Perfil clínico-epidemiológico de adolescentes e jovens vítimas de ferimento por arma de fogo

Perfil clínico-epidemiológico de adolescentes e jovens vítimas de ferimento por arma de fogo

Autores:

Nilce Almino de Freitas,
Ana Valeska Siebra e Silva,
Ana Cristhina de Oliveira Brasil,
Vasco Pinheiro Diógenes Bastos,
Lenise Castelo Branco Camurça Fernandes

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1414-462Xversão On-line ISSN 2358-291X

Cad. saúde colet. vol.25 no.4 Rio de Janeiro out./dez. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1414-462x201700040213

ABSTRACT

Objective

Identify the clinical and epidemiological profile of adolescents and young victims of firearms wounds admitted in a leading trauma hospital in North and Northeast of Brazil.

Methods

Quantitative and descriptive study, from June to December/2014, in Fortaleza-CE. The sample consisted of 231 participants, 12 to 24 years old. Date collection was carried out by interview with participant. We adopted significance level of 5% (p <0.05).

Results

The mean age was 19.96 years old, with most coming from outlying neighborhoods (50.4%), five to eight residents in the family (54.1%), male (93.5%), mixed race (57.6%), incomplete 1st degree (52.8%), illicit drug users (65.31%), low income (39.4%), unemployed (41.1%), directly involved in the violent act (69%), disagreements as a cause of injury (25.9%). Hospital stay 16 to 30 days (42.9%) and limbs as most affected body structures (58.7%).

Conclusion

This study allowed the analysis of risk factors of violence by firearms and its impact on society favoring the development of preventive measures.

Keywords:  violence; wounds; gunshot adolescent; young adult

INTRODUÇÃO

A violência é considerada uma das temáticas mais importantes da atualidade e se transformou em um grave problema de saúde pública em vários países, inclusive no Brasil. Seu combate tornou-se um grande desafio mundial, e, nesse contexto, adolescentes e jovens, principalmente entre 15 e 24 anos, são os grupos etários mais vulneráveis a todas as formas de violência 1-3 .

A população infantojuvenil, portanto, é a mais suscetível, principalmente em virtude de fatores relacionados à imaturidade, à curiosidade inerente a essa fase, ao espírito de aventura, ao excesso de coragem, ao uso abusivo de álcool e drogas e ao envolvimento em atividades ilegais, além do acesso facilitado a armas 4 .

No Brasil, a probabilidade de um adolescente ou jovem ser assassinado por arma de fogo é seis vezes maior do que a de ser morto por qualquer outro meio. Com base no censo populacional de 2010, a região Nordeste expressa um crescimento vertiginoso e situa-se como a região de maior valor quanto ao Índice de Homicídios na Adolescência, com destaque para o Estado do Ceará, que está em sexto lugar 3 .

Além do grande número de adolescentes e jovens que morrem por PAF (perfuração por arma de fogo) a cada ano, outros milhões sofrem as consequências das lesões não fatais, responsáveis pelos anos potenciais de vida perdidos (APVP). Estima-se que, para cada menor de 18 anos morto, existam outros 12 hospitalizados ou com incapacidades permanentes no Brasil. Esse é um fator de enorme gravidade para o quadro social do país, pois ocasiona consequências de forte impacto econômico, emocional e social, levando a pessoa a se ausentar vários dias do trabalho, gerando custos para o sistema de saúde, aumentando a demanda dos serviços sociais, proporcionando perda de vida produtiva, além de danos mentais e emocionais irreparáveis para as vítimas e famílias 5-8 .

Essa nova realidade torna-se ponto de partida para reflexões e questionamentos sobre o real impacto dessa violência na população: qual é o perfil clínico e sociodemográfico desses adolescentes e jovens lesionados por PAF? Quais são as principais causas dessa violência? Essas causas estão relacionadas direta ou indiretamente à violência por arma de fogo?

No hospital-alvo do estudo, referência terciária em atendimento a vítimas de trauma em toda a região Norte-Nordeste do país, foi possível perceber mudanças expressivas no perfil clínico e sociodemográfico das internações nos últimos anos. Observou-se que as internações de crianças vítimas de acidentes domésticos, afogamentos, engasgos, entre outros, tão frequentes nessa faixa etária, foram aos poucos sendo substituídas por adolescentes e jovens lesionados por arma de fogo, os quais, quando não morrem, evoluem, na maioria das vezes, com deficiências e limitações funcionais importantes.

Portanto, a fim de tentar atender a esses questionamentos, foi desenvolvida esta pesquisa no intuito de fornecer dados que possam ser utilizados para o estabelecimento de metas relacionadas à prevenção e ao combate à violência armada.

É importante que se reflita sobre o papel que as armas de fogo exercem no cenário da violência e de que forma elas influenciam nesse contexto, identificando os fatores que contribuem para essa realidade. Quando se pensa em prevenção ou em estratégias políticas, o primeiro passo é conhecer a magnitude e a distribuição do problema, identificando o perfil detalhado, considerando o contexto pessoal e ambiental das vítimas.

Este estudo teve como objetivo traçar o perfil clínico-epidemiológico de adolescentes e jovens vítimas de perfuração por arma de fogo internados em um hospital terciário, que é referência em trauma não apenas no Estado do Ceará, mas em toda a região Norte-Nordeste do Brasil.

MÉTODOS

Trata-se de uma pesquisa descritiva, prospectiva, com abordagem quantitativa, realizada no período de junho a dezembro de 2014, na cidade de Fortaleza, no Estado do Ceará.

O locus do estudo foi o Hospital Instituto Dr. José Frota (IJF), hospital público, terciário, atualmente o maior hospital de urgência e emergência do Estado do Ceará, sendo referência em assistência a pacientes vítimas de trauma e de alta complexidade em toda a região Norte-Nordeste do Brasil, além de ser considerada instituição de ensino, pesquisa e orientadora de políticas públicas em saúde 9 .

Essa unidade está localizada no centro da cidade de Fortaleza e dispõe das mais diversas especialidades, atividades e serviços. Possui capacidade para 461 leitos de internação e realiza em média 15 mil atendimentos por mês, prestados por quase 3 mil funcionários 10-11 .

A população abrangida por esta pesquisa foi constituída por adolescentes e jovens internados em decorrência de ferimento por arma de fogo, estimada por levantamento prévio em um total de 420 indivíduos.

Em razão da inviabilidade de avaliar todos os elementos da população, foi realizada uma amostragem a fim de que o estudo pudesse reproduzir as características relevantes sobre a população. O tamanho da amostra calculada por meio da fórmula para população finita contou com 231 participantes.

Foram incluídos no estudo adolescentes e jovens com idade entre 12 e 24 anos, de ambos os gêneros, que estavam internados no período de junho de 2014 a dezembro de 2014 em decorrência de violência por arma de fogo, sendo excluídas as ocorrências de causa acidental ou suicídio.

As variáveis dependentes tiveram relação com o envolvimento do participante na prática da violência armada. Foram considerados envolvidos diretamente os jovens e adolescentes lesionados por arma de fogo que, de acordo com a causa da agressão, participaram da violência de forma intencional, ou seja, os envolvidos em atos infracionais, em desavenças, em tráfico de drogas e em tiroteios com a polícia. Já os participantes que tiveram envolvimento não intencional na prática da violência armada, isto é, os atingidos casualmente pelo tiro, foram considerados os de envolvimento indireto, como os que foram vítimas de assalto ou de “bala perdida”.

As variáveis independentes foram divididas em dois blocos: sociodemográficas, que incluem procedência, renda familiar, número de membros na família, idade, gênero, cor da pele, escolaridade, ocupação, tabagismo, etilismo, uso de medicação controlada e uso de drogas ilícitas, além das causas da agressão; e variáveis relacionadas à clínica, como tempo de internação e tipo de lesão (estrutura atingida).

Para a coleta de dados, foi elaborado um formulário individual, especificamente desenvolvido para a pesquisa, que utilizou como base as fichas do Setor de Assistência Social. Dessa forma, foi possível localizar com facilidade os pacientes elegíveis para o estudo e o seu leito de internação. A busca ativa dos pacientes ocorreu a cada três dias na semana, de acordo com os critérios de inclusão. Os dados relevantes para o preenchimento do formulário foram coletados por meio de entrevista direta com o participante ou com o responsável.

O armazenamento e o tratamento dos dados foram realizados no SPSS, versão 20.0. Realizou-se análise descritiva de todas as variáveis, utilizando frequências absoluta e relativa para as categóricas, e médias, desvio-padrão, mínimo e máximo para as contínuas. Variáveis categóricas e contínuas foram confrontadas com os desfechos ou com as variáveis dependentes a fim de verificar possíveis associações. O teste de Mann-Whitney foi utilizado para comparações de grupos envolvendo variáveis numéricas. Recorreu-se aos testes de Qui-Quadrado e Exato de Fisher para comparações de variáveis categóricas. O nível de significância adotado em todos os testes foi de 5% (p<0,05).

O projeto foi apreciado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do IJF, em cumprimento à Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012, do Conselho Nacional de Saúde (CNS), sob o número 692.559.

RESULTADOS

Participaram da pesquisa 231 adolescentes e jovens na faixa etária de 12 a 24 anos.

Os dados constantes na Tabela 1 apontaram que 50,4% (116) dos participantes do estudo eram procedentes de bairros da periferia de Fortaleza, seguido de cidades do interior do Estado do Ceará e da Região Metropolitana de Fortaleza, com 23,5% (54) e 20,34% (47), respectivamente. Bairros centrais de Fortaleza representaram apenas 5,7% (13) e 0,4% (1) era morador de rua.

Tabela 1 Distribuição dos dados referentes às variáveis sociodemográficas dos adolescentes e jovens vítimas de violência armada. Fortaleza, Ceará, 2014  

Variáveis sociodemográficas Freq. %
Procedência
Bairro da periferia 116 50,4
Interior 54 23,5
Região Metropolitana 47 20,34
Central 13 5,7
Rua 1 0,4
Renda familiar
Até 1 SM 75 32,5
De 1 a 2 SM 91 39,4
De 2 a 4 SM 40 17,3
De 4 a 10 SM 22 9,5
De 10 a 20 SM 3 1,3
Nº de membros na família
Até 4 membros 83 36,2
De 5 a 8 membros 124 54,1
Acima de 9 membros 22 9,6
Faixa etária
Adolescente (12-19 anos) 107 46,3
Jovem (20 a 24 anos) 124 53,7
Gênero
Masculino 216 93,5
Feminino 15 6,5
Cor
Pardo 133 57,6
Negro 52 22,5
Branco 46 19,9
Escolaridade
Analfabeto 7 3,0
1° incompleto 122 52,8
1° completo 43 18,6
2° incompleto 40 17,3
2° completo 19 8,2
Ocupação
Desocupado 95 41,1
Autônomo 81 35,1
Estudante 31 13,4
Empregado 19 8,2
Empregado doméstico 5 2,2

A diferença na amostra refere-se ao preenchimento incompleto de algumas variáveis nos prontuários ou à recusa de alguns participantes em responder.

Em relação à renda familiar, a Tabela 1 revelou que 39,4% (91) dos jovens ou adolescentes recebiam de um a dois salários mínimos, e 32,5% (75), até um salário mínimo. Isso indica que mais da metade dos participantes era de muito baixa renda, pois 71,9% (166) atingiam no máximo dois salários mínimos. Além disso, 28,1% (65) tinham renda acima de dois salários, 17,3% (40), de dois a quatro salários, 9,5% (22), de quatro a dez salários mínimos, e somente 1,3% (3), de 10 a 20 salários.

Os domicílios com cinco a oito membros da família representaram 54,1% (124), os com quatro ou menos moradores, 36,2% (83), e os com mais de nove, 9,6% (22).

Para fins de interpretação da faixa etária, observou-se, ainda na Tabela 1 , que esta foi dividida, de acordo com os conceitos da OMS (2002), em duas categorias: adolescentes (12 a 19 anos) e jovens (20 a 24 anos), sendo mais da metade composta por estes últimos, representando 53,7% (124). A média de idade dos participantes foi de 19,96 (±3,09) anos. Constatou-se a prevalência de homens, com 93,5% (216). Em relação à cor da pele, a parda representou 57,6% (133), seguida da cor negra, com 22,5% (52), e da cor branca, com 19,9% (46).

Finalizando os dados da Tabela 1 , evidenciou-se que o nível máximo de escolaridade atingido foi o 1º grau incompleto em 52,8% (122) dos participantes, porém apenas 3% (7) eram analfabetos. Ressalta-se que a maioria dos participantes, na ocasião da entrevista, estava sem exercer nenhuma atividade e que 41,1% (95) foram considerados desocupados. Dos que exerciam alguma atividade, 35,1% (81) eram trabalhadores autônomos, 13,4% (31) apenas estudavam, 8,2% (19) eram empregados com vínculo e 2,2% (5) eram empregados domésticos.

O uso de drogas ilícitas, apontado na Tabela 2 , ocorreu em mais da metade dos jovens entrevistados, perfazendo 65,31% (145), diferentemente do que foi expresso em relação ao uso de cigarro, álcool e medicação, com 37% (87), 31,2% (72) e 10,4% (22), respectivamente.

Tabela 2 Distribuição dos dados referentes ao uso de drogas por adolescentes e jovens vítimas de violência armada. Fortaleza, Ceará, 2014  

Drogas Freq. %
Tabagismo
Sim 87 37,7
Não 144 62,3
Total 231 100,0
Etilismo
Sim 72 31,2
Não 159 68,8
Total 231 100,0
Uso de medicação controlada
Sim 24 10,4
Não 204 89,6
Total 231 100,0
Usuário de droga ilícita
Sim 145 65,31
Não 77 34,7
Total 222* 100,0

A diferença na amostra refere-se ao preenchimento incompleto de algumas variáveis nos prontuários ou à recusa de alguns participantes em responder.

Quanto aos dados referentes às drogas ilícitas, 48,27% (70) usaram maconha, 13,8% (20), somente cocaína, 13,8% (20), apenas “crack”, e 24,12% (35) utilizaram mais de um tipo de droga ilícita.

As causas da agressão estão descritas na Tabela 3 . Desavenças foram as causas relatadas pela maioria, representando 25,9% (56) do total. Foram incluídas nesse grupo as causas que faziam referência às brigas de gangue, discussões em bares, disputas por território e discussões familiares. Uma parcela dos participantes referiu desconhecer a causa da agressão, representando 16,7% (36). Acerto de contas por traficante e casos de “bala perdida” perfizeram 15,3% (33) e 13,9% (30), respectivamente. Foram menos frequentes as lesões decorrentes de assaltos sofridos, com 12% (26), e aquelas que foram consequência de atos infracionais realizados pelo próprio participante, com 10,2% (22). Além disso, uma pequena representação se recusou a responder à questão, totalizando 6,49% (15).

Tabela 3 Distribuição dos dados referentes à causa da agressão de adolescentes e jovens vítimas de violência armada. Fortaleza, Ceará, 2014  

Causa da agressão Freq. %
Desavenças 56 24,24
Desconhece o motivo 36 15,58
Acerto de contas por traficante 33 14,29
“Bala perdida” 30 12,99
Vítima de assalto 26 11,26
Autor de ato infracional 22 9,52
Não responderam 15 6,49
“Troca de tiros com a polícia” 13 5,63
Total 231 100

Os indivíduos envolvidos diretamente na prática da violência armada representaram mais da metade dos participantes, com 69% (112), enquanto os envolvidos indiretamente na violência totalizaram 31% (56).

O tempo de internação hospitalar dos participantes do estudo, descrito na Tabela 4 , indicou que 42,9% (99) deles permaneceram de 16 a 30 dias internados, 22,1% (51), de 31 a 45 dias, 19% (44), no máximo 15 dias, 9,1% (21), de 46 a 60 dias, 6,9% (16), acima de 60 dias sob hospitalização.

Tabela 4 Distribuição dos dados referentes ao tempo de internação de adolescentes e jovens vítimas de violência armada. Fortaleza, Ceará, 2014  

Tempo de Internação Freq. %
Até 15 dias 44 19,0
De 16 a 30 dias 99 42,9
De 31 a 45 dias 51 22,1
De 46 a 60 dias 21 9,1
Acima de 60 dias 16 6,9
Total 231 100,0

Em relação ao tipo de lesão, a Figura 1 mostra que membros, com 58,7% (135), abdômen, com 47,4% (109), e tórax, com 40,7% (94), foram as estruturas do corpo mais atingidas.

Figura 1 Distribuição da proporção dos dados referentes à estrutura do corpo dos adolescentes e jovens lesionados por arma de fogo. Fortaleza, Ceará, 2014. Nota: Parte dos participantes apresentou mais de uma estrutura do corpo com lesão  

DISCUSSÃO

A maioria das vítimas de homicídio no Ceará em 2010 foi de jovens e adolescentes que moram na periferia de Fortaleza. Nos municípios da Região Metropolitana, a violência também segue avançando. A permanente pressão dos mais pobres em direção às piores localidades retrata o baixo nível de escolaridade e a ínfima renda familiar, além de conter uma grande parcela de jovens 12-14 .

De fato, observou-se, neste estudo, que jovens e adolescentes vítimas de arma de fogo, moradores em bairros de periferia, totalizaram mais da metade dos participantes, reforçando a afirmação de que a distribuição desigual da criminalidade violenta na cidade de Fortaleza exibe relação direta com as condições sociodemográficas.

A situação piora ainda mais quando a prole é numerosa, fato muito comum nas classes sociais mais baixas. Em famílias numerosas, a capacidade dos pais em atender à necessidade dos filhos e em dar atenção a todos é reduzida, aumentando a vulnerabilidade destes 13 , fator também evidenciado no estudo desenvolvido ao apontar que mais da metade dos participantes possuía de cinco a oito membros na família.

Existe complexa relação entre jovens, violência e gênero, uma vez que os jovens do sexo masculino, de cores parda e negra, principalmente pobres, são as principais vítimas de homicídios, cujas ocorrências costumam ocorrer em razão de conflitos, muitas vezes relacionados ao narcotráfico e à polícia 15 .

Ressalta-se maior exposição à violência de pessoas do sexo masculino, principalmente de adolescentes e adultos jovens, significando 46,96% das vítimas. A falta de perspectivas de realização pessoal, profissional e social pode justificar a maior intensidade da violência nesse grupo 16 .

O predomínio da população masculina nesses tipos de ocorrência era esperado no estudo ora desenvolvido. Outra constatação desta pesquisa que corrobora a literatura foi a de que a cor parda representou mais da metade dos adolescentes e jovens lesionados por arma de fogo.

Sabe-se que os negros e pardos representam a parcela da população que possui nível socioeconômico bastante desfavorável, mas, ao serem analisados separadamente, os pardos, de ambos os sexos, são os que exibem valores mais elevados de APVP em decorrência da violência externa 17-18 .

Dados do Ministério da Saúde reforçam o fato de que as raças negras e pardas predominam em todos os tipos de eventos violentos, observando-se crescimento no risco de morte por causas violentas nesse grupo étnico 19 .

Neste estudo, os achados quantitativos apontam que a diferença em relação à cor se manifestou tanto na questão de ter ou não um emprego como na renda familiar e na moradia, mostrando que, principalmente, pardos, mas também negros, foram as principais vítimas da violência. Outra evidência interessante é o fato de que a cor da pele branca foi a menos atingida pela violência por arma de fogo.

Outro fator relevante em relação à violência por arma de fogo entre jovens e adolescentes é o baixo nível educacional, por levar à instabilidade financeira e dificultar a inserção no mercado de trabalho 13 .

Enquanto 19% dos jovens de 15 a 29 anos não trabalham nem estudam (fazem parte da geração “nen-nem”), 45,2% somente trabalham, 13,6% trabalham e estudam e 21,6% apenas estudam, ou seja, um quinto dos jovens do Brasil não estuda nem trabalha 20 .

Ratificando os dados apontados na literatura, mais da metade dos participantes deste estudo atingiu no máximo o 1º grau incompleto. Além da situação de baixa escolaridade, constatou-se que a maioria dos adolescentes e jovens era desocupada e com baixa renda familiar (recebiam apenas de um a dois salários mínimos).

Mediante o exposto, pode-se inferir que o grande impacto da educação e da situação socioeconômica do país pode motivar o aumento da violência sobre a população, visto que a maioria mora em bairros de enorme pobreza, com rendas familiares baixas e com os menores índices de alfabetização e tempo de anos de estudos. Foi perceptível o fato de que, principalmente nos locais menos desenvolvidos, como nos bairros de periferia, o consumo e a venda de drogas acontecem corriqueiramente, e a população é a grande prejudicada.

Sabe-se que a violência por arma de fogo está intimamente relacionada ao uso de drogas. Não apenas no Brasil, mas também em todo o mundo, o aumento da experimentação de drogas entre jovens se tornou um problema de resolução difícil 21-22 .

No Brasil, diversos trabalhos demonstram que o álcool é a substância mais usada pelos jovens, seguida do tabaco, da maconha e dos estimulantes. Observou-se um aumento do risco em alunos acima de 15 anos, sendo de três vezes mais para o uso de cocaína, mais de cinco vezes para alucinógenos e mais de sete vezes para a maconha 23 .

Para muitos jovens, principalmente os de situações mais vulneráveis, a comercialização das drogas representa uma possibilidade de trabalho e de geração de renda rápida, sendo para alguns apenas uma atividade complementar; no entanto, para outros, é a única fonte de renda, passando o tráfico a ser um dos empregos mais acessíveis para jovens com pouca formação escolar 24 .

Conforme constatado neste estudo, algumas informações divergem um pouco das encontradas nas pesquisas, pois apenas 1/3 dos participantes faz uso de bebida alcoólica. Em contrapartida, mais da metade usam drogas ilícitas, destacando-se a maconha como a de uso da maioria, confirmando dados relatados na literatura. Destaca-se que parte dos adolescentes e jovens integrantes do estudo faz uso de mais de um tipo de droga ilícita.

Esta pesquisa enfatiza e corrobora a reflexão sobre as relações entre desigualdades sociais e a violência relacionada aos adolescentes e jovens, principalmente no que diz respeito às necessidades psicossociais e às vulnerabilidades dessa fase do ciclo de vida, como baixa escolaridade, ínfima renda, situação de fragilidade familiar e uso de drogas como parte do cotidiano.

De acordo com pesquisa realizada pelo Conselho Nacional do Ministério Público em novembro de 2012, um estudo baseado em inquéritos policiais referentes a homicídios acontecidos em 16 unidades da federação, verificou-se que desavenças, motivos fúteis e/ou por impulso representaram mais da metade das causas do total de homicídios na maioria dos Estados. Vários estudos indicam que as discussões, seguidas por vinganças ou acertos de contas, representam motivos relevantes dos disparos por arma de fogo 25-26 .

Neste estudo, os resultados foram semelhantes aos mostrados na literatura, pois verificou-se que a maioria dos participantes da pesquisa referiu o motivo desavença como a causa da lesão sofrida. Ressalta-se que o desconhecimento do motivo que ocasionou a lesão ocupou o segundo lugar quanto às causas, fato justificado pela não colaboração de alguns participantes ao referirem não saber o motivo do tiro ou não se sentirem à vontade em relatá-lo por medo da exposição. Acerto de contas, bala perdida e assalto ficaram em terceiro, quarto e quinto lugar, respectivamente; porém, quanto ao item “bala perdida”, é impossível ter certeza de que todos os que relataram essa informação disseram a verdade – é possível que alguns tenham utilizado essa opção por vergonha ou receio de se expor.

Em média, 116 pessoas foram vítimas de homicídio por arma de fogo por dia no Brasil em 2012. Isso equivale a impressionantes 4,8 mortes por hora, valores semelhantes ao registrado em países em guerra 27 . Quando se analisou a intencionalidade das ocorrências por arma de fogo, de acordo com a causa da agressão, percebeu-se que aquelas em que o lesionado foi propositalmente alvo do atirador, aqui chamado de envolvido diretamente com a violência armada, representaram mais da metade dos participantes do estudo, confirmando o crescimento vertiginoso da violência.

As internações por PAF no Brasil são muito expressivas e vêm aumentando. Estudo retrospectivo realizado em Hospital Universitário de Maringá, no Paraná, indica que o tempo de internação de vítimas de PAF pode variar de 1 a 78 dias, com média de 5 a 13 dias 28 .

Na pesquisa ora realizada, a maioria dos participantes permaneceu de 16 a 30 dias internados e apenas a minoria (6,9%) ficou acima de 60 dias internado, dados que não se diferenciam muito dos citados pela literatura.

Estudiosos relatam que membros inferiores (MMII) e membros superiores (MMSS) são as estruturas do corpo mais atingidas por PAF, estando o tórax em segundo lugar e o abdômen em terceiro 26 . Apesar de algumas divergências da literatura, que podem ser justificadas pelo perfil dos pacientes pesquisados, este estudo constatou que lesões em membros, seguidas de lesões abdominais e torácicas, foram as mais ocorrentes.

As incapacidades desenvolvidas pelas vítimas de PAF atendidas no hospital-alvo do estudo certamente serão causadoras de forte impacto negativo no mercado de trabalho, bem como na organização familiar e no sistema de saúde. Sabe-se que, além dos gastos com as internações e os tratamentos de reabilitação, existe o fato de que muitos desses jovens carregarão consigo deficiências completas e irrecuperáveis.

Evidencia-se, facilmente, que não só o município de Fortaleza como o país todo precisam de políticas em prol do crescimento econômico, da redução da exclusão social, do incentivo à educação e profissionalização, bem como políticas contra a violência. É importante que haja uma investigação detalhada sobre os hábitos e os possíveis desajustes psicossociais desses adolescentes e jovens envolvidos em desavenças, assim como uma política austera de combate ao uso de drogas, além do incentivo à permanência do jovem na escola.

Este estudo possibilitou identificar aspectos relacionados ao perfil clínico-epidemiológico dos adolescentes e jovens lesionados por arma de fogo, tornando-se mais fácil analisar os fatores desencadeantes e seu impacto na sociedade.

REFERÊNCIAS

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