Pesquisa-apoio: pesquisa participante e o método Paideia de apoio institucional

Pesquisa-apoio: pesquisa participante e o método Paideia de apoio institucional

Autores:

Paula Giovana Furlan,
Gastão Wagner de Sousa Campos

ARTIGO ORIGINAL

Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão impressa ISSN 1414-3283versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.18 supl.1 Botucatu 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622013.0285

ABSTRACT

From reviewing the tradition of participatory research and its origins and types, this article suggests that intercession by means of the Paideia method should be used as a strategy for researchers’ interventions. This has been termed “support research”. This integration seeks to incorporate participation in the research process by the subjects investigated, and also envisages active involvement by researchers, with their offers and projects. The concepts of the Paideia method are presented, with its operating and dialogical framework. The “support research” methodology integrates participatory moments and interventions by the researchers, with construction of interpretive narratives. This analysis shows that the premises of the method highlight the efforts made towards reflection and knowledge production in three planes: the object or problem, sociability/institution (power relations) and self-analysis (researcher and subject investigated).

Key words: Qualitative research; Participatory research; Institutional support; Paideia

RESUMEN

A partir de una revisión de la investigación participante, orígenes y tipologías, este artículo propone la intersección con el método Paideia, usándolo como una estrategia de intervención de los investigadores, lo que se ha denominado investigación-apoyo. El propósito de esta intervención es incorporar la participación de los sujetos investigados en el proceso de investigación, considerando también la inserción activa del investigador con sus ofertas y su proyecto. Se presentan los conceptos del método Paideia, su marco operativo y de diálogo, la metodología de investigación-apoyo que integra tanto momentos participantes como de intervención de los investigadores, con la construcción de narrativas interpretativas. Se analiza que las premisas del método destacan el esfuerzo para la reflexión y la producción de conocimiento en tres planos: del objeto o problema, de la sociabilidad/institución (relaciones de poder) y del análisis de sí mismo (investigador y investigado).

Palabras-clave: Investigación cualitativa; Investigación participante; Apoyo institucional; Paideia

Diversos autores têm discutido o tema da pesquisa qualitativa e participante, numa tentativa de conceituá-la, delineando sua base e campo de aplicação. Há várias designações para a pesquisa que contempla a participação do pesquisador e os sujeitos investigados em suas diversas etapas, tais como observação participante, pesquisa participante, pesquisa participativa, pesquisa-ação e pesquisa-intervenção1-6.

No campo da Saúde Coletiva, tem se destacado recentemente experiências de pesquisa participante a partir da abordagem do apoio institucional Paideia como método de produção de dados e de conhecimento. O apoio institucional tem como origem o método Paideia, criado e sistematizado por Campos7,8, como instrumento de cogestão de coletivos em organizações sociais, principalmente da saúde.

O apoio institucional Paideia aposta em um devir, num processo de mudança e no envolvimento ativo (protagonismo) e autonomia dos sujeitos na mobilização de recursos (conhecimento, tecnologia, pessoas) para atingir o resultado almejado e promover saúde7,9,10. “Trata-se de uma metodologia que busca construir condições favoráveis para a reflexão sobre a atuação dos sujeitos no mundo, procurando sempre meios para que essa reflexão rebata sobre a imagem que os sujeitos têm de si mesmos”9 (p. 20).

De acordo com o Método, procura-se organizar espaços coletivos (rodas) como potenciais espaços concretos (lugar e tempo) para discussão e relação entre sujeitos envolvidos no projeto, com discussão sobre o exercício de poder e saber, bem como deliberação sobre a ação e sua avaliação posterior, essas rodas devem estimular e facilitar a participação de vários agentes e não apenas aqueles com função de direção institucional ou responsáveis pela investigação7. Objetiva-se, além da compreensão do tema, construir um processo ativo de formação de atores sociais. Em resumo: o projeto de pesquisa ou intervenção elaborados pelos pesquisadores/atores sociais devem ser apresentados para discussão e reformulação, pactuando-se espaços coletivos que realizariam a cogestão tanto da produção de dados, quanto de sua interpretação. O coletivo teria uma função reflexiva e deliberativa, ampliando a compreensão sobre os problemas e o processo de trabalho, tomando decisões e definindo ações a serem implementadas pelos participantes.

Nos últimos anos, várias instituições do SUS têm utilizado o apoio institucional como estratégia de gestão participativa, de educação permanente e mesmo como metodologia para investigação de projetos institucionais. Alguns pesquisadores vêm adotando, em suas pesquisas científicas, esse referencial, denominando “pesquisa do tipo apoio”/ “pesquisa-apoio”/”pesquisa apoio Paideia”11-20.

Dessa forma, este artigo pretende discutir a tradição da metodologia de pesquisa participante e intervenção, apresentando as possíveis intercessões com o método Paideia e com a tendência contemporânea da “pesquisa do tipo apoio”.

Foi realizada busca sistemática da literatura na base de dados Scielo e BVS, no período compreendido entre os anos 2002 a 2012, com os descritores: pesquisa participante e método; pesquisa-intervenção; apoio institucional; pesquisa-ação e metodologia. De 15 artigos resultantes da busca, foram excluídos aqueles que não tratavam de discussão metodológica, resultando nove artigos para análise21-29, sendo somente um deles21 localizado com o descritor apoio institucional. Como fonte de dados para análise do material, considerou-se livros, teses e dissertações relacionados ao tema, utilizados no campo da Saúde Coletiva, disponíveis na biblioteca digital/acervus da Unicamp, a fim de destacar e dialogar com a tradição da pesquisa participante2,4,5,30-33. A análise dos dados efetuou-se a partir da interpretação hermenêutica34, com triangulação entre as fontes, a luz de duas categorias: “Tradição e atualidade” e “Pesquisa apoio Paideia”.

Tradição e atualidade

Constata-se que alguns autores entendem a pesquisa-ação e a pesquisa-intervenção como ramos da pesquisa participativa, já que em ambos os casos ocorreria alguma forma de intervenção do pesquisador23,27. Por outro lado, há autores que diferenciam essas denominações considerando que têm metodologias e orientações de pesquisa com particularidades e diferenças1,3,24. A maioria dos autores estudados não diferencia os conceitos de “ação” e de “intervenção”, considerando a pesquisa-ação como uma pesquisa de orientação participativa com envolvimento do pesquisador em campo e com o sujeito investigado2,4,6,25,27,30,32. Nota-se que não há somente denominações diferenciadas, e sim, linhas teórico-metodológicas com singularidades importantes.

Consideradas essas diferenciações, as pesquisas de caráter participante, tanto a pesquisa-ação quanto a de intervenção, inserem-se no campo da pesquisa qualitativa e social, que considera que a investigação não perde sua cientificidade e legitimidade pelo fato de trabalhar com raciocínios dialógicos ou argumentativos. Consideram que o objeto investigado é sócio-histórico, e como consequência, tanto os indivíduos e grupos investigados, como os pesquisadores são dialeticamente autores e frutos de seu tempo35. Quando a abordagem do objeto depende de uma metodologia qualitativa, a tarefa do investigador é apreender, para além do visível, a complexidade da realidade social, incorporando a questão do significado e da intencionalidade como inerentes aos atos, às relações e às estruturas sociais como construções humanas significativas. Realidade complexa, pois o que é conhecido é sempre menor que a totalidade, inalcançável, e envolve as mais diferentes áreas do conhecimento, ultrapassando os limites de qualquer metodologia da ciência. Recomenda-se, portanto, o estudo cuidadoso da linguagem em situação2, conceituando as representações, os discursos, práticas observadas de forma histórica, valorizando as contradições e os conflitos que permeiam os caminhos da pesquisa.

Malinowski5,30, reconhecido antropólogo, apontou, em seu famoso estudo etnográfico realizado nas ilhas do Pacífico, as vantagens da pesquisa qualitativa conforme a pergunta ou a hipótese a serem investigadas. Advertiu-nos para a necessidade de se compreender para além dos dados estatísticos documentados, complementados pela observação e imersão nos costumes de uma sociedade, nos fenômenos sociológicos: os comportamentos, opiniões, pontos de vista, expressões, maneiras típicas de pensar e sentir que correspondem às instituições e cultura de uma comunidade. A antropologia registrou os costumes dos povos estudados, convivendo com o “objeto” (neste caso, sujeitos) de pesquisa e vivendo no campo de estudo. Contudo, considerava a sociedade com suas leis regulares de funcionamento e estrutura, com caráter constitutivo da cultura.

Desde 1946, quando Kurt Lewin introduziu o termo action research pela primeira vez, ressaltava que para atingir a transformação e os resultados desejados na realidade eram necessárias a participação dos sujeitos do processo de mudança e a organização de discussões coletivas centradas no problema a resolver, inclusive naquele trazido também pela pesquisa; considerava importante atuar sobre a realidade para conhecê-la31,32. Desenvolveu a ideia da “espiral processual”, em que etapas de planejamento de ações estariam permeadas por tomadas de decisão, encontro de fatos (fact finding) e resultados, disparando a retomada sucessiva desse ciclo.

Os acontecimentos e o desenvolvimento da pesquisa participante e pesquisa-ação não se deram de forma cronológica linear. A emergência do paradigma participativo esteve e ainda está acompanhado da crise de hegemonia da ciência tradicional e do questionamento sobre a origem dos saberes, criticando-se a suposta exclusividade da universidade e da ciência.

Schmidt24 argumenta sobre o lugar ocupado pela pesquisa participante, apontando sua importância na ruptura tanto do paradigma positivista da ciência, como da compreensão de hegemonia do saber científico sobre outros saberes, como o senso comum e a sabedoria popular. Tal orientação de pesquisa não toma a ação do pesquisador participante como “contaminação” dos processos científicos, não aceitando a exigência de neutralidade dos investigadores e das metodologias. “Muitos investigadores positivistas e pós-positivistas ainda consideram a ‘ação’ como domínio de outras comunidades que não sejam as de pesquisadores e de participantes de pesquisa”36 (p. 179). O investigador não é neutro no processo de pesquisa: interage, modifica e modifica-se29, altera o contexto pela presença, percepções, análises, papel político-institucional, etc.

Tanto pela orientação antropológica, quanto da psicologia social, a pesquisa participante sugere a mudança de olhar sobre o sujeito de estudo, que não é mais objeto de interpretações e análises externas a ele, mas um ser que constitui a pesquisa científica, alterando a realidade e dando-lhe sentidos e significados. O pesquisado passa a sujeito de ação e reflexão sobre o que questiona, sobre a investigação. A pesquisa participante possibilita incluir os sujeitos pesquisados, suas vivências, experiências e reflexões. Ou seja, acrescentar o olhar e análises do “objeto/ sujeito” à investigação.

As ideias de ação ou intervenção não são equivalentes, mas sugerem, além da presença do pesquisador como parte do campo investigado, a presença de um outro que, na medida em que participa da pesquisa como sujeito ativo, se educa e se organiza, apropriando-se, para a ação, de um saber construído coletivamente. A alteridade é visada como coprodutora da mudança social e convocada à participação e o pesquisador é obrigado a questionar sua pesquisa e sua pessoa.24 (p.15)

Considera-se que as pesquisas participante e de intervenção geram não somente novos conhecimentos, mas constituem novos instrumentos de ação em que a abordagem coletiva é priorizada. Tais instrumentos seriam gestados já em acordo com os interesses e peculiaridades dos atores locais. Pesquisa e intervenção não se excluem necessariamente, como apontam alguns pesquisadores6,26, e sim qualificam a maneira pela qual se constrói o objeto de investigação e redefinem o papel e a participação do pesquisador e dos demais sujeitos.

Para alguns autores, a pesquisa-intervenção resulta ainda na identificação/constituição de novos agentes terapêuticos e na reciclagem e fortalecimento de outros tradicionais29,33. Isso é ressaltado em algumas pesquisas que priorizam a intervenção, visando à formação e à capacitação continuada de profissionais e agentes envolvidos em práticas terapêuticas ou mesmo educacionais26,33. Seria um momento para que o ator envolvido com a prática pudesse analisar seu processo de trabalho e também criar novas formas de agir diante problemas ou indagações emergentes, o que poderia trazer novos instrumentos para o campo terapêutico ou educacional/ do ensino25,26,29. Há autores que destacam o cunho de formação ética da pesquisa participante, à medida que envolve o exercício da alteridade, da prática profissional e a relação entre pessoas22,29.

A pesquisa participante implica um raciocínio argumentativo e dialógico entre os interlocutores. Trata-se de uma metodologia de produção de conhecimento baseada na inter-relação entre os atores e saberes envolvidos em uma prática social, diálogo na perspectiva de Freire37 do encontro entre os homens, da relação existente entre eles, que considere os saberes específicos e constitutivos de todos os atores da ação; o conhecimento construído a partir das múltiplas perspectivas do coletivo que interpreta uma realidade6,7,38.

Num processo de pesquisa participante, o conceito de “espiral” de Barbier4 é útil para construção do objeto. Sistematizando, esse autor fala de três momentos: 1) o objeto abordado, momento que estabelece um diagnóstico da situação a ser explorada: faz a “escuta sensível do vivido”; 2) objeto construído: que se apoia em temas a serem discutidos e analisados sobre a situação; 3) objeto efetuado: momento de avaliar o sentido e realização do processo. Esses três momentos não seriam etapas sequenciais ou estanques, mas sim, simultâneos e entrelaçados.

Quanto ao terceiro item de construção do objeto destacado por Barbier4, o objeto efetuado, cabe destacar uma diferenciação importante: entre o que é objeto/ objetivo da pesquisa e objeto/ objetivo da ação2. O objetivo da ação, desejável pelos participantes do trabalho, visa a propostas de ações para solucionar o problema levantado, problema de ordem prática, ou ainda, ao questionamento e ação sobre modos de funcionamento e pensamento operantes numa instituição/ estabelecimento. Já o objetivo da pesquisa, foco dos pesquisadores, tem relação com o conhecimento sobre tal assunto, além do espaço do estabelecimento ou do dispositivo em que se realiza o trabalho2. Sendo assim, também o objetivo da pesquisa participante seria resolução de problemas, análise das práticas e produção de conhecimento.

Uma forma interessante do registro do campo de pesquisa, apontado pela pesquisa participante, é o diário de campo ou o diário de itinerância dos pesquisadores/ sujeitos, com anotações feitas no processo4,5. A intenção é que possam ser captados o significado, avaliação e reflexão do processo pelos participantes, o momento das descobertas e a história da discussão para construção do pretendido.

Nos artigos científicos selecionados, não encontramos referência aos modos de interpretação ou de análise dos resultados da pesquisa, das transformações e mudanças ocorridas durante o processo de ação. O uso frequente e amplo do termo “utopia da transformação”, como referência às mudanças alcançadas pela pesquisa, não ofereceu parâmetros conceituais sobre o que a investigação se propunha a analisar. Lincoln e Guba36 alertam que paradigmas participativos tendem a considerar a mudança por si só como uma finalidade, como geradora de justiça social, o que pode dificultar a análise desse caminho de mudança e em qual sentido ela se dá.

Pesquisa apoio Paideia

As premissas do método Paideia ou de apoio7 introduzem algumas intercessões e diferenciais da pesquisa-apoio, que se insere no campo das pesquisas participantes. Tanto o projeto quanto as ações dos pesquisadores no campo, para a pesquisa-apoio, são considerados como “oferta”. O apoio institucional busca uma postura interativa entre pesquisadores e sujeitos do campo. O conceito de oferta indica que os pesquisadores terão uma postura ativa, que estimularão os sujeitos da pesquisa a se autorizarem tanto a analisar criticamente quanto a alterar o ofertado. Por outro lado, os pesquisadores buscarão no contrato inicial deixar claro seu direito à crítica em relação a posturas, normas e comportamentos da instituição e dos sujeitos investigados. Nessa perspectiva, o pesquisador teria uma contribuição com alguma análise sobre a situação vivida, algum saber específico ou algum tipo de ação sobre a realidade, distintos da tradição local. Tal movimento interativo poderia possibilitar a abertura dos sujeitos para mudanças no fazer concreto e no operar cotidiano. O pesquisador também poderá, no processo, amadurecer, mudar ou desconstruir preconceitos, ver por exemplo, que a meta a ser alcançada poderia ser construída pelos caminhos percorridos conjuntamente com os sujeitos da investigação.

Considerando o conceito de apoio, o pesquisador deverá dar suporte ao enfrentamento de problemas que demandem soluções mais específicas e técnicas, por exemplo, articular questões e auxiliar a coordenação grupal7. É o sujeito da pesquisa entremeando-se ao sujeito da prática. Por outro lado, temos a contribuição para a construção do conhecimento também pelos sujeitos que fazem parte da pesquisa. À medida que os sujeitos sentem-se atores, tornar-se-iam implicados no problema investigado. A participação de todos os atores ajudaria a desenvolver práticas e conhecimento necessários para maior gestão de suas próprias vidas, coprodução de graus maiores de autonomia, e, por exemplo, promoção da saúde.

O artigo de Barros et al.21 aponta que o desafio do apoio é fomentar “o exercício do protagonismo dos sujeitos e convocar o potencial criativo próprio da vida para a construção de novos modos de gerir o trabalho que não sejam novas formas de assujeitamento” (p. 4803), colocando em cena as forças implicadas na produção de saúde e com isso convocar os grupos a uma análise de suas implicações. Dessa forma, uma pesquisa com tal metodologia implicaria uma análise desse processo do apoio.

A pesquisa-apoio considera a perspectiva do fazer junto: construir o conhecimento de forma compartilhada, assim como a análise, a responsabilização e a ação sobre o problema investigado. Insere-se no campo do agir/ fazer e do pensar. Reflexão e ação sobre os fatos da realidade vivida, sobre o processo e seus significados, à luz dos dados obtidos, da discussão propiciada na pesquisa. O conhecimento se dá num processo e não em atos isolados.

No processo do conhecimento, na perspectiva da construção do saber de forma compartilhada, não há como escapar de momentos em que ações deliberativas estariam inclusas. Ações estas que envolvem a constituição singular dos sujeitos, os quais as realizam. Um dos desafios no atual mundo fragmentado é justamente adicionar reflexividade às ações desenvolvidas, que seria a capacidade de análise da própria prática e reflexão do ser humano enquanto instrumento de pesquisa36,39. Nas pesquisas de metodologias participantes, a crítica e autocrítica são importantes, num processo reflexivo constante, a própria atividade do sujeito tornar-se-ia objeto de investigação39.

É a integração de conhecimento, ações e seus sujeitos, num processo que desemboque numa capacidade de análise e ação crítica sobre a realidade, sujeitos ativos na conscientização e ação sobre a realidade de que são partes. Castoriadis39 relaciona a atividade deliberativa à vontade e à

possibilidade de um ser humano integrar nas retransmissões que condicionam os seus atos os resultados de seu processo de reflexão [...] a dimensão refletida do que nós somos enquanto seres imaginários, a saber criativos, ou ainda: a dimensão refletida e prática da nossa imaginação como fonte de criação. (p.226)

A reflexividade no processo de conhecimento buscaria também ampliar o grau de autonomia dos sujeitos, para negociação, desde o contrato de investigação, à situação a ser trabalhada e a avaliação dos resultados. Ser autônomo é poder elaborar suas próprias leis, compreender as conexões que se realizam no interior de seu próprio pensamento. A participação no processo de conhecimento, como já dito, traria maior implicação e apropriação sobre o objeto em questão, propiciando a coprodução de autonomia dos sujeitos para compreensão e ação sobre a própria vida7,9. O meio de atingir autonomia é o próprio exercício dela (meios junto a fins), não se reduzindo a um ato e sim, seria pelo processo do vir a ser.

Uma especificidade da pesquisa participante do tipo apoio se refere ao esforço para a realização de uma reflexão e produção de conhecimentos em três planos: um relativo ao objeto ou problema trabalhado, outro referente à sociabilidade, à instituição em foco e sua dimensão de relação de poder, ou seja, ao exercício da política; o terceiro se refere ao esforço para que o sujeito (pesquisador ou investigado) realize análise de si mesmo e de sua relação com os outros e com a instituição, uma dimensão com potencial terapêutico. Em realidade, a pesquisa-apoio opera sempre com três objetivos ou finalidades: primeiro, ampliar a compreensão sobre algum tema ou problema; segundo, realizar uma análise institucional e das relações de poder; terceiro, pensar-se como agente singular dessa rede social.

Dessa forma, o pesquisador trará ofertas a serem colocadas nesses três campos. Em muitos casos, a oferta trazida será um arranjo organizacional ou mesmo alguma estratégia metodológica para integrar o tema em foco, com o contexto e com características e modos de ser das pessoas envolvidas.

A função-apoio aos grupos implicados em alguma problemática investigada dirige-se ao coletivo, já que almeja mudança provocada pelos sujeitos, tanto do coletivo do qual o pesquisador faz parte, quanto de outros do campo. O pesquisador não é, portanto, externo nem neutro. A atividade decisória em cogestão faz parte do processo de investigar, assim como as mudanças no percurso. O pesquisador, com seus saberes específicos, auxiliaria os sujeitos implicados com a mudança, a analisar sua situação e implementar ações.

A pesquisa participante do tipo apoio não opera, portanto, com a busca de autogestão, ainda quando objetive ampliar a autonomia de pesquisadores e sujeitos do campo. Dentro dessa perspectiva, o apoio se vale dos conceitos de construção compartilhada e cogestão da pesquisa-apoio. Ressalta-se, principalmente, que essa construção se dá em processo de relação entre os atores e se modifica na medida em que acontece. Só quando o sujeito investigado reconhece a questão colocada como um problema é que se implica e participa.

Pensar e participar ativamente da pesquisa e do que é buscado pressupõe analisar limites e determinações, imaginar possibilidades de desdobramentos, de deslocamento ou de substituição, olhar para os acontecimentos, com formação de compromissos (responsabilização, implicação) e certa criatividade. A análise do processo deve ocorrer reconhecendo necessidades e cadeias que prendem os sujeitos, as possibilidades de agir sobre esses condicionantes, modificando-os ou administrando-os, segundo os interesses.

Os sujeitos envolvidos são vistos, tal qual na pesquisa participante, no processo de composição, nessa construção compartilhada de algo, partindo da ótica da diferença ou da alteridade entre as pessoas39. Para a pesquisa-apoio, se vermos o outro (sujeito) enquanto diferente e reconhecermos sua cidadania e sua capacidade humana, buscaremos formas de cogestão do processo, o que exigirá a construção de espaços coletivos de análise e de deliberação, na busca de construção de contratos e termos de funcionamento apesar das diferenças. Esses contratos objetivariam a constituição de alguma identidade provisória, não no sentido de uniformidade e repetição, e mais no de ordenação. A ótica da alteridade implica em reconhecer que o outro é inseparável dos acontecimentos que o fazem ser singular, está sempre em relação a outro. Busca a multiplicidade e discussão, a emergência do novo (do não previsto, do possível) e, por isso, tem um tempo próprio, o da criação.

Outra característica da pesquisa participante do tipo apoio é a centralidade que assume a prática, a experimentação concreta das análises, deliberações e tarefas contratadas. Parte-se sempre da prática concreta e sempre se volta a ela. Prática e reflexão analítica ou teórica. Recomenda-se algumas técnicas, saberes para se chegar aos objetivos propostos; alguns conceitos adotados pelo método de apoio institucional poderiam auxiliar na condução do processo, facilitar o processo de análise e intervenção, para orientar as ações de pesquisa junto aos sujeitos envolvidos, participantes, desde o planejamento até a prática e análise das ações coletivas e singulares e das inter-relações.

Além do caráter operativo do método de apoio, ressalta-se ainda a ênfase dada à criação de grupalidade nos espaços coletivos; a construção de rodas com sujeitos heterogêneos busca desenvolver a capacidade de pensar e resolver dialeticamente situações conflitivas por meio de uma tarefa grupal. Aposta-se, portanto, em discussões coletivas sobre o objeto de investigação, o apoio parte de temas “fortes” (a fortaleza não é dada a priori pelo método, mas por sua relação com os sujeitos envolvidos no processo) que propiciem “acontecimentos” e a “criação de possíveis”, englobando conflitos e tensões, dificuldades e a diversidade no lidar cotidiano. O possível chega pelo acontecimento, pela abertura propiciada para que ele aconteça. A palavra “devir”, a que o apoio institucional se refere, pressupõe a potência do espaço criado, que toma, ou não, seus caminhos conforme os aconteceres do processo.

Colocar uma meta fechada é limitar o possível, é querer que se confirme ou não os pressupostos e clichês já vividos. Em geral, esses processos estimulam os sujeitos a saírem um pouco do previsto. Podemos ter hipóteses em uma investigação, mas nossos resultados podem ser bem diferentes delas, ainda mais quando a construção da pesquisa envolve os sujeitos pesquisados. O processo da pesquisa deve estar aberto para o que possa acontecer nesse caminho.

Outro arsenal interessante para ser utilizado nesse espaço grupal e na constituição da pesquisa é o uso de atividades e recursos expressivos. A atividade estaria denunciando algo que não pode ser dito ou mesmo facilitando e intermediando a discussão de assuntos/temas mediante outro caminho que não só o verbal e o visível.

Quando se trabalha com grupos e atividades, dá-se abertura para o aparecimento do simbólico, do inconsciente, de abstrações, do não dito. Grupo e atividades, portanto, enquanto instrumentos e facilitadores para análise conjunta do que se propõe a pesquisa. O uso de atividades não somente centradas no verbal como método de pesquisa ainda é pequeno e/ou pouco descrito, sendo mais frequentemente analisadas no campo da terapia ocupacional e da saúde mental40.

Reuniões periódicas de repactuação são outra estratégia metodológica da pesquisa participante do tipo apoio, o que pode possibilitar que estratégias de pesquisa possam ser entrelaçadas com a dinâmica do campo escolhido. Os encontros grupais podem acontecer orientados por temas a que a pesquisa deseja percorrer, temáticas escolhidas para ocorrência da análise, intervenção e participação. Também é importante haver pactuação da forma de existência desse espaço, contratos de funcionamento do espaço e da pesquisa e formação de compromisso dos envolvidos na participação.

A metodologia apoio Paideia aposta e dá ênfase à interpretação da ação prática dos sujeitos, pensar sobre o mundo e sobre si mesmo. Em intercessão às pesquisas participantes, alerta sempre para o limite e contaminação de toda interpretação pelo lugar existencial, desejos, interesses, valores, dos sujeitos analisadores. A pesquisa participante do tipo apoio utiliza alguns núcleos temáticos para orientar a construção de narrativas interpretativas sobre várias óticas e perspectivas.

Alguns desses núcleos são referentes ao mundo e outros ao sujeito. Os núcleos temáticos referentes ao mundo guardariam relação com a finalidade, objetivos, meios e objeto aos quais os sujeitos se encarregam. Por sua vez, os relativos ao sujeito diriam respeito às próprias pessoas envolvidas, isto é, ao seu objeto de investimento, constituição de contratos e compromissos com os outros e análise das relações de poder nas situações7,9. A noção do tema estaria vinculada à construção de unidades de significação e de sentido que comporiam uma comunicação. Tradicionalmente, pode-se ter temas eleitos para direcionamento do olhar na pesquisa, anteriores à coleta de dados, ou mesmo ao contrário, temas que emergem do próprio processo de investigar, não previstos inicialmente. Posteriormente à estruturação dos núcleos temáticos e análise, ressalta-se a relevância de novas discussões com os participantes, para validação da interpretação.

Considerações finais

Para finalizar, considera-se os desafios que nos coloca a proposta da pesquisa participante do tipo apoio em relação ao tempo cronológico destinado às pesquisas acadêmicas, por exemplo, realizadas em pós-graduação ou vinculadas aos órgãos financiadores. Pode, assim, ser necessária a escolha de alguns objetivos a alcançar com a pesquisa, pois um processo de mudança nem sempre cumpre os prazos acadêmicos ou propostos num projeto. Para que seja possível efetuar uma avaliação dos efeitos, em longo prazo, do significado da participação na pesquisa para as pessoas e na prática cotidiana (como maior autonomia ou incorporação dos conceitos), talvez seja necessário um acompanhamento longitudinal e, até mesmo, os encontros serem mais frequentes. Assim, talvez a opção por períodos mais prolongados da pesquisa pode ser interessante para a construção de forma compartilhada.

Tentamos, neste artigo, abordar alguns conceitos que nos têm facilitado na produção do conhecimento de forma compartilhada e considerando a subjetividade. As pesquisas participantes em geral, e a pesquisa-apoio em particular, pressupõem entrada do pesquisador em campo, também considerando suas ofertas e saberes possíveis que se misturam, dissolvem-se no fazer conjunto. Uma construção que se dá no processo da pesquisa, com os sujeitos implicados e envolvidos com o objeto pesquisado. Uma metodologia que nos tem sido útil para avaliar a eficácia e resultados de novas formas de intervir e estar com equipes, novos arranjos e dispositivos no cotidiano dos serviços de saúde, analisar e operar em processos de trabalho, organização e planejamento das ações em saúde. A pesquisa-apoio é uma possibilidade entre os caminhos da pesquisa participante.

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