Perfil dos Cardiologistas Brasileiros: Um Olhar sobre Liderança Feminina na Cardiologia e sobre o Estresse - Desafios para a Próxima Década

Perfil dos Cardiologistas Brasileiros: Um Olhar sobre Liderança Feminina na Cardiologia e sobre o Estresse - Desafios para a Próxima Década

Autores:

Evandro Tinoco Mesquita,
Eduardo Thadeu de Oliveira Correia,
Letícia Mara dos Santos Barbetta

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782Xversão On-line ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.113 no.1 São Paulo jul. 2019 Epub 08-Ago-2019

https://doi.org/10.5935/abc.20190132

A cardiologia é uma especialidade médica que frequentemente exerce atividade ambulatorial e hospitalar, liderando o cuidado cardiovascular em um ambiente complexo, frente ao envelhecimento. A maior necessidade de tomadas de decisões complexas e conhecimento sobre recursos tecnológicos pode gerar sobrecarga de atividades e mudanças do perfil do cardiologista brasileiro como, por exemplo, em sua mecânica remuneratória, horas de lazer e níveis de estresse. Dessa forma, estudos de demografia médica são fundamentais para entender a dinâmica desses profissionais de saúde.

No estudo de Faganello et al.,1 os autores investigaram o perfil do cardiologista brasileiro por meio de um estudo transversal baseado no envio de questionários via e-mail para cardiologistas adimplentes da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), em 2017. É importante ressaltar que a possibilidade de cardiologistas com menores rendas serem mais inadimplentes configura um ponto capaz de promover viés no estudo, influenciando os resultados sobre a renda dos profissionais. Além disso, o estudo não inclui profissionais que podem estar exercendo sua atividade profissional sem serem filiados à SBC.

Dos 13.462 associados adimplentes, 70,9% são homens, dados semelhantes à demografia médica do Conselho Federal de Medicina de 2018, que identificou 15.516 médicos com título de especialista em cardiologia, sendo 70,1% do sexo masculino, revelando não existir uma diferença significativa entre homens e mulheres quanto a se associar à SBC.1,2 Apesar da diferença significativa entre a porcentagem de mulheres e homens cardiologistas, no estudo em questão, as mulheres representaram a maior fatia das faixas etárias mais jovens, o que pode revelar um aumento do ingresso das mulheres na cardiologia nos últimos anos.1

Um dos principais achados do estudo foi a diferença salarial entre os gêneros feminino e masculino. Nas faixas de renda mais elevadas, foi verificada maior proporção de homens (66,5% dos homens relataram ganhar mais de 20 mil reais vs. 31,2% das mulheres), com p < 0,001, mesmo após ajuste para horas de trabalho e faixa etária.1 O artigo traz como um possível fator para essa diferença salarial a maior proporção de homens atuando em setor privado (14% das mulheres vs. 23,9% dos homens), enquanto a proporção de mulheres no setor público e no meio acadêmico foi maior (53% das mulheres vs. 44% dos homens), áreas que possuem menores remunerações quando comparadas ao setor privado.1 No entanto, outros fatores devem ser considerados.3 Um estudo realizado por Douglas et al.,4 identificou que fatores como existência de modelos femininos positivos e uma especialidade amigável às mulheres influenciam as escolhas de carreira do público feminino. Dessa forma, a discrepância entre a proporção entre homens e mulheres por si só pode se comportar como um fator de impedimento para o ingresso das mulheres na especialidade, além de ainda haver poucas mulheres ocupando cargos de liderança.

Outro aspecto importante a ser abordado, mas não investigado no estudo, é a presença do sexismo na cardiologia, que pode ser um dos fatores que contribuem para a menor presença das mulheres na especialidade e menor remuneração. Estudos britânicos revelaram que cerca de 6% dos residentes dos primeiros anos de especialização vivenciaram ou testemunharam linguagem sexista, entretanto esse número aumenta para 15% nos últimos anos da residência.3 Sendo assim, abordagens que busquem cessar o sexismo no local de trabalho poderiam acarretar maior ingresso das mulheres na cardiologia, motivando-as a ascenderem na carreira e ocupar cargos de liderança e, dessa forma, gerar modelos femininos de sucesso e melhores perfis de remuneração.

Outro relevante achado do estudo foi em relação ao nível de estresse entre os cardiologistas: 64,2% consideram apresentar níveis adequados de estresse, 24,3% não se consideram estressados e 11,3% relatam estresse em grande proporção, sendo a principal causa as más condições de trabalho. Esses dados foram significativamente menores do que dados norte-americanos, onde o burnout esteve presente em 46% dos cardiologistas.1 Apesar dessas informações serem importantes, ferramentas estruturadas para pesquisa de burnout devem ser implementadas em futuros questionários para conhecimento da prevalência dessa síndrome nos cardiologistas brasileiros. O estudo ainda encontrou uma elevada porcentagem de cardiologistas que se consideram descuidados com a saúde (39,4%) e que não realizam nenhum tipo de atividade física (31%), achados que contrastam com dados dos EUA, onde somente 11% dos cardiologistas não realizam atividade física.1

Em um mundo moderno e cada vez mais igualitário, é de grande relevância que se discutam os possíveis fatores que levam à discrepância salarial entre os gêneros e à baixa adesão das mulheres na cardiologia. Ações de conscientização e organizações de saúde e sociedades médicas que atuem reduzindo o sexismo, encorajando a participação de mulheres na cardiologia e a formação de lideranças femininas são fundamentais para alterar esse cenário. A Sociedade Brasileira de Cardiologia com 76 anos de fundação tendo possuído 57 presidentes ao longo de sua história, apenas em duas ocasiões, teve mulheres como principal representante - Dra. Bettina Ferro de Souza e a Dra. Glaura F. D. Martins (Figura 1). Ao lado disso, devido à elevada porcentagem de cardiologistas sem adequado cuidado com sua própria saúde surge a necessidade de se ressaltar a importância do cuidado com a saúde física e mental (prevenção do burnout e suicídio em médicos) no meio médico e de promoção de melhorias das condições de trabalho.

Figura 1 Ex-presidentes da SBC. Lideranças médicas femininas da cardiologia do Brasil. 

REFERÊNCIAS

1 Faganello LS, Pimentel M, Polanczyk CA et al. O Perfil do Cardiologista Brasileiro - Uma Amostra de Sócios da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Arq Bras Cardiol. 2019; 113(1):62-68
2 Scheffer M.(editor) Demografia Médica no Brasil 2018. São Paulo,(SP): FMUSP, CFM, Cremesp; 2018. 286 p.
3 Sinclair HC, Joshi A, Allen C, Joseph J, Sohaib SMA, Calver A, et al. Women in Cardiology: The British Junior Cardiologists' Association identifies challenges. Eur Heart J. 2019;40(3):227-31.
4 Douglas PS, Rzeszut AK, Bairey Merz CN, Duvernoy CS, Lewis SJ, Walsh MN, et al. Career Preferences and Perceptions of Cardiology Among US Internal Medicine Trainees: Factors Influencing Cardiology Career Choice. JAMA Cardiol. 2018 Aug 1;3(8):682-91