Olhares avaliativos informais: o PET-Saúde - Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde - em tela

Olhares avaliativos informais: o PET-Saúde - Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde - em tela

Autores:

Mara Regina Lemes De Sordi,
Eliana Goldfarb Cyrino,
Antonio Pithon Cyrino,
Miriam Foresti,
Tiago Rocha Pinto

ARTIGO ORIGINAL

Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão impressa ISSN 1414-3283versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.19 supl.1 Botucatu 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622015.0583

Há sempre uma multiplicidade de olhares possíveis quando se intenciona avaliar um programa de governo. Várias ênfases podem ser escolhidas e nos ajudarão a perceber as repercussões de programas que respaldam políticas públicas de interesse social tais como as da saúde e da educação, entre outras.

Devidamente referenciadas aos objetivos que justificam a formulação dos programas, muitas formas de avaliação podem ser concebidas, diversificando os ângulos de análise dos fenômenos. Olhares avaliativos ora mais estruturados e formais, ora informais, tentando capturar a adesão dos atores institucionais implicados em programas, tais como o Pró-Saúde e o PET-Saúde, que buscam reorientar o eixo da formação dos profissionais da saúde.

No momento em que esta chamada pública de artigos para Suplemento temático e livro foi lançada, em julho de 2014, havia 902 grupos PET-Saúde em desenvolvimento, com 15.975 bolsistas entre estudantes, trabalhadores universitários da saúde (preceptores) e professores das diversas instituições de ensino superior (tutores e coordenadores) de todos os estados da federação brasileira.

A publicação do dossiê e do suplemento sobre o PET-Saúde (Pró-Saúde e PET- Saúde, PET-Saúde /Vigilância em Saúde, PET-Saúde/ Redes) que visou incentivar a produção sobre a formação nas graduações em saúde nas redes de atenção à saúde e a interprofissionalidade no Sistema Único de Saúde (SUS), na perspectiva da produção compartilhada nos processos de ensino e experimentação no âmbito do SUS, promovendo o diálogo entre saberes, a integralidade do cuidado e o protagonismo dos usuários - despertou o interesse em exercitar nosso olhar avaliativo e buscar evidências indiretas que pudessem traduzir como tais programas têm impactado os cenários de aprendizagem em saúde e as práticas de atenção à saúde.

Para tal nos debruçamos sobre a totalidade de submissões recebidas em atenção ao edital. Foram 397 manuscritos submetidos, com aprovação de 28 manuscritos para a revista Interface e 53 manuscritos para a coletânea no formato de livro, pela editora da Rede Unida (Série Vivências e Educação em Saúde).

Independente dos trabalhos encaminhados terem sido ou não selecionados para publicação (dadas as exigências formais e os limites de espaço disponíveis) chamou nossa atenção a forma como a comunidade reagiu ao chamamento para compartilhar suas intervenções, implicações e provocações na mudança de currículos e das práticas nos serviços e redes de atenção à saúde, pesquisas, reflexões críticas e experiências derivadas da adesão ao PET-Saúde. Um número expressivo de submissões nos fala da importância que este programa tem na realidade das instituições de ensino e dos serviços de saúde. Ler os trabalhos selecionados como tradutores das repercussões positivas do PET-Saúde no cotidiano dos serviços e das escolas de saúde, assim como explicitadores dos pontos vulneráveis que afetam a sustentabilidade do programa, constituiu-se momento impar e de grande celebração. Ao apreciarmos as experiências que não puderam ganhar visibilidade nos limites das publicações ora em tela, intensificou-se nossa confiança na potência desses programas como indutores de mudanças qualificadas no eixo da formação dos profissionais da saúde.

Um grande número de profissionais da saúde, diferentemente situados, decidiram socializar avanços, limites, desafios do viver o PET-Saúde de modo implicado. Profissionais e estudantes que corajosamente se engajaram no processo de mudar o eixo da formação em saúde. Reportaram-se direta ou indiretamente à meta de uma rede colaborativa em saúde fortemente comprometida com a sustentação do SUS e com as Diretrizes Curriculares Nacionais da área, como atestam os resumos dos trabalhos examinados. Relatos produzidos por estudantes bolsistas PET-Saúde isoladamente ou em conjunto com trabalhadores da saúde (preceptores do PET-Saúde) e professores (tutores e coordenadores do PET-Saúde) registram experiências vividas ou resultados de pesquisas visando alavancar as categorias-chave do programa, tais como a educação interprofissional; a educação permanente; a relação, articulação, interação e integração ensino e serviços de saúde na formação pelo trabalho; a mobilização para mudanças curriculares nos cursos da saúde; a construção conjunta de projetos de intervenção entre instituições de ensino, gestores, trabalhadores da saúde e comunidade; o cuidado em redes de atenção; a construção de relações horizontais e com maior autonomia dos usuários dos serviços, dos pacientes, famílias e comunidade; a perspectiva do trabalho nas redes de atenção; e a vigilância em saúde. Predominam trabalhos qualitativos com diversidade de abordagens metodológicas que incluem múltiplos respondentes desde profissionais da saúde, lideranças populares, acadêmicos, comunidade. Todos, de algum modo, chamados a vocalizar o que pensam sobre o alcance do PET-Saúde.

Os objetivos proclamados que norteiam os trabalhos (pesquisas ou relatos de experiências) concentram-se no desejo de potencializar a atenção básica como ordenadora do cuidado; subsidiar uma formação inovadora com a visão de território formativo; e processos de ensino a partir da educação interprofissional como campo de aprendizagem, diálogo e de negociação de sentidos e troca de saberes e afetos.

Observa-se certa prevalência de trabalhos que focam mais os efeitos do PET-Saúde do que as contribuições do Pró-Saúde. Alguns temas mostram-se fortemente enviesados pela pesquisa, sem relação direta com o interesse maior do programa consoante às politicas indutoras em tela e a decorrente mudança dos processos formativos em saúde. Mesmo assim subsidiam a avaliação informal do programa, anunciando vulnerabilidades que podem estar presentes no formato dos editais e que tendem a ser sanadas via avaliação formativa, tônica que rege as visitas in loco desenvolvidas pelos assessores do Ministério da Saúde.

O que importa, no entanto, é não subestimar a mensagem presente nos inúmeros trabalhos submetidos que versam sobre o sentimento de que o PET-Saúde se constitui numa experiência de formação exitosa para os acadêmicos, ampliando conhecimento sobre saúde e gerando direcionamento do interesse profissional para o contexto da integração ensino-serviço, redes de atenção, vigilância e o trabalho no SUS. Como desconsiderar testemunhos de que o programa induz/produz compromisso com a melhoria dos serviços da saúde na perspectiva da integralidade do cuidado? Que promove certa mudança na micropolítica do trabalho com implicação dos sujeitos com seu fazer? Que permite o exercício de práticas dialógicas e problematizadoras? Que ajuda a transformar práticas pedagógicas e assistenciais, valorizando trabalho interprofissional e troca de saberes interdisciplinares?

O que se percebe ao focarmos o olhar nos trabalhos submetidos (selecionados ou não) é que não lhes falta qualidade política e ética do ponto de vista do registro do vivido no esforço de mudar o cenário da formação de nível superior em saúde. Os trabalhos não aceitos - alguns por não terem atendido às exigências da submissão estabelecidas pela revista - mostram-se igualmente sintonizados com os objetivos do PET-Saúde e revelam a forte repercussão deste na realidade das escolas e serviços de saúde.

Este olhar para o PET-Saúde e suas repercussões, mesmo na condição de apenas um singelo olhar avaliativo, informalmente engendrado, nos permite anunciar o alto valor pedagógico e político presente no PET-Saúde e nos incita a defendê-lo como programa capaz de acelerar nossos passos na direção de um sistema público de saúde que valoriza a humanização, a integralidade, a equidade, o protagonismo de gestores, trabalhadores e usuários dos serviços e o cuidado resoluto para todos os brasileiros.

Mara Regina Lemes De Sordi
Departamento de Estudos e Práticas Culturais, Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Campinas, SP, Brasil.
Eliana Goldfarb Cyrino
Departamento de Gestão da Educação na Saúde, Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (SGTES), Ministério da Saúde. Brasília, DF, Brasil.
Antonio Pithon Cyrino
Departamento de Saúde Pública, Faculdade de Medicina, UNESP - Univ Estadual Paulista. Botucatu, SP, Brasil.
Miriam Foresti
Departamento de Educação, Instituto de Biociências, UNESP - Univ Estadual Paulista. Botucatu, SP, Brasil.
Tiago Rocha Pinto
Escola Multicampi de Ciências Médicas do Rio Grande do Norte. Caicó, RN, Brasil.
Política de Privacidade. © Copyright, Todos os direitos reservados.