Papel da imuno-histoquímica no diagnóstico de adenopatias cervicais malignas

Papel da imuno-histoquímica no diagnóstico de adenopatias cervicais malignas

Autores:

Décio de Natale Caly,
Abrão Rapoport,
Otávio Alberto Curioni,
Rogério Aparecido Dedivitis,
Claudio Roberto Cernea,
Lenine Garcia Brandão

ARTIGO ORIGINAL

Brazilian Journal of Otorhinolaryngology

versão impressa ISSN 1808-8694

Braz. j. otorhinolaryngol. vol.79 no.5 São Paulo sept./out. 2013

http://dx.doi.org/10.5935/1808-8694.20130112

INTRODUÇÃO

Os relatos de adenopatias cervicais são descritos mundialmente como uma das formas mais comuns de manifestações periféricas. As etiologias para esse grupo de lesões são as mais diversas, incluindo desde estados reacionais, infecções, doenças autoimunes e neoplasias primárias e secundárias1 , 2. Pela sua diversidade etiológica, consequentemente, existe uma variedade de faixa etária de acometimento que pode atingir desde a população pediátrica até a mais idosa.

A investigação clínica é extremamente importante no intuito de guiar tanto para um diagnóstico mais preciso como orientar quais são os casos em que há necessidade de uma investigação mais detalhada e específica. A análise histológica ocupa papel central na avaliação dessas adenopatias quando, por critérios clínicos e/ou radiológicos, não foi possível estabelecer um diagnóstico de precisão e, principalmente, nos casos altamente suspeitos de malignidade. A avaliação histopatológica é fundamental para determinar tanto o tipo histológico quanto sua classificação e, desse modo, é fator determinante para orientar a proposta e conduta terapêutica. As dificuldades nas análises histopatológicas dos espécimes de biópsia devem-se tanto pela variedade diagnóstica possível como pela experiência do patologista.

A análise e graduação histopatológica das neoplasias ganharam, há algumas décadas, importante complementação técnica com o advento da imuno-histoquímica, promovendo, ao longo dos anos, sua incorporação nas rotinas diagnósticas, facilitada graças à melhora da técnica, incluindo desde os protocolos de recuperação antigênica mais eficientes, melhora técnica dos marcadores, diminuição de custos e fácil utilização de material parafinado. Por essa técnica, obteve-se maior acurácia na determinação de histogênese das lesões neoplásicas malignas, principalmente nos casos das neoplasias pouco diferenciadas, bem como na determinação e pesquisa de sítio primário em casos de neoplasias metastáticas. As neoplasias pouco diferenciadas são de difícil avaliação diagnóstica e apresentam índices de diagnóstico divergentes interobservadores. O uso de um correto painel imuno-histoquímico é fundamental para diferenciar linhagens epitelial e mesenquimal3.

A presença de metástase em linfonodo cervical por carcinoma espinocelular é uma situação bastante comum em casos de pacientes já diagnosticados e tratados por câncer de cabeça e pescoço, bem como pode ser a primeira manifestação clínica aparente. De uma maneira geral, o carcinoma espinocelular, mesmo metastático, não apresenta grandes dificuldades diagnósticas histopatológicas, porém, em suas formas menos diferenciadas, pode suscitar dúvidas diagnósticas, quando realizadas apenas coloração por hematoxilina e eosina.

Não podemos esquecer que a imuno-histoquímica promoveu uma revolução diagnóstica e prognóstica na avaliação das neoplasias primárias do sistema hematopoiético4. A classificação e identificação dos linfomas sofreu um impacto positivo, passando-se a incorporar o método na rotina diária diagnóstica, sendo, atualmente, item obrigatório nos laudos anatomopatológicos.

Observa-se a falta de relatos que analisem qual a utilização do uso da imuno-histoquímica na avaliação histopatológica das biópsias linfonodais da região da cabeça e pescoço. Desse modo, a revisão da presente casuística tem por finalidade avaliar qual a necessidade de uso desta técnica no auxílio da rotina diagnóstica.

MÉTODO

Trata-se de estudo retrospectivo, realizado no Arquivo do Registro Hospitalar de Câncer (RHC) da instituição, no período de agosto de 2009 a dezembro de 2011, baseado nos resultados anatomopatológicos, sendo aprovado no respectivo Comitê de Ética na Pesquisa, sob o nº 170 (anexo).

Os critérios de inclusão foram: casos diagnosticados de biópsias linfonodais e registrados no RHC e cujos resultados anatomopatológicos foram arquivados em mídia eletrônica no RHC. Os critérios de exclusão foram: casos em que já havia diagnóstico de carcinoma espinocelular em qualquer subsítio da região de cabeça e pescoço.

Foi realizada análise descritiva por meio do uso de frequências absolutas e relativas.

RESULTADOS

Após o levantamento dos anatomopatológicos, foram encontrados 32 casos registrados de biópsias de linfonodos para elucidação diagnóstica, sem diagnóstico da lesão primária. Dos 32 casos, 53,13% (17) foram na população masculina e 48,88% (15) na feminina, com idade variando de 23 a 85 anos, com média de 52 anos.

As linhagens histológicas mais frequentes encontradas foram os linfomas e os carcinomas espinocelulares (Tabela 1). Dos 32 casos, 16 foram submetidos a exame imuno-histoquímico, sendo que a maioria revelou tratar-se de linfomas (Tabela 2).

Tabela 1 Distribuição das frequências das linhagens histológicas (n = 32). 

n %
Carcinoma espinocelular 9 28,13%
Adenocarcinoma 3 9,38%
Carcinoma papilífero da tireoide 2 6,25%
Carcinoma de células acinares 1 3,13%
Carcinoma indiferenciado 1 3,13%
Linfoma difuso de grandes células B 6 18,75%
Linfoma de Hodgkin (clássico) 1 3,13%
Linfoma de Hodgkin (esclerose nodular) 3 9,38%
Linfoma folicular 1 3,13%
Hiperplasias linfoides 4 12,5%
Hemangioma 1 3,13%

Tabela 2 Distribuição do uso da imuno-histoquímica de acordo com as linhagens histogênicas. 

Com imuno-histoquímica (n) % Sem imuno-histoquímica (n) %
Linfomas 11 34,38 0 0
Carcinomas 5 15,63 11 34,38
Outros 0 0 5 15,63
Total 16 50 16 50

Os linfomas corresponderam a 68,75% (11) dos casos submetidos a exame imuno-histoquímico e os carcinomas, a 31,25%5. Dentre os linfomas, o subtipo mais frequente foi o linfoma difuso de grandes células B e, entre os carcinomas, foi o adenocarcinoma (Tabela 3).

Tabela 3 Distribuição das frequências dos casos submetidos à imuno-histoquímica de acordo com a linhagem histológica (n = 16). 

Números de casos submetidos à imuno-histoquímica %
Carcinoma espinocelular 0 0
Adenocarcinoma 3 18,75
Carcinoma Papilifero da tireoide 1 6,25
Carcinoma de células acinares 0 0
Carcinoma indiferenciado 1 6,25
Linfoma difuso de grandes células B 6 37,5
Linfoma de Hodgkin (clássico) 1 6,25
Linfoma de Hodgkin (esclerose nodular) 3 18,75
Lnfoma folicular 1 6,25
Hiperplasias linfoides 0 0
Hemangioma 0 0

Dentre os marcadores utilizados no painel imuno-histoquímico, os mais usados foram: CD3, CD20, CD30 e CD 15 (Tabela 4).

Tabela 4 Distribuição da frequência de uso dos marcadores. 

Marcador Número de vezes utilizado
34BE12 4
35BH11 4
CK7 5
CH20 3
CK5/6 3
AE1/AE3 2
CD3 13
CD5 3
CD15 8
CD20 13
CD23 2
CD30 9
CD45 1
BCl-2 6
Ki67 5
HMB45 1
Vimentina 1
Tireoglobulina 1

DISCUSSÃO

Linfonodos aumentados no pescoço com suspeita de lesões neoplásicas constituem uma situação clínica importante, que exige adequada abordagem diagnóstica e terapêutica. Os carcinomas espinocelulares de cabeça e pescoço possuem alto risco de metastatizar para linfonodos regionais e essa confirmação de comprometimento linfonodal possui impacto direto nos índices de controle da doença, com notória redução nas curvas de sobrevida, tornando necessário seu diagnóstico correto5.

Nesta casuística, constatamos que, dos 32 casos de biópsias de linfonodos, nove corresponderam ao carcinoma espinocelular e, destes, nenhum precisou ser submetido a exame imuno-histoquímico para a confirmação diagnóstica ou determinação de linhagem histogênica. Esse valor confirma a condição de que os carcinomas espinocelulares são, na maioria das vezes, lesões que, nas suas formas bem diferenciadas e moderadamente diferenciadas, não apresentam dúvidas quanto ao seu diagnóstico histopatológico. Ainda nesta série, tivemos outras lesões de histogênese epitelial, sendo que, de sete casos, quatro foram submetidos a exame imuno-histoquímico. A literatura mundial não apresenta trabalhos comparativos do uso da imuno-histoquímico nas linfoadenopatias cervicais malignas, porém, encontramos relatos de avaliação apenas nas lesões pouco diferenciadas em linfonodos, com índices de concordância na confirmação diagnóstica de carcinomas com valores que variam de 27% a 54%6. O grande problema continua sendo no diagnóstico das neoplasias indiferenciadas presentes em 7,6% dos casos de câncer de cabeça e pescoço e encontrado, nesta casuística, em 3,1%6. Dessa forma, a imuno-histoquímica continua sendo método diagnóstico importante para os casos de carcinomas pouco diferenciados com o intuito de definição de linhagem histogênica7.

Neste levantamento, entretanto, encontramos maciço uso da imuno-histoquímica nos linfomas, correspondendo a 68,75% do seu uso. A classificação de linfomas no passado baseava-se apenas em suas características morfológicas observadas pelas colorações de rotina. Entretanto, a partir da década de 80, técnicas de imunotipagem começaram a ser usadas como consequência da mudança nos padrões de diagnósticos dos linfomas8. Diversas classificações para os linfomas foram surgindo baseadas nas técnicas e marcadores imuno-histoquímicos que foram surgindo. Assim, conseguiu-se melhor abordagem diagnóstica na diferenciação entre linfomas de Hodgkin, não Hodgkin B e T, bem como melhor subtipagem9.

Pela grande diversidade no curso clínico dos linfomas, sua adequada classificação notoriamente muda sua terapêutica e ocasiona efetivo impacto na sobrevida da doença. Assim sendo, nos dias atuais, é praticamente incabível que sua conclusão diagnóstica ocorra sem uma confirmação imuno-histoquímica. Na presente casuística, todos os linfomas foram submetidos a exame imuno-histoquímico, sendo a maioria diagnosticado como linfoma de grande células B, seguido pelo linfoma de Hodgkin em fase de esclerose nodular, fato esse que coincide com a literatura, em que o método foi incorporado para todos os casos de linfoma10.

Ainda nesta série, encontramos 12,5% dos casos compostos por hiperplasia linfoide reacional e nenhum deles submetido a exame imuno-histoquímico. A presença de lesões de caráter benigno pode ocasionar dúvidas diagnósticas e, nesses casos, pode ser necessária a utilização do método.

CONCLUSÃO

A imuno-histoquímica foi utilizada em 50% dos casos de biópsias de linfonodos suspeitos de malignidade; a utilização em lesões de linhagem epitelial ocorreu em 31,25% e para linhagem hematopoiética em 68,75% dos casos; a imuno-histoquímica foi utilizada em 100% dos casos de linfomas.

REFERÊNCIAS

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