Participação, integração e sustentabilidade no controle da dengue: um olhar da ecossaúde

Participação, integração e sustentabilidade no controle da dengue: um olhar da ecossaúde

Autores:

Ana Carolina Rocha Peixoto

ARTIGO ORIGINAL

Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão impressa ISSN 1414-3283versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.19 no.52 Botucatu jan./mar. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622014.0541

As diretrizes nacionais para o controle da Dengue, vigentes há 12 anos, seguem uma lógica de planejamento verticalizado, com práticas de controle químico predominante e discreta participação social. Entretanto, a reincidência da doença no país é preocupante, exigindo novas formas de agir no controle à proliferação do seu vetor transmissor, Aedes aegypti. A partir dos anos setenta, aflorou, nas Américas, a discussão sobre o uso da abordagem Ecossaúde no cenário das doenças transmitidas por vetores, reconhecendo-se o seu potencial para equilibrar a relação saúde-ambiente. Esta proposta de intervenção no controle e prevenção da dengue foi concretizada em dez quarteirões do município de Fortaleza, Ceará, Brasil, após o desenvolvimento do “Estudo Multicêntrico Ecobiossocial sobre Dengue e Doença de Chagas na América Latina e no Caribe”, financiado por UNICEF/IDRC & UNDP/World Bank/WHO Special Programme for Research & Training in Tropical Diseases (TDR) nos anos de 2010-2013. O presente estudo se propôs a analisar estratégias de controle da dengue baseadas em práticas participativas, integradas e sustentáveis, subsidiadas pelos princípios da abordagem Ecossaúde. Trata-se de estudo qualitativo, realizado em cinco agregados do município de Fortaleza, situados em bairros geograficamente distintos e heterogêneos quanto aos aspectos sociais, ecológicos e assistenciais. Adotaram-se duas técnicas de coleta de dados: 1) Grupo focal com seis agentes de controle de endemias envolvidos no desenvolvimento do modelo, realizado em maio de 2013; 2) Análise documental de 67 diários de campo produzidos pelos pesquisadores e compilados por cinco cientistas sociais, no período de junho de 2012 a abril de 2013. Analisaram-se as informações coletadas, segundo os temas: Tema 1: A realidade observada: da reflexão do problema à ação; Tema 2: Uma releitura das ações de controle da dengue na ótica dos princípios da abordagem Ecossaúde; Tema 3: Aspectos que assemelham e diferenciam o Programa Nacional de Controle da Dengue do modelo de práticas integradas, participativas e sustentáveis subsidiado na abordagem Ecossaúde: uma análise crítica e reflexiva. A intervenção apontou caminhos já conhecidos pelos serviços públicos de saúde: o Zoneamento, ferramenta de organização e planejamento, que há mais de 14 anos não era adotado pela Secretaria de Saúde do Município de Fortaleza, apontou transformações nas relações, construção e fortalecimentos de laços de confiança e valorização do trabalho dos agentes de endemias; o Diálogo ampliou a compreensão da realidade por parte de todos os atores sociais envolvidos no estudo, propiciando a partilha de experiências, saberes, sentimentos e desejos. O estudo demonstrou que os princípios do enfoque Ecossaúde, entre seus muitos desdobramentos, despertam o interesse pelas ações sustentáveis no controle e na prevenção da dengue. Ao possibilitar o envolvimento de diferentes atores sociais no cuidado com a saúde humana e ambiental, repercute na quebra da cadeia de proliferação do Aedes aegypti. Nada novo foi criado, apenas foi proposto reler, reconstruir e repensar as estratégias tradicionais, a partir de um olhar diferenciado.

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