Perfil da fluência: comparação entre falantes do Português Brasileiro e do Português Europeu

Perfil da fluência: comparação entre falantes do Português Brasileiro e do Português Europeu

Autores:

Blenda Stephanie Alves e Castro,
Vanessa de Oliveira Martins-Reis,
Ana Catarina Baptista,
Letícia Correa Celeste

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.26 no.6 São Paulo nov./dez. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20142014184

INTRODUÇÃO

Estudos mostram que a língua portuguesa falada no Brasil e em Portugal apresenta algumas diferenças em vários níveis linguísticos( 1 ), sejam esses semânticos, morfossintáticos, fonéticos/fonológicos, dentre outros. As distinções entre o Português Brasileiro (PB) e o Português Europeu (PE) vão além do nível segmental, alcançando também o prosódico( 2 , 3 ). Questiona-se, então, se os padrões de fluência da fala, foco deste estudo, também apresentariam suas particularidades no PE e no PB.

Os parâmetros comumente encontrados para avaliar objetivamente a fluência de fala são as disfluências comuns, disfluências gagas, porcentagem de descontinuidade de fala ou taxa total de rupturas, porcentagem de sílabas gaguejadas e velocidade de fala( 4 ), a última também denominada taxa de elocução e/ou taxa de articulação( 5 , 6 ).

Tais parâmetros têm sido pesquisados no Brasil, traçando perfil normativo em falantes fluentes( 4 , 7 , 8 ) e caracterizando diferentes distúrbios da comunicação( 5 , 9 - 11 ). Entretanto, há carência de estudos que descrevam o perfil de fluência da fala do PE( 3 ).

A avaliação da fluência é de extrema relevância para fornecer parâmetros sobre a efetividade da linguagem, e não somente para o diagnóstico da gagueira( 12 ) e de outros distúrbios da comunicação. Neste sentido, estudos que proporcionem valores de referência para falantes fluentes, considerando as particularidades de cada língua, são importantes para aumentar a precisão diagnóstica( 7 ).

O objetivo do presente trabalho é comparar parâmetros da fluência de adultos falantes nativos do PB e do PE.

MÉTODOS

A presente pesquisa foi apreciada e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais sob protocolo CAAE 01460612.4.0000.5149, com autorização da área Departamental do Curso de Terapia da Fala da Universidade do Algarve (Portugal). Todos os participantes assinaram Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Participaram deste estudo 76 sujeitos de ambos os gêneros, sem distinção de raça e cor, sendo 38 residentes na região metropolitana de Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais, Brasil, e 38 residentes na cidade de Faro, capital do Distrito de Faro, da região do Algarve, Portugal. Todos os sujeitos tinham entre 18 e 29 anos de idade.

Como critério de exclusão, os participantes não poderiam apresentar queixa pessoal e/ou familiar de gagueira e/ou déficits de comunicação ou de saúde que comprometessem a produção de fala.

A metodologia utilizada para coleta e análise das amostras de fala leva em conta os seguintes parâmetros de fluência: tipologia das rupturas (disfluências comuns - hesitação, interjeição, revisão, repetição de palavras e/ou segmento e/ou frase, palavra não terminada -, e disfluências gagas - repetição de sílabas e/ou sons, prolongamento, bloqueio, pausa, intrusão de som e/ou segmento); velocidade de fala, em palavras e sílabas por minuto; e frequência de rupturas (porcentagem de descontinuidade de fala e de disfluências gagas)( 13 ).

Foi realizada análise descritiva dos dados, sendo calculados valores como a mediana, média e o desvio-padrão. Para analisar a independência entre os grupos em estudo foi utilizado o Teste do χ2. Já para a comparação de medianas, foi usado o Teste não paramétrico de Mann-Whitney. Considerou-se nível de significância de 5%.

RESULTADOS

Com relação à tipologia das disfluências, a Tabela 1 apresenta os valores encontrados para PB e PE, bem como a sua distribuição qualitativa.

Tabela 1. Comparação da distribuição das disfluências comuns e gagas entre os falantes da variante mineira do Português Brasileiro e da variante algárvia do Português Europeu 

Português Brasileiro
n (%)
Português Europeu
n (%)
Tipologia das disfluências comuns
Hesitação 277 (42,8) 370 (57,2)
Interjeição 64 (60,4) 42 (39,6)
Revisão 56 (60,9) 36 (39,1)
Palavra não terminada 17 (70,8) 7 (29,2)
Repetição de palavra 21 (44,7) 26 (55,3)
Repetição de segmento 18 (90,0) 2 (10,0)
Repetição de frase 1 (100,0) 0 (0,0)
Valor de p <0,001*
Tipologia das disfluências gagas
Repetição de sílaba 2 (100,0) 0 (0,0)
Repetição de som 7 (87,5) 1 (12,5)
Prolongamento 55 (56,7) 42 (43,3)
Bloqueio 0 (0,0) 0 (0,0)
Pausa 5 (50,0) 5 (50,0)
Intrusão 4 (66,7) 2 (33,3)
Valor de p 0,311

*p<0,05.

Os dois grupos de falantes foram comparados para cada tipologia das disfluências. A variável "hesitação" apresentou diferença significativa (p=0,006), com maior mediana para os falantes do PE (9,0 versus 7,0). As variáveis "repetição de segmento" e "repetição de sons" também apresentaram diferença significativa (p=0,005 e p=0,048, respectivamente). Apesar das medianas serem iguais (menores que zero), elas não se distribuem igualmente entre os países, com valores maiores para o PB.

Os resultados e a comparação dos parâmetros do perfil de fluência estão dispostos na Tabela 2.

Tabela 2. Comparação entre o perfil da fluência da fala de adultos falantes da variante mineira do Português Brasileiro e da variante algárvia do Português Europeu 

Variável Português Brasileiro Português Europeu Valor de p
Mediana Média Desvio-padrão Mediana Média Desvio-padrão
Total de disfluências comuns 11,0 12,0 6,5 13,0 12,7 4,8 0,590
Total de disfluências gagas 1,0 1,9 2,0 1,0 1,3 1,5 0,187
Palavras/minuto 113,4 109,1 23,4 128,7 131,3 39,1 0,004*
Sílabas/minuto 214,3 211,2 48,3 213,0 213,5 60,8 0,857
Porcentagem de descontinuidade de fala 6,0 6,9 3,4 7,0 7,0 2,6 0,881
Porcentagem de disfluências gagas 0,5 1,1 1,2 0,5 0,7 0,8 0,221

*p<0,05.

DISCUSSÃO

Neste estudo foi levantado o perfil da fluência de fala de um grupo de jovens adultos falantes da variante mineira do PB e um grupo de jovens adultos falantes da variante algárvia do PE.

Quanto ao número total de disfluências comuns e gagas, tanto PB quanto PE apresentam resultados próximos ao descrito na literatura( 4 , 14 ). Apesar de não se diferenciarem quantitativamente, foi verificada divergência qualitativa na tipologia das disfluências: no PB encontrou-se com maior frequência a revisão, palavra não terminada e repetição de segmento, enquanto os falantes do PE utilizam mais hesitações e repetição de palavras.

Devido ao número reduzido de informantes desta pesquisa, que surge como uma tentativa inicial de levantar questões acerca da variabilidade entre PB e PE, sugere-se que um estudo mais aprofundado sobre a tipologia das disfluência seja conduzido a fim de esclarecer melhor essa particularidade. Entretanto, enquanto não for estabelecido o perfil da fluência de adultos do PE, os valores de normalidade dos seis parâmetros da fluência poderão ser utilizados na avaliação destes indivíduos.

No que diz respeito à velocidade de fala, os falantes do PE apresentam taxa mais elevada que a dos falantes do PB somente para palavras por minuto, sem diferença estatística quanto às sílabas por minuto. Uma das possíveis explicações para essa diferença é a distribuição qualitativa das disfluências: no PB observam-se mais disfluências do tipo revisão. Em um estudo sobre as disfluências de revisão, os autores concluíram que há diminuição da velocidade de fala no momento da pronúncia dessa disfluência( 8 ), o que poderia, na relação dos níveis segmental e suprassegmental, influenciar nesse parâmetro. Outra explicação seria o alto valor de desvio-padrão, fato encontrado em diversos estudos que envolvem a velocidade de fala( 5 , 7 , 9 ).

Apesar de os estudos que consideram a medida sílaba por minuto apresentarem resultados com alguma variação, no PB considera-se que esses valores podem variar entre 202,9 e os 247,6( 4 , 5 , 10 , 14 ). Eles são concordantes com os encontrados neste estudo tanto para o PB quanto para o PE.

CONCLUSÃO

Os parâmetros analisados neste estudo sobre o perfil de fluência apontaram tendência de similaridade entre o PB e o PE. No entanto, observou-se que a velocidade de fala dos falantes do PE é maior que a dos falantes do PB em palavras por minuto. Apesar de a quantidade de disfluências comuns ser semelhante, a sua distribuição qualitativa diferencia uma língua da outra. No PB foram encontradas com maior frequência a revisão, palavra não terminada e repetição de segmento, enquanto os falantes do PE utilizam-se mais das hesitações e da repetição de palavras.

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