Percepção da voz em professoras: narrativas de vida entre os espaços do trabalho e do coro cênico

Percepção da voz em professoras: narrativas de vida entre os espaços do trabalho e do coro cênico

Autores:

Eliane Selma do Valle Blanco,
Jaquelina Maria Imbrizi

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.31 no.2 São Paulo 2019 Epub 25-Abr-2019

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20182018200

INTRODUÇÃO

Durante a efervescência política, cultural e musical das décadas de 1960 e 1970 que a cidade de Santos (SP) vivenciava, surgiram vários grupos musicais e o Festival Música Nova, destacando-se um coro que é referência para a maioria dos cantores e músicos brasileiros até os dias de hoje. Esse grupo, criado em 1961, chama-se “Madrigal Ars Viva”, um conjunto vocal que também se transformou em um grande laboratório para compositores, maestros e professores(1). A participação nesse coro influenciou Iva Passos, musicista, professora, regente e diretora artística, a criar, em 2005, o “Coro Cênico Céu da Boca”, composto por professoras da Educação Infantil da Secretaria de Educação de Santos.

As coralistas do “Céu da Boca” usam a voz como ferramenta tanto no exercício de sua profissão quanto para manifestações artísticas, por exemplo, o canto. É importante ressaltar o fato de que a vida dessas professoras vai além de sua atuação em sala de aula e do uso de sua voz como instrumento da profissão: elas vivenciam experiências com arte dentro ou fora do ambiente profissional e utilizam a voz também como modo de aproximação da arte musical.

Na revisão de literatura sobre a existência de outros coros cênicos de professoras da Educação Infantil em atividade profissional, não foi encontrado nenhum coro ou coro cênico com essas características; portanto, cabe ressaltar a singularidade, o inusitado e a importância dessa manifestação artística e cultural na cidade de Santos e no Brasil.

Em uma busca mais ampla na literatura, foram localizadas quatro produções científicas que se referem aos aspectos investigados nesta pesquisa, ou seja, os efeitos do canto coral na saúde vocal, nos cuidados de si e nos modos de vida dos integrantes de coros. O primeiro estudo discute as ações do coro (com professores) do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Acre, que reforçam e validam a ideia de construção da saúde, inclusive a vocal, e da cidadania por meio da prática do canto em grupo(2).

A segunda produção científica se refere à influência do canto coral na qualidade de vida em usuários do serviço público de saúde(3), o terceiro estudo os efeitos do canto coral em um grupo de coralistas idosas(4) e o quarto trabalho relata a experiência do“Coro Cênico Cidadãos Cantantes”, composto por profissionais e pacientes de um equipamento de saúde mental da rede pública, na cidade de São Paulo(5).

É possível afirmar que apesar dos avanços nas investigações na área de Fonoaudiologia dirigidas à saúde das professoras, não foram encontrados trabalhos focados nos aspectos subjetivos, como as percepções e experiências das docentes acerca do tema voz/saúde vocal relacionado ao canto coral. A despeito disso, destacam-se Poéticas e marginalidade: experiência no Projeto Cidadãos Cantantes(6) e o já mencionado O coral cênico Cidadãos Cantantes: um espaço entre a música e a saúde(5).

Essas publicações referem-se a uma experimentação na interface entre canto coral, arte e saúde na contemporaneidade, a partir de uma experiência de canto coletivo em equipamento voltado para a saúde mental(5). Para os autores, a prática do canto coral restabelece o sentido da arte como uma particularidade humana capaz de transformar atitudes, lugares de saber e de existência e, por consequência, capaz de alterar o modo de vida. O coral tem como finalidade o desenvolvimento da habilidade da comunicação, favorecendo o estabelecimento de recursos singulares e coletivos de criatividade, autoconfiança, autonomia e solidariedade. O coro ainda se coloca como um espaço de produção e acesso à cultura, atenção e cuidado para um público diverso(5).

Neste contexto, o presente artigo aborda a produção de conhecimentos na área de Fonoaudiologia, relacionados a alguns aspectos pouco valorizados nas pesquisas sobre voz, buscando compreender como as coralistas atribuem significados a sua experiência cotidiana e como percebem o cuidado de si. O objetivo deste artigo é investigar a percepção do uso da voz como ferramenta de trabalho e instrumento de expressão de arte, num coro de professoras da Educação Infantil. Trata-se de uma pesquisa de mestrado na qual foram abordados temas como as significações da voz para elas, a percepção que elas têm do processo saúde/doença/cuidado da voz, a música, o canto em suas vidas, o contato com a arte e suas atuações profissionais.

Nesse sentido, arte, saúde e sociedade foram articuladas com vistas a favorecer a produção de conhecimentos sobre as percepções que professoras e coralistas têm a respeito de sua voz e do uso dela, da saúde vocal e como interpretam e lidam com suas alterações vocais.

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa qualitativa, na qual foi utilizado o método etnográfico, com uso de diários de campo e observação participante. A elaboração de narrativas de história de vida foi um recurso metodológico na produção de dados de pesquisa e de aproximação entre sujeito pesquisador e participante da pesquisa.

A pesquisa foi submetida à Coordenadoria de Formação Continuada em Saúde (Coform) da Prefeitura Municipal de Santos e ao comitê de ética da UNIFESP, aprovada com o parecer de número 1.121.940. Todas as participantes receberam esclarecimentos sobre a pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

No que se refere à observação participante, a pesquisadora conheceu as coralistas e conviveu com elas durante mais de seis meses. Nessa convivência, foi possível observar a forma como se relacionavam no grupo, seus diálogos e a participação da pesquisadora neste processo.

Durante o período de observação em campo, foi possível acompanhar a construção de um espetáculo desde sua concepção até a sua estreia em um local especial, com todas as suas emoções, dificuldades, lutas e, neste caso, demonstrações de sororidadei(7).

Como mencionado, os instrumentos para a produção dos dados de pesquisa utilizados foram o diário de campo e as narrativas de história de vida. Foi produzido um diário de campo para cada encontro no qual a observação participante foi registrada: acontecimentos, fatos, impressões e as observações realizadas. O diário foi uma ferramenta que permitiu sistematizar as experiências recolhidas para posterior análise de resultados. Também houve registros em gravações de vídeos e em fotografias. Os registros retrataram a realidade vista do referencial do observador, com suas percepções, sua subjetividade e seu encontro com o campo e os sujeitos da pesquisa.

As professoras que compõem o coro cênico Céu da Boca estão em atividade diária nas escolas, têm entre 32 e 58 anos e não estudam ou estudaram música (com exceção de uma, que leciona essa disciplina), mas foram musicalizadas. Apresentam-se em espetáculos temáticos pautados na arte de cantar, aliada ao movimento corporal suave. A escolha do repertório para cada ensaio e apresentação passa pela seleção de um compositor e depois das músicas, e então se segue a preparação dos arranjos, considerando a composição e a tessitura vocal do coro.

A escolha deste grupo deveu-se ao fato de que ele privilegia, em sua formação, a participação de professoras do ensino público municipal de Santos na ativa.

Os critérios para a escolha das participantes foram baseados nas principais características da população atuante na rede pública de ensino de Santos: professoras da Educação Infantil em pleno exercício da profissão, faixa etária mencionada, atuação há mais de cinco anos, com jornada diária de oito horas, pois nesse tempo de uso da voz supõe-se que será possível observar as alterações em decorrência das atividades profissionais.

Foram acompanhadas cinco professoras que participam do grupo coro cênico Céu da Boca em ensaios e apresentações do coral cênico, durante um período de seis meses. Ou seja, a pesquisa foi realizada nos locais onde aconteceram os ensaios e as apresentações, como escolas, o Orquidário Municipal, a Concha Acústica e a Pinacoteca de Santos. Foram produzidas narrativas de história de vida de cada uma delas: a regente e criadora do coro e quatro coralistas e professoras de Educação Infantil do município de Santos, aqui nomeadas com inspiração nas musas gregas da arte: Calíope, Thalia, Polímnia, Terpsícore e Euterpe.

As cinco narrativas de história de vida e o conteúdo do diário de campo foram analisados sob a perspectiva de alguns temas que denominamos analisadores. Analisadores são acontecimentos que revelam as múltiplas relações que ocorrem no plano da experiência da pesquisa, de modo a considerar a intervenção e como ela se constitui; além disso, analisam as implicações institucionais e o lugar que ocupa a pesquisadora(8). A escuta da pesquisadora teve como norte os analisadores que serão discutidos a seguir e que surgiram após leitura flutuante do material a partir da qual foi possível elaborar tópicos sobre os achados que se repetem, diferenciam e sobressaem nessa leitura, como também a partir de dados interessantes ou inovadores. Os tópicos, sendo interrelacionados, não foram dispostos segundo hierarquia ou cronologia, mas sim foram utilizados aleatoriamente e de modo a facilitar a apresentação dos dados no texto. Os analisadores foram os seguintes:

  • o uso da voz na arte e o uso da voz na profissão;

  • como a organização do trabalho influencia a saúde vocal dessas professoras;

  • como estas professoras/ cantoras cuidam da saúde vocal;

  • diferentes formas de administrar o tempo, diferentes papéis e cuidados consigo mesmas.

Após o período do acompanhamento das atividades do coro, foi realizado um encontro com o grupo das professoras para a escolha das interessadas em participar da pesquisa. A partir desse momento, ocorreram conversas (duas a três) com cada uma delas, nas quais houve a recolha dos depoimentos, pautadas na proposta de produzir narrativas livres de história de vida, nas quais não se priorizaram questões fechadas, mas sim temas a abordar. Assim, foi possível conhecer melhor as trajetórias de vida dessas mulheres respeitando suas singularidades, o que foi transposto para o texto e observado no estilo de cada narrativa. Todas se dispuseram prontamente, em vez de cantar, a falar de si, de seus sonhos, frustrações, como se tornaram o que são, quais os caminhos que as levaram à sua profissão e ao coro.

Além de ser um eixo norteador de suas atividades na profissão e na arte, a voz também foi o fio condutor na produção escrita de suas histórias de vida, de modo a enfatizar como estas mulheres dos tempos atuais, múltiplas em suas vidas cotidianas, se encantam e encantam o outro com o som de suas próprias e únicas vozes.

RESULTADOS

É importante ressaltar que a narrativa é um recorte da história de uma pessoa que retoma momentos de sua vida à luz de suas emoções e vivências atuais; enfim, ela enfatiza a compreensão da posição subjetiva dessas mulheres no mundo de hoje. Há que se ressaltar que a narrativa escrita está perpassada também pela escuta e olhar da pesquisadora. Imbrizi et al.(8) referem que a história que a pessoa conta requer uma seleção de acontecimentos, sua interpretação desses fatos e o estabelecimento de relações subjetivas, e que essa subjetividade é importante a despeito da sucessão cronológica de fatos objetivos, pois as inexatidões na narrativa expressam o modo irregular como a própria vida é sentida e representada. Portanto, trata-se do desenho da subjetividade dessas professoras-coralistas e será analisado somente como tal.

O uso da voz na arte e o uso da voz na profissão

Observou-se que todas as narradoras reconheceram a importância fundamental da voz em suas vidas, no trabalho e no canto coral. Todas referiram que a voz ainda é o principal instrumento de trabalho na Educação Infantil, embora reconheçam que a utilização de outras formas de comunicação é necessária.

Nas narrativas, Thalia, Polímnia e Euterpe referem o uso intenso da voz durante a semana e percebem que a alteração vocal vai se acentuando, mas aprenderam a conviver com a rouquidão. Thalia inclusive comentou que não fazia pausas para descanso, e a rouquidão piorava e ela não tomava nenhuma atitude para modificar tal quadro.

Quanto ao uso da voz na arte, na música, no coro, há um significado mais abrangente do que o cantar: perceber-se, descobrir-se, ter a coragem de transformar-se. O coro foi o disparador para cuidar de si, percebendo e sentindo a voz, tanto nas suas potencialidades quanto também em seus limites. Para Euterpe:

É como se a mulher que está ali guardada viesse à tona e fosse dona, né? Agora é a minha vez. Sinto muito isso.

Thalia expressa seus sentimentos:

[...] para mim é um privilégio, me sinto honrada em fazer parte deste grupo.

O coral representa o modo pelo qual essas professoras manifestam sua arte, exteriorizam seus sentimentos e buscam sensibilizar as pessoas. Cantar no coro traz novas possibilidades, vivências e convivências. É o encantamento com a música que a voz pode produzir.

Como a organização do trabalho influencia a saúde vocal dessas professoras

Todas as educadoras relataram a carga horária cansativa, com pequenos intervalos para almoço ou locomoção para outra escola, o que dificulta o descanso – inclusive o vocal – para a próxima jornada de aulas.

Nas falas das narradoras, foi possível observar que os locais onde atuam têm estrutura adequada em relação a espaço físico, pátio arborizado, ambiente agradável e salas com iluminação necessária. Já a ventilação foi relatada como insuficiente nos meses de altas temperaturas, e o nível de ruído tanto externo à sala quanto interno (as crianças falando) foi considerado elevado, o que contribui para o uso inadequado da voz na sala de aula. Apenas Thalia não referiu tais fatores, pois leciona informática em salas preparadas exclusivamente para a disciplina. Citaram também o número de alunos em sala de aula, sem professora auxiliar na maioria das classes. Nenhuma das educadoras citou a poeira produzida pelo giz como um fator relevante para sua saúde vocal, talvez pelo fato de não o utilizarem muito na Educação Infantil, pois lançam mão de várias outras possibilidades de materiais em sua atuação laboral, além de usarem diversos recursos de comunicação vocal e corporal. Ou seja, não houve questões identificadas sobre a organização do trabalho, mas o que de fato emergiu nas falas foram as condições de trabalho – inadequadas segundo os relatos apresentados, que também são fatores relacionados ao distúrbio de voz em professores(9).

Como estas professoras/ cantoras cuidam da saúde vocal

Em relação à saúde vocal, foi possível observar que todas as narradoras têm noções, informações e conhecimentos sobre atenção e cuidados básicos da voz, e sua utilização em atividade profissional e no coro cênico. Também narram que esse conhecimento e as atitudes em relação aos cuidados com a voz iniciaram-se após o ingresso no coro.Thalia afirma:

Aprendi a viver com rouquidão: de segunda a quinta ia raspando a voz e na sexta já estava totalmente rouca. O coral me fez buscar ajuda, procurando fonoterapia: comecei a me cuidar, a me conhecer melhor.

Todas têm consciência de que modos de vida (que compreendem suas escolhas e formas de relacionar-se consigo mesmas, com outras pessoas e até mesmo com a natureza), hábitos e alguns comportamentos podem prejudicar a saúde vocal e interferir no uso da voz, como fumar, consumir bebidas alcoólicas, alguns tipos de alimentos ou pigarrear, entre outros. As professoras/coralistas demonstraram saber que o desgaste vocal é resultante do uso intenso da voz em intensidade forte ou gritos frequentes e que há necessidade de hidratação laríngea durante o uso profissional da voz – todas bebem água durante as aulas e durante os ensaios do coro cênico. Essa atitude vem ao encontro dos dados da pesquisa que verificou que o conforto e a diminuição da disfonia após a ingestão de água se deve ao aumento da fluidificação da secreção nas pregas vocais, sendo,portanto, importante que se utilize a hidratação como prevenção de alterações vocais que interfiram no desempenho na atividade laboral(10).

As coralistas admitiram que os cuidados com a voz se dão por causa do canto no coro. Diz Terpsícore:

Quando canto, além de tomar bastante líquido durante o ensaio e comer maçã, evito o chocolate. Não tenho cuidados específicos no trabalho.

Polímnia inclusive coloca que só faz os exercícios nos ensaios do coro, além de se considerar uma fumante de grau elevado de dependência. É a única fumante no grupo entrevistado e nenhuma faz uso de bebida alcóolica. Não fazer uso de tabaco ou álcool é um comportamento também difundido como importante para a manutenção da saúde vocal, principalmente para quem usa a voz profissionalmente.

Diferentes formas de administrar o tempo, diferentes papéis e cuidados consigo mesmas

Tanto as professoras casadas quanto as solteiras lecionam em dois períodos diariamente (matutino e vespertino), além de participar dos ensaios do coro nas segundas à noite, aos sábados de manhã e em apresentações esporádicas. Além disso, todas buscam se aprimorar em sua área de atuação, até porque isso é necessário de acordo com os atuais requisitos da Secretaria de Educação, que incluem novas atribuições e processos de avaliação frequentes.

O tempo disponível para o olhar e cuidado de si, além de também ocupar-se com a família (marido, filhos, pais ou sobrinhos), é o período da noite e os finais de semana. Todas consideram suas vidas “muito corridas”, mas percebem a necessidade de preservar alguns momentos para tomar um café demorado com o marido, ficar com os filhos, sair com as amigas, ler um livro, ouvir música, fazer artesanato ou inclusive ficar só consigo mesma. Uma das narradoras, Terpsícore, coloca a dificuldade que enfrenta com o marido por ele considerar que as atividades do coro exigem que a esposa ocupe os espaços públicos, além de roubar o tempo de suas atividades de cuidado com a casa e os familiares:

[...] porque a arte expõe, deixa muito em evidência, exige ensaio, tempo, dedicação; mas atualmente consigo negociar meu tempo, percebo que necessito de momentos individuais para cuidar de mim.

As narradoras percebem as possibilidades e restrições do cotidiano da mulher com múltiplos papéis: têm o ônus da pressa e da angústia, mas em compensação acreditam que vivem de modo mais pleno, em seus núcleos de convivência e na sociedade em geral, deixando sua marca pessoal.

Em relação à saúde geral, todas têm consciência de seus problemas: algumas se colocam como prioridade, dando mais atenção para o cuidado de si, criando intervalos de tempo e buscando formas de incorporar atitudes saudáveis em sua rotina diária. Outras, nem tanto, mas todas se percebem mais como sujeito que necessita de atenção e cuidado após o ingresso e a vivência em grupo no Céu da Boca.

Todas ressaltam a forte ligação afetiva entre elas, principalmente Calíope: “[...] um vínculo que foi tecido por elas e entre elas e é reforçado frequentemente”. O coro é visto como um grupo muito coeso, uma família na qual as integrantes são acolhidas em suas angústias, dramas e tristezas pessoais, sem competição, raiva ou inveja pela atuação no canto coral, mas incentivando a evolução de cada uma em uma etapa específica, por exemplo num solo. É provável que, em algum momento, elas apresentem desânimo, cansaço, vontade de sair do coro, mas dão força umas às outras e continuam no caminho da arte.

Nas narrativas, um resultado relevante observado foi a referência unânime ao coro como um grupo unido, em que apesar do trabalho e do cotidiano de cada uma, elas são amigas que se apoiam em todos os momentos. Isso pode ser verificado nas escritas do diário de campo da pesquisadora, por meio do qual se percebem mulheres de várias idades, com diferentes histórias de vida, criando vínculos por meio do canto e dos movimentos. Esta interface entre a arte – no caso a música – e a saúde é estudada por Maluf et al.(5), como qual se pode fazer um paralelo ao que as coralistas relatam: a prática do canto coral restabelecendo o sentido da arte como uma particularidade humana capaz de transformar atitudes, lugares de saber e de existência. Dessa forma, pode levar à alteração do modo de vida, favorecendo a ampliação dos recursos culturais e intelectuais de cada uma e do grupo.

Como resultado observado, outra questão que ressalta a potência presente na arte e que pode produzir saúde é a ideia de “partilha do sensível”(11), que se refere ao fato de que a sensibilidade para as artes pode ser exercitada no cotidiano e compartilhada entre as pessoas, e entre elas e a música e o uso da voz no canto coral. Essa partilha do sensível não se dá apenas no campo do dizível, mas refere-se a certo modo de ocupar lugares no espaço, ao regime de visibilidade produzido, à dimensão afetiva, à transmissão de saberes, às novas temporalidades e à invenção de estilos de vida que vão tomando forma num processo sem fins previamente determinados(11-13).

Outro ponto destacado por Rancière(12) faz referência aos regimes de visibilidade na sociedade contemporânea e afirma a importância do universo da arte pública, a arte que se inscreve na paisagem da cidade e da vida em comum – uma arte que intervém em lugares públicos e que age modificando a paisagem da vida coletiva no sentido de restaurar uma forma de existência social. Nesse sentido, é possível afirmar que as apresentações do coro cênico Céu da Boca interferem no espaço de convivência da urbe, pois ocupam espaços diversificados como a Concha Acústica, localizada na orla da praia, e um edifício secular no centro histórico da cidade. A arte é política quando cria outros regimes de visibilidade para aquém e além dos modelos hegemônicos e amplifica as vozes de vidas muitas vezes silenciadas pela aceleração do tempo histórico e pelas condições de trabalho. Parece que as participantes do coro cênico não deixaram escapar a oportunidade de participar de uma partilha do sensível que tem a arte musical como elemento para produzir outros modos de vida e diversas formas de ocupar e reger o seu tempo no cotidiano ceifado pelas exigências do mundo do trabalho e da vida familiar.

DISCUSSÃO

O professor é o trabalhador com maior risco de desenvolver alterações vocais entre os profissionais que, apesar de tantas possibilidades tecnológicas, ainda utilizam a voz como principal instrumento de sua atividade(14).

Estudos apontam que, no Brasil, a presença de rouquidão é mencionada em algum momento da carreira por 66,7% dos professores, dado significativo que alerta para os efeitos adversos das alterações vocais no desempenho no transcorrer da carreira(15).

As integrantes do Céu da Boca reconhecem a importância fundamental da voz em suas vidas, no trabalho e no canto coral. A voz na arte e na música é um desafio para todas as narradoras: relatam que a voz no coro é pensada, trabalhada, cuidada e tratada. Há um preparo prévio com o relaxamento, aquecimento vocal, postura, respiração, ressonância e movimento corporal.

Produz-se uma afinação em um esforço por compor vozes, por ouvir e perceber a qualidade vocal de cada um, em um estímulo conjunto para fazer com que uma conexão coletiva entre o grupo e os sentidos do que se trabalha nos repertórios se sobreponha seja ao ato de desafinar, seja ao de manter a afinação(6).

As professoras / coralistas fazem desse espaço (o coro cênico) um importante local de vida, produção de subjetividade e acesso à cultura que oferece, também, atenção e cuidado para um público diverso. Essa vertente do canto coral também é evidente no estudo de Luiz et al.(2), em que os autores descrevem a experiência de um coro tradicional de estudantes e funcionários (professores) de um Instituto Federal de Educação, concluindo que os resultados não são relativos somente ao desenvolvimento musical e vocal, mas que também é possível citar a integração, a convivência em grupo e a promoção de saúde. Os autores confirmam que a facilitação do compartilhamento de saberes está associada ao sucesso do projeto, no caso o coro. Isso fica evidente no decorrer dos ensaios e da criação de cada novo espetáculo do Céu da Boca.

O fato de o coro ser cênico, envolvendo movimento corporal, também colabora para a produção adequada da voz. Behlau et al.(16) comentam em seus estudos que as professoras de Educação Infantil que apresentam postura corporal inadequada foram também as que têm maiores índices de alterações vocais. Foi possível perceber que as coralistas aprendem a prestar atenção em sua postura corporal. Quanto aos cuidados com a voz, a hidratação está frequentemente presente nas informações sobre saúde vocal, no sentido de minimizar ou prevenir alterações de voz que interfiram no desempenho profissional(10).

As narradoras reconhecem a importância da intervenção fonoaudiológica em relação à voz: Thalia e Calíope já fizeram fonoterapia, enquanto Polímnia e Euterpe admitem a necessidade, mas nunca procuraram atendimento. Todas já passaram por avaliação otorrinolaringológica das estruturas da voz, até por solicitação da regente do coro.

Um aspecto relevante colocado de maneira unânime foi a falta de atenção para com a voz do professor no trabalho, evidenciada pela inexistência de orientação, campanhas de prevenção, triagem, encaminhamentos para avaliação ou acompanhamento da saúde vocal.

Thalia afirma que na rede de ensino, há vários casos de professoras que se afastam por rouquidão, por nódulos, e mesmo assim não há investimento nem dispensa para fazer fonoterapia. De acordo com informações dadas pelas narradoras, há uma burocracia muito grande que não favorece e não oferece nenhum incentivo para o professor. Essa queixa ficou evidenciada em todas as narrativas, pois não há políticas ou ações específicas de saúde vocal para o professor em suas escolas, na rede de ensino nem em unidades públicas de saúde, o que também vem ao encontro dos achados na produção acadêmica, em que o professor parece ter uma percepção, no mínimo básica, de seu comportamento vocal, mas parece ainda não compreender plenamente como utilizá-la em prol de sua saúde(17).

Observou-se que as professoras, muitas vezes, priorizam o desempenho profissional em função de um grande volume de responsabilidades e compromissos em detrimento de sua vida pessoal e do cuidado de si, pois, eventualmente, não sobram tempo, ânimo ou oportunidades para problematizar seus sonhos, anseios, projetos individuais nem suas condições de trabalho, de saúde e as questões relacionadas ao processo saúde/doença. Assim, a suposta dificuldade de perceber e reconhecer sinais, sintomas de alterações vocais mais leves pode ser apenas um componente de um quadro mais amplo e complexo que compreende as relações entre trabalho e saúde.

Ficou evidenciado em várias situações das vivências do coro, nos ensaios, nas apresentações e nas experiências pessoais que as coralistas se sentem mais fortes por participar do grupo e pelo contato com a música.

A música, mais especificamente o cantar no coro cênico, influenciou a percepção e a problematização do processo saúde/doença das professoras integrantes da pesquisa. Todas colocam o coro como algo muito importante para a vida de cada uma, relatando um ou vários fatos marcantes nos quais a sua participação no coro foi fator decisivo e fundamental para a superação do problema em questão.

Portanto, o coro foi decisivo na superação de problemas emocionais e físicos, e fundamental na recuperação de um problema de saúde de uma das narradoras. Assim, o uso da voz na arte (canto), além da expressão artística, propiciou uma forma de autoconhecimento e o fortalecimento da autoconfiança.

Durante o desenvolvimento da pesquisa, surgiu o significado da palavra sororidade, cuja etimologia vem do latim (sóror corresponde a irmã), e pode ser aplicada à relação das professoras/cantoras do Céu da Boca.

Percebe-se essa vivência da sororidade entre todas as integrantes, segundo dados produzidos durante a elaboração dos diários de campo. Nos encontros durante os ensaios, elas fazem juntas tudo o que é necessário para o espetáculo acontecer: cenário, figurino, adereços, maquiagem e até ações para arrecadação de recursos financeiros, como a Noite da Pizza.

Outro momento emblemático de sororidade é quando, ao final de cada ensaio, todas cantam, de mãos dadas em roda e, muitas vezes, emocionadas, as canções/orações com melodias compostas pela pianista.

Os cuidados que elas têm em relação à própria voz e em relação às coisas do coro, como objetos, partituras e figurinos, além das próprias relações entre elas, tornam muito apropriada uma afirmação de Lagarde y de Los Ríos(7) a qual refere que as mulheres não se aliam para pensar igual, mas para pensar, não para atuar em uníssono, mas na mesma direção.

A arte voltada para a sociedade como agente e instrumento promotor de saúde é observada no canto do coral Céu da Boca, no qual se observa a ampliação de seus repertórios culturais e afetivos e a expansão do potencial humano e coletivo por meio das expressões da arte e da criatividade.

A arte contribui com o processo de construção da saúde dos indivíduos e da sociedade, arraigada no cotidiano que vai além das instituições ditas de saúde, mas insere-se como uma forma de cuidado que a própria sociedade incorpora para lidar com a saúde. Os espaços de arte convertem-se em ambientes para expressão criativa e momento de vinculação e contato(18).

Que tipo de arte é produzida pela regente e pelas coralistas ao apresentarem seus espetáculos com temáticas diversas nos espaços públicos? Trata-se de uma arte espraiada, que não se limita ao ego da artista e regente do coro e visa a um movimento de ampliação em direção ao outro, ao cotidiano e à cidade(13). São experiências musicais que têm a potência de despertar o desejo das pessoas de estar em grupo e em coletivos nos quais possam partilhar experiências sensíveis(19).

CONCLUSÃO

O canto em um coro cênico e a experiência de compartilhar a manifestação artística da voz em um grupo podem colaborar para minimizar ou até prevenir os danos à voz, auxiliar na organização psíquica e na percepção corporal e vocal, e também revelar o modo como estas professoras cuidam da sua saúde e conduzem a sua vida.

A interdisciplinaridade entre a Fonoaudiologia e a Música pode trazer várias e importantes contribuições para esses dois campos de conhecimento, tendo como eixo comum a voz. Entre essas contribuições podemos citar o desenvolvimento das potencialidades da voz no cantar e a utilização das inovações da pesquisa científica na Música para enriquecer a voz falada e a voz como ferramenta de trabalho.

Em suma, a arte musical produzida em um coro cênico pode avivar o sentimento de sororidade entre as mulheres na sociedade contemporânea e pode também ser uma forma eficiente de cuidado da voz, fomentando ações e programas de prevenção de problemas e promoção de saúde vocal direcionados às professoras.

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