Para além de um corpo transparente: investigando métodos e estratégias de esquadrinhar o sujeito homossexual

Para além de um corpo transparente: investigando métodos e estratégias de esquadrinhar o sujeito homossexual

Autores:

Joanalira Corpes Magalhães,
Paula Regina Costa Ribeiro

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.22 no.2 Rio de Janeiro abr./jun. 2015 Epub 19-Dez-2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702014005000024

ABSTRACT

The aims of the study are to look at methods and strategies used for analyzing people and classifying them as homosexual and to discuss how certain mechanisms which have been established have made it possible to look at their bodies and arrive at conclusions with regard to such persons. We analyze articles from Science Direct, using a Foucaultian approach. We observe the operation of two technologies: medical body imaging techniques and examinations. These techniques transform the individuals into parts of a strategic device which can be used to build up knowledge, produce files and data, and classify the subjects. The development of this research makes it possible for us to identify certain relationships between homosexuality, the production of scientific knowledge, prejudice, politics and health.

Key words: examination; homosexuality; scientific knowledge; medical imaging techniques

Visando investigar as condições de possibilidade que permitiram com que alguns discursos na história fossem produzidos acerca dos corpos e das sexualidades de alguns sujeitos, temos como objetivo neste artigo investigar, nos diversos campos de saber (psicologia, medicina, neurociência, psiquiatria, entre outros), os métodos e estratégias empregados para analisar como determinados sujeitos são classificados como homossexuais e discutir de que maneira alguns dos mecanismos criados, ao longo do tempo, possibilitaram olhar para os corpos desses sujeitos e, assim, construir "verdades" e significados sobre as formas utilizadas para defini-los.

Ancoradas na perspectiva foucaultiana, entendemos a verdade como "o conjunto de regras segundo as quais se distingue o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder" (Foucault, 2007a, p.13 ). A verdade está relacionada a sistemas de poder, que a produzem e apoiam, e a efeitos de poder que ela induz e que a reproduz. Essa ligação da verdade a sistemas de poder Foucault nomeou "regime" de verdade. Para o autor, cada sociedade tem seu "regime de verdade", ou seja, os tipos de discursos que admite e faz funcionar como verdadeiros, os mecanismos e as instâncias que distinguem os enunciados verdadeiros dos falsos, as diferentes técnicas e os procedimentos legitimados para produzir a verdade e o estatuto dos que têm como função ditar o que funciona como verdade.

Para a produção de "verdades" tendo como premissa a universalidade dos saberes, foi instituído o método científico,1 considerado a única maneira de produzir conhecimentos válidos no campo da ciência. Conforme Henning (2007, p.168) , esse método tinha dois balizadores, observar e experenciar, e "somente a partir dessas duas premissas era possível transformar informações em conhecimentos científicos. O que suportasse o teste do método científico era então considerado válido em qualquer parte do mundo, já que o princípio básico era a universalidade dos conhecimentos verdadeiros".

Na construção de conhecimentos "válidos", diferentes campos de saber vêm utilizando alguns métodos e estratégias para "estudar" os corpos dos sujeitos, sendo esses modos de investigação que analisaremos. Assim, temos como foco de análise artigos científicos disponíveis no banco de dados Science Direct relacionados aos corpos e à sexualidade reconhecida socialmente como desviante: a homossexualidade.

Desenvolver tal pesquisa nos possibilita fazer emergir algumas relações entre homossexualidade, produção de saberes científicos, religião, preconceito, políticas e saúde, tanto no âmbito das ciências médicas como no dos movimentos sociais. Na Idade Média, a relação afetivo-sexual entre pessoas do mesmo sexo era denominada sodomia, termo que emerge a partir da história bíblica que aponta terem as cidades de Sodoma e Gomorra sido destruídas porque nelas ocorriam relacionamentos homossexuais. Contudo, ao observarmos essas passagens bíblicas, verificamos que os pecados citados não contêm nenhuma palavra relacionada a sexo ou homossexualidade, apenas rebelião contra Deus, religião vazia, entre outros. Além de pecado, a homossexualidade também foi/é considerada um crime e, hoje, em alguns países islâmicos, essa identidade sexual é punida com a morte, condenando o sujeito a sofrer apedrejamento, enforcamento, decapitação, entre ouras formas de violência e óbito.

Durante certo período da história, a homossexualidade foi nomeada como uma doença e os/as homossexuais eram apontados/as como portadores/as de alguma patologia ou disfunção. Alguns campos de saber, como a psiquiatria, por exemplo, começam a produzir uma série de saberes e tratamentos para sua "cura". Na década de 1990 a homossexualidade é retirada da lista de doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS) e não pode mais ser tratada como algo a ser curado ou tratado em qualquer esfera social. Contudo, recentemente essa discussão de um tratamento para homossexualidade ganha destaque com a proposição de um projeto (PDC 234/2011), de autoria do deputado João Campos (PSDB-GO), que vem a promover a nomeada "Cura Gay". Aprovado na Comissão de Direitos Humanos sob a presidência do deputado e pastor Marco Feliciano - como João Campos, também da frente parlamentar evangélica -, o projeto trouxe à tona a questão da homossexualidade como uma patologia que poderia ser "tratada" por psicólogos/as. Nesse viés, seriam suspensos os artigos 3º e 4º da Resolução n.1/99 do Conselho Federal de Psicologia (CFP). A proposta da bancada evangélica pede a extinção da resolução que trata da postura desses/as profissionais em casos de pacientes homossexuais.

O que observamos ao revisitar alguns fatos históricos e contemporâneos é que a homossexualidade e os corpos dos sujeitos homossexuais foram sendo "descobertos", investigados, tratados, classificados e produzidos por meio de discursos das várias ordens - biológica, psicológica, médica, religiosa, social etc. Neste estudo, vamos nos deter no discurso biológico sobre a homossexualidade, buscando investigar os métodos e estratégias utilizadas para analisar os sujeitos e classificá-los como homossexuais.

Destacamos ainda que este trabalho constitui-se como um dos movimentos de pesquisa realizados na tese de doutorado intitulada Corpos transparentes, exames e outras tecnologias médicas: a produção de saberes sobre os sujeitos homossexuais (Magalhães, 2012), a qual tem como objetivo analisar a rede de enunciados que vem produzindo e instituindo "verdades" sobre a homossexualidade.2

Tecendo entendimentos acerca dos corpos e das sexualidades

O corpo, superfície de inscrição dos acontecimentos, como aponta Foucault (2007a), foi historicamente marcado, dissecado, esquadrinhado, visualizado e (re)descoberto a cada instante em que uma nova técnica de examiná-lo e explorá-lo foi produzida em nossa sociedade. Tornou-se cada vez mais intenso o processo de tornar visível o interior do corpo. Conforme Ortega (2008) , esse processo possibilitado pelas tecnologias de visualização precisa ser entendido dentro de uma transformação cultural e social, a qual desloca para a exterioridade o modelo internalista e intimista de construção e descrição de si. Trata-se de uma cultura que extinguiu as distinções entre interior-exterior, corpo-alma, essência-aparência, mentecérebro. Esse self somático, de acordo com Ortega (p.74), "busca se igualar, se conformar às normas de comportamento e estilos padronizados ... imagens ideais do corpo como a única maneira de escapar da tirania da aparência na cultura somática, na qual tudo está à mostra e os indivíduos não podem se esconder".

Pensar nesse modo de olhar para os corpos nos possibilita questionar que corpo é esse que está sendo visualizado: trata-se somente de um dado biológico ou somente de uma construção discursiva? Souza (2007) possibilita-nos pensar em uma materialidade humana que esteja imersa e constituída nas interações com as práticas discursivas que se encontram no meio social e histórico que as precedeu, nomeou e nomeia. Para a autora, "este ser - nomeado humano - desde que nasce é imerso em sistemas de significação produzidos nas práticas discursivas que, ao instituírem as marcas sociais ... que o nomeiam, definem e posicionam, dão-lhe um corpo-identidade ou, dito de outro modo, o tornam sujeito" (p.99).

Por esse viés, não estamos negando a materialidade biológica dos corpos, mas procurando pensá-la imbricada às práticas culturais e discursivas que nos ensinam os sentidos que passamos a atribuir aos corpos, aos sujeitos e a nós mesmos/as.

Conforme Laqueur (2001), ao longo dos séculos foram produzidos inúmeros trabalhos que buscavam, na matriz biológica dos corpos, fundamentar saberes sobre as condutas e os comportamentos de homens e mulheres. Nesse processo, através do discurso científico, primeiramente se instituiu um corpo isomórfico, considerando a mulher um "homem invertido". Entre os séculos XVIII e XIX, "a leitura dos corpos estava baseada na diferenciação radical entre os corpos-sexuados", e o dimorfismo propiciou "a emergência de novas subjetividades e de novas identidades coletivas" (Bento, 2006, p.116). Assim, "a linguagem científica é uma das mais refinadas tecnologias de produção de corpos-sexuados, à medida que realiza o ato de nomear, de batizar, de dar vida, como se estivesse realizando uma tarefa descritiva, neutra, naturalizando-se" (Laqueur, 2001, p.116).

Nessa história da produção de um discurso verdadeiro sobre o sexo, no século XIX, a sociedade ocidental constituiu uma scientia sexualis (Foucault, 2007b). Os procedimentos de confissão passaram a compor a formação regular do discurso científico e, para produzir verdade sobre o sexo, existia uma série de procedimentos que se ordenavam, "em função de uma forma de poder-saber ... que é a confissão" (Foucault, 2007b, p.66).

A sexualidade dos sujeitos passou a ser entendida como algo a ser interpretado, ou seja, para conhecer verdades sobre o sexo dos sujeitos não bastava olhar para os corpos, dever-se-ia fazê-los confessar não apenas o ato sexual, mas os pensamentos, as imagens, os desejos e os prazeres individuais. Esse fazer falar combina a confissão com o exame, ou seja, o processo de narrar-se se desenvolve "com um conjunto de sinais e sintomas decifráveis; o interrogatório cerrado, hipnose com a evocação das lembranças, as associações livres" são exemplos de alguns meios de posicionar a confissão dentro de um "campo de observações cientificamente aceitáveis" (Foucault, 2007b, p.74).

Nessa produção de saberes, foram sendo criadas, ao longo do tempo, novas estratégias explicativas que reiteram teses do determinismo biológico clássico. Esses discursos sugerem que, em certo momento do desenvolvimento dos indivíduos, ocorre o estabelecimento da identidade sexual.3 Entendemos as identidades sexuais como as diferentes maneiras de viver os prazeres e os desejos corporais, não sendo tomadas como essências ou inatas aos sujeitos, mas como social e historicamente construídas. Assim, não é possível fixar um momento em que as identidades sexuais sejam estabelecidas.

El-Hani et al. (1997) destacam que a história das investigações sobre as identidades sexuais foi marcada por tentativas de reduzir sua compreensão a um conjunto restrito de fatores causais. Sendo que os resultados da pesquisa biológica não fogem a essa regra, e dados que parecem indicar uma contribuição são, com frequência, interpretados no sentido de uma determinação biológica.

Nesse processo de construção de conhecimentos, percebemos que a heterossexualidade é concebida como inata, e a homossexualidade é entendida como "comportamento" que foge à regra natural, ou seja, anormal e, por isso, sua "origem" necessita ser desvelada.

Conforme Foucault (2007b), a homossexualidade surgiu como uma das figuras da sexualidade quando foi deslocada da prática da sodomia para uma espécie de hermafroditismo da alma. Para Nucci e Russo (2009), a ideia do "terceiro sexo", desenvolvida na metade do século XIX, foi uma das primeiras teorias científicas sobre a homossexualidade, em que o homossexual era visto como possuidor de uma alma feminina em um corpo masculino.

Nessa história de investigação do sujeito homossexual, Caponi (2007) aponta que duas modalidades diferentes destacaram-se na formulação das explicações biológicas de condutas consideradas "desviantes". A primeira foi representada pelos higienistas e alienistas do início do século XX - que centravam as explicações na hereditariedade -, e a segunda, pela neurobiologia, genética e sociobiologia, que surgiram a partir das últimas décadas do século XX e têm suas formulações baseadas em explicações químicas e neurobiológicas, em uma procura de genes específicos, focando no cérebro, nos feromônios e em entre outros aspectos da biologia dos indivíduos, que seriam a causa direta dos comportamentos denominados "desviantes". Os saberes produzidos por essas modalidades de investigação apontam a homossexualidade como fora do campo das expressões ditas legítimas da sexualidade humana, tornando-a "desvio", "anomalia", "vício" e "doença" (Sousa Filho, 2009).

A representação da homossexualidade como algo clínico, patológico surgiu no século XIX nas sociedades ocidentais. Foucault (2007b, p.50) argumenta que "a categoria psicológica, psiquiátrica e médica da homossexualidade constitui-se no dia em que foi caracterizada - o famoso artigo de Westphal, em 1870, sobre as 'sensações sexuais contrárias' pode servir de data natalícia". Nesse livro, a homossexualidade foi definida como um desvio sexual, possibilitando que os estudiosos da época e seus sucessores descobrissem o que "na anatomia ou na história familiar do 'doente' pôde provocar sua 'anomalia'". Dessa forma, a homossexualidade passou a ser combatida como doença, crime e vício, por um século (Sousa Filho, 2009, p.100).

Nesse processo, a definição da norma estava ligada à definição do que constituía a anormalidade, e o que observamos é que, no final do século XIX, a discussão dos termos heterossexual e homossexual apontava para um esforço de redefinir a norma. Com isso, não argumentamos que a heterossexualidade e a homossexualidade não existiam antes do século XIX. O que procuramos problematizar é o modo como as identidades sexuais foram sendo definidas e concebidas, considerando a heterossexualidade normal e a homossexualidade anomalia/patologia.

Em 1948, o zoólogo e sexólogo Alfred Kinsey realizou o primeiro estudo estatístico sobre a homossexualidade, que estabeleceu a Escala Kinsey. A pesquisa envolveu 17 mil participantes, e até hoje, devido aos dados produzidos, é considerada um dos maiores estudos do mundo relacionados ao "comportamento sexual humano" (Nunes, Ramos, 2008). Em 1985, Klein propôs a utilização da escala Ksog (Klein Sexual Orientation Grid), a qual seguia os mesmos princípios da escala de Kinsey, mas incluía novos aspectos. Tais estudos passaram a considerar a homossexualidade não mais doença, mas "orientação","comportamento".

Em 1973, a Associação dos Psiquiatras Americanos deixou de considerar a homossexualidade problema mental e a retirou da lista das doenças mentais. No entanto, apenas em 1991, a OMS excluiu a homossexualidade da lista de doenças. No Brasil, em 1985, o Conselho Federal de Medicina passou a não mais considerar a homossexualidade doença. Contudo, o Conselho Federal de Psicologia e outras entidades da área não se haviam manifestado com relação a esse assunto quando, em 1999, com a resolução 001, foram estabelecidas normas aos/às psicólogos/as quanto à atuação com relação às "orientações sexuais", não sendo mais permitida a colocação da homossexualidade como doença ou distúrbio. A partir daí, esses/as profissionais não poderiam trabalhar com propostas de seu tratamento e cura.

Contudo, percebemos que os sujeitos homossexuais e seus corpos não deixaram de ser algo que devesse ser esclarecido, investigado, visto que não correspondiam à norma heterossexual, estabelecida socialmente como natural. Conforme Sousa Filho (2009, p.104), "a homossexualidade como desvio, para cuja existência pesa uma causa específica (talvez variando conforme o caso), é o objeto das mais variadas fantasias... das crendices da opinião popular às dos consultórios médicos e dos divãs, passando pelos laboratórios universitários e de pesquisa".

Torna-se relevante tecermos algumas problematizações acerca dos métodos e estratégias utilizadas nas pesquisas atuais, a fim de discutirmos esse processo de produção de saberes sobre os sujeitos homossexuais. Para tanto, a seguir, apresentaremos algumas estratégias utilizadas neste estudo para a produção dos dados da pesquisa.

Sobre a produção dos dados e ferramentas de análise

Neste trabalho temos como foco de análise os estudos científicos, relacionados à homossexualidade, dos diferentes campos de saber (psicologia, biologia, medicina, neurociência, entre outros).

Para coleta dos artigos, realizou-se consulta no banco de dados Science Direct, disponível na plataforma de Periódicos Capes.4 Essa busca ocorreu durante o mês de dezembro de 2010. Utilizamos como palavra-chave homosexuality. No primeiro momento, obtivemos total de 6.395 textos. Desses, 6.006 eram referentes a artigos publicados em revistas; 479 eram livros; e 156 eram trabalhos referenciados em outros estudos. Para este estudo, utilizamos os que foram publicados em periódicos.

A fim de restringirmos os resultados, utilizamos dois filtros para a pesquisa, disponibilizados pelo próprio banco de dados: sex difference (23 artigos) e sex orientation (48 artigos). Foram analisados os artigos publicados entre 1995 e 2010 que mencionassem os métodos e estratégias utilizados para classificar os sujeitos como homossexuais. Dentro da comunidade científica, aponta-se que a partir de 1995 houve maior produção de dados adicionais relacionados às identidades sexuais (Rahman, Wilson, 2003 a), sendo essa a justificativa que corroborou nossa escolha por esse período de tempo. Essa maior produção de estudos sobre as identidades sexuais pode estar articulada a alguns fatores históricos relacionados aos movimentos de homossexuais. Nos anos 1990, a homossexualidade foi retirada da lista da OMS como uma disfunção mental, e o movimento homossexual adquiriu força em países do Oriente. Em 1995, o primeiro casal gay inter-racial selou sua união na África. Em 1997, o primeiro político gay, Harvey Milk, foi eleito para junta legislativa de São Francisco.

No Brasil, em 1995 foi fundada a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABLGT), em Curitiba, a maior entidade em defesa dos direitos LGBT da América Latina e ocorreu a primeira conferência da International Lesbian and Gay Association (Ilga), no Rio de Janeiro.

Com esse recorte, o corpus de análise deste trabalho constituiu-se de 21 artigos produzidos por pesquisadores/as de universidades dos seguintes países: Espanha, Holanda, Canadá, Reino Unido, Rússia, Japão, Estados Unidos e Áustria. Nessas universidades, esses/as pesquisadores/ as atuam nos departamentos e/ou institutos de: neurociência, antropologia, psicologia (a maioria dos artigos é produzida nesse campo de saber), medicina, histologia e embriologia, pediatria, ciências humanas, psiquiatria, neurobiologia, ciência da saúde, sociologia, biologia, biomedicina, patologia, estudos em educação e fisiologia.

Para discussão dos dados, utilizamos alguns pressupostos foucaultianos para fazer análise do discurso. De acordo com Rosa Fischer (2001) , pensar em realizar uma análise dos discursos, antes de tudo, é refutar aquelas explicações uniformes, de interpretações simplistas e fáceis, bem como não buscar o que está por detrás do que é dito, o que está nas entrelinhas. Nas análises dos artigos científicos e reportagens, na perspectiva de Foucault, vamos trabalhar sobre as coisas ditas, ficar no nível de existência das palavras.

A partir de tal análise, entendemos os discursos como conjuntos de acontecimentos discursivos, tendo como princípios reguladores: o acontecimento, a série, a regularidade e a condição de possibilidade. Dessa forma, estamos considerando o quanto os discursos controem as representação sociais e o quanto posicionam os sujeitos em meio a relações de poder (Fischer, 2002, p.86).

Ressaltamos que Foucault não delimita um método para fazer análise do discurso. O que ele nos possibilita são algumas pistas, colocando à nossa disposição uma caixa de ferramentas para operarmos de forma analítica, mas não podemos afirmar que tudo vale para fazer esse tipo de análise. É necessário rigor teórico ao utilizarmos as ferramentas analíticas de Foucault.

A partir dessas ferramentas foucaultianas, neste trabalho não direcionamos o olhar para os saberes produzidos sobre os sujeitos homossexuais, mas buscamos conhecer, na rede discursiva dos artigos científicos analisados, os métodos e estratégias empregados pelas diferentes ciências para esquadrinhar e investigar os corpos e as sexualidades dos sujeitos. A seguir, apresentamos as análises dos artigos em que emergiram métodos e estratégias a fim de classificar os sujeitos como homossexuais.

Métodos e estratégias para a produção dos saberes: corpos transparentes e exames

Percebemos que os estudos analisados empregaram, em suas formas de investigação, métodos e estratégias que focavam estruturas anatômicas e fisiológicas dos corpos dos sujeitos examinados, como genes, hormônios, cérebro, relação desses componentes corporais com fatores como ordem de nascimento na família, estrutura corporal (peso, altura, relação entre segundo e quarto dígitos da mão etc.), uso de fármacos durante a gravidez, entre outros.

Ao examinarmos as formas como os sujeitos homossexuais foram investigados, observamos a atuação de duas tecnologias: técnicas utilizadas para tornar os corpos cada vez mais transparentes e técnicas de exame, que passam a transformar o indivíduo em um caso.

Para apresentar os métodos e estratégias de cada artigo analisado, os dividiremos em duas categorias5 relacionadas às tecnologias empregadas para classificar os sujeitos quanto a sua identidade sexual. A categoria "corpos transparentes" apresenta os métodos empregados nos estudos que fazem uso dessa tecnologia de investigação dos corpos dos sujeitos. A categoria "exame" mostra as estratégias utilizadas para fazer funcionar essa tecnologia de investigação da vida dos sujeitos.

Corpos transparentes

Alguns estudos analisados (Swaab, Hofman, 1995 ; Rahman, Wilson, 2003b; Swaab et al., 2001; Swaab, 2007; Rahman, 2005a; Byne et al., 2001; Mas, Fumero, González-Mora, 1995) utilizam como técnicas de observação dos corpos ressonância magnética, tomografia e experimentos em espécies animais. Esses estudos têm como base a visualização de regiões do cérebro, como o hipotálamo de animais (ratos e ovelhas, por exemplo) e humanos. A seguir destacamos alguns excertos que mostram tais estratégias de investigação dos corpos empregadas em alguns artigos.

"A disponibilidade de tecnologias de neuroimagem permite uma série de hipóteses sobre a base do cérebro para a orientação sexual a ser avaliadas. Ressonância magnética estrutural poderia ser usada para examinar a estrutura e subdivisões do corpo caloso de homossexuais para determinar se a sua morfologia é o sexualmente atípica" (Rahman, Wilson, 2003b, p.1370).

"Enquanto modelos animais apontam para um papel dos andrógenos pré-natais na produção de variação sexual em regiões do hipotálamo (Morris et al., 2004), uma relação semelhante em seres humanos não está clara. ... No entanto, um modelo animal muitas vezes ignorado pelos cientistas pode fornecer alguma orientação. Alguns machos de certas espécies de ovelhas mostram uma preferência exclusiva pelo mesmo sexo..." (Rahman, 2005a, p.1602).

A necrópsia foi outra técnica a ser empregada na investigação dos corpos dos sujeitos. No estudo de Byne et al. (2001), o material de observação era derivado de autópsias e necrópsias dos cérebros de sujeitos heterossexuais e homossexuais. O estudo de Rahman e Wilson (2003b), também sugere o uso desse material.

"Alternativamente, os investigadores podem desejar mapear a distribuição de receptores de esteroides gonadais nas regiões do hipotálamo dos homossexuais e comparar isso com os heterossexuais. Modelos animais podem ser úteis nesse aspecto, mas os estudos devem ter como objetivo empregar cérebros humanos post-mortem" (Rahman, Wilson, 2003b, p.1370).

"O estudo mediu o Inah em fixação de Nissl em cortes coronais em material de autópsia de 34 homens presumidos heterossexuais (24 HIV2 e 10 HIV1), 34 mulheres presumidas heterossexuais (25 HIV2 e 9 HIV1), e 14 homens homossexuais (todos HIV1)" (Byne et al., 2001, p.86).

A observação da lateralidade foi empregada em alguns estudos dos artigos analisados (Blanchard et al., 2006; Bogaert, Blanchard, Crosthwait, 2007 ; Bogaert, 2007; Neave, Menaged, Weightman, 1999; Rahman, Wilson, 2003a; Rahman, 2005b). Para tanto, a lateralidade poderia ser: informada pelos/as participantes (por meio de questionário); medida por testes neuropsicológicos que incluíam um inventário sobre a lateralidade-padrão (juntamente com um questionário); ou ainda medida por uma versão modificada do Inventário de Edinburgh.6

"Preferência da mão foi avaliada pela pergunta: 'Você é destro ou canhoto?'" (Bogaert, Blanchard, Crosthwait, 2007, p.847).

"A medida de lateralidade era uma versão modificada do Inventário de Edinburgh (Oldfield, 1971), que pergunta sobre o uso de mão em dez atividades físicas (por exemplo, escrever, jogar bola, abrir uma tampa)" (Bogaert, 2007, p.142).

Os estudos que aplicaram o método de investigação dos hormônios (Neave, Menaged, Weightman, 1999; Rahman, Wilson, Abrahams, 2004) utilizaram a técnica de radioimunoensaio (RIA)7 - em amostras de saliva - e verificação da exposição pré-natal em níveis de esteroides sexuais.

"Após o término do estudo, as concentrações de T foram determinadas a partir de amostras de saliva" (Neave, Menaged, Weightman, 1999, p.249).

"O sexo psicológico (escore M/F) acrescentou uma quantidade pequena, mas significativa, de variação dos escores da rotação mental e de velocidade de percepção, ... mas itens relacionados a índices hormonais pré-natais, tais como relação entre segundo e quarto dedos, ordem de nascimento e sexo dos irmãos não adicionou nenhum poder preditivo independente" (Rahman, Wilson, Abrahams, 2004, p.867).

Medidas de estruturas corporais foram realizadas para investigar os corpos dos homossexuais. Para estudar a relação entre o segundo e quarto dígitos (2D:4D), as seguintes técnicas foram empregadas: fotocópias eletrostáticas das mãos; medidas realizadas diretamente nas mãos dos/ as participantes; digitalizações ou marca de tinta das mãos (Rahman, Wilson, Abrahams, 2004; Robinson, Manning, 2000; Rahman, 2005b; Rahman, Wilson, 2003a; Grimbos et al., 2010).

"Fotocópias eletrostáticas das mãos esquerda e direita dos indivíduos foram feitas. Foi pedido aos participantes que pusessem cada mão (em volta) de uma folha de acetato colocado na copiadora, com os dedos completamente estendidos" (Rahman, Wilson, 2003a, p.294).

"O comprimento do dedo foi medido diretamente das mãos (medida direta) ou de fotocópias, digitalizações, cópias ou tinta das mãos (medida indireta)" (Grimbos et al., 2010, p.280).

Aspectos como altura e peso dos/as participantes e/ou do pai e da mãe foram analisados em alguns estudos (Bogaert, 2003). Para tanto, essas questões eram informadas pelo/a participante. No estudo de Rahman (2005b), além de informar peso e altura ainda foram medidas a largura das orelhas, dos pulsos, dos tornozelos e pés, e o comprimento das orelhas e dos dedos.

"As medidas foram tomadas de nove locais bilaterais em todos os participantes diretamente do corpo: a largura das orelhas, pulsos, tornozelos e pés, e comprimento das orelhas e dos quatro dedos (excluindo o polegar), utilizando pinças digitais de medição para 0,01mm. Os 2º e 4º dedos (e todos os dedos) foram medidos da ponta do dedo para a articulação ventral proximal. ... Um pesquisador treinado (cego à orientação sexual) mediu todos os participantes duas vezes (a segunda medição imediatamente após a primeira)" (Rahman, 2005b, p.386).

Para realização dos estudos referentes à genética molecular destacou-se o mapeamento dos loci específicos responsáveis pela "orientação sexual", do estudo com gêmeos e da concordância dentro da família (por meio de seis relatórios) ou do estudo de genes específicos (Rahman, 2005a).

"As primeiras tentativas de mapear loci genéticos específicos responsáveis pela orientação sexual usando métodos de ligação da árvore genealógica levou à descoberta de marcadores na região cromossômica Xq28 (Hamer et al., 1993)" (Rahman, 2005a, p.1058).

O Teste Falométrico foi a técnica empregada no estudo de Blanchard et al. (2006). Esse é um método psicofisiológico para a avaliação de preferências eróticas em "machos humanos", conforme coloca o artigo. "Nesse procedimento, as mudanças no volume de sangue do pênis do homem são monitoradas enquanto ele experimenta um conjunto padrão pré-gravado de estímulos potencialmente eróticos" (Blanchard et al., 2006, p.407).

Exame

Para classificar os sujeitos pesquisados, a maioria dos artigos analisados empregou como método o uso de questionários e o exame de documentos clínicos e legais (Neave, Menaged, Weightman, 1999; Rahman, Wilson, Abrahams, 2004; Bogaert, 2003, 2007; Blanchard et al., 2006; Robinson, Manning, 2000; Bogaert, Friesen, 2002). Tais questionários continham perguntas relacionadas às preferências eróticas, histórias de comportamentos sexuais criminosos ou não, documentos clínicos e legais, dados da família, identidades de parceiros/as sexuais (homens ou mulheres), atração sexual, com indicação de número de parceiros/as com que manteve relações sexuais e com que frequência.

"A orientação sexual foi determinada por autorrelato a partir de um questionário parcialmente derivado da Escala Sell de Orientação Sexual" (Neave, Menaged, Weightman, 1999, p.248).

"Participantes foram convidados a preencher um questionário com seis itens: 1 seus parceiros sexuais no passado têm sido homens; 2 episódios sexuais deste ano foram com homens; 3 quando fantasia sozinho, pensa em homens; 4 quando fantasia durante sexo, pensa em homens; 5 as pessoas que considera atraentes são homens; e 6 aqueles com quem tenta/tentou conversar são homens" (Robinson, Manning, 2000, p.336).

Alguns estudos analisados utilizaram dados disponíveis nos arquivos do Kinsey Institute for Sex Research, ou, para "classificar" os sujeitos quanto à "orientação sexual", empregaram a escala Kinsey, modificada ou não (Rahman, Wilson, Abrahams, 2004; Bogaert, 1997; Bogaert, Blanchard, Crosthwait, 2007; Hershberger, Bogaert, 2005; Rahman, 2005b; Rahman, Wilson, 2003a; Grimbos et al., 2010).

"17.502 relatos de caso tomados entre 1938-1963 estão incluídos nos bancos de dados informatizados do Instituto Kinsey para pesquisa sobre Sexo, Gênero e Reprodução" (Bogaert, Blanchard, Crosthwait, 2007, p.847).

"A orientação sexual foi avaliada usando uma escala Kinsey modificada, derivada de Coleman (1987). Isso envolveu responder a perguntas sobre autoidentificação, sobre atração romântica/sexual, fantasias românticas/sexuais e comportamento sexual em uma escala de sete pontos" (Rahman, Wilson, 2003a, p.293).

Em alguns trabalhos, um dos itens analisados era a "identificação do papel erótico" dos/as participantes. Para tanto, foi-lhes solicitado que respondessem se pensavam em si como "macho"/ativo ou "fêmea"/passiva (Rahman, Wilson, Abrahams, 2004; Rahman, Wilson, 2003a). No estudo de Rahman e Wilson (2003a), a pergunta era feita somente aos/às homossexuais: "Apenas indivíduos homossexuais completaram esse ensaio. Foram convidados a responder a duas afirmações: 'Eu me vejo principalmente como ativa ou ativo' e 'Eu me vejo principalmente como passiva ou passivo'" (Rahman, Wilson, 2003a, p.294).

Para avaliação do "sexo psicológico" (masculino/feminino) dos/as participantes, um dos artigos utilizou a escala Eysenck Personality Profiler (EPP), composta por itens que mostrariam o máximo de separação típica entre homens e mulheres (Rahman, Wilson, Abrahams, 2004). "Os indivíduos completaram uma subescala de vinte itens ('masculinidade-feminilidade') do Formulário de Personalidade de Eysenck (EPP) (Eysenck et al., 1996). ... É composto por itens que, empiricamente, mostram o máximo de separação entre homens e mulheres típicas, que vão desde a preocupação com insetos que rastejam, tolerância a obscenidades, interesse por crianças e roupas e vontade de expressar emoções (por exemplo, chorar publicamente)" (Rahman, Wilson, Abrahams, 2004, p.870).

Alguns dos artigos analisados tinham como proposta investigar a genealogia da família como forma de determinar a homossexualidade (Rahman, Wilson, Abrahams, 2004; Bogaert, 2003). Assim, procuravam saber alguns dados, como: número de irmãos/ãs, irmãos/ãs biológicos/as e não biológicos/as e situação socioeconômica dos pais. "A ordem de nascimento foi derivada a partir do número de irmãos mais velhos, irmãs mais velhas, irmãos mais novos, e irmãs mais novas dos entrevistados. ... Também foram avaliados: idade, ano de nascimento, idade dos pais biológicos no nascimento do entrevistado, o número de irmãos e irmãs, e status socioeconômico dos pais" (Bogaert, 2007, p.1395-1396).

Para classificar a "orientação sexual" dos sujeitos, Rule e Ambady (2008) empregaram a técnica de reconhecimento da face, ou seja, por períodos de tempo diferentes eram apresentadas imagens às participantes (somente mulheres), que deveriam dizer qual a "orientação sexual" da pessoa mostrada. "Participantes fizeram julgamentos baseados em rostos vistos por pelo menos 33 min, 50 min, 100 min, 6.500 min, 10.000 min, ou em seu ritmo próprio (isto é, as fotos eram apresentadas até que o participante pressionasse uma tecla de resposta). As participantes foram informadas de que veriam rostos de homens na tela do computador e que seriam convidadas a classificá-los, por cliques, em gays ou heteros" (p.1101).

Tecendo algumas análises

Na busca de tornar os corpos cada vez mais transparentes e, assim, produzir saberes sobre os sujeitos, são empregadas tecnologias de imageamento (ressonância magnética, tomografia), necrópsia como formas de investigação, quantificação dos índices hormonais, mapeamento dos genes, estudo da anatomia e fisiologia cerebral, lateralidade, relação dos dígitos das mãos, entre outros. Além disso, partes do corpo são medidas e esquadrinhadas (dedos, altura, membros etc.). Observou-se também que, além do corpo humano, os corpos das outras espécies de animais, como, por exemplo, ratos e ovelhas, também são colocados como possibilidades de comprovações para demarcar e explicar "comportamentos" ditos humanos.

Ao revisitarmos alguns pontos da história das tecnologias que possibilitaram tornar visível o interior do corpo, podemos perceber que, em nossa cultura, conhecer o interior do corpo e conhecer a si mesmo/a coexistem há muito tempo. Durante os séculos XVI e XVII, o chamado século visceral, a abertura dos corpos foi fundamental para produção dos conhecimentos, entendendo-se que o interior do corpo estava envolvido na produção da interioridade mental e espiritual. Alguns autores veem nessa tradição anatômica e na história da visualização médica do corpo um retrocesso da experiência subjetiva do corpo, a qual encontra seu modelo ideal no corpo-máquina ou no corpo-cadáver, dissociado do eu pensante (Ortega, 2008). As marcas dessa história podem ser percebidas nas dissecações realizadas em alguns dos estudos atuais, com a investigação de cérebros de cadáveres.

Na história da medicina ocidental, podemos evidenciar o largo interesse dessa ciência pelo interior dos corpos. Conforme Foucault (2006), a fundamental rachadura nessa história ocorreu no final do século XVIII, em que o olhar médico precisou investigar a profundidade dos tecidos. Nesse processo, as tecnologias visuais criadas foram adotadas pelas demais ciências, o que possibilitou reconfigurar o corpo, tanto em termos médicos quanto na cultura em geral.

No século XIX, a metáfora anatômica encontra-se presente na fisiognomia e na frenologia. Para ambas, existia a crença de que na superfície do corpo, especialmente na cabeça e no rosto, estavam presentes os signos externos do caráter, instigando-nos a observar o exterior para alcançar o interior. Nos artigos analisados, a identificação de traços na face dos sujeitos é apontada como forma de classificação das identidades sexuais. Assim, o corpo passa a ser reduzido a alguns fragmentos dissociados de seus contextos (Ortega, 2008).

No fim desse século, a decoberta dos raios-X por Roentgen, em 1895, contribuiu para novas configurações, tanto do olhar como dos conceitos sobre os corpos (Chazan, 2003). Conforme Ortega (2006, p.92), nessa cultura "de demarcações claras e precisas entre interior e exterior, essência e aparência, visível e invisível, público e privado, as imagens de raios-X contribuíram para apagar distinções sociais e morais, e a própria ideia de privacidade e intimidade começou a mudar".

Nas últimas décadas do século XX, foram diversas as tecnologias de imagem médica inventadas. A tomografia computadorizada, a ressonância magnética e os PET-scanners dão a ideia de que, para se obter uma imagem mais fidedigna ou natural do corpo, os dados precisam passar por um algoritmo computacional notavelmente complexo. Contudo, a imagem dita mais real do corpo é, simultaneamente, a mais artificial (Chazan, 2003). O que podemos observar é que, na atualidade, "as modernas tecnologias de imageamento do corpo têm popularizado e difundido as imagens de fragmentos" destacados do corpo e dissociados do organismo ao qual pertencem, "continuando uma tendência iniciada nas imagens fisiognômicas e frenológicas" do século XIX (Ortega, 2008, p.111). No caso deste estudo, alguns artigos analisados focam imagens cerebrais para definir a homossexualidade ou heterossexualidade, sendo esse órgão apontado como a "origem" dessas identidades.

Ao examinarmos alguns pontos da história das técnicas e dos procedimentos construídos para possibilitar a visualização e a produção de conhecimentos sobre o corpo, desde as dissecações até as novas tecnologias, não estamos argumentando que tais tecnologias foram construídas, inicialmente, com o objetivo de classificar e definir identidades sexuais e sociais. O advento dessas técnicas surge como forma de atender às necessidades relacionadas aos campos de saber como a medicina, resolver os problemas de saúde da sociedade, bem como possibilitar que sejam aprofundados os estudos e entendimentos acerca dos corpos e de suas enfermidades, entre outras questões.

Conforme observamos nos artigos analisados neste estudo, ao olhar para o interior do corpo, ao torná-lo cada vez mais transparente, são construídas verdades sobre os sujeitos a partir dos discursos produzidos sobre seu cérebro, seus genes, seus hormônios, ou seja, sobre cada componente de sua materialidade biológica.

Tratando-se de investigações sobre os/as homossexuais, são produzidas questões no sentido de construir modos de classificar sujeitos por meio de marcadores presentes em seus corpos. Tais estudos reforçam uma espécie de "naturalização" da sexualidade humana. Conforme Sousa Filho (2009), seu principal efeito é a criação da ideia de que a heterossexualidade seria inata, sendo assim normal, ao passo que a homossexualidade seria algo adquirido, não sendo nem normal nem da natureza de homens e mulheres.

Podemos evidenciar esse processo de naturalização da sexualidade nas pesquisas analisadas a partir do momento em que a maioria delas institui como controle um grupo de sujeitos heterossexuais.

Tal processo de classificação dos sujeitos e determinação da homossexualidade como desvio da população "normal" - heterossexual - nos possibilita problematizar o quanto as categorias de avaliação de sujeitos e grupos cumprem a função de definir a "normalidade" e "superioridade" de uns e o desvio da "normalidade" e a "inferioridade" de outros (Velho, 1990). Para o autor, o sentido de desvio implica a existência de um comportamento médio ou ideal que expressaria uma harmonia com as exigências das normas sociais. Esse entendimento é realçado pela comparação entre pessoas predefinidas socialmente como saudáveis, "não existindo desviantes, mas sim uma relação entre atores que acusam outros atores de estarem consciente ou inconscientemente quebrando, com o seu comportamento, limites e valores socioculturais" (p.139).

As afirmações de Velho (1990) são importantes não somente por problematizar as definições e classificações de sujeitos ou grupos desviantes, como também por questionar planos e metas de controle social. A ideia de desvio e a naturalização dos limites aos desviantes operam em vários sentidos, da sociedade ao indivíduo e do indivíduo à sociedade. Uma sociedade normalizadora é o efeito histórico de uma tecnologia de poder normatizadora centrada na vida. Normas ou códigos são aplicados de forma sutil, de modo a tornar aceitáveis saberes essencialmente normatizadores, como, por exemplo, aqueles produzidos nos discursos das ciências sobre a sexualidade dos sujeitos.

Destacamos o quanto, em alguns desses estudos, ocorre o entrelaçamento das identidades sexuais e de gênero, ou seja, o quanto alguns atributos socialmente construídos como femininos ou como masculinos passam a ser utilizados para caracterizar as identidades sexuais dos sujeitos. Em uma das pesquisas analisadas (Rahman, Wilson, Abrahams, 2004), percebe-se esse entrelaçamento em um dos critérios intitulado "sexo psicológico (masculino/feminino)", em que os/as participantes deveriam apontar itens como medo de insetos rastejantes, interesse por crianças e roupas, se chora ou não em público, entre outras questões dadas como atributos típicos dos gêneros.

Esse método de investigação possibilita-nos perceber marcas do passado, dos primeiros estudos sobre a homossexualidade, em que se apontava a ideia do "terceiro sexo" , ou seja, sujeitos masculinos com "essência" feminina. Ceccarelli e Franco (2010, p.126; destaque no original) comentam que "o homossexual, num primeiro momento, era visto como um efeminado", sendo "isolado e vigiado como se fosse uma mulher, pois, acreditava-se que o homossexual, assim como a mulher, eram seres pecaminosos que poderiam seduzir outras pessoas para o 'mau caminho'".

Verificamos, nessa produção de saberes sobre a sexualidade dos sujeitos, que as estratégias que tornam os corpos transparentes não atuam sozinhas; engendradas a elas encontram-se as tecnologias do exame, estabelecendo sobre os indivíduos "uma visibilidade através da qual eles são diferenciados e sancionados" (Foucault, 2009, p.177). Para isso, esses corpos foram medidos em termos quantitativos e hierarquizados no que diz respeito à valorização de capacidades e de sua "natureza". O indivíduo passa a ser transformado em um caso, como coloca Foucault (p.183), "tal como pode ser descrito, mensurado, medido e comparado a outro e isso em sua própria individualidade". Tal tecnologia emerge no contexto do poder disciplinar, o qual se utiliza de instrumentos como "o olhar hierárquico, a sanção normalizadora e sua combinação num procedimento que lhe é específico, o exame" (p.164).

Para operar, essa tecnologia coloca em funcionamento determinados rituais, procedimentos, métodos, estratégias de documentação - conforme os artigos que analisamos, podemos citar o ritual da confissão dos desejos, experiências e preferências, o uso de questionários de autoidentificação, a produção de relatórios como o Kinsey, a análise de documentos clínicos e legais, investigação da família etc. -, num processo de "fixação ao mesmo tempo ritual e 'científica' das diferenças individuais, como aposição de cada um à sua própria singularidade" e, dessa forma, "o exame está no centro dos processos que constituem o indivíduo como efeito e objeto de poder, como efeito e objeto de saber" (Foucault, 2009, p.183; destaque no original).

Evidenciamos essa tecnologia em ação nas pesquisas analisadas no momento em que os sujeitos homossexuais são direcionados a confessar seus desejos, pensamentos, sonhos, fantasias, experiências, entre outros aspectos relacionados a sua vida, a sua infância e a sua adolescência. Os sujeitos homossexuais - vistos como aqueles/as que sempre teriam uma sexualidade a ser desvelada, esclarecida e investigada, tanto por eles/as quanto pelos outros - devem confessar sua sexualidade, pois essa não corresponde à normalidade sexual esperada, ou seja, a heterossexualidade.

Os saberes produzidos por esses diferentes campos de saber (biologia, medicina, psicologia, entre outros) a partir desses métodos e estratégias de investigação dos corpos e das sexualidades estudam "amostras" locais de sujeitos para construir discursos que passam a ser tomados e legitimados como universais. Para tais estudos, todos os sujeitos, independentemente de questões culturais e sociais, que corresponderem ao esperado no processo de "classificação" da identidade sexual, serão "enquadrados" de acordo com que é estabelecido cientificamente para a heterossexualidade, a homossexualidade e a bissexualidade.

Nesse processo de investigação, a tecnologia do exame possibilita à individualidade entrar no campo do documentário. Para Foucault (2009, p.181), o colocar os indivíduos num campo de vigilância "situa-os igualmente numa rede de anotações escritas; compromete-os em toda uma quantidade de documentos que os captam e os fixam". Dessa forma, ocorre uma espécie de homogeneização dos aspectos individuais que são estabelecidos pelos procedimentos do exame, constituindo o indivíduo como um objeto descritível, analisável e classificável, pois o reduz a traços específicos "como fazem os naturalistas a respeito dos seres vivos" (p.182). Além disso, compõe-se um sistema de comparação, o qual possibilita medir fenômenos em âmbito global, "a descrição de grupos, caracterização de fatos coletivos, a estimativa dos desvios dos indivíduos entre si, sua distribuição numa 'população'" (p.182; destaque no original).

Como exemplo dessa produção de documentos possibilitada pelo exame, destacamos o Relatório Kinsey. O que podemos perceber, em nossas análises, é que a maioria das pesquisas para categorizar os sujeitos quanto à "orientação sexual" utilizar a escala de Kinsey, modificada ou não, bem como alguns dos estudiosos utilizaram-se, nas suas investigações, dos dados já produzidos e que se encontram disponíveis no banco de dados do Instituto Kinsey. Conforme Sena, Lago e Grossi (2010), a formulação de relatórios sobre a sexualidade, como o Kinsey, mostrou "novas" possibilidades para a produção de explicações relacionadas à sexualidade dos sujeitos, pois tais técnicas consideradas formas discursivas de saber, por meio de questionários, enquetes, entrevistas, entre outras, permitiram descrever "verdades" sobre os corpos, os desejos e as fantasias sexuais. "São verdades produzidas historicamente, a partir das contribuições de diversas ciências, como inúmeros 'especialistas' a legitimarem as informações distribuídas e divulgadas através de várias formas discursivas. O instrumento da confissão sexual produziu uma forma de sexualidade verdadeira, através dos livros científicos: os relatórios" (p.238; destaque no original).

Característica de nossa cultura ocidental, essa vontade de saber "a" verdade sobre nós mesmos/as, incita-nos a falar a "verdade". Nesse processo, "as confissões que se sucedem, confissões que fazemos aos outros e a nós mesmos, e esta colocação em discurso" coloca em ação "um conjunto de relações de poder entre aqueles que afirmam ser capazes de extrair a verdade destas confissões através da posse de chaves de interpretação" (Dreyfus, Rabinow, 1995, p.192). No caso dos estudos analisados, cientistas e especialistas dos diferentes campos de saber, pelo uso de técnicas e métodos que obedecem aos critérios de cientificidade, acabam tornando-se as vozes autorizadas a "extrair" e a produzir verdades sobre esses sujeitos.

Considerações finais

Nesse processo de investigação dos corpos e das sexualidades, as ciências engendram as mais diversas estratégias, tecnologias médicas de visualização e exame, para produção de saberes sobre os sujeitos, sendo essa produção legitimada por técnicas historicamente entendidas como as mais adequadas e necessárias. Esses saberes instituem-se como explicações "verdadeiras" para as diferentes formas de viver os prazeres e desejos corporais, reiterando, de alguma forma, as teses do determinismo biológico. Assim como o homossexual do século XIX, os sujeitos homossexuais ainda constituem-se como aquelas personagens que devem confessar sua história, seu passado, sua forma de vida, bem como possuir uma morfologia, anatomia e fisiologia indiscretas e misteriosas. Conforme Foucault (2007b, p.50), "nada daquilo que ele é, no fim das contas, escapa à sua sexualidade", estando ela presente nas suas condutas, inscrita em sua face e em seu corpo "já que é um segredo que se trai sempre".

Um jogo de relações é estabelecido entre os diversos campos de saber (neurociência, psiquiatria, endocrinologia, entre outros), a produção de saberes, as tecnologias de visualização dos corpos, a tecnologia do exame, instâncias sociais (família, religião etc.), a reiteração de normas sociais, em resumo, o que pudemos observar com este estudo foi um conjunto de técnicas e estratégias, construídas e estabelecidas historicamente, que caracterizam e possibilitam a formação de enunciados sobre as sexualidades. Nas enunciações analisadas neste artigo, evidenciamos uma formação marcada pelo status científico, de "verdade", pois essa produção segue as regras que a legitimam como tal: métodos, espaços e sujeitos autorizados.

Investigar tais metodologias empregadas nas pesquisas analisadas possibilitou-nos entender o quanto questões relacionadas aos modos de viver e entender as sexualidades ainda se encontram atreladas à materialidade biológica dos corpos. Tais estudos julgam necessário esquadrinhar, medir, mensurar e classificar partes e componentes dos corpos (cérebro, genes, hormônios, dedos, orelhas etc.), bem como investigar a vida dos sujeitos (desejos e experiências, família, pensamentos, condutas etc.) a fim de classificar e nomear aqueles modos de viver a sexualidade que não correspondem à norma entendida como a "natural". Para esses estudos científicos, os/as homossexuais devem ter seus corpos tornados cada vez mais transparentes, bem como devem, constantemente, confessar-se a fim de possibilitar a produção de "verdade" e, dessa forma, conhecer a si mesmos/as.

Conforme Chazan e Rabinow (1995, p.192), a expansão de métodos da ciência possibilitou que os indivíduos se tornassem objetos "de conhecimento para si mesmo e para os outros, um objeto que fala a verdade sobre si mesmo, a fim de conhecer e ser conhecido; um objeto que aprende a operar transformações em si mesmo. Essas são as técnicas que ligam o discurso científico às tecnologias do eu".

Vimos operar a crença de que, para que essa tecnologia do eu (Foucault, 1991), as maneiras e os trajetos com que cada um se torna o sujeito que é - aconteça efetivamente - é preciso falar a verdade sobre si mesmo/a por meio do auxílio de especialistas. As tecnologias de visualização dos corpos possibilitam que esses sejam dissecados pelo olhar, produzindo saberes sobre cada sujeito. Para Chazan (2003, p.202), essa transparência do corpo, entre outras finalidades, responde "também pela manutenção de uma determinada ordem social, através da vigilância sobre o interior dos corpos". Essas imagens produzidas, aliadas aos desejos, às emoções, às vivências e aos prazeres confessados, vão construindo, no contexto dos estudos analisados, o que pode ser dito sobre os sujeitos e suas sexualidades, bem como procuram mostrar, através das mesmas, a subjetividade desses sujeitos.

Este trabalho não teve como problema fazer a divisão de qual método ou estratégia é certo ou errado, mais ou menos legítimo no processo de produção dos conhecimentos, mas, sim, perceber historicamente as condições de possibilidade e as políticas de produção de "verdades" sobre os sujeitos homossexuais. Por esse viés, entendemos que - conforme anuncia Foucault (2007b) - a homossexualidade não é simplesmente uma atividade sexual e/ou uma ocupação do corpo, mas, sobretudo, é discurso, investigação, conhecimento, criação de significados, troca simbólica, enfim, herdeira legítima da vontade de saber.

Problematizar a homossexualidade como uma construção dentro dessa complexa rede de saberes da ordem biológica, religiosa, médica, entre outras, possibilita-nos problematizar as formas pelas quais vão sendo produzidos ensinamentos, valores e representações sobre essa identidade sexual e os sujeitos homossexuais no interior de uma cultura, em um determinado tempo histórico. Ora um crime, ora uma patologia ou um desvio na curva de normalidade da população, a homossexualidade é alvo de uma tecnologia política de poder normatizadora que está centrada na vida. Os saberes científicos construídos sobre a sexualidade dos sujeitos homossexuais passam a constituir o discurso biológico acerca da homossexualidade, como uma estratégia de controle da população. Esse poder, que se aplica sobre a vida, que Foucault (1999) nomeou biopolítica, dirige-se à população em geral, implantando mecanismos que permitem previsões, estatísticas e medições globais. Assim, esses saberes produzidos e divulgados estabelecem marcas corporais em torno de essências biológicas; fixam características e atributos predeterminados, os quais funcionam como causas da homossexualidade na população.

Esperamos que os resultados e as discussões tecidas nessa pesquisa apresentem dados à comunidade científica, acadêmica e aos movimentos homossexuais sobre as questões relacionadas aos saberes científicos, às políticas e construções sociais relativas à homossexualidade e ao preconceito contra esse sujeitos. A análise e as considerações dos dados obtidos possibilitam formular propostas que visem contribuir para uma sociedade não homofóbica e menos sexista.

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