Perfil de comportamento pessoal autorreferido por professores universitários: associação com a autoavaliação comunicativa e vocal

Perfil de comportamento pessoal autorreferido por professores universitários: associação com a autoavaliação comunicativa e vocal

Autores:

Iara Guirão Tonon,
Nayara Ribeiro Gomes,
Letícia Caldas Teixeira,
Adriane Mesquita de Medeiros

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.32 no.2 São Paulo 2020 Epub 10-Fev-2020

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20192018141

INTRODUÇÃO

A comunicação humana configura-se como um instrumento social que permite a integração das pessoas, sendo uma forma de compreender e compartilhar ideias(1). Este fenômeno envolve a voz, a fala e o corpo, elementos verbais e não verbais que se conjugam e são essenciais para a credibilidade do discurso(2,3).

Na docência, a comunicação oral é um instrumento didático para o trabalho, no qual esses elementos da comunicação, quando bem utilizados e integrados, oferecem informação, aumentam o interesse do aluno, auxiliam a memorização, potencializam o processo de ensino-aprendizagem e garantem a confiabilidade do que foi dito(2-5).

As competências comunicativas específicas durante a aula se caracterizam pelo uso adequado da voz (qualidade vocal, tom e volume da voz), da fala (articulação e velocidade de fala), recursos prosódicos (ritmo de fala) e corporais (gestos, expressões faciais e postura corporal) que somados promovem as interações discursivas entre professor e aluno(2-4,6). Nesse contexto, hipotetizamos que o uso de determinados recursos vocais, de fala e corpo podem ser amplamente influenciados pelo perfil de comportamento pessoal de cada professor.

O perfil de comportamento pessoal é determinado pela forma como as pessoas se comportam em detrimento de suas particularidades internas(7,8). A análise do comportamento, relacionada à personalidade do indivíduo, originou-se na área da Psicologia e vem sendo utilizada para estudar a interação na comunicação e relacionamento entre equipes de trabalho, professores e alunos(8-10).

Alguns dos estudos de personalidade estão construídos sobre um modelo básico de quatro quadrantes, em que cada um desses quadrantes representa um “tipo” de personalidade, no qual as pessoas percebem e são afetadas pelo comportamento interpessoal(7-11).

Os quatro tipos de perfis de comportamento pessoal mais referenciados são o pragmático, analítico, expressivo e o afável(7,8,10). Dentro desse constructo teórico, não existe um perfil que seja considerado ideal, visto que as pessoas são diferentes e se comportam de maneiras distintas, e mesmo que um determinado perfil se sobressaia no indivíduo, os outros perfis se coarticulam de acordo com as situações a que se é exposto(7).

Grande parte das pesquisas em voz do professor tem como foco de interesse o aspecto da saúde da voz e os estudos sobre as competências comunicativas no docente começam a avançar(1,4,5,12). O interesse de se estudar o perfil de comportamento pessoal dos professores universitários se deve ao fato de que a personalidade influencia a produção vocal(13) e perpassa o processo docente e de interação social na sala de aula. Muitos dos estudos sobre as características da personalidade e voz do indivíduo estão voltados para os distúrbios vocais(13-18) e não existem pesquisas que tenham como foco de interesse a influência do perfil comunicativo nas habilidades comunicativas e na presença de sintomas vocais.

Ao considerarmos que as particularidades de cada indivíduo podem influenciar negativa ou positivamente suas habilidades comunicativas, acreditamos que compreender a relação entre o perfil de comportamento, os aspectos comunicativos com ênfase nos recursos vocais e os sintomas vocais em professores universitários permitirá ampliar o conhecimento sobre a voz do docente. Além disso, os resultados do presente estudo poderão contribuir para o avanço na prática clínica fonoaudiológica quanto às estratégias para abordar a competência comunicativa e o uso da voz do docente considerando seu perfil de comportamento.

Diante do exposto, o presente estudo tem como objetivo descrever o perfil de comportamento pessoal autorreferido por professores universitários e verificar a associação destes perfis com a autoavaliação dos aspectos comunicativos e sintomas vocais.

MÉTODO

Trata-se de um estudo observacional transversal, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição sob o parecer nº 1.682.496/16. A pesquisa foi realizada com a participação de professores do ensino superior de diferentes unidades acadêmicas de uma universidade pública federal. De acordo com dados fornecidos pela Pró-Reitoria de Recursos Humanos (PRORH), a instituição é composta de 2.925 docentes, que se distribuem em oito grandes áreas: Ciências Agrárias, Ciências Biológicas, Ciências da Saúde, Ciências Exatas e da Terra, Ciências Humanas, Ciências Sociais Aplicadas, Engenharias e Linguística, Letras e Artes.

O cálculo amostral foi realizado considerando prevalência do evento de, no mínimo, 20% e a estratificação considerando as grandes áreas. A margem de erro amostral foi de 5% e o nível de significância de 5%. Baseado nessas características do processo amostral, a amostra estimada do estudo foi de, no mínimo, 236 professores ativos no ensino superior da universidade em questão.

Participaram do estudo 334 professores distribuídos conforme estratificação da amostra nas seguintes áreas de atuação: 15 das Ciências Agrárias, 19 das Ciências Biológicas, 83 das Ciências da Saúde, 31 das Ciências Exatas e da Terra, 47 das Ciências Humanas, 31 das Ciências Sociais Aplicadas, 18 das Engenharias, 34 da Linguística, Letras e Artes e 56 que atuavam em mais de uma área. A média de idade dos professores foi de 46 anos (DP±10,2), sendo 201 mulheres (60,2%) e 133 homens (39,8%) com tempo médio de docência de 17 anos (DP±11,2). A maioria trabalha em dedicação exclusiva na universidade (91%; n=304), ou seja, não possui outro emprego além do exercido na instituição de ensino público, lecionando para turmas com 39 alunos, em média (±31,5).

Considerou-se, como critérios de inclusão deste estudo, pertencer ao corpo docente efetivo da universidade e estar em atividade acadêmica. Foram excluídos da pesquisa professores graduados no curso de Fonoaudiologia, professores que foram afastados de suas atividades no período da coleta de dados e docentes que não estavam exercendo as atividades de ensino.

Após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da universidade, um órgão da própria instituição realizou distribuição em massa de um correio eletrônico a todos os professores, que continha o convite para participação na pesquisa e os links do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e do Questionário deste estudo. Os professores que concordaram em participar desta pesquisa foram esclarecidos sobre todos os procedimentos da pesquisa de forma online, por meio das informações contidas no texto do TCLE, e, em seguida, foram direcionados para preenchimento do questionário.

Como instrumento de coleta para este estudo, foi utilizado um questionário elaborado pelas pesquisadoras, contendo 55 questões, distribuídas nos seguintes tópicos: dados sociodemográficos, características vocais e da expressividade oral na comunicação, ambiente de trabalho. Além disso, foi incluída no questionário uma lista de sinais e sintomas vocais(19). O questionário foi aplicado online, via plataforma Google formulários, sendo necessário que o participante respondesse a todas as opções obrigatórias antes de finalizar o preenchimento do questionário. Os dados foram coletados no período de novembro de 2016 a março de 2017.

O presente estudo teve interesse em analisar as seguintes variáveis explicativas:

    1. Autoavaliação dos aspectos comunicativos:

      a. Recursos vocais: autopercepção da qualidade vocal (negativa - muito ruim ou ruim, ou positiva – boa ou muito boa), tom de voz (fino demais, grosso demais ou adequado), intensidade da voz (fraca, forte ou adequada), articulação para falar (ruim ou boa), velocidade de fala (lenta, rápida ou adequada), e ritmo de fala (mesma cadência ou variado) utilizados em sala de aula.

      b. Aspectos comunicativos: captação da atenção do aluno (sempre ou às vezes), necessidade de repetição do que disse (sempre, às vezes ou raramente), estabelecimento de contato de olhos (sempre ou às vezes).

    2. Sintomas vocais: para investigação, foi utilizada uma lista de sinais e sintomas vocais, traduzida do original em inglês(20) por Behlau et al.(19). Este instrumento, composto por 14 itens, tem como objetivo determinar a ocorrência de sinais e sintomas vocais em relação ao uso da voz no trabalho. Contudo, neste estudo, foram analisados apenas sete sintomas, que foram os mais relatados pelos participantes: rouquidão, cansaço da voz, dificuldade de projetar a voz, voz monótona, esforço para falar, garganta seca, e pigarro. Todas as variáveis deste item possuem opção dicotômica de resposta (sim ou não).

A variável resposta foi a classificação do perfil de comportamento pessoal, em que são identificados quatro tipos de perfis: pragmático, analítico, expressivo e afável. O comunicador do tipo pragmático é aquele que age com predomínio da razão e preocupa-se com o rigor; possui assertividade, pragmatismo e eficiência; comporta-se de maneira realista e prática, é direto e bastante assertivo; tem tom de voz firme e gestos impositivos; usa pouco a emotividade e é mau ouvinte. O comunicador analítico é racional para agir, mas possui baixa assertividade, sendo metódico, prudente e sistemático; possui tom de voz constante e gestos pensativos; é bom observador e ouvinte, sendo percebido como exigente e detalhista. O expressivo age com predomínio da emoção, sendo entusiasmado e eloquente; possui gestos largos e alta inflexão de voz; tem boa autoestima, é espontâneo, divertido, e age muitas vezes pela intuição. Já o comunicador do tipo afável também age com predomínio da emoção, sendo gentil, leal e empático; é suave nos gestos e possui tom de voz de baixa inflexão; geralmente é um bom ouvinte, mas costuma ser percebido com ingênuo, inseguro ou tímido(7,8,10).

Nos estudos relacionados à voz, verifica-se o uso de alguns testes e questionários para avaliação da personalidade(13-18), porém estes não estabelecem perfis específicos de comportamento, de acordo com os traços da personalidade dos indivíduos. Estudos de outras áreas de conhecimento apresentam uma escala que possibilita identificar os quatro estilos de comportamento(8,10), porém trata-se de um instrumento mais extenso e complexo. Desse modo, neste estudo, foi utilizada a descrição dos perfis de comportamento pessoal, tendo em vista a objetividade para se definir os perfis e identificar suas habilidades comunicativas particulares, bem como a facilidade para resposta do participante da pesquisa, principalmente pelo questionário ter sido preenchido online. A proposta de classificação foi originalmente elaborada em português e o instrumento não foi validado. O perfil de comportamento foi abordado em uma questão, em que o participante deveria selecionar, após a leitura de uma descrição sucinta das principais características de cada perfil de comportamento, aquele com que mais se identificasse, conforme apresentado anteriormente.

Foi utilizado o programa Software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) Statistics Base, versão 19 para análise dos dados. A análise descritiva foi realizada por meio de medidas de tendência central para as variáveis quantitativas e distribuição de frequência (porcentagem) para variáveis categóricas. Já para verificar a associação das variáveis com o perfil de comportamento, foram realizados os testes Quiquadrado e Exato de Fisher, com nível de significância de 5%.

RESULTADOS

Em relação aos perfis de comportamento, 47 docentes (14,1%) se identificaram com o perfil pragmático, 100 (29,9%) com o perfil expressivo, 107 (32,0%) com o perfil afável e 80 (24,0%) com o perfil analítico.

Na autoavaliação dos recursos vocais da comunicação em relação aos perfis de comportamento, é possível verificar que todas as variáveis foram descritas com percepção positiva pela maioria dos participantes, como é demonstrado na Tabela 1. O teste de associação indicou que as variáveis de autopercepção da qualidade vocal, intensidade da voz, articulação para falar e velocidade de fala diferem segundo o perfil de comportamento (Tabela 1). Os resultados mostram que o perfil pragmático se destacou por ser o que mais autorrelatou velocidade de fala rápida (38,3%), seguido do analítico (36,3%) e, por outro lado, o perfil afável predominou no relato da velocidade de fala adequada (76,6%). Comparando os quatro perfis, o expressivo foi o que mais demonstrou autopercepção positiva de sua voz (91,0%) e intensidade forte (29,0%). Ainda em comparação, o perfil analítico foi o que mais autopercebeu negativamente a qualidade vocal, considerando a intensidade de sua voz fraca (22,5%) e sua articulação ruim (11,3%), quando analisado junto aos demais perfis.

Tabela 1 Descrição da autopercepção dos recursos vocais de acordo com os perfis de comportamento e associação estatística (n=334) 

Perfil de Comportamento
Variáveis Pragmático
(n=47)
Expressivo
(n=100)
Afável
(n=107)
Analítico
(n=80)
Valor p
n(%) n(%) n(%) n(%)
Autopercepção da qualidade vocal**
Negativa 5 (10,6) 7 (7,0) 12 (11,2) 18 (22,5) 0,045*1
Positiva 41 (87,2) 91 (91,0) 89 (83,2) 59 (73,8)
Tom de voz 0,8222
Fino demais 2 (4,3) 4 (4,0) 7 (6,5) 7 (8,8)
Grosso demais 1 (2,1) 5 (5,0) 3 (2,8) 2 (2,5)
Adequado 44 (93,6) 91 (91,0) 97 (90,7) 71 (88,7)
Intensidade da voz
Fraca 4 (8,5) 8 (8,0) 16 (15,0) 18 (22,5) 0,013*1
Forte 7 (14,9) 29 (29,0) 19 (17,8) 10 (12,5)
Adequada 36 (76,6) 63 (63,0) 72 (67,3) 52 (65,0)
Articulação para falar
Ruim 3 (6,4) 2 (2,0) 4 (3,7) 9 (11,3) 0,045*2
Boa 44 (93,6) 98 (98,0) 103 (96,3) 71 (88,8)
Velocidade de fala
Lenta 3 (6,4) 3 (3,0) 5 (4,7) 5 (6,3) 0,048*2
Rápida 18 (38,3) 31 (31,0) 20 (18,7) 29 (36,3)
Adequada 26 (55,3) 66 (66,0) 82 (76,6) 46 (57,5)
Ritmo de fala
Mesma cadência 4 (8,5) 13 (13,0) 13 (12,1) 11 (13,8) 0,8421
Variado 43 (91,5) 87 (87,0) 94 (87,9) 69 (86,3)

1Teste Quiquadrado de Pearson;

2Teste Exato de Fischer;

*Valores significativos (p≤0,05);

**A variável analisada apresentou dados ausentes (opção de resposta “não sei”), de forma que o total apresenta diferenças com relação à população final

Quanto à autopercepção de aspectos comunicativos em relação aos perfis de comportamento, nota-se que a maioria dos participantes referiu adotar atitudes positivas para comunicação como captar a atenção do aluno e estabelecer contato de olhos (Tabela 2). Apenas na variável “estabelecimento de contato de olhos”, os grupos se diferenciaram estatisticamente, sendo o perfil pragmático o que menos realiza sempre o contato de olhos (80,9%) em comparação aos demais perfis. Analisando este perfil individualmente, é possível verificar que a maior parte dos professores refere que sempre o faz (80,9%) (Tabela 2).

Tabela 2 Descrição da autopercepção de aspectos comunicativos de acordo com os perfis de comportamento e associação estatística (n=334) 

Perfil de Comportamento
Variáveis Pragmático
(n=47)
Expressivo
(n=100)
Afável
(n=107)
Analítico
(n=80)
Valor p
n(%) n(%) n(%) n(%)
Captação da atenção do aluno
Sempre 44 (93,6) 97 (97,0) 102 (95,3) 71 (88,8) 0,1362
Às vezes 3 (6,4) 3 (3,0) 5 (4,7) 9 (11,3)
Necessidade de repetição do que disse
Às vezes 9 (19,1) 13 (13,0) 13 (12,1) 15 (18,8) 0,4721
Raramente 38 (80,9) 87 (87,0) 94 (87,9) 65 (81,3)
Estabelecimento de contato de olhos
Sempre 38 (80,9) 95 (95,0) 102 (95,3) 72 (90,0) 0,018*2
Às vezes 9 (19,1) 5 (5,0) 5 (4,7) 8 (10,0)
Aprimoramento da comunicação para docência
Sempre 32 (68,1) 65 (65,0) 77 (72,0) 60 (75,0)
Às vezes 12 (25,5) 21 (21,0) 23 (21,5) 16 (20,0) 0,4232
Raramente 3 (6,4) 14 (14,0) 7 (6,5) 4 (5,0)

1Teste Quiquadrado de Pearson;

2Teste Exato de Fischer;

*Valores significativos (p≤0,05)

Na Tabela 3, é possível verificar a autopercepção dos sintomas vocais em relação aos perfis de comportamento. Houve significância estatística entre as variáveis cansaço na voz e dificuldade para projetar a voz com o perfil de comportamento, sendo o perfil analítico o que mais autorrelatou tais sintomas (42,5% e 33,8%, respectivamente) (Tabela 3).

Tabela 3 Descrição dos sintomas vocais de acordo com os perfis de comportamento e associação estatística (n=334) 

Perfil de Comportamento
Variáveis Pragmático
(n=47)
Expressivo
(n=100)
Afável
(n=107)
Analítico
(n=80)
Valor p
n(%) n(%) n(%) n(%)
Rouquidão
Não 34 (72,3) 77 (77,0) 81 (75,7) 57 (71,3) 0,8081
Sim 13 (27,7) 23 (23,0) 26 (24,3) 23 (28,8)
Cansaço na voz
Não 40 (85,1) 79 (79,0) 78 (72,9) 46 (57,5) 0,002*1
Sim 7 (14,9) 21 (21,0) 29 (27,1) 34 (42,5)
Dificuldade de projetar a voz 0,010*1
Não 41 (87,2) 84 (84,0) 86 (80,4) 53 (66,3)
Sim 6 (12,8) 16 (16,0) 21 (19,6) 27 (33,8)
Voz monótona 0,3822
Não 44 (93,6) 94 (94,0) 94 (87,9) 71 (88,8)
Sim 3 (6,4) 6 (6,0) 13 (12,1) 9 (11,3)
Esforço para falar
Não 39 (83,0) 79 (79,0) 84 (78,5) 54 (67,5) 0,1511
Sim 8 (17,0) 21 (21,0) 23 (21,5) 26 (32,5)
Garganta seca
Não 23 (48,9) 49 (49,0) 47 (43,9) 29 (36,3) 0,3321
Sim 24 (51,1) 51 (51,0) 60 (56,1) 51 (63,8)
Pigarro
Não 29 (61,7) 76 (76,0) 76 (71,0) 51 (63,8) 0,1951
Sim 18 (38,3) 24 (24,0) 31 (29,0) 29 (36,3)

1Teste Quiquadrado de Pearson;

2Teste Exato de Fischer;

*Valores significativos (p≤0,05)

DISCUSSÃO

O presente estudo caracterizou os perfis de comportamento pessoal mais autorreferidos por professores universitários e investigou a relação das características particulares de cada perfil com a autoavaliação do uso de aspetos comunicativos e vocais no ambiente da sala de aula.

Os perfis de comportamento mais autorreferidos pelos professores universitários foram o afável e o expressivo. Levando em conta as características desses perfis, nota-se que ambos se destacam por agirem com predomínio da emoção. O afável tende a ser empático e o expressivo mais espontâneo e entusiasmado. Uma pesquisa apontou que a expressividade na comunicação do docente contribui para a organização e direcionamento das ações do professor em sala de aula, no qual a emoção, afetividade e descontração, contribuem para otimizar as relações de aprendizagem e respeito entre professores e alunos(21). Desta forma, é possível observar que a emoção na comunicação contribui para o processo de ensino, sendo esta uma característica comum entre os perfis predominantes dos docentes participantes.

Estudo identificou que os perfis mais autorreferidos por professores universitários foram o expressivo e o analítico. Os perfis mais relatados pelos alunos foram o expressivo e afável. Verificou-se que os alunos tendem a identificar como estilos de personalidade preferidos os daqueles professores que possuem o perfil similar ao deles(10). Tal resultado se aproxima do achado do presente estudo quanto à predominância do perfil expressivo autorreferido pelos professores universitários.

A autopercepção da qualidade vocal foi descrita como positiva pela maioria dos participantes da pesquisa, contudo grande parte de docentes do perfil analítico demonstrou percepção negativa (22,5%) (Tabela 1). O perfil analítico caracteriza-se por ser detalhista, metódico e buscar sempre a perfeição(7,8,10), o que faz com que seus integrantes tenham maior autoexigência quanto à sua comunicação com o outro, gerando maior tensão na produção vocal. Além disso, a maior cobrança pode levá-los a acreditar que algo em si sempre pode melhorar, apesar de os dados analisados não permitirem tais afirmações.

A intensidade da voz e a articulação para falar foram descritas como adequadas pela maior parte dos participantes de todos os perfis. Os grupos que mais se diferenciaram quanto a tais aspectos foram o analítico e o expressivo. O perfil analítico foi o que mais relatou intensidade “fraca” (22,5%) e articulação “ruim” (11,3%), apesar de estes aspectos, individualmente, terem sido relatados pela maior parte destes professores como adequados. (Tabela 1). Este grupo é mais observador e apresenta tom de voz constante(7), sendo esperado que alguns indivíduos deste perfil falem menos, em menor intensidade e com a presença ou não de articulação indiferenciada. A psicodinâmica vocal mostra que a intensidade fraca de voz geralmente é encontrada na população feminina(22) e em pessoas mais introvertidas(23), e a articulação mal definida pode estar relacionada à falta de vontade de se comunicar(3). Tais resultados precisam ser analisados com cautela, pois tal perfil pode ser mais autocrítico quanto à autoavaliação desses aspectos.

Comparando os perfis analisados, o expressivo foi o que mais descreveu sua intensidade de voz como “forte” (29,0%) e sua articulação como “boa” (98,0%) (Tabela 1), o que pode estar associado às características deste grupo, que são pessoas mais entusiasmadas e espontâneas, que possuem alta inflexão de voz(7,8,10). Tal associação é confirmada pela literatura, pois intensidade de voz forte é associada a pessoas mais extrovertidas e com necessidade de se comunicar(23), e a articulação bem definida geralmente é associada ao desejo de ser compreendido e transmitir claramente suas ideias(3), o que é notado neste perfil. É importante salientar que aspectos relacionados ao gênero e outras limitações físicas, como problemas laríngeos ou de oclusão dentária, podem estar relacionados à intensidade da voz e à articulação, e não foram investigados no presente estudo.

A velocidade de fala demonstrou-se adequada para a maioria dos participantes, porém grande parte dos docentes dos perfis pragmático (38,3%) e analítico (36,3%) relatou velocidade de fala “rápida” (Tabela 1). De acordo com a literatura, a velocidade de fala adequada é fundamental para a efetividade da transmissão da mensagem, contudo, quando esta é elevada demonstra tensão e ansiedade, além de não permitir que o interlocutor tenha espaço para falar(3).

No que se refere à autopercepção de outros recursos da comunicação, apenas o relato de estabelecer contato de olhos foi associado estatisticamente ao perfil. Verificou-se que parte dos profissionais do perfil pragmático afirmou que isto ocorre “às vezes” (19,1%). Analisando este perfil individualmente, é possível verificar que a maior parte dos professores refere que sempre o faz (80,9%), porém em comparação com os demais perfis é o que menos realiza sempre o contato de olhos (Tabela 2). Neste perfil, os indivíduos são mais assertivos e diretos(7,8,10) e visam à eficiência, o que pode fazer com que alguns professores façam menos contato de olhos ao lecionar.

Os sintomas vocais autorreferidos pelos professores universitários participantes foram poucos, exceto para o item “garganta seca”, em que a maioria dos participantes de todos os perfis alegou apresentá-lo (Tabela 3). O mesmo foi encontrado em outros estudos realizados com professores universitários(24-26). Geralmente este sintoma relaciona-se à falta de hidratação, uso abusivo e excessivo da voz, tensão ao falar, condições desfavoráveis de trabalho e desconhecimento de técnicas vocais adequadas(24,25,27). Portanto, este resultado aponta a importância de ações de promoção de saúde para docentes universitários.

Os perfis que mais se diferenciaram quanto aos sintomas de cansaço vocal e dificuldade para projetar a voz foram o pragmático e o analítico (Tabela 3). O perfil pragmático é mais direto e assertivo, e tem tom de voz firme, diferente do analítico, que é mais prudente e melhor ouvinte, e possui tom de voz constante(7). Outros fatores que podem agravar e desencadear os sintomas vocais, como as condições de trabalho precárias, podem estar relacionados a esse relato e não foram investigados nesta pesquisa.

O presente estudo utilizou uma lista de sinais e sintomas vocais(19) para coleta de dados, porém foram destacados apenas os sintomas com maior frequência de resposta pelos professores, não sendo todos os sintomas analisados integralmente devido ao extenso número de variáveis e ao objetivo proposto. Outro estudo com a mesma população desta pesquisa(26) realizou a análise desse instrumento e mostrou que a média dos sintomas vocais foi de 3,1, sendo que 24% dos professores universitários apresentam cinco ou mais sintomas vocais(26). Os autores identificaram que a prevalência e a média dos sintomas vocais em docentes universitários foram inferiores ao encontrado em professores brasileiros, porém a comparação dos resultados foi limitada devido à escassa investigação deste assunto em docentes universitários(26).

Algumas limitações do estudo precisam ser consideradas. Os professores não foram avaliados quanto aos aspectos comunicativos e vocais, dado o número elevado de participantes. Desta forma, optou-se pela autoavaliação dos professores, que não pode ser interpretada como correspondente aos resultados de uma avaliação fonoaudiológica. A realização de fonoterapia prévia à coleta de dados pelos professores pode ter interferido nas respostas dos participantes e não foi uma variável controlada neste estudo. A proposta desta pesquisa foi trazer uma contribuição científica para o aspecto comunicativo do professor, porém há uma limitação metodológica pela ausência de protocolos validados para investigar as questões vocais.

Os achados do presente estudo demonstram como o perfil de comportamento autorreferido por professores universitários pode ter relação com aspectos comunicativos e vocais. Desse modo, identificar o perfil de comportamento do indivíduo contribui para melhor compreensão da atuação fonoaudiológica, mas é importante que este aspecto seja mais amplamente investigado por meio de protocolos validados. Na prática clínica, é fundamental que o foco do aperfeiçoamento das competências comunicativas não seja voltado apenas para as alterações vocais, mas também para os comportamentos e limitações dos docentes, que estão intimamente relacionados a seu perfil de comportamento.

A discussão dos resultados foi exploratória e restrita devido ao reduzido número de pesquisas sobre o perfil de comportamento na área da fonoaudiologia e na literatura científica, o que influenciou a necessidade de se fazer inferências dos achados de acordo com as características de cada perfil, não sendo possível aprofundar a discussão dos dados. As evidências científicas mostradas no estudo incitam novas pesquisas e a necessidade de uma abordagem mais integral no atendimento dos profissionais da voz, a fim de favorecer uma melhor competência comunicativa.

Além disso, outra vantagem da pesquisa foi a coleta de dados online. Pesquisas realizadas por meio da internet são consideradas práticas, devido ao baixo custo e por não serem necessários deslocamentos presenciais, o que contribui para uma amostra maior(28). Contudo, nesse tipo de pesquisa, há maiores chances de o indivíduo recusar-se a participar ou abandonar o preenchimento do questionário em andamento(28). Neste estudo, a limitação advinda da coleta de dados online foi a dificuldade de distribuição do correio eletrônico pelo órgão da instituição, visto que muitos dos e-mails de contato dos docentes estavam desatualizados ou incorretos, porém a amostra estimada foi alcançada.

CONCLUSÃO

A análise da autopercepção do perfil de comportamento pessoal em professores universitários mostra a influência das características da personalidade autorreferidas sobre as habilidades comunicativas em sala de aula. Entre os perfis de comportamento pessoal, afável, expressivo, pragmático e analítico, os professores universitários se identificam mais com os perfis afável e expressivo e, de forma geral, todos os perfis têm uma autopercepção positiva dos aspectos comunicativos. O perfil analítico se destaca dos demais com respostas que incidem em uma autopercepção negativa da qualidade vocal, com intensidade de voz fraca, articulação ruim, velocidade de fala rápida e maior relato dos sintomas de cansaço vocal e dificuldade para projetar a voz. O perfil pragmático é o que menos relata realizar contato de olhos com os alunos. Desse modo, este estudo mostrou-se útil para auxiliar na atuação fonoaudiológica, pois possibilita melhor compreensão das habilidades comunicativas conforme as características do perfil de comportamento pessoal de cada indivíduo.

REFERÊNCIAS

1 Netto BR. Concepções de professores de IES sobre o desempenho comunicacional e expressivo articuladas à avaliação de discentes sobre esta performance. Rev CEFAC. 2013;15(1):25-39. .
2 Martinez CC, Gurgel LG, Magalhães CR. Communicative competences in professors and health professionals education: an exploratory study. J Speech Pathol Ther. 2016;1(1):1-5. .
3 Vieira AC, Behlau M. Análise de voz e comunicação oral de professores de curso pré-vestibular. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2009;14(3):346-51. .
4 Azevedo LL, Martins PC, Mortimer EF, Quadros AL, Sá EF, Moro L, et al. Recursos de expressividade usados por uma professora universitária. Distúrb Comun. 2014;26(4):777-89.
5 Rodrigues ALV, Medeiros AM, Teixeira LC. Impactos da voz do professor na sala de aula: revisão da literatura. Distúrb Comun. 2017;29(1):2-9. .
6 Santos TD, Andrada e Silva MA. Comunicação não verbal com profissionais da voz: o que se pesquisa na fonoaudiologia. Rev CEFAC. 2016;18(6):1447-55. .
7 Júlio CA. Quem é este desconhecido no outro lado da mesa? In: Júlio CA. A magia dos grandes negociadores: venda produtos, serviços, ideias e você mesmo com muito mais eficácia. 4. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2005. p. 65-90.
8 May GL, Gueldenzoph LE. The effect of social style on peer evaluation ratings in project teams. J Bus Commun. 2006;43(1):4-20. .
9 Godinho WB, Macioski JMK. Estilos de negociação - a maneira pessoal de realizar negócios internacionais. Ciênc Opinião. 2005;2(1-2):143-65.
10 Schlee RP. Social styles of students and professors: Do students’ social styles influence their preferences for professors? J Mark Educ. 2005;27(2):130-42. .
11 Brito EPA. Técnicas de negociação. ITPAC. 2011;4(1):20-7.
12 Barbosa N, Cavalcanti ES, Neves EAL, Chaves TA, Coutinho FA, Mortimer EF. A expressividade do professor universitário como fator cognitivo no ensino-aprendizagem. Ciênc Cogn. 2009;14(1):75-102.
13 Almeida AAF, Fernandes LR, Azevedo EHM, Pinheiro RSA, Lopes LW. Características vocais e de personalidade de pacientes com imobilidade de prega vocal. CoDAS. 2015;27(2):178-85. . PMid:26107084.
14 Meulenbroek LF, Thomas G, Kooijman PG, de Jong FI. Biopsychosocial impact of the voice in relation to the psychological features in female student teachers. J Psychosom Res. 2010;68(4):379-84. . PMid:20307705.
15 El Uali Abeida M, Fernández Liesa R, Vallés Varela H, García Campayo J, Rueda Gormedino P, Ortiz García A. Study of the influence of psychological factors in the etiology of vocal nodules in women. J Voice. 2013;27(1):129.e15-20. PMid:22088305.
16 Mattei A, Revis J, Giovanni A. Personality traits inventory in patients with vocal nodules. Eur Arch Otorhinolaryngol. 2017;274(4):1911-7. . PMid:27942894.
17 Roy N, McGrory J, Tasko S, Bless D, Heisey D, Ford CN. Psychological correlates of functional dysphonia: An investigation using the Minnesota Multiphasic Personality Inventory. J Voice. 1997;11(4):443-51. . PMid:9422279.
18 Roy N, Bless DM, Heisey D. Personality and voice disorders: A multitrait-multidisorder analysis. J Voice. 2000;14(4):521-48. . PMid:11130110.
19 Behlau M, Zambon F, Guerrieri AC, Roy N. Epidemiology of voice disorders in teachers and nonteachers in Brazil: Prevalence and adverse effects. J Voice. 2012;26(5):665.e9-e18. . PMid:22516316.
20 Roy N, Merrill RM, Thibeault S, Parsa RA, Gray SD, Smith EM. Prevalence of voice disorders in teachers and the general population. J Speech Lang Hear Res. 2004;47(2):281-93. . PMid:15157130.
21 Romano CC, Alves LA, Secco IAO, Ricz LNA, Robazzi MLCC. A expressividade do docente universitário durante sua atuação na sala de aula: análise dos recursos verbais utilizados e suas implicações para a enfermagem. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2011;19(5):1188-96.
22 Andrade BMR, Nascimento LS, Passos CRS, Nascimento UN, Souza GGA, Santos TC, et al. Caracterização vocal dos discentes do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Sergipe. Distúrb Comun. 2014;26(4):752-68.
23 Lima JP, Ribeiro VV, Cielo CA. Sintomas vocais, grau de quantidade de fala e de volume de voz de professores. Distúrb Comun. 2015;27(1):129-37.
24 Servilha EAM, Correia JM. Correlações entre condições do ambiente, organização do trabalho, sintomas vocais autorreferidos por professores universitários e avaliação fonoaudiológica. Distúrb Comun. 2014;26(3):452-62.
25 Anhaia TC, Klahr PS, Cassol M. Associação entre o tempo de magistério e a autoavaliação vocal em professores universitários: estudo observacional transversal. Rev CEFAC. 2015;17(1):52-7. .
26 Gomes NR, Teixeira LC, Medeiros AM. Vocal symptoms in university professors: Their association with vocal resources and with work environment. J Voice. 2018; [ahead of print]. . PMid:30473269.
27 Servilha EAM, Arbach MP. Avaliação do efeito de assessoria vocal com professores universitários. Distúrb Comun. 2013;25(2):211-8.
28 Wachelke J, Natividade J, Andrade A, Wolter R, Camargo B. Caracterização e avaliação de um procedimento de Coleta de Dados Online (CORP). Aval Psicol. 2014;13(1):143-6.
Política de Privacidade © Copyright, Todos os direitos reservados.