Os mosquitos e o Estado no relatório do chefe do Serviço de Saneamento e Profilaxia Rural da Bahia, 1922

Os mosquitos e o Estado no relatório do chefe do Serviço de Saneamento e Profilaxia Rural da Bahia, 1922

Autores:

Heloísa Helena Rocha

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.25 no.1 Rio de Janeiro jan./mar. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/s0104-59702018000100015

Abstract

In 1923, Doctor Sebastião Barroso, head of the Rural Sanitation and Prophylaxis Service of Bahia, submitted a report on the previous year's activities. The document contains information on initiatives coordinated by the entity on rural epidemics and prophylaxis, accompanied by a compilation of the reports by the professionals responsible for the rural prophylaxis units and tables containing data on the different regions in the state, notifications received, and expenses. The section of this document presented here enables us to investigate the state's role in addressing public health issues in a context marked by recurring outbreaks of epidemics, especially yellow fever.

Keywords yellow fever; sanitation; rural prophylaxis; Sebastião Barroso (1886-1941)

A febre amarela volta a ocupar espaço no noticiário cotidiano e a se impor entre as apreensões daqueles que vivem em diferentes regiões do Brasil. A confirmação da contaminação e morte de macacos e o registro de casos confirmados da doença em seres humanos fazem ressurgir velhos temores e ansiedades.1 A ampliação das áreas de risco e as estatísticas de mortalidade pela febre amarela têm exigido urgentes providências, ganhando espaço na mídia e, ao mesmo tempo, mobilizando estudiosos e autoridades em torno de investigações e medidas que incluem campanhas de vacinação da população. Novamente os mosquitos - que tantas vidas têm roubado e tantos estragos têm produzido, nos surtos recorrentes de dengue e nos episódios recentes de chikungunya e zika vírus - assombram a vida dos brasileiros e daqueles que cruzam as fronteiras deste imenso país, colocando todos em sobressalto e reclamando a ação dos poderes públicos.2 Medo, pânico, riscos, ameaça, alerta, emergência são alguns dos termos que permeiam a linguagem que registra o aumento do número de casos confirmados da doença e de mortes.

Os surtos de febre amarela não são um problema novo em nosso país, como evidencia o excerto do documento que aqui se apresenta, escrito há quase um século. Sua leitura pode nos aproximar das questões envolvidas no enfrentamento dessa doença nas décadas iniciais do período republicano - considerada por Hochman (1998, p.156) "o paradigma brasileiro de interdependência sanitária”, tendo em vista as discussões que suscitou, bem como as providências e negociações que exigiu. O trecho selecionado oferece alguns indícios das ações de combate às epidemias, capitaneadas pelo chefe do Serviço de Saneamento e Profilaxia Rural da Bahia, doutor Sebastião Mascarenhas Barroso (1886-1941), durante 1922. De modo mais específico, traz elementos para uma leitura das posições dessa autoridade sanitária em relação à responsabilidade do Estado quanto aos problemas de saúde pública. A sua atuação na chefia desse órgão insere-se no âmbito dos convênios que viabilizaram, no período, a ação do governo federal nos estados, com o intento de lidar com os desafios impostos pelos problemas ligados à saúde e ao saneamento. Ação que resultou das amplas discussões em torno dos limites impostos pelo arranjo federativo estabelecido pela constituição republicana, que atribuía aos estados e municípios a responsabilidade pelo enfrentamento dessas questões, deixando a cargo do governo federal a higiene na capital federal, a vigilância dos portos e, em casos excepcionais, a assistência aos estados.

Sebastião Barroso, autor do documento, era médico formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, com a tese intitulada Mordeduras de cobra e seu tratamento (Barroso, 1889). Ingressou no serviço público como inspetor sanitário, integrando a equipe de Oswaldo Cruz.3 Em sua bagagem, trazia alguns anos de exercício profissional como clínico, no interior dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Em Manguinhos, no contato diário com Oswaldo Cruz, aperfeiçoou-se na prática da bacteriologia e no conhecimento dos mosquitos. Sua atuação como inspetor sanitário, na época da reurbanização promovida pelo prefeito Pereira Passos na capital da República, foi seguida da inserção nos serviços de profilaxia rural no próprio Rio de Janeiro e, posteriormente, em Minas Gerais, Pernambuco e Bahia, onde chefiou as ações de combate à febre amarela.4

O médico foi redator chefe da revista Brasil Médico5 e colaborou nos jornais diários O País e Jornal do Commercio. Como parte das iniciativas voltadas para os objetivos de difusão dos conhecimentos produzidos no campo da higiene, Barroso integrou a programação de cursos e palestras de divulgação científica da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada em 1923 (Moreira, Massarani, 2001). Além disso, publicou alguns livros, merecendo destaque a "Biblioteca popular de higiene: a saúde para todos”, coleção composta de 22 títulos, publicada pela Editora Melhoramentos, na década de 1930, destinada à população em geral e, após o lançamento dos primeiros volumes, também ao público escolar.6 Barroso exerceu alguns cargos políticos, como registram as notas publicadas por ocasião do seu falecimento: foi secretário do governo do estado do Paraná, logo após a Proclamação da República; deputado estadual no Rio de Janeiro, por mais de duas décadas; prefeito de Cravinhos, no estado de São Paulo. A ele se referiu o Brasil Médico, no obituário publicado em sua edição de agosto de 1941, nos seguintes termos: "um dos mais acatados higienistas, republicano histórico e deputado estadual, fino escritor, clínico de nomeada”; "eminente legislador, abalizado clínico, intrépido jornalista, dedicado sanitarista, delicado músico e probo administrador” (Necrologia, 16 ago. 1941, p.574-575).

Prefaciando a obra O médico na ciência, na profissão, na sociedade, na qual Barroso compendia algumas das suas experiências como clínico, com destaque para os seus primeiros anos de exercício profissional, Miguel Couto (1934), presidente da Academia Nacional de Medicina, chama a atenção para os predicados do médico, procurando destacar a sua inserção nos mais variados campos. Tal característica, comum a essa geração de médicos, autoriza a pensá-los, conforme assinalam Machado et al. (1978), como "cientistas sociais”, em cuja atuação se integravam conhecimentos de estatística, geografia, demografia, topografia, história, com base nos quais buscavam compreender a realidade social e, ao mesmo tempo, elaborar modelos de intervenção de caráter preventivo. Segundo as palavras de Miguel Couto (1934, p.5-6) registradas no prefácio dessa obra,

Em Sebastião Barroso reúnem-se várias capacidades - na medicina, na higiene, no jornalismo, na política - presididas por fúlgida inteligência, notável capacidade de observação e de crítica. Começou pelo laboratório, com um trabalho experimental, sobre mordeduras de cobras, mas, entrando na prática da medicina, revelou logo os predicados que compõem um grande clínico - a sabedoria pelo estudo e a penetração pelo hábito do exame minucioso. Quando Oswaldo Cruz resolveu seletar por concurso os auxiliares de sua grande obra, ele fez-se higienista e logrou um dos primeiros lugares entre dezenas de colegas; deputado e senhor da tribuna ninguém o vencia nos debates sobre… finanças; jornalista ostentou conhecimentos enciclopédicos na improvisação diária acerca dos mais diversos problemas sociais; escritor de linguagem sempre elevada e pura.

A ida de Sebastião Barroso para a Bahia, em 1921, deve ser compreendida no contexto das discussões sobre a legitimidade da atuação da União no combate às epidemias, que redundaram na criação do Serviço de Profilaxia Rural, em 1918. A implantação desse serviço se fez acompanhar, no início de 1920, da criação do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP). Subordinado ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores, o DNSP, cuja criação resultou de um movimento político de caráter nacionalista, incorporava em sua estrutura as ações de profilaxia rural, convertendo o Serviço de Profilaxia Rural em Diretoria de Saneamento e Profilaxia Rural. Como parte desse novo ordenamento, estabeleceram-se os convénios entre a União e os estados, que tornavam possível a intervenção federal em casos de calamidade pública, mediante solicitação dos estados interessados.

O acordo firmado entre o DNSP e o governo do estado da Bahia, orientado segundo os propósitos de interiorização das ações de saneamento e unificação dos serviços de saúde no estado, atribuía ao governo estadual a responsabilidade pelo controle das doenças venéreas e da lepra, ficando a profilaxia de outras enfermidades a cargo do órgão federal, sem qualquer ingerência local, fosse ela municipal ou estadual. O documento estabelecia, ainda, que as partes contratantes se comprometiam a aceitar a colaboração da Fundação Rockefeller na execução dos serviços de profilaxia. Por meio desse acordo, a União se comprometia a empregar um montante de 1.500 contos de réis em serviços de higiene e saneamento rural, durante três anos, cabendo ao governo do estado indenizá-la da metade dessas despesas, em um prazo de dez anos. Conforme destaca Pontes (2007, p.87-88), "a partir de então, o combate à febre amarela já não se encontraria mais sob a responsabilidade do Estado e da sua Saúde Pública estadual. Os trabalhos antiamarílicos passaram a se concentrar nas mãos do DNSP”. Esse arranjo se manteve até 1923, quando a Fundação Rockefeller passou a assumir o comando integral das ações de combate à febre amarela no estado (Pontes, 2007; Hochman, 1998). As veementes críticas de Sebastião Barroso aos métodos adotados pela agência norteamericana e a insatisfação advinda da subordinação a que se viu lançado, a partir de então, culminaram na sua ruidosa demissão do cargo (Pontes, 2007; Benchimol, 2001).

Da atuação de Barroso na discussão acerca da responsabilidade do governo federal em relação às questões de saúde pública, dá conta um documento datado de 1919, apontado por Hochman (1998, p.83) como o "mais citado estudo sobre constitucionalidade da expansão dos serviços federais de saúde”. Tal documento, segundo destaca esse autor, subsidiou os argumentos de juristas e ministros do Supremo Tribunal Federal na defesa da ampliação do conceito de calamidade pública - por meio da inclusão das epidemias -, bem como na reivindicação da ação do Estado em seu combate:

Quando essa calamidade só e exclusivamente afete ao Estado, o Governo federal não poderá intervir sem solicitação do estadual. Não é esse, como erradamente se tem compreendido, o caso de uma epidemia [de cólera] que, embora na ocasião limitada a um Estado, corra no entanto a possibilidade de difundir-se, invadir outros Estados, tornando-se uma ameaça geral, afetando os interesses da Nação inteira. E se o interesse é geral, se não é privativo do Estado, porque comum a vários outros, a União pode sobre ele providenciar, decretar leis a que governos locais se não poderiam opor (Barroso citado em Hochman, 1998, p.83-84).

Em sua atuação no estado da Bahia, Barroso retoma a discussão dessas questões, como se pode observar no excerto do documento selecionado e transcrito. O trecho corresponde à primeira seção, referente ao "Serviço de Epidemias”, da parte geral do Relatório apresentado pelo Dr. Sebastião Barroso, chefe do Serviço de Saneamento e Profilaxia Rural no Estado da Bahia, relativamente aos trabalhos executados durante o ano de 1922. Inscrevendo-se entre as exigências regulamentares de prestação de contas, o documento dirige-se às autoridades superiores, reunindo informações sobre as iniciativas coordenadas pelo médico, no tocante às epidemias e à profilaxia rural, acompanhadas de uma compilação dos relatórios dos profissionais responsáveis pelos postos de profilaxia rural espalhados pelo estado.

O relatório é parte do Arquivo Belisário Penna da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz (Rio de Janeiro). Contém 128 páginas, seguidas de anexos em forma de tabelas que quantificam os trabalhos realizados pelo órgão durante 1922, nas diferentes regiões do estado, as notificações recebidas, bem como as despesas efetuadas. A leitura do excerto, que versa sobre o combate à febre amarela e à peste, esta última a cargo do governo estadual, pode trazer elementos para a compreensão do processo de estatização da saúde brasileira, contribuindo, em alguma medida, para a reflexão sobre os desafios hoje postos no que tange ao papel do Estado no financiamento do sistema de saúde, num momento em que os mosquitos, com toda a sua coorte de males, novamente se alastram, espalhando apreensões, temores e riscos à vida da população. Registro oficial das ações de Sebastião Barroso na Bahia como chefe do Serviço de Saneamento e Profilaxia Rural daquele estado, órgão subordinado ao DNSP,7 o relatório apresenta o registro do conjunto de iniciativas levadas a cabo no exercício do cargo, acompanhado de reflexões sobre as responsabilidades do poder público nas ações de combate às epidemias, como as que podem ser lidas no trecho transcrito.

O documento é atravessado por veementes críticas em relação à divisão de competências entre a União, os estados e os municípios, em matéria de saúde pública, então justificada com base na afirmação da autonomia dos estados, consagrada pela constituição republicana. Segundo avaliava o médico, essa forma de administração das questões sanitárias acarretava sérios prejuízos aos estados dotados de menos recursos e àqueles que faziam oposição à União, ao mesmo tempo que transformava em letra morta os acordos internacionais firmados pelo Brasil, com vistas ao combate a várias epidemias, uma vez que as múltiplas e complexas providências voltadas para a defesa epidêmica ficavam sujeitas a orientações diversas e, em alguns casos, eram totalmente inviabilizadas em função do mandonismo local. Os parágrafos iniciais, em que Barroso informa que a União havia assumido a responsabilidade apenas pelo combate à febre amarela no estado da Bahia, deixando sob o encargo do governo estadual as providências relativas à peste bubônica, não podem ser mais claros quanto às posições dessa autoridade sanitária:

É para lamentar, em primeiro lugar, não haja, em assuntos sanitários, apesar da criação do Departamento, discriminação clara e insofismável da esfera de competências e de deveres entre os poderes da União, do Estado e do Município.

Em matéria de justiça, de navegação marítima e fluvial, de estradas de ferro, correios e telégrafos, de minas, de impostos e outras, a nossa Constituição delimitou e definiu com precisão e minúcia, a natureza e a extensão de cada unidade de poder. Em assuntos sanitários, porém, a atmosfera positivista que dominou a nossa constituinte, e a preocupação quase vesânica de dotar os Estados com a mais ampla autonomia, levaram os elaboradores do nosso pacto fundamental a nem sequer escrever nele as palavras - higiene e saúde pública - como se a vida material do homem não devesse ser o problema capital dos povos organizados (DNSP, 1923, p.7).

Barroso encontrava os argumentos acionados na defesa da centralização administrativa, na área de saúde pública, na atuação de Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro, marco na sua formação como sanitarista. Tais argumentos fundavam-se nas tópicas do movimento sanitarista em curso no país, o qual reivindicava "a modernização e centralização dos serviços sanitários e uma política voltada para as doenças de base urbana, mas também a prevenção e o controle das endemias rurais” (Benchimol, 2001, p.115). Assim, diante do contraste entre as medidas adotadas na capital federal, que conhecera de perto e em cuja implementação atuara desde os primeiros momentos, e a situação que encontrava agora em um estado distante das benesses do poder central, o médico observava com indignação:

A República tem compreendido que só a capital federal lhe cabe sanear e expurgar dos males epidêmicos. Só ali a febre amarela enfeia a nossa reputação sanitária, deixando que ela se eternize por todo o norte. Só ali nos causa prejuízo a peste bubônica, só ali há uma defesa real e permanente contra o cólera, só ali se deve preocupar com a tuberculose, a sífilis, o alcoolismo (DNSP, 1923, p.8).

O lugar pouco prestigiado ocupado pela saúde pública na agenda do Estado figura como eixo central das críticas de Barroso, no exercício de um cargo que lhe colocava sobre os ombros a responsabilidade pela direção dos serviços sanitários em um estado que, como destaca Hochman (1998), tradicionalmente mantinha uma postura reticente em relação à presença do governo federal. Tal situação é adjetivada pelo médico como "descalabro sanitário”, uma vez que deixava nas mãos das autoridades locais, muitas vezes desprovidas de recursos e sujeitas a toda sorte de injunções políticas, o enfrentamento de problemas de tão graves consequências. Nas análises da autoridade sanitária, ganham ênfase os equívocos e as contradições das posições assumidas pelo Estado brasileiro, dentre os quais destaca a iniquidade de exigir que os governos das unidades federativas arcassem com uma parte dos recursos empregados pela União no combate às epidemias e o erro de condicionar esse apoio à aceitação por parte desses governos. Segundo Barroso, era inconcebível pensar que:

A União que pode, sem simples aviso, entrar por um Estado, por um Município, e abrir por ele uma estrada, estender uma linha telegráfica, ocupá-lo com força militar, estabelecer uma coletoria e cobrar impostos, uma agência de correio e transportar valores, e tanta coisa mais, considera-se desarmada diante da calamidade pública de mortífera epidemia. Ela aceita que o Estado possa impugnar-lhe a ação como atentatória da sua autonomia (DNSP, 1923, p.9-10).

Em algumas de suas ponderações, pode-se ouvir o eco das posições defendidas por ocasião do debate que culminou na criação do DNSP. Uma evidência nesse sentido pode ser observada quando Barroso afirma "não se poder compreender um mal epidêmico como interesse localizado” (DNSP, 1923, p.10) - posição considerada esdrúxula, contra a qual já se haviam manifestado jurisconsultos e constitucionalistas, juízes e tribunais. A bandeira defendida pela autoridade, no exercício de um cargo que o colocava diante de problemas de difícil solução, para a qual escasseavam os recursos, já podia ser vislumbrada na citada publicação de 1919, em que o médico afirmava:

O meu vizinho adoeceu por vontade própria; foi a um laboratório e injetou-se uma cultura viva de bacilos coléricos. Se ele se houvesse simplesmente atirado do telhado à rua ou arrebentado os miolos com uma bala ou ingerido uma [sic] grama de estricnina, isso só afetaria a sua pessoa e eu tinha que limitar-me a lamentar a ocorrência. Com os bacilos do cólera o caso muda de figura - eles se vão difundir aos milhões e milhões pelos objetos que terei que tocar, pelos encanamentos da água que terei que beber, pelos esgotos que vão passar por minha casa. E terei que resignar-me, pois as medidas ao meu alcance isolado seriam improfícuas, visto ascenderem a tal importância e complexidade, que só o Estado as poderia executar. Mas o Estado não deve tolher a liberdade do meu vizinho de querer adoecer e morrer, ainda que seja para proteger a minha de aspirar à saúde e à vida. E o mal se há de propagar pela cidade inteira, e as cidades vizinhas e os campos serão contaminados, o país todo sofrerá o flagelo, e milhares e milhares de vidas serão sacrificadas (Barroso citado em Hochman, 1998, p.47).

É nessa mesma direção que se posiciona Barroso, investido da autoridade de chefe do Serviço de Saneamento e Profilaxia Rural da Bahia, no diálogo com seus superiores hierárquicos, conforme se pode ler no trecho do relatório selecionado: "Para anular todos os esforços, perder todos os gastos, basta que, no país, um Estado, um município, um lugarejo deixe de ser expurgado do mal. Extinto ele por toda a parte e cessados os serviços, voltará de novo a se espraiar, a se irradiar, do pequeno foco em que ficou inatacado" (DNSP, 1923, p.16).

No que diz respeito ao combate à febre amarela, questão que hoje novamente nos toca de perto, o médico indagava naquele momento:

Como fazer o combate à febre amarela, que visa o mosquito Stegomya calopus, em localidade contaminada, como defender uma povoação ameaçada, sem penetrar no interior das habitações em busca de qualquer caso febril em seu início e para o exame dos depósitos e coleções d'água, sem exigir dos poderes locais e dos proprietários, obras e melhoramentos nos escoadouros, nos encanamentos, nos depósitos das águas, nas instalações das latrinas e mictórios das habitações, lugares e logradouros públicos? (DNSP, 1923, p.11-12).

Na implementação de tais medidas, a presença da União mostrava-se fundamental, segundo os argumentos defendidos pelo médico, não cabendo nesse, como em outros casos, a afirmação da propalada autonomia dos poderes locais, desprovidos dos recursos necessários para dar conta das ações de combate necessárias e, além disso, sujeitos ao jogo político local. Os dados sobre a febre amarela na Bahia durante 1922, compilados no relatório, apontam para 314 notificações recebidas, 64 óbitos e 5.857 pessoas sujeitas à vigilância médica. Os informes sobre as verbas repassadas pelo governo federal indicam uma descontinuidade no financiamento do serviço. As análises de Barroso sobre a especificidade do combate à febre amarela na Bahia e sobre os riscos da interrupção da campanha, em outro trecho do documento, soam como um alerta:

Custeio dos serviços. É excessivamente dispendiosa a profilaxia da febre amarela na Bahia, principalmente na capital. O extraordinário número de receptáculos d'água determinado pela grande deficiência do abastecimento; a sua distribuição pelo emaranhado escuro de todos os aposentos tornam as visitas da polícia de focos muito demoradas e demandam grande pessoal e avultado material. A umidade atmosférica e as chuvas frequentes, a antiguidade e a forma das coberturas das casas, tornando inevitável a quebra de muitas telhas e o pagamento de quantiosas indenizações, o estrago rápido dos toldos, o amontoado das edificações na parte central da cidade, são condições que complicam enormemente os expurgos e os fazem caríssimos.

Duração da campanha. Como já mostrei linhas atrás, a suspensão dos serviços em Agosto do ano findo, foi ato que graves prejuízos por certo acarretará. Como já em outros documentos tenho feito ver a essa Diretoria, a capital da Bahia é o ponto por excelência da febre amarela. É a cidade do norte talvez de todo o Brasil, que com pontos mais numerosos se comunica diretamente. Direta, frequente e rapidamente. Deve ser o último lugar em que os serviços poderão ser suspensos, depois de varrida a moléstia de todo o território nacional. No ano findo, todos os casos explodidos, procederam de fora ou tiveram filiação direta em outros procedidos de fora. No segundo semestre, os dois únicos óbitos se deram em pessoas em que o mal se manifestou em viagem de Barra do Rio de Contas. Do mesmo modo o caso não seguido de morte. Por mais de uma vez, depois que o governo federal chamou a si esta profilaxia neste Estado, podia ter sido declarada extinta a moléstia nesta capital, se o gérmen lhe não voltasse, por vezes de muito longe, trazido pelo homem, no período de incubação. O mal se não propagava porque prontas providências o impediam. E a paralisação brusca e completa de todos os serviços, depois de tanto tempo de verdadeira ausência do mal; devendo ser já muito grande o número de receptíveis; reflorescida que se deve achar a fauna culicidiana pelo abandono dos criadouros: - tudo coloca esta cidade na iminência de grave desastre, de epidemia rapidamente disseminável, incêndio voraz de difícil dominação, no dia em que a fagulha de um caso de novo aqui saltar. Será a inutilização de todos os esforços, de todos os dinheiros gastos até agora (DNSP, 1923, p.44-45).

O aumento dos casos de febre amarela, em nossos dias, acompanhado dos temores em relação aos mosquitos e às doenças que por eles podem ser causadas, bem como das discussões sobre as providências a tomar e os responsáveis por tais providências, não são os únicos pontos que nos aproximam das questões que cercaram a atuação do médico Sebastião Barroso, em suas andanças pelo nordeste brasileiro, há quase um século. É preocupante constatar que, apesar de todas as lutas em prol de um sistema de saúde que atenda de modo satisfatório às necessidades de amplas parcelas da população, cada vez mais desprovidas dos recursos mínimos de sobrevivência, algumas das indagações de Barroso guardam uma inquietante atualidade. A leitura desse documento pode nos ajudar a refletir sobre a situação de saúde no país, numa chave que reatualiza as conexões entre os mosquitos e o papel do Estado, uma vez que nos convoca a pensar sobre os descaminhos que mantêm atual o desafio lançado por essa autoridade sanitária, no início da década de 1920, traduzido como o desafio de que o Estado assumisse "o compromisso de, dentro do quatriênio, expurgar da peste e da febre amarela o território nacional” (DNSP, 1923, p.18-19).

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SP CONFIRMA… SP confirma 8ª morte por febre amarela no Estado: dos casos, três foram com transmissão local. Folha de S. Paulo. Disponível em: . Acesso em: 29 mar. 2017. 18 mar. 2017.
SURTO… Surto de febre amarela leva MG a declarar emergência: em todo o Estado são 38 mortes suspeitas registradas desde a semana passada. Folha de S. Paulo. Disponível em: . Acesso em: 29 mar. 2017. 14 jan. 2017.
VACINAÇÃO… Vacinação contra febre amarela será revista: governos e técnicos discutem ampliar área de recomendação e incluir vacina no calendário nacional para crianças. Folha de S. Paulo. Disponível em: . Acesso em: 29 mar. 2017. 23 mar. 2017.
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