Percepção de risco: estudo com trabalhadores de um estaleiro expostos a metais

Percepção de risco: estudo com trabalhadores de um estaleiro expostos a metais

Autores:

Ana Lídia Miranda,
Leda Freitas de Jesus,
Maria de Fátima Ramos Moreira,
Simone Santos Oliveira

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1414-462Xversão On-line ISSN 2358-291X

Cad. saúde colet. vol.27 no.1 Rio de Janeiro jan./mar. 2019

http://dx.doi.org/10.1590/1414-462x201900010330

Abstract

Background

Health hazard and insalubrity characterize the work in a shipyard

Objective

To know about the perception shipyard workers have of the many risks to which they are exposed, including metals, and the strategies they use to deal with such risks.

Method

Qualitative research conducted by semi-structured interviews with 14 workers directly exposed to metals at a shipyard in Rio de Janeiro. The script approached issues related to work/health, risks, work accidents and defensive strategies. We performed a thematic analysis based on Work Psychodynamics.

Results

Perceptions about organization of the tasks in the workplace, risks of accidents, health problems related to work and exposure risks to metals. We identified the following defensive strategies: religiosity, contempt for danger, submission and passivity, control, denial, cooperation/trust, rationalization and use of drugs at work. Workers held little technical information on the risks of exposure to metals and only the older ones knew how to recognize such elements.

Conclusion

The workers’ risk perception is based on practice, deductions, and conversations with colleagues. The majority says they do not receive information about exposure to metals, and they are unable to identify the metals to which they are exposed.

Keywords:  workers health; metals; risk perception; adaptation, psychological; occupational risks

INTRODUÇÃO

A indústria de construção naval no Brasil é considerada socioeconomicamente estratégica para o país 1 . Neste ramo, investimentos e incentivos visam, majoritariamente, melhoria da produtividade, tecnologia e estratégias de desenvolvimento, com pouca atenção às melhorias das condições de trabalho e à criação de políticas públicas eficientes em saúde do trabalhador do setor 2 .

Edificação, montagem, modificação, transformação, instalação, limpeza, pintura, aparelhamento, testes e manutenção estão entre as operações mais arriscadas de um estaleiro. Os perigos incluem a exposição a substâncias tóxicas, ruído e calor, entre outros. A inalação de aerossóis, fumos, particulados e poeiras é a principal rota de exposição dos trabalhadores dos estaleiros aos químicos 2,3 .

A periculosidade e a insalubridade do processo de trabalho em estaleiros já foram bem caracterizadas. Nestes locais, é comum haver diferentes atividades sendo realizadas ao mesmo tempo, em ambientes geralmente confinados e sem ventilação e exaustão adequadas, o que gera diferentes riscos, entre eles, aqueles ocasionados pela exposição a metais, substâncias químicas que podem ser tóxicas para o ser humano e o ambiente 4,5 . Os metais mais comumente encontrados na indústria naval são o ferro, zinco, cobre, chumbo, manganês, níquel e cromo 2 .

Os metais provêm de fontes naturais e antropogênicas e são persistentes no ambiente, resultando em maior potencial de exposição do que outros químicos. Formam compostos que diferem consideravelmente quanto à toxicidade e propriedades químicas e físicas, favorecendo seu amplo uso industrial. Todos os metais podem ser tóxicos. A toxicidade ocorre pela formação de complexos com compostos orgânicos, enquanto que a inibição ou ativação enzimática é uma das principais ações tóxicas dos metais. Os rins e o sistema nervoso são alvos comuns para sua toxicidade. Carcinogenicidade, neurotoxicidade, nefrotoxicidade, danos aos sistemas endócrino, reprodutivo e respiratório estão entre os efeitos tóxicos principais 2,6 .

Os trabalhadores nem sempre reconhecem o risco a que estão expostos pela observação direta e, muitas vezes, não têm acesso a esse tipo de informação. Em geral, a noção de risco é tratada a partir de manuais técnicos, que não consideram as experiências dos trabalhadores 3 .

Percepção do risco não é somente a precisão dos dados e das informações técnicas acerca dos riscos que sensibilizam os envolvidos, mas, principalmente, suas interpretações sobre informações recebidas, que são dependentes de experiências pessoais e sociais, assim como de suas motivações. No mesmo sentido, pessoas também podem ser motivadas a criarem verdades que reduzam os riscos, levando à percepção de que não existem danos pessoais e/ou coletivos. Os estudos da Psicodinâmica do Trabalho retratam muito bem essas situações a partir da identificação dos sistemas defensivos desenvolvidos coletivamente pelos trabalhadores 7 .

Dejours 7 desenvolveu a ideia de risco às características físico-químicas, mecânicas ou biológicas das tarefas, vistas como pertencentes à realidade exterior objetiva, na esfera da descrição científica. Para esse autor, as normas oficiais não mencionam o perigo, avaliado a partir dos possíveis efeitos que os riscos provocam à saúde humana. Assim, pode-se dizer que o risco está na esfera do prescrito, enquanto a percepção deste risco é da ordem do real.

O conhecimento e a percepção dos trabalhadores sobre os riscos de seu trabalho, bem como estratégias utilizadas, individual ou coletivamente, para lidar com estes riscos, são de fundamental importância para subsidiar a elaboração de medidas que busquem condições de trabalho mais saudáveis. Assim, o presente estudo objetivou conhecer a percepção dos trabalhadores de um estaleiro sobre os riscos a que estavam expostos, especialmente aqueles relacionados aos metais, e quais as estratégias utilizadas para lidar com os riscos percebidos.

MÉTODO

Para que a percepção dos riscos seja vista em sua complexidade, deve-se levar em consideração aspectos subjetivos (atitudes, crenças, valores, angústias e desejos) que não podem ser traduzidos em indicadores quantitativos. Assim, a abordagem qualitativa é o melhor caminho para essa apreensão 8 .

Desenvolvida em um estaleiro no Estado do Rio de Janeiro, a pesquisa lançou mão de entrevistas semiestruturadas e teve como critério de inclusão ser trabalhador diretamente exposto a metais em seu trabalho.

O roteiro utilizado na pesquisa procurou abordar questões sobre o processo de trabalho e saúde, os riscos existentes no estaleiro, especialmente os riscos aos metais, os acidentes de trabalho ocorridos com o entrevistado e/ou com outros trabalhadores. As entrevistas foram gravadas e transcritas.

A análise dos dados foi norteada por uma leitura que pretendeu avançar para além dos conteúdos textuais, em direção aos contextos, visando descobrir as lógicas e explicações mais amplas de uma determinada cultura ou assunto 8 . O processo de análise se deu a partir da escuta repetida das entrevistas visando recordar detalhes importantes do momento da entrevista. As informações foram organizadas em categorias temáticas (organização do trabalho; acidentes de trabalho; risco proporcionado pelos metais; estratégias defensivas dos trabalhadores em situações de perigo) e interpretadas à luz do referencial da Psicodinâmica do Trabalho 7 .

Estudo realizado com aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da instituição dos autores (CAAE00887512.7.0000.5240). A participação dos trabalhadores era condicionada à assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Foram entrevistados 14 trabalhadores do quadro efetivo do estaleiro, que trabalhavam diretamente expostos a metais. Entre os 25 trabalhadores abordados, 7 não aceitaram participar da pesquisa e 4 não atendiam aos critérios de inclusão. Para garantir o anonimato dos entrevistados, foram identificados no texto com a letra E seguida de um número.

Esses trabalhadores eram de cinco funções: soldador (7), caldeireiro (3), esmerilhador (2), pintor (1), montador (1), sexo masculino, com idades entre 23 e 58 anos. A maioria trabalhava na empresa há mais de 10 anos. Nos resultados, a referência à “maioria dos trabalhadores” significa de 70% a 80% dos entrevistados, ou seja, entre 10 e 12 indivíduos.

Organização e condições do trabalho

Os efeitos do trabalho, individual e coletivo, se encontram na relação entre as formas em que o trabalho é organizado, dentro de um determinado processo de trabalho, e nas formas de adaptações dos trabalhadores a este processo. Portanto, a organização do trabalho é fator determinante da relação saúde-doença e, para Dejours 7 , o conflito entre organização do trabalho e funcionamento psíquico é reconhecido como fonte de sofrimento.

A organização do trabalho verificada no estaleiro reflete o modelo taylorista, que apregoa o emprego da racionalização do trabalho para a busca constante de produtividade com a máxima eficiência 9 . Essa conformação é percebida pelos entrevistados como sendo responsável pelo aumento da tensão no ambiente e nos níveis de ansiedade.

Ao descreverem tarefas, referiam-se à multiplicidade de funções que exerciam, algumas específicas da categoria profissional, outras não. Enquanto alguns sentiam sua capacidade de trabalho valorizada, outros demonstravam resignação diante das condições materiais para o exercício profissional, sobrecarregados e expostos a riscos de acidentes:

A gente é caldeireiro, mas trabalha com maçarico, trabalha com esmeril, trabalha com solda, faz faxina. Então, a gente é sete ferramentas , como diz a estória. Nós tem a profissão, mas, dentro dela, a gente exerce várias, entendeu? [...] mas a gente tem vez que trabalha na construção, né? [...] onde corre muitos perigos [...] tem que fazer tudo, são várias coisas que tem que fazer (E 1).

A indústria naval caracteriza-se pela não existência de uma linha de montagem convencional, com trabalhadores executando atividades diversas, o que requer desses profissionais preparo e qualificação para atender a muitas demandas 5 .

A postura arbitrária de alguns superiores era considerada como responsável por falhas na qualidade do processo de trabalho:

Condições de trabalho poderiam ser melhores, mas, pela falta de planejamento, as coisas não acontecem da maneira que deveria... Nós trabalhamos com cinco passos: pensar, observar, identificar, controlar e agir...Tem gerente que atropela esses passos e passa direto para o agir (E 5).

A maioria se referiu às condições físicas do trabalho como insalubres/penosas e relatou trabalhar em espaços confinados, de higiene precária, sem sistema adequado de ventilação e com infraestrutura de má qualidade. Para um trabalhador, as condições chegavam a ser desumanas:

Muito perigo. Espaço confinado que não foi feito para ser humano (E 5).

Há ineficiência dos equipamentos de proteção, individual e coletivo, principalmente para proteção do aparelho respiratório, incluindo o não uso de proteção por alguns trabalhadores. Falas de soldadores que trabalhavam em espaço confinado exemplificam isso:

[...] aquilo gera um montão de poeira, poeira preta. O nariz fica impregnado. A máscara que eles dão é aquela máscara de pano, que num protege nada... Certo era máscara com filtro... não tem. Uso duas, mas não adianta. [...] Certo era mais de duas, porque quando você puxa a máscara tá preto dentro, nariz preto, cara preta [...] (E 10) .

Outro trabalhador cita inexistência de exaustor, equipamento de proteção coletiva:

[...] É um mangote lá dentro, é furado e o ar fica lá dentro circulando. Certo era ter o quê? Ter exaustor puxando. Num tem, é só soprando [...] (E 8 ).

Acidentes de trabalho

A percepção dos riscos de acidentes, físicos e químicos decorrentes das atividades que exerciam e do ambiente de trabalho, era mesclada ora por falas que se apropriavam do discurso técnico, ora se baseavam em experiências. Muitos já tinham presenciado alguma ocorrência, de pequenas ou grandes proporções, inclusive com vítimas fatais. Citaram situações perigosas:

[...] a caldeiraria, ele é grau 4, ou seja, o último grau de risco, né? Grau de risco elevado, que trabalha em altura, né? Trabalha com material sobre você. Seja bloco em movimento. Trabalha com fogo, que é aço [...] (E 2).

Um trabalhador aponta imprevisibilidade do fogo e necessidade de acesso rápido a mecanismos de extinção de incêndios:

[...] A gente tá derrubando o navio, corta uma peça. Quando menos espera, tá pegando fogo. A gente tem que tá a todo instante com extintor, com mangueira de água. [...] então, a gente corre muito risco, sério mesmo. Às vezes, a gente corre atrás [...] (E 3).

Falta de cuidado de alguns colegas também foi sinalizada:

[...] Pessoas estão trabalhando num primeiro piso de um módulo ou de uma plataforma. Tem soldador em cima soldando e eles não colocam manta de proteção. E cai aquelas borras de solda, pegando fogo no pessoal lá embaixo. Esmerilhador, [...] jogando fagulhas de fogo acesa pra cima dos outros. Tem muito ambiente de risco [...] (E 7).

Apareceu no discurso a culpabilização dos trabalhadores pelos acidentes, visão semelhante à das empresas, que responsabilizam o trabalhador pela segurança não considerando fatores da organização do trabalho que levam o trabalhador a cometer engano 10 , como na fala a seguir:

Tivemos um menino da solda [...], ele fez tudo, o processamento correto, aí ele fez a solda dele por fora... Fez tudo direitinho. Como ele não era muito experiente, tirou a pulga, pulga é um isolamento. E, por não ter experiência, entrou dentro do tubo pra ver como ficou a raiz... ele tava preocupado com o trabalho dele. Só que nisso, não tinha oxigênio lá dentro, ele desmaiou. Sorte que tinha um ajudante. O ajudante foi e puxou ele. Graças a deus, não teve sequelas. Falta de experiência [...] ( E 13).

Este comportamento está em consonância com o que Cru e Dejours 9 apontam sobre os saberes de prudência que incorporados à experiência dos trabalhadores são fundamentais para a saúde e a segurança.

Acidentes de pequenas proporções aconteciam frequentemente:

Muitos acidentes, corte no dedo, queda de objetos que atingiu o trabalhador, como parafusos e chaves, queimaduras [...] (E 5 ).

Me lembro de vários acidentes. [...] A cunha espirrou e arrebentou a boca do camarada. Isso é frequente, é o dia a dia, praticamente todo dia [...] (E 14).

Para o departamento médico do estaleiro, o acidente não era configurado como tal e, na maioria das vezes, não havia emissão da Comunicação de Acidentes de Trabalho (CAT), impedindo que as informações compusessem as estatísticas oficiais.

A subnotificação de acidentes do trabalho no Brasil ocorre, principalmente, quando o caso é de pouca gravidade ou porque a notificação se restringe à força de trabalho contribuinte do Instituto Nacional da Seguridade Social (INSS) 11 . Situação que se agrava quando lembramos que, em 2016, o Brasil ocupou o 4º lugar no mundo em número de acidentes de trabalho fatais e o 15º em relação aos não fatais 12 .

Risco proporcionado pelos metais

A ciência da presença de metais, foi relatada pela maioria dos entrevistados, mas poucos souberam identificar quais metais seriam esses. Disseram ter tomado conhecimento disso a partir de discussões com colegas ou porque tinham ouvido falar a respeito. Todavia, não por meio de capacitação pela empresa:

Eu aprendi no dia a dia (E 13 ).

Constatou-se que o conhecimento construído acerca dos riscos no ambiente de trabalho se devia às vivências pessoais dos trabalhadores, de suas crenças e experiências de trabalho.

Somente trabalhadores com mais experiência (acima de 20 anos de trabalho) souberam identificar metais presentes no processo de trabalho. Entretanto, era comum a percepção de que a exposição a tais elementos era prejudicial à saúde.

Isso era percebido a partir de várias situações, como a inalação de “fungos (fumos) metálicos, poeira preta, pó de maquita, fumaça” com as consequências da inalação desses resíduos:

Tinha dias que chegava em casa... Eu fazia assim oh [puxou o ar pela narina] , tudo entupido (E 13).

[...] pela inalação, vai respirando aquilo ali, né? [...] quando chega o final da tarde, vai limpar as narinas, parece até fogão, de tanta sujeira, né? Do jeito que ficou o nariz, foi tudo pro pulmão também, né? [...] (E 2 ).

Quanto à presença de metal no sangue de trabalhadores:

[...] O tio da minha esposa teve alumínio no sangue, devido a problemas de fumo metálicos. Tá até encostado [...] ( E 5).

enquanto outro citou colega:

[...] Teve colega aí que teve alumínio no sangue, mas já tá bom. Fez tratamento [...] (E 1 ).

A remuneração mais elevada era oferecida para trabalhadores que lidavam com esses elementos:

[...] material que mais danifica a nossa saúde, que são material chamado nobre. Tanto é que o estaleiro paga mais a esses profissionais, porque o tempo de vida nessa área é menos... Paga mais pra compensar... Num sei compensar o que, né? Mas é o que paga, é o cobre, níquel e o super duplex... É porque une um metal que o nosso corpo ainda não está adaptado, entendeu, a trabalhar com esse metal. O aço carbono faz mal. Mas se eu usar mascarazinha daquelas comum, se usar, vou durar 30, 50, 60, 80 anos ( E 13).

A oferta de maior remuneração a profissionais que trabalham com produtos perigosos, como o aço, é medida adotada por empregadores para compensar o risco oferecido. Prática amparada na legislação trabalhista que determina índices a serem adicionados aos salários, conforme o nível de insalubridade e/ou periculosidade da profissão disposto na NR-15 13 .

Infelizmente, tal prática é valorizada inclusive pelos representantes dos trabalhadores, que lutam pela manutenção e adequação dos adicionais de insalubridade e periculosidade, ao invés de discutirem formas de realizar a atividade sem colocar a saúde do trabalhador em risco.

Considera-se importante destacar a crença de que o corpo poderia se adaptar de alguma forma aos metais. Como se houvesse uma dessensibilização do organismo, que passaria a ter tolerância ao metal. Até mesmo os elementos metálicos biologicamente essenciais por exercerem funções fisiológicas e metabólicas necessárias ao organismo, a partir de determinadas concentrações, são tóxicos 14 .

Além do entendimento sobre danos causados à saúde pelos metais, os trabalhadores também entendem que os prejuízos para a saúde aumentam com o tempo de exposição a esses elementos:

Esse aço nobre tira a nossa estatística de vida cerca de 20 a 25 anos a menos do que o outro aço (E 13 ).

Apesar de ter usado o termo nobre, o trabalhador não remeteu à definição científica sobre a qualidade do aço, mas sim à questão do perigo. Para esse entrevistado, trabalhar com o aço nobre significava menor tempo de vida. Certamente, o tempo de exposição pode aumentar os danos à saúde humana, pois os efeitos crônicos geralmente são causados por uma exposição regular a uma substância tóxica por um longo período de tempo. Normalmente, esses efeitos são permanentes 15 . No entanto, a qualidade do aço está relacionada principalmente com a variação da concentração dos metais no aço, visto que a base metálica de sua composição permanecesse a mesma 16 .

A necessidade de atender às exigências das indústrias, que buscam a utilização de materiais com alto desempenho e baixo custo, bem como o cumprimento de prazos para evitar prejuízos, resulta em crescente procura por novas tecnologias, mesmo em detrimento de questões ambientais 17 .

Estratégias defensivas em situações de perigo

Verificou-se que os trabalhadores utilizavam estratégias para lidar com perigos enfrentados diariamente. Estratégias coletivas de defesa constituem-se de regras construídas consensualmente pelo coletivo, na busca de estabilidade diante de sofrimento proveniente do trabalho 18 .

O trabalhador exerce a sua liberdade construindo estratégias para se defender do sofrimento e torná-lo tolerável. Outro efeito potencial dessas defesas é a adaptação que, por sua vez, pode impedir o trabalhador de se conscientizar das relações de exploração 7 .

O uso da religiosidade, delegando a Deus a responsabilidade de “guardar”, foi verificado em várias falas:

Ah, a minha proteção de Deus [risos] ( E 6).

Por mim, graças a Deus, vou tá preparado [...] ( E 11).

[...] Você pedindo a Deus, fazendo sua parte, tem tudo pra dar certo [...] (E 2).

No DDS de manhã, a gente ora. Faz uma oração e pede pra Deus guardar, proteger. Confiar em Deus, pra conseguir começar o trabalho, voltá pra casa bem, com saúde [...] (E 4) .

Percebeu-se que a religiosidade era estratégia também utilizada pelo coletivo, pela prática diária de oração em grupo. Transformava-se também em ideologia defensiva, sendo um sistema de defesa incorporado pelos supervisores e técnicos para garantir tarefas realizadas a despeito dos riscos. A religiosidade contribui para fazer aceitável o inaceitável, cumprindo um papel paradoxal nas motivações subjetivas da dominação, pois funciona como uma armadilha, uma vez que anestesia o sofrimento, tornando-o tolerável 19 .

O menosprezo dos perigos foi identificado nas falas de trabalhadores que se colocaram como experientes e capazes de dominá-los:

Trabalho com condição que vou entrar, [...]. Esses anos todos que trabalho aqui, dentro desse estaleiro, nunca sofri um acidente. Eu trabalhei 19 anos aí fora como pedreiro, eu nunca sofri um acidente [...]. ( E 5).

Eles podem botar eu sozinho em qualquer lugar. Sozinho, fazendo meu trabalho, porque quando eles voltar, tô com o meu serviço lá... Sou cuidadoso [...]. (E 11).

Para sobreviver em ambiente penoso e perigoso, o trabalhador constrói o valor simbólico de que ele domina o perigo, visto que a tomada de consciência dos riscos envolvidos nas suas atividades forçaria o trabalhador a tomar tantas precauções que comprometeriam sua produtividade 20:

Qual perigo, desses todos? Jamais, não existe proteção... Pra mim, dependendo do trabalho que vai fazer, como a carga sobreposta, acho que não existe nada. Não consigo andar com armadura de ferro, entendeu? ( E 7).

Banalização do risco, exaltação e negação do perigo, assim como virilidade são citados por outra pesquisa 21 como estratégias defensivas, comuns aos trabalhadores de atividades que envolvem grandes riscos.

Submissão/passividade perante a consciência dos riscos foram verificadas quando trabalhadores afirmaram que se proteger dos riscos é questão de sorte:

[...] Pra mim, tem que “tê” muita sorte também, né? Porque já corri risco aí dentro, entendeu ( E 1).

A sorte também é apontada:

Não tem como se proteger não, acho. A gente tá exposto a tudo... Contar com a sorte e vamos ver [...] [risos] (E 8 ).

A fala do trabalhador, a seguir, mostrou resignação:

[...] Já é o dever da gente, né? Sei lá se é dever ou não.

Passividade, indiferença e resignação agem como anestésicos, banalizando os riscos das atividades, permitindo que as condições adversas sejam suportadas, como apontam Freitas et al. 22 .

O controle pareceu ser outra estratégia bastante utilizada. A maioria mencionou necessidade de estar “alerta” e “atento”, como maneira de enfrentar perigos:

Mas, num foi, às vez não era nem falha minha, mas você tem que tá alerta para tudo isso (E 1 ).

A negação pôde ser percebida no momento em que alguns trabalhadores relataram preferir não pensar nos riscos e executar o trabalho de forma mecânica, sugerindo uma forma de alienação. Como nas falas a seguir:

A gente não pode ficar pensando nisso, não! Tem que trabalhar... (E 14).

e

Tem coisas na vida, se você parar para analisar ao pé da letra, você não dá continuidade... Se for pensar muito, vai ser pior ( E 9).

Há negação em relação aos sentimentos diante da constatação de estarem expostos a situações insalubres e perigosas, com respostas evasivas. Embora a maioria tenha dito que optava por “não pensar nisso”, ao falarem sobre o assunto expressavam muito sofrimento através do olhar, gestos e voz embargada.

Este resultado corrobora o observado por pesquisas com trabalhadores do monitoramento aéreo 21 e da construção civil 23 , os quais também não costumam falar diretamente de tudo aquilo que os faz sofrer por buscarem negar o sofrimento.

A negação de percepção da realidade e da capacidade de pensar é a espinha dorsal de todas as defesas, pois, embora não tenha capacidade de eliminar os perigos, atenua a sua percepção, tornando possível suportar exigências de trabalho e preservação do emprego 24 .

Observou-se que muitos trabalhadores se reuniam em bares próximos ao estaleiro para beber e conversar com os colegas, na tentativa de “relaxar”, tomando uma “cervejinha” e “jogando conversa fora”. Essa rotina seria uma forma de afastar a percepção das ameaças/perigos, mesmo estando fora do ambiente 20 .

Um dos entrevistados falou sobre colegas que utilizavam drogas no ambiente trabalho, o que para ele era gerador de tensão e perigo:

[...] Eles usam ali dentro. Os caras usam assim, descarado. Fuma maconha, cheira... E você não pode falar nada, você vai falar o que? Se você falar, nêgo te mata aqui fora. Eu não vejo nada sendo feito em relação a isso.... Eu trabalho do lado, o cara vai lá e cheira. Tá doidão e pega a maqueta e joga em cima de mim sem querer [...]. ( E 12).

O uso de drogas, segundo Dejours 7 , é uma saída individual condenada pelo grupo social, um destino mental e somático grave com alto custo social, o fracasso da função da ideologia defensiva para manter à distância o risco. Além de expor o próprio trabalhador, representa um risco à vida de todos 25-27 , comprovadamente facilitador de acidentes no trabalho 28 , especialmente quando vários profissionais trabalham juntos em ambientes fechados, com equipamentos que necessitam de destreza e precisão no manuseio, como acontece em estaleiros 12 .

Apesar de os relatos demonstrarem vivências de intenso sofrimento imputadas pelas dificuldades descritas, a maioria disse gostar do seu trabalho:

[...] Costumo dizer que no estaleiro a gente é uma família, divido momentos bons e momentos ruins com os colegas [...] ( E 12).

[...] Amo esse estaleiro [...] ( E 1).

Gosto muito de trabalhar no estaleiro, não trabalho pelo dinheiro e sim pelo prazer (E 8).

Tais falas mostraram a contribuição das relações sociais vivenciadas pelos trabalhadores para minimizar os sofrimentos percebidos 22,23 .

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo demonstrou que a noção de risco, a partir de uma visão tecnicista, não considera a experiência dos trabalhadores, não a incorpora na elaboração das normas, não havendo discussões sobre condições de trabalho e riscos.

A insatisfação e os constrangimentos gerados por condições de trabalho precárias, controle organizacional rígido, focadas numa produção acelerada, foram evidenciados, colaborando para o aumento dos riscos de acidentes e sofrimento do trabalhador. No entanto, por meio da criação de várias estratégias de defesa individuais e/ou coletivas, os trabalhadores suportam o sofrimento suscitado pelo ambiente perigoso e insalubre, mantendo o equilíbrio psíquico.

A percepção dos trabalhadores sobre o risco se fundamenta muito mais nos seus conhecimentos práticos, deduções e conversas com os colegas do que nas informações que recebem da empresa. Esse fato fica evidente quando se trata dos metais, pois a maioria dos trabalhadores entrevistados afirma não receber informações sobre eles e tampouco conseguem identificar os metais a que estão expostos.

Apontam-se alguns limites da pesquisa, como a impossibilidade da realização de discussões em grupo, permitindo uma visão coletiva, que enriqueceria os resultados. A homogeneidade do grupo (uma só empresa) não propiciou uma análise comparativa, que poderia apontar diferenças sobre as percepções de riscos.

Questão que merece destaque é relativa ao uso de drogas, demandando análises mais aprofundadas, de modo a subsidiar políticas de saúde e segurança no trabalho. Além do registro e notificação adequados dos acidentes de trabalho, na perspectiva de indicar ações de intervenção, para melhoria da qualidade de vida do trabalhador da indústria naval.

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