Origem atípica da artéria hepática comum

Origem atípica da artéria hepática comum

Autores:

Guido Vieira GOMES,
Carlos Augusto Cáceres ENCINA,
Felipe Borelli del GUERRA,
Guilherne Napoleão LIRA,
João Luiz Itagiba FONSECA,
Junio Pereira PARDINS

ARTIGO ORIGINAL

ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo)

Print version ISSN 0102-6720

ABCD, arq. bras. cir. dig. vol.27 no.4 São Paulo Nov./Dec. 2014

https://doi.org/10.1590/S0102-67202014000400021

INTRODUÇÃO

As variações anatômicas da artéria hepática são comumente encontradas durante exames radiológicos e operações abdominais1 , 8. Estima-se que o índice de variação atinja até 45% da população8. Prevalência tão significativa confere a esse tipo de variação grande importância médica, e justifica o cirurgião conhecê-la para evitar lesões iatrogênicas.

O esquema arterial habitual é a artéria hepática comum ascender do tronco celíaco8; contudo, por variações embriológicas esse arranjo pode mudar. Essas variações, da mais para a menos prevalente, são: 1) a artéria hepática direita ascender da artéria mesentérica superior; 2) a artéria hepática esquerda ascender da artéria gástrica esquerda; 3) os dois fatos ocorrerem simultaneamente; e 4) a artéria hepática comum ascender da artéria mesentérica superior.

Neste artigo, é relatada ocorrência da última situação. De acordo com a literatura pesquisada, não há consenso quanto ao critério de designação dessa variação. Por isso, ela pode ser descrita de duas maneiras: considerar que se trata de um tronco hepatomesentérico - de onde se originam a artéria mesentérica superior e artéria hepática comum -, ou pode-se dizer que a artéria hepática comum surge como ramo da artéria mesentérica superior.

O objetivo deste trabalho é apresentar um caso e ressaltar as prevalências das posições anômalas das artérias hepáticas e suas possíveis implicações.

RELATO DO CASO

Foi observado em um cadáver masculino artéria hepática comum originando-se da artéria mesentérica superior, situada 3,5 cm inferolateralmente ao tronco celíaco, formando um tronco hepatomesentérico. Os demais ramos do tronco celíaco eram habituais e exibiam o trajeto típico (Figura 1).

Figura 1 - A) fotografia da cavidade abdominal do cadáver com alguns vasos em evidência: veia renal esquerda (seta dupla), tronco celíaco (seta simples) e o tronco hepatomesentérico (assinalado por *); B) ilustração da mesma foto, com destaque para o tronco hepatomesentérico (assinalado por *). 

DISCUSSÃO

Variações da artéria hepática têm base embriológica10. Durante o desenvolvimento intra-uterino, há a formação de quatro vasos esplâncnicos ventrais, conectados por uma anastomose ventral longitudinal. Com a maturação destes, as duas raízes centrais degeneram. Assim, a primeira e a quarta raízes, que formarão respectivamente o tronco celíaco e a artéria mesentérica superior, permanecem anastomosadas. Se a separação entre elas ocorre em nível diferente da normal, qualquer vaso do tronco celíaco pode ser deslocado para artéria mesentérica superior. Tal situação é exibida no relato de caso: com a separação anômala das raízes houve a formação de um tronco hepatomesentérico e outro gastroesplênico.

Vários trabalhos1 , 2 , 3 , 4 , 5 , 6 , 7 , 8 , 9 , 10 , 11 relatam diferentes variações. O mais representativo deles é o de Hiatt et al.5 com amostra de 1000 pessoas. A variação aqui apresentada (artéria hepática comum + artéria mesentérica superior) é pouco comum com ocorrência média de 2%. Tal valor está de acordo também com os valores achados em outros artigos que vão desde 1,6% a 3,5%.

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