussões no cenário ortodôntico, principalmente em relação ao tratamento das Classes II.

Provavelmente, esses conflitos girando em torno de tratamentos em uma ou duas fases tenham, de alguma forma, afetado o meu olhar em relação à Ortodontia Interceptativa e seu valor. Na seção “Tópico Especial” desta edição, Marco Antonio Schroeder et al. apresentam uma mecânica segmentada utilizando a região posterior da arcada como ancoragem para tracionar os caninos e, assim, preservar dentes mais delicados, como os incisivos laterais. Também chama a atenção nesse artigo a eficácia da Ortodontia Interceptativa na possibilidade de erupção desses dentes. Os próprios autores pontuam que os tratamentos interceptativos podem variar desde a simples extração dos caninos decíduos, passando pela expansão da maxila, até o uso de aparelhos extrabucais ou extrações seriadas - todos com a intenção de aumentar ou liberar o espaço para a erupção espontânea do canino superior permanente. De fato, a simples extração de caninos decíduos, em casos de retenção prolongada desses dentes, pode aumentar a probabilidade de erupção dos seus sucessores permanentes em 50% a 69% dos casos, em comparação a um grupo controle (36% a 42%)2.

Pouco se sabe sobre o real benefício da Ortodontia Interceptativa no tão buscado nível de evidência mais elevado. E, devido às inúmeras modalidades de tratamento possíveis, quando a Ortodontia Interceptativa é analisada como procedimento único e categorizada apenas como o tratamento realizado antes dos 11 anos de idade, os resultados de uma revisão sistemática demonstram que esse tipo de abordagem não gera benefício adicional em relação àquele realizado mais tarde1. No entanto, quando as modalidades de tratamento são avaliadas isoladamente, os resultados são diferentes. O tratamento da mordida aberta anterior gera mudanças dentoalveolares significativas na região anterior, corrigindo-a por meio da extrusão e verticalização dos incisivos. Nas mordidas cruzadas posteriores, os resultados de correção são mantidos, conforme acompanhamento de até três anos pós-expansão. As extrações de caninos decíduos para reduzir o apinhamento anterior não produzem resultados muito positivos, com apenas 15 dos 53 pacientes apresentando uma redução do apinhamento maior que 50%. Quanto às modificações esqueléticas de Classe II, há uma redução significativa de overjet e ANB, que não se mostrou diferente do tratamento realizado após a dentição mista. E, para as Classes III, o uso da máscara facial aumentou o ANB, mas não há informações desses resultados acompanhados por mais tempo1.

Apesar de já estar descrito que os dentes, em especial os incisivos projetados, são causa principal de bullying em crianças3, são poucas as informações de como as más oclusões impactam a qualidade de vida na fase da dentição mista. Em estudo recente, crianças brasileiras de 8 a 10 anos tiveram o grau de severidade de suas más oclusões classificado a partir do Dental Aesthetic Index(DAI), enquanto a qualidade de vida foi avaliada a partir do questionário CPQC8-10. Observou-se que más oclusões extremamente severas, em especial um overjet pronunciado, tinham um impacto negativo na qualidade de vida delas4.

Por vezes, estamos muito preocupados com a eficiência de um procedimento no aspecto dentário, e nos esquecemos dos benefícios adicionais que esse pode oferecer. Reduzir precocemente um overjet acentuado pode não resolver o problema da Classe II de forma definitiva, mas pode amenizar o impacto na qualidade de vida de uma criança, além da possibilidade de minimizar o risco de traumas dentários. E apenas reduzir a severidade da má oclusão durante um tratamento interceptativo pode retirar pacientes do que é considerado “medicamente necessário” para um tratamento eletivo, como foi constatado por Jolley et al.5, ao avaliarem os efeitos do tratamento interceptativo em crianças do sistema de saúde do governo americano.

Sendo assim, é com esse olhar ampliado - além dos benefícios oclusais - que a ABOR está apoiando o projeto de lei PL 2416/2019, que foi levado à Câmara dos Deputados em abril deste ano e que prevê cuidados ortodônticos preventivos e interceptativos na saúde pública, com a meta de promoção da autoestima e bem-estar psicológico, essenciais à saúde integral de crianças e adolescentes. Esse projeto de lei dispõe sobre a responsabilidade de um especialista em Ortodontia em examinar, uma vez ao ano, as crianças dos 6 aos 12 anos de idade, na rede pública de saúde. Em casos que necessitem de tratamento inteceptativo, o ortodontista terá possibilidade de atuar, podendo amenizar esses problemas. Para esse fim, se faz necessária a contratação de um ortodontista a cada dez escolas de nível fundamental.

É claro que as medidas interceptativas a serem realizadas devem ser definidas de forma criteriosa, uma vez que sabemos que a própria fase de dentição mista possui características de irregularidades e diastemas. Caso contrário, os benefícios aqui apresentados caem nos malefícios do sobretratamento e das iatrogenias. É possível que os tratamentos interceptativos corretamente indicados não atinjam os resultados definitivos que objetivamos num cenário ideal. No entanto, para países como o Brasil, onde muito pouco se oferece na saúde pública, retirar uma criança de um sofrimento psíquico é motivo para ela sorrir a vida inteira.

Vamos torcer. Boa leitura!

REFERÊNCIAS

1 Sunnak R, Johal A, Fleming PS. Is orthodontics prior to 11 years of age evidence-based? A systematic review and meta-analysis. J Dent 2015;43:477-86.
2 Almasoud NN. Extraction of primary canines for interceptive orthodontic treatment of palatally displaced permanent canines: A systematic review. Angle Orthod. 2017;87:878-85.
3 Artese F. The orthodontist's reach in bullying. Dental Press J Orthod. 2019;24:15-16.
4 Dutra SR, Pretti H, Martins MT, Bendo CB, Vale MP. Impact of malocclusion on the quality of life of children aged 8 to 10 years. Dental Press J Orthod. 2018;23:46-53.
5 Jolley CJ, Huang GJ, Greenlee GM, Spiekerman C, Kiyak HA, King GJ. Dental Effects of interceptive orthodontic treatment in a Medicaid population: Interim results from a randomized clinical trial. Am J Orthod Dentofac Orthop. 2010;137:324-33.
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