Perfil Epidemiológico dos casos de Tuberculose Extrapulmonar em um município do estado da Paraíba, 2001-2010

Perfil Epidemiológico dos casos de Tuberculose Extrapulmonar em um município do estado da Paraíba, 2001-2010

Autores:

Phelipe Gomes de Barros,
Mayrla Lima Pinto,
Talina Carla da Silva,
Edwirde Luiz Silva,
Tânia Maria Ribeiro Monteiro de Figueiredo

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1414-462Xversão On-line ISSN 2358-291X

Cad. saúde colet. vol.22 no.4 Rio de Janeiro out./dez. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1414-462X201400040007

ABSTRACT

INTRODUCTION:

The extra-pulmonary form of tuberculosis is the one in which there is a compromising of other organs different from the lung.

OBJECTIVE:

To identify the profile of the cases of extra-pulmonary tuberculosis notified in the municipality of Campina Grande (PB), Brazil, from 2001 to 2010.

METHOD:

It is a retrospective, transversal study with quantitative approach. The data were submitted to the calculation of absolute and relative frequencies, incidences and application of χ2 test for association.

RESULTS:

The average incidence was of 5.3/100,000 inhabitants. The profile evidenced male (52,8%), age between 20 and 39 years old (48.4%), white race (44.4%) and with incomplete high school (39,3%), there was a strong association between indication to the Supervised Treatment and the variables schooling, accomplishment anti-VIH and presence of AIDS, the pleural and ganglionic peripheral attack the most prevalent among the cases.

CONCLUSION:

To know the profile and the clinical-epidemiological characteristics of the extra-pulmonary tuberculosis is important, because it can help the health services on the identification and follow-up of the population with bigger vulnerability to falling sick. Having in mind the gravity of the lesions and possible evolution to death, it must be diagnosed and treated as soon as possible.

Key words: tuberculosis; epidemiology; public health

INTRODUÇÃO

A tuberculose (TB) é uma doença infecciosa causada pelo bacilo Mycobacterium tuberculosis 1 - 3 e, em geral, os indivíduos acometidos por imunossupressão compõem a parcela da população com maior probabilidade de desenvolvimento da enfermidade1 , 4.

No Brasil, a Tuberculose é um problema de saúde prioritário, tendo em vista que o país ocupa a 16ª posição no ranking composto pelos 22 países com maior carga da doença no mundo, necessitando de melhorias no controle da doença¹. Foram registrados, no país em 2013, no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), 88.450 casos, sendo 73.835 na forma pulmonar, 11.844 na forma extrapulmonar, e 2.720 notificados como pulmonar e extrapulmonar concomitantemente5.

O Estado da Paraíba foi responsável pela notificação de 1.465 casos no ano supracitado; dentre estes, 152 foram notificados no município de Campina Grande, sendo 117 casos de tuberculose pulmonar, 33 extrapulmonares e 2 casos de tuberculose pulmonar e extrapulmonar5. Um dado relevante relacionado à Tuberculose Extrapulmonar (TBEP) na Paraíba é que dos casos notificados no ano em questão, 82 casos foram curados, 19 apresentaram como desfecho o abandono e 4 o óbito por tuberculose. Quanto ao tipo de entrada, chama a atenção o número de 8 casos por recidiva5, o que evidencia que, além desse tipo de forma clínica ser responsável por parte das mortes relacionadas à doença, também demonstra um elevado número de retorno do quadro após a cura.

A principal forma de contágio da TB é através do ar2 , 4. Depois de penetrar no organismo pela via respiratória, o M. tuberculosis pode disseminar-se para diversos órgãos, caracterizando a TBEP2 , 6 , 7. O diagnóstico desta forma clínica torna-se mais complexo pelo fato da dificuldade de acesso às áreas acometidas e/ou devido à maioria das lesões serem paucibacilares.

Ao considerar o panorama atual, as formas de TBEP ganham importante destaque em virtude do aumento de sua incidência e ao fato de estarem diretamente relacionada ao grande número de casos de indivíduos que vivem com o HIV/Aids1 , 2 , 8.

Diante dos preocupantes dados relacionados à TBEP e pelos escassos estudos voltados à temática, faz-se necessário um aumento do número de pesquisas, de modo a fomentar a identificação das populações com maior vulnerabilidade para o desenvolvimento da forma em questão, subsidiando uma detecção precoce, evitando complicações, promovendo um aumento no número de curas e diminuição nos óbitos relacionados a essa forma de tuberculose.

Assim, esse estudo objetivou identificar o perfil epidemiológico dos casos de Tuberculose Extrapulmonar notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação no período de 2001 a 2010 no município de Campina Grande pertencente ao estado da Paraíba, Brasil.

MÉTODO

Estudo transversal e retrospectivo realizado no município de Campina Grande, estado da Paraíba, região Nordeste do Brasil, no período de 2001 a 2010. Campina Grande possuía, no ano de 2010, cerca de 385.213 habitantes em uma área de 594,182 km² de extensão, com densidade demográfica correspondente a 648,31 (hab/km²) e Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,720.

A coleta das informações aconteceu durante os meses de junho e julho de 2014, utilizando fonte secundária, através do banco de dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), fornecido pela Secretaria Municipal da Saúde. Posteriormente, os dados foram organizados considerando a forma da doença (se extrapulmonar, ou extrapulmonar + pulmonar).

Para análise dos dados, se utilizou o software R, onde estes foram submetidos a cálculos de frequência absoluta e relativa, considerando-se as variáveis sociodemográficas (sexo, faixa etária, raça e nível de escolaridade), clínicas (forma clínica, tipo de tuberculose extrapulmonar, agravos associados, testagem anti-HIV e indicação para tratamento supervisionado) e epidemiológicas (tipo de entrada: caso novo, recidiva, transferência, reingresso pós-abandono; e situação de encerramento do caso: cura, óbito, abandono, mudança de diagnóstico e transferência para outro serviço de saúde ou município).

Também foi calculada a taxa de incidência por 100.000 habitantes para a série histórica, utilizando o Tabwin do Ministério da Saúde, com criação de gráfico no Excel 2010. Para verificar associação das variáveis elencadas para o perfil e a forma de tuberculose estudada, utilizou-se o teste χ2, sendo considerado o valor de 5% (p<0,05) para a significância em um intervalo de confiança de 95% (IC95%), o mesmo foi utilizado para o cruzamento de todas as variáveis estudadas entre si, para a verificação das que eram ou não associadas.

O trabalho foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual da Paraíba, sob o protocolo CAAE 0176.0.133.000-11, respeitando o que preconiza a Resolução 466/2012.

RESULTADOS

No período de 2001 a 2010, foram notificados 214 casos de tuberculose extrapulmonar em Campina Grande. A incidência média para o mesmo período foi de 5,3 por 100.000 habitantes. Ao avaliar ano a ano, observa-se que, de modo geral, esta se mantém em tendência de queda de 7,0/100.000 habitantes (2001) para 4,9/100.000habitantes (2010); Entretanto, nesse intervalo, alguns anos se destacaram com elevações: 2005 (6,6/100.000 habitantes) e 2007 (6,3/100.000 habitantes), como pode ser percebido na Figura 1. As incidências do município, quando comparadas às do estado, demonstraram serem maiores em todo o período de estudo conforme a Figura 2.

Figura 1. Incidência de Tuberculose Extrapulmonar por 100.000 habitantes no município de Campina Grande, Paraíba, Brasil, no período de 2001 a 2010 

Figure 2. Incidência de Tuberculose Extrapulmonar por 100.000 habitantes, no município de Campina Grande, Paraíba, comparada à incidência estadual no período de 2001 a 2010 

A partir da Tabela 1, é possível visualizar que o perfil dos doentes nos 10 anos de estudo obedeceu ao seguinte padrão: indivíduos do sexo masculino, na faixa etária de 20 a 39 anos, raça/cor branca (p=0,043) e com baixa escolaridade. Os pardos foram responsáveis por, aproximadamente, um terço das notificações.

Tabela 1. Distribuição dos casos de tuberculose extrapulmonar, segundo variáveis sociodemográficas do município de Campina Grande, Paraíba, Brasil, 2001 a 2010 

Campina Grande
n % Valor p
Sexo 0,522
Masculino 113 52,8
Feminino 101 47,2
Faixa etária (anos)
0–9 15 7,0
10–19 16 7,3
20–39 104 48,4
40–59 60 28,1
60 e mais 19 9,2
Raça 0,043
Branca 95 44,4
Preta 21 9,8
Amarela 11 5,1
Parda 71 33,2
Indígena 0 0,0
Ignorado 4 1,9
Em branco 12 5,6
Escolaridade 0,606
Nenhuma 11 5,1
Ensino Fundamental Incompleto 84 39,3
Ensino Fundamental Completo 8 3,7
Ensino Médio Incompleto 35 16,4
Ensino Médio Completo 6 2,8
Ensino Superior Incompleto 5 2,3
Ensino Superior Completo 21 9,8
Ignorado 11 5,2
Não se aplica 10 4,7
Em branco 23 10,7

Fonte: Sistema de Informações de Agravos Notificáveis, 2013

Com relação às variáveis clínicas, de acordo com a Tabela 2, a maioria das notificações foi de casos novos, com forma somente extrapulmonar (p=0,027), sendo as formas pleural e ganglionar periférica as mais comuns. Entretanto, em alguns casos, os indivíduos possuíam mais de um sítio de infecção.

Tabela 2. Características clínicas dos casos de tuberculose extrapulmonar do município de Campina Grande, Paraíba, Brasil, no período de 2001 a 2010 

Campina Grande
n % Valor p
Tipo de entrada 0,116
Caso Novo 196 91,6
Recidiva 6 2,8
Reingresso após abandono 3 1,4
Não sabe 1 0,5
Transferência Extrapulmonar 8 3,7
Apenas um sítio de infecção 0,027
Pleural 82 42,7
Ganglionar Periférica 77 40,1
Geniturinária 4 2,0
Óssea 7 3,6
Ocular 5 2,6
Miliar 3 1,5
Meningoencefálica 1 0,5
Cutânea 1 0,5
Laríngea 1 0,5
Dois ou mais sítios de infecção 0,086
Ganglionar Periférica e Geniturinária 1 0,5
Óssea e outra não especificada 1 0,5
Pleural e outra não especificada 1 0,5
Outra 6 3,1
Em branco 2 1,0
Total 192 100,0
Pulmonar + extrapulmonar
Apenas um sítio de infecção 0,059
Pleural 9 40,9
Ganglionar Periférica 6 27,2
Geniturinária 1 4,5
Óssea 0 0,0
Ocular 0 0,0
Miliar 2 9,0
Meningoencefálica 0 0,0
Cutânea 0 0,0
Laríngea 0 0,0
Dois ou mais sítios de infecção 0,134
Miliar e Meningoencefálica 1 4,5
Outra 1 4,4
Em branco 2 9,0
Total 22 100,0
HIV 0,077
Sim 20 9,3
Não 31 14,5
Em Andamento 19 8,9
Não Realizado 144 67,3
Situação de encerramento 0.152
Cura 169 79,0
Abandono 27 12,6
Óbito por TB 0 2,8
Óbito por outras causas 6 2,8
Transferência 5 2,3
Mudança de diagnóstico 3 1,4
Tuberculose Multirresistente 1 0,5
Em branco 3 1,4

Fonte: Sistema de Informação de Agravos de Notificação, Ministério da Saúde, 2013.

Em relação às comorbidades, a maioria das notificações assinalou como ignorado ou foi deixado em branco a presença de "Aids", "diabetes", "doença mental" e "uso do álcool", associados ao quadro de TBEP, limitando a análise desses campos. Todavia, quando houve preenchimento, a maioria dos casos evidenciou não haver presença destas. Enquanto que, para o "uso do álcool", quando notificado, alguns casos possuíam o agravo relacionado.

A principal situação de encerramento foi a cura, seguida por abandono, não sendo notificado nenhum óbito por TBEP, mas por outras causas. Quanto à testagem anti-HIV, na grande maioria dos casos notificados, esta não foi realizada.

Quando realizada análise de associação entre todas as variáveis do estudo entre si, pode-se perceber que o "sexo" e "forma clínica extrapulmonar com um único sítio de infecção" (p=0,037) apresentaram associação, onde 60 (53,1%) homens com essa condição foram acometidos unicamente por tuberculose pleural.

Sobre o "sexo" e s"ituação de encerramento do caso" (p=0,024), onde 87 (86,1%) das mulheres foram curadas, enquanto 20 (74,0%) dos homens foram responsáveis pelas notificações de abandono e pela maioria dos óbitos por outras causas 5 (83,3%).

No que diz respeito à "raça" e o "tipo de entrada" (p=0,047), em todas as categorias, a maioria foi de casos novos. Também houve associação entre a "raça" e a "escolaridade do indivíduo" (p=0,039) onde 34 (47,8%) dos pardos, 5 (45,4%) dos amarelos,10 (39,2%) dos negros e 32 (33,6%) dos brancos referiram possuir Ensino Fundamental Incompleto.

Quanto ao "nível de escolaridade" e "Testagem anti-HIV" (p=0,010), pode-se perceber que em 114 (63,7%) dos casos notificados, não foi realizada a sorologia. O Ensino Fundamental Incompleto foi o que apresentou maior número de realizações de sorologia (25,0%), seguido pelo Ensino Médio Incompleto (15,0%).

Sobre "escolaridade" e "indicação para Tratamento Supervisionado" (TS) (p=0,014), a maioria dos casos notificados (63,1%) não foi indicada ao TS. Entre os 55 (25,7%) indicados,16 (29,0%) possuíam ensino fundamental incompleto.

Quanto ao tipo de entrada e a realização de sorologia anti-HIV (p=0,023), dos 214 casos notificados, 196 (91,5%) foram casos novos e, destes, 16 (8,2%) foram positivos para HIV, 26 (13,3%) negativos, 18 (9,2%) estavam em andamento e, na maior parte dos casos 136 (69,4%), não houve realização da sorologia. Dos casos positivos para HIV, 20 (9,3%) de todos os casos notificados, 16 (80,0%) foram casos novos.

Quanto à "realização de sorologia anti-HIV" e a "indicação ao TS" (p=0,045), dos 20 (9,3%) positivos para HIV, apenas 4 (20%) foram indicados ao TS, enquanto dos 31 (14,4%) negativos para HIV, 15 (48,4%) tiveram indicação.

Ao associar a "situação de encerramento" e "sorologia anti-HIV" (p=0,015), percebe-se que, dos 20 (9,3%) casos positivos, 11 (55,0%) foram curados, 5 (25%) abandonaram o tratamento e 2 (10,0%) tiveram óbito por outras causas diferentes da TBEP.

Acerca de "possuir Aids" e ser "indicado para TS" (p=0,005), apenas 15 (7,0%) foram notificados como portadores e, destes, 12 (80%) não foram indicados ao TS e somente 3 (20,0%) sim. Do total de casos notificados, 69 (32,2%) não possuíam o agravo associado à TBEP, entretanto, 29 (42,0%) foram indicados ao tratamento supervisionado e 35 (50,7%) não.

Quanto ao fato de possuir Aids associada à TBEP e o grau de escolaridade dos indivíduos (p=0,014) pode-se perceber que dos 15 (7,0%) casos positivos, 7 (46,6%) possuíam nível fundamental incompleto.

Em relação à "forma", se somente extrapulmonar ou pulmonar+extrapulmonar e os principais tipos de TBEP (p=0,027) os tipos que se destacaram foram a pleural e ganglionar periférica. Para os indivíduos apenas com TBEP, 192 (89,7%) do total de casos notificados no município, 82 (42,7) possuíam a forma pleural e 70 (40,8%) a forma ganglionar periférica. Já para os casos de TBEP+TB pulmonar, 22 (10,3%) do total de casos, 9 (40,9%) possuíam acometimento pleural e 6 (27,3%) ganglionar periférico.

DISCUSSÃO

A escolha do município de Campina Grande para a pesquisa baseou-se na relevância da ocorrência de casos de tuberculose extrapulmonar na Paraíba, além deste ser considerado prioritário para o controle da tuberculose no estado.

O fato das incidências anuais municipais serem maiores que as estaduais para o período estudado pode estar relacionado à presença de um Centro de Referência em Tuberculose e Hanseníase, facilitando o diagnóstico da TBEP, aumentando, assim, a sua notificação. A incidência média municipal, para o período estudado, foi de 5,3/100.000 habitantes, considerada expressiva quando comparada à média nacional que é de 5,8/100.000 habitantes.

Houve maior prevalência da TBEP no sexo masculino o que corrobora com estudos nacionais8 - 11. Consumo de álcool, formas de trabalho e a maior procura por parte das mulheres aos serviços de saúde são apontados por alguns autores como responsáveis pela diferença entre os sexos12.

Possivelmente, por serem mais expostos aos fatores de risco, os indivíduos em idade produtiva (20-59 anos) apresentaram maiores números de notificação8 - 10 , 13 , 14, padrão encontrado nacionalmente e justificador do possível prejuízo financeiro para o doente e sua família, advindo do adoecimento por tuberculose15 , 16. O percentual de casos em menores de 15 anos foi de 8,8%, superior ao previsto pelo Ministério da Saúde, 5,0% para a faixa etária em questão3.

Indivíduos com baixa escolaridade foram predominantes, fato que também foi encontrado em doentes com a forma pulmonar em outros estudos4 ,9 13, 17 - 19. O baixo grau de instrução pode configurar-se como um fator determinante para o aumento da vulnerabilidade social ao qual o indivíduo está exposto, aumentando as chances do desenvolvimento da doença, no sentido de que o acesso à informação sobre a mesma pode estar prejudicado, podendo aumentar o abandono ao tratamento20.

A maioria dos casos notificados foi de indivíduos brancos, seguidos da raça negra; tal fato pode estar relacionado ao aumento do número da população negra nos intervalo entre os anos 2000 e 2010, tanto no estado quanto no município estudado, conforme o Censo Demográfico 2010 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)21.

A prevalência de forma somente extrapulmonar, sendo o comprometimento pleural, seguido do ganglionar periférico os de maiores incidências, corrobora com a literatura no que diz respeito às características clínicas da TBEP e outros estudos realizados sobre o perfil dos doentes8 , 10 , 11 , 22. Altas incidências dessas formas de TBEP estão relacionadas às elevadas concentrações de oxigênio nessas estruturas que explicam a maior predileção do patógeno, já que o mesmo é aeróbico estrito, o que também explica o quantitativo de casos de tuberculose pulmonar associada à formas pleurais e ganglionares periféricas8 , 10 , 22.

Há fragilidade da completude dos campos da ficha de notificação do SINAN com relação às comorbidades que poderiam estar associadas ao quadro de TBEP e o grau de escolaridade do indivíduo, pois muitas se encontravam em branco4 , 9 , 23, o que limitou a análise das variáveis23.

O fato supracitado pode ser advindo das limitações de alguns profissionais. Em um estudo realizado em seis municípios da Paraíba que buscava conhecer a percepção dos coordenadores dos Programas de Controle da Tuberculose quanto à utilização do Sinan como instrumento da estratégia DOTS (Directly Observed Treatment Short-course) identificaram-se dificuldades relacionadas ao preenchimento das fichas, demonstrando que a ausência de informações pode dificultar ações eficazes para o controle da TB24.

A cura foi a principal situação de encerramento; no entanto, encontra-se abaixo do preconizado pelo Ministério da Saúde (MS) que determina um percentual de 85% de casos novos curados2, o mesmo foi encontrado em vários estudos8 - 10 , 14 , 22. Em estudo realizado em um Hospital Universitário de Vitória (ES) sobre o perfil dos profissionais de saúde notificados com tuberculose, encontrou-se um percentual de 88% de cura, superando o determinado pelo MS11.

O fato do maior número de casos curados serem do sexo feminino pode estar associado à prática das mulheres em procurar mais frequentemente os postos de saúde, quando comparadas aos homens12. Quanto ao abandono do tratamento, o município encontra-se acima (12,6%) do que preconiza o MS como sendo limite para este tipo de situação de encerramento (5%)2, o que também foi encontrado em outras pesquisas4 , 9 , 10 , 14 , 22.

A não realização do exame anti-HIV para a maioria dos casos notificados não está de acordo com as recomendações do MS, que preconiza que seja realizado o exame em 100% dos casos de tuberculose2. Porém, isto pode estar relacionado ao fato de que esta só deve ser efetuada com o consentimento do paciente, cabendo ao profissional de saúde explicar a necessidade deste, de forma a convencer o usuário à aceitação do mesmo na busca da melhoria de suas condições de saúde.

Sobre a indicação ao Tratamento Supervisionado, percebe-se que não foi indicado para a maioria dos casos notificados 135 (63,1%), o que pode vir a fragilizar o tratamento, tendo em vista que há evidências que o número de abandonos é menor nos pacientes acompanhados pelo Tratamento Diretamente Observado9. O estímulo à indicação dos doentes ao TS deve ser realizado, devido ao aumento da probabilidade de cura, tendo em vista que há uma maior aproximação do profissional do serviço ao contexto em que o doente está inserido, facilitando a identificação de grupos de risco para a não adesão ao tratamento25.

Quanto à indicação de TS aos HIV positivos, percebe-se que apenas 20% destes foram indicados à supervisão, o que pode vir a aumentar o número de abandonos ao tratamento, já que, muitas vezes, o paciente fará uso de medicações Antirretrovirais (ARV) e anti-TB, possibilitando um aumento nos efeitos colaterais das drogas utilizadas. Além disso, o indivíduo, em decorrência do uso de ARV, pode vir a desenvolver a Síndrome Inflamatória da Reconstituição Imune, que possibilita a exacerbação dos sintomas, gerando agravamento de lesões pré-existentes ou aparecimento de novas lesões, levando-o ao abandono do tratamento2.

Diante das maiores taxas de falência terapêutica e recorrência da TB serem observadas em indivíduos coinfectados, existe a necessidade de uma atenção especial no manejo clínico e acompanhamento desses pacientes para que haja eficácia terapêutica, redução de recidivas e abandonos2.

A indicação e realização do Tratamento Supervisionado em pacientes de tuberculose que vivem com HIV/Aids pode estar sendo dificultada devido à recomendação do Programa Nacional de Controle da Tuberculose, de que os casos que necessitem de tratamento especial devem ter esquemas terapêuticos realizados nos centros de referência secundária2 e, nesses espaços, o atendimento é ofertado à pessoas vindas de diversas localidades da cidade.

Assim, para aderir ao regime de tratamento recomendado pelo Ministério da Saúde, há necessidade de comparecimento ao serviço de saúde para supervisão da tomada medicamentosa (mínimo três vezes por semana)2, realização de exames e consulta de acompanhamento mensal, o que implicará em aumento das despesas com transporte, diferentemente do que aconteceria se este fosse acompanhado em uma Unidade Básica de Saúde da Família, localizada nas proximidades da residência do doente.

CONCLUSÕES

O estudo possibilitou identificar o perfil dos indivíduos que foram notificados com Tuberculose Extrapulmonar no Sistema de Informação de Agravos de Notificação do município de Campina Grande, Paraíba, em dez anos, o qual seguiu o padrão nacional e estadual de adoecimento quanto a todas as formas clínicas da doença: sexo masculino, baixa escolaridade e idade na faixa etária economicamente ativa. A identificação dessas características pode auxiliar os serviços de saúde no acompanhamento da população com maior vulnerabilidade para o adoecimento e desenvolvimento de ações de promoção à saúde e busca ativa de casos.

Apesar de as taxas de incidência da TBEP no decorrer dos anos demonstrarem diminuição, mesmo com anos de pico, esta não necessariamente evidencia melhora na situação epidemiológica desta forma clínica, podendo revelar dificuldade diagnóstica devido à presença de quadros clínicos variados e despreparo profissional.

O acometimento pleural e ganglionar periférico destacou-se dentre os casos de TBEP. O diagnóstico desta configura-se como um desafio, tendo em vista a dificuldade advinda da identificação precoce dos sintomas e pelo fato de, por vezes, se manifestarem de forma silenciosa, diferentemente da TB pulmonar, onde a presença de tosse persistente, sinal evidente, por mais de três semanas já é indicação para o rastreio de infecção por M. tuberculosis, facilitando, assim, o diagnóstico precoce dessa forma de TB.

No Brasil, a tuberculose é a primeira causa de morte em pacientes que vivem com HIV/Aids. Dessa forma, é preciso traçar estratégias para melhorar o aconselhamento, buscar uma maior aceitação por parte dos doentes na realização do anti-HIV, favorecendo o rastreio para a coinfecção devido a esses indivíduos possuírem maior possibilidade para o surgimento de complicações e abandono de tratamento.

Os achados revelaram fragilidade quanto ao rastreio de agravos associados à TBEP. O preenchimento destas informações na ficha de notificação deve ser incentivado, visando conhecer a associação da doença com outros problemas de saúde, possibilitando estabelecer estratégias para diminuição de casos novos, recidivas, abandonos, óbitos e complicações, além de influenciar na escolha do esquema de tratamento a ser utilizado e serviço(s) de saúde em que o doente deve ser acompanhado.

A indicação para realização do Tratamento Supervisionado foi pouco ofertada para os doentes de TBEP com baixa escolaridade e nos que possuíam coinfecção. Essa modalidade deve ser oferecida e incentivada para todos os pacientes, possibilitando maior adesão à terapêutica, quando realizados no centro de referência, sugere-se que o doente tenha as doses supervisionadas divididas entre referência secundária e Unidades Básicas de Saúde da Família. Caso haja muita distância ou dificuldade de deslocamento, o oferecimento de incentivos financeiros para deslocamento até o serviço de saúde.

Apesar da tuberculose pulmonar ser a forma mais comum e contagiosa de TB, conhecer o perfil e as características clínicas da TBEP se faz importante, tendo em vista a gravidade das lesões e possível evolução ao óbito, devendo ser diagnosticada e tratada o mais brevemente possível. Além de ser necessária melhoria no preparo profissional para a identificação e manejo clínico das formas de TBEP, sugere-se estabelecimento de vínculos entre os profissionais, doentes e familiares.

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