PERITONITE POR NEISSERIA MENINGITIDIS SOROTIPO C: RELATO DE CASO

PERITONITE POR NEISSERIA MENINGITIDIS SOROTIPO C: RELATO DE CASO

Autores:

João Kleber de Almeida GENTILE,
Maurice Youssef FRANCISS,
Hamilton Ribeiro BRASIL

ARTIGO ORIGINAL

ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo)

Print version ISSN 0102-6720On-line version ISSN 2317-6326

ABCD, arq. bras. cir. dig. vol.29 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2016

https://doi.org/10.1590/0102-6720201600010019

INTRODUÇAO

A manifestação da doença meningocócica como abdome agudo com peritonite meningocócica é rara. Relata-se um quadro de peritonite primária e bacteremia por Neisseria meningitidis do sorotipo C ocorrendo em conjunto com o quadro de abdome agudo obstrutivo.

RELATO DE CASO

Homem de 27 anos deu entrada com dor abdominal difusa de forte intensidade acompanhada de parada de eliminação de gazes e fezes há três dias e febre de 38,3º C há 24 h. Como antecedentes havia passado de laparotomia prévia há sete anos por apendicite aguda. Negava outros sintomas, história de viagens recentes ou antecedentes de doenças infectocontagiosas. Não havia historia de uso recente de medicações ou internações. Negava consumo de álcool ou drogas ilícitas.

No exame apresentava-se confuso, agitado, desidratado com sinais clínicos de sepse. Estava febril (38,3º C), taquicárdico (112 batimentos por minuto), taquipneico (20 respirações por minuto) e hipotenso (90x50 mmHg). O abdome apresentava cicatriz de laparotomia infraumbilical prévia, muito distendido, doloroso difusamente, hipertimpânico e com descompressão brusca positiva. Não havia evidência ou sinais clínicos de hepatopatia ou ascite. Toque retal era normal sem sangramento ou muco nas fezes.

A investigação inicial apresentava leucocitose (18.600 leucócitos com 11% de bastões), gasometria com sinais de acidose metabólica, proteína C reativa elevada (38,6 mg/l) e radiografia de abdome com níveis hidroaéreos em delgado sem pneumoperitônio. A tomografia de abdome mostrava apenas distensão de alças de delgado e pequena quantidade de líquido livre na cavidade abdominal; exame de urina e eletrólitos sem alterações. Os diagnósticos diferenciais eram abdome agudo inflamatório com peritonite difusa e abdome agudo obstrutivo.

Paciente recebeu tratamento com expansão volêmica adequada 20 ml/kg e antibioticoterapia com ciprofloxacino 400 mg de 12/12 h e metronidazol 500 mg de 8/8 h. Foi encaminhado para lapatoromia exploradora de urgência após 24 h da entrada no serviço de emergência.

Os achados intraoperatórios foram apenas de distensão de alças de delgado com presença de bridas espessas e líquido purulento espesso na cavidade abdominal em pelve. No inventário da cavidade não foi observado bloqueio, abscesso organizado bem como perfuração de vísceras ocas sem causa identificável para a origem do pus. Foi realizada a lise das bridas e coleta do líquido purulento para cultura. O resultado da cultura era positivo para Neisseria meningitidis do grupo C, sendo confirmado por reação de cadeia de polimerase. O antibiograma era sensível a ceftriaxona, meropenem e rifampicina.

Evoluiu no 2º dia do pós-operatório foi com piora da confusão mental e sinais meníngeos positivos além de petequias difusas e plaquetopenia (88.000 plaquetas/mm3). Coleta do líquido cefalorraquidiano resultou ser também positiva para Neisseria meningitidis grupo C (diplococos gram negativos), com 33.000 células/mm3 (até 5 células/mm3) sendo 79% de neutrófilos, 6 hemáceas (até 0/mm3), proteínas totais 172 mg/dl (até 40 mg/dl) e glicose 1 mg/dl (40-80 mg/dl). Foi encaminhado para UTI com diagnóstico de meningite com meningococcemia; iniciou-se tratamento com ceftriaxona 1 g de 12/12 h e evoluiu com melhora do quadro neurológico e abdominal após 72 h.

DISCUSSÃO

Neisseria meningitidis é diplococo gram-negativo descrito em 1887 sendo importante causa de meningite e bacteremia meningocócica em todas as idades. A via de disseminação da bactéria se dá pela nasofaringe com disseminação hematogênica para as meninges ou outros órgãos. Ela não é parte da flora gastrointestinal normal sendo isolada apenas em culturas de secreção retal em associação com transmissão sexual. Peritonite meningocócica espontânea tem sido descrita em pacientes com ascite preexistente, porém ainda pouco compreendida em pacientes sem doença hepática.

O primeiro caso foi descrito em 1917 por Moeltoen4 e um segundo com características de abscesso apendicular, foi relatada em 1938 por Turchetti5. Em todos os casos, a peritonite foi associada à infecção meningocócica em outros sítios a distância.

Kelly em 2004 relatou um caso de peritonite por N. meningitidis diagnosticado após laparotomia por peritonite aguda semelhante ao relatado3. A teoria que pode explicar o mecanismo fisiopatológico para esta condição é a disseminação da bactéria por via hematogênica; entretanto, pacientes com ascite e hepatopatia a translocação bacteriana pode justificar o isolamento da bactéria no peritônio1,2,3,6.

REFERÊNCIAS

1. Bannatyne RM, Lakdawalla N and Ein S. Primary meningococcal peritonitis. Can Med Assoc J. 1977;117(5):436.
2. Bar-Meir S, Chojkier M, Groszmann RJ, Atterbury CE and Conn HO. Spontaneous meningococcal peritonitis. The American Journal of Digestive Diseases. 1978;23(2):119-122.
3. Kelly SJ and Robertson RW. Neisseria meningitidis peritonitis. ANZ Journal of Surgery. 2004;74:182-183. doi: 10.1046/j.1445-1433.2003.02850.x.
4. Moeltoen MH. Meningokokkenperitonitis. Zentralbi Chir. 1917;44: 94.
5. Turchetta A. Considerazioni cliniche su un caso di peritonite meningococcica circoscritta in adulto apparentemente idiopatica. Minerva Med. 1938;(2):570.
6. Wendlandt D, King B, Zielbell C and Milling T. Atypical presentation of fatal meningococcemia: peritonitis and paradoxical centrifugal purpura fulminans of late onset. The American Journal of Emergency Medicine. 2011;29(8):960.
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