Pesquisadores brasileiros na pós-graduação de Antropologia Médica na Espanha: relato de experiência

Pesquisadores brasileiros na pós-graduação de Antropologia Médica na Espanha: relato de experiência

Autores:

Stela Maris Aguiar Lemos,
Fabiane Rosa Gioda,
Fernanda Martinhago,
Rinaldo Conde Bueno,
Angel Martínez-Hernáez

ARTIGO ORIGINAL

Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.21 no.60 Botucatu jan./mar. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622015.0962

RESUMEN

El objetivo del manuscrito fue relatar y discutir la experiencia de investigadores brasileños, del campo de la salud, en un programa del área de la antropología. Se trata de un relato de experiencia elaborado desde la perspectiva de reconocer y discutir, de manera crítica, las experiencias de los investigadores en el campo antropológico de la educación continuada y permanente, teniendo como escenario el doctorado en Antropología y comunicación de la Universitat Rovira i Virgil en Tarragona, España. El relato de la inmersión de los investigadores en los estudios sobre antropología médica y salud global reveló la ampliación de horizontes sobre la comprensión del proceso de salud-enfermedad-atención, posibilitando el análisis del fenómeno bajo otra perspectiva, en donde los valores de la sociedad y de la cultura están fuertemente presentes.

Palabras clave: Antropología médica; Intercambio educacional internacional; Educação continuada; Incorporación del conocimiento antropológico

Introdução

Nos últimos anos, a pós-graduação brasileira tem buscado, de forma sistemática, a internacionalização de seus programas por meio de distintas estratégias. Vale considerar que a internacionalização do conhecimento é um importante indicador que proporciona intercâmbio de saberes e experiências com instituições e pesquisadores de alto mérito científico, promovendo o desenvolvimento de competências e habilidades necessárias à produção de conhecimento1.

O envio de pesquisadores (docentes e discentes) ao exterior contribui para a consolidação de parcerias e produção de conhecimento entre grupos brasileiros e internacionais. Contudo, a ida dos pesquisadores para o exterior, além de trazer benefícios, produz, também, desafios de inserção e gestão do trabalho em solo estrangeiro. Esses desafios ocorrem não só na dimensão acadêmica, mas, também, na esfera sociocultural, e transpõem o processo de produção científica. Podem configurar desafios a serem enfrentados, desde o desenvolvimento de novas habilidades de comunicação (idioma) e estabelecimento de relações interpessoais, até o desenvolvimento da rotina e cotidiano na nova cidade. Contudo, enfrentar tais desafios rompendo as fronteiras do Brasil com outros países pode ser fundamental para construir novas práticas no campo do ensino, da pesquisa e da assistência em saúde24.

Vale considerar que a busca pela internacionalização é um fenômeno global, e que os desafios de adaptação e inserção também ocorrem com estudantes estrangeiros em solo nacional5. Em contrapartida, embora existam dificuldades a serem superadas para que o Brasil atraia pesquisadores internacionais, essa é uma realidade crescente6.

Dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) mostram que, em 2009, foram concedidas: 105 bolsas para Doutorado Pleno, 847 bolsas para Estágio de Doutorado Sanduíche, 361 bolsas para Estágio de Pós-Doutorado (pós-doc), e 79 para Estágio Sênior, sendo que a Espanha é o quinto país escolhido como destino preferencial dos bolsistas brasileiros7 e configura um importante cenário de parceria e construção de novos campos de intercâmbio.

O doutorado Sanduíche é um importante eixo nesse âmbito, e propicia experiências que permitem que estudantes de pós-graduação: conheçam distintos grupos de pesquisa, processos de trabalho O doutorado Sanduíche é um importante eixo nesse âmbito, e propicia experiências que permitem que estudantes de pós-graduação: conheçam distintos grupos de pesquisa, processos de trabalho acadêmico; desenvolvam habilidades para a busca de financiamento de pesquisas, e, sobretudo, criem parcerias com pesquisadores em diferentes países8, competências fundamentais para a criação dos seus próprios grupos de pesquisa e da dinâmica de orientações futuras. O pós-doc é outro eixo fundamental na definição e estímulo da produção científica e na construção e avaliação das perspectivas de ensino, pesquisa e extensão de docentes brasileiros9.

Neste contexto, descrever experiências, compartilhar impressões e analisar o processo de internacionalização em solo espanhol pode contribuir para subsidiar a discussão sobre grupos de pesquisas internacionais e para o estímulo a incursões de novos bolsistas ao país. Vale destacar que, embora cada processo de estágio no exterior seja distinto, pois carrega em seu bojo as peculiaridades do indivíduo, da área de origem do pesquisador e do tema de investigação, há aspectos transversais que podem emergir em qualquer experiência internacional.

Esta vivência, singular para cada pesquisador e, ao mesmo tempo, compartilhada entre eles, promoveu a ideia de elaborar um artigo de modo que pudessem registrar esta experiência na Espanha.

Além disso, o relato aqui apresentado busca descrever a aproximação e a incorporação de conhecimentos antropológicos por pesquisadores da área da saúde em uma experiência de internacionalização. Busca-se, ainda, discutir os aspectos emergentes de tal vivência e seu impacto cultural na formação dos pesquisadores envolvidos.

A perspectiva teórica do presente relato foi o aporte da antropologia e a inter-relação com a saúde. Na perspectiva antropológica, a saúde, a doença, o sofrimento e a morte são compreendidos como fenômenos condicionados à cultura e à vida social. A postura do antropólogo se diferencia do profissional da saúde em função de não estar relacionada a qualquer tipo de terapêutica. A antropologia se configura como uma ciência da humanidade de vasto escopo e que, no campo da saúde, o conhecimento pode ser aplicado, por exemplo, para: o desenvolvimento de programas de saúde pública, relação médico-paciente, ou delineamento de campanhas de promoção de saúde. Mediante uma proposta de unidimensionalidade da enfermidade, que se afasta do reducionismo biológico, a antropologia propõe um olhar multidimensional que possibilita resgatar a condição de eixo social, cultural e político-econômico da enfermidade10.

Deste modo, o objetivo do presente manuscrito é relatar e discutir a experiência de pesquisadores brasileiros do campo da saúde em um programa da área da antropologia na Espanha.

Métodos

Trata-se de relato de experiência elaborado por quatro pesquisadores da área da saúde de universidades públicas brasileiras, bolsistas da Capes, em atividades acadêmicas em território espanhol. O grupo foi composto por: dois doutorandos da modalidade de doutorado sanduíche com formação em psicologia e fisioterapia, uma doutoranda em regime de cotutela com graduação em psicologia, e uma fonoaudióloga em estágio pós-doutoral. As reflexões deste relato compreendem o período entre janeiro e junho de 2015.

O cenário do estudo é o doutorado em Antropologia e Comunicação, o qual é fruto da fusão de dois doutorados, que, por meio desta integração, buscam aprimorar e inovar no desenvolvimento de pesquisas que explorem a intersecção destas duas áreas, de modo a possibilitar, ao pesquisador, consolidar conhecimentos técnicos avançados e a articular sua pesquisa na confluência de métodos e teorias destas áreas. O objetivo deste programa é intensificar o conhecimento sobre os conceitos teóricos e metodológicos destes campos do saber, e possibilitar a produção de pesquisas de qualidade nas suas três linhas de investigação: 1) Antropologia médica e saúde global; 2) Comunicação e risco; 3) Identidades contemporâneas, espaços urbanos e representação. Os pesquisadores brasileiros, provenientes do campo da saúde, participaram das disciplinas e atividades da linha de Antropologia médica e saúde global, as quais compõem um curso de mestrado na Universitat Rovira i Virgili em Tarragona, na Espanha. Como eixos estruturantes deste programa, dentre outros, estão os temas que envolvem a saúde e a transnacionalidade, áreas diretamente relacionadas aos objetos de estudo dos pesquisadores envolvidos.

A elaboração do relato de experiência seguiu quatro etapas, a saber: a) resgate mnemônico das atividades e experiências vivenciadas, b) análise crítica dos eixos e conteúdos elencados, c) compilação dos resultados, e d) estruturação do manuscrito.

O resgate mnemônico foi realizado por meio da narrativa livre de cada pesquisador envolvido acerca de seu processo de inserção, vivências nas atividades do programa, e desafios enfrentados no percurso. Deste modo, as narrativas orais descreveram fatos e impressões subjetivas do processo de aprendizagem dos sujeitos implicados.

A análise crítica dos eixos e conteúdos elencados buscou, inicialmente, a identificação e consolidação das narrativas coincidentes e das informações obtidas na etapa anterior. A seguir, foi realizada: a discussão dos pontos confluentes e divergentes, contextualização dos relatos, classificação inicial dos conteúdos, e análise compreensiva dos relatos.

Na etapa de compilação dos resultados, foram realizadas: a ordenação dos elementos obtidos nas etapas anteriores, a organização dos eixos emergentes e a reclassificação final de conteúdos.

A última etapa, estruturação do manuscrito, consistiu na construção do quadro resumo de resultados, definição do aporte teórico final, e redação final dos passos metodológicos.

Vale destacar que os passos metodológicos foram desenvolvidos em seis encontros que intencionavam reconhecer e discutir, de maneira crítica, as experiências dos pesquisadores no campo antropológico da educação continuada e permanente em um país estrangeiro, visando a reflexão dos desafios deste processo de forma a contribuir com a sua consolidação. Tais reuniões serviram de alicerce para elencar os indicadores apresentados no decorrer do texto.

Resultados e discussão

Para mapear as transformações descritas no presente relato, é fundamental compreender o processo histórico da constituição do campo da antropologia médica, pois, grande parte dos processos vivenciados pelos pesquisadores provém de mudanças em concepções e práticas. Nessa direção, o percurso da antropologia médica remete a um novo olhar que valoriza as dimensões política, social e cultural nos espaços de vivências no campo da saúde.

Embora a antropologia médica possa ser considerada relativamente nova no horizonte das disciplinas antropológicas, suas origens podem ser remontadas a períodos mais distantes, na medida em que os relatos etnológicos antigos sempre carregaram observações sobre saúde e doença dos povos estudados11. Contudo, alguns autores consideram, como marco da compreensão da antropologia médica como ciência orientada para o campo, a figura de Rivers, médico-antropólogo, que participou da expedição feita ao Estreito de Torres em 1898, e, em 1924, publicou uma obra considerada a precursora da história da antropologia médica 11,12.

Segundo Comelles13, desde o século XIX, a biomedicina buscava aprimorar sua eficiência diagnóstica, prognóstica e terapêutica, sendo estes os principais eixos que conduziam a prática clínica e o laboratório. Neste contexto, os valores dos significados do meio, da sociedade e da cultura foram desaparecendo em relação ao enfermo e à enfermidade. Para Comelles13, negar o cultural e o social na medicina é um modo de construir uma cultura profissional específica.

A década de cinquenta do século XX foi, sem dúvida, significativa para o desenvolvimento da antropologia médica. Nesse momento, os trabalhos publicados mostram a investigação dos antropólogos nos sistemas médicos ou sobre problemas de saúde11,12.

Na década de 1950, a Antropologia Médica se desenvolveu nos Estados Unidos com estudos sobre os processos de saúde/enfermidade/atenção-prevenção como disciplina específica e, nos anos 1960, como especialização. Em função de seu rápido desenvolvimento, na década de 1980, contava-se com um número expressivo de antropólogos ativos e, consequentemente, com o crescimento de trabalhos etnográficos, o que gerou algumas das principais contribuições teóricas para a antropologia social. Desde esta época, a antropologia médica vem se expandindo de forma significativa em países como Brasil, México, Espanha e Itália14.

Ainda quanto aos marcos históricos da antropologia médica nesse período, vale destacar, na década de 1960, as tentativas de diferentes construções teóricas e conceituais da enfermidade e dos sistemas médicos, e a definição, na década de 1980, de que a medicina ocidental e ou biomedicina não seria considerada um padrão para o campo, e sim um dos seus objetos de indagação15.

O ponto crítico da construção de um processo de aprendizagem autônoma pressupõe a imersão e o comprometimento do sujeito no contexto e no conteúdo delimitado para a consolidação e concretização da atividade. Nessa perspectiva reside a elaboração do presente relato de experiência, que busca problematizar a imersão de pesquisadores brasileiros em atividades acadêmicas e técnico-científicas em território espanhol.

Considerando que o eixo fundamental da aprendizagem significativa pressupõe uma relação lógica e relevante entre o novo e o preexistente, que, consequentemente, servirá de constructo para incorporar, compreender e fixar os novos conhecimentos16, optou-se por distribuir os momentos vivenciados em três eixos temáticos: aproximação, apropriação e incorporação (Quadro 1).

Quadro 1 Síntese dos eixos, conteúdos e desafios obtidos na compilação dos relatos. 

Eixos Conteúdos Desafios
Aproximação

    –. diferentes perspectivas teórico conceituais entre os modelos biomédico e antropológico na abordagem da saúde;

    –. consonância com a perspectiva teórico-conceitual dos pesquisadores no processo de saúde/enfermidade/atenção;

    –. críticas à saúde e ao modelo biomédico tem o médico como figura central da discussão;

    –. reflexão sobre a complexidade dos aspectos que envolvem o processo saúde/enfermidade/atenção;

Trabalhar em uma pesquisa de cunho antropológico em um campo cultural distinto (Espanha/Catalunha).
Apropriação

    –. discussão de experiências autonomistas;

    –. ressignificação dos saberes antropológicos

    –. revisão do projeto de pesquisa;

Considerar a teoria antropológica na análise dos dados.
Incorporação

    –. desenvolvimento da perspectiva antropológica nos projetos de pesquisa;

    –. reconstrução de um novo paradigma do pensar em saúde;

    –. mudanças de pressupostos teóricos;

    –. inclusão de novos referenciais teóricos ao projeto de pesquisa;

Usar e relacionar a teoria antropológica com os projetos da saúde.

Aproximação do contexto antropológico

A primeira etapa do processo dos pesquisadores foi a aproximação, entendida como o momento de chegada e ajustamento às práticas e conteúdos do programa de antropologia. Nesta etapa, a percepção da diferença foi o primeiro sentimento do grupo de pesquisadores. Embora o ingresso no curso tenha sido em momentos diversos, as diferenças entre os programas brasileiros de origem e espanhóis em questão foram reconhecidas por todos os atores. Diversas situações podem servir de exemplo para esse momento inicial, tais como: a organização do currículo do programa e a distribuição das disciplinas ao longo do semestre; mas o aspecto mais emblemático foi a desconstrução do pensar em saúde amparada em um modelo biomédico. Embora todos os pesquisadores, ao escolherem um programa de antropologia, já tivessem um olhar mais complexo sobre saúde, restavam fios do modelo biomédico oriundos da formação a serem rompidos.

Nesse sentido, vale destacar que o desafio principal foi a visualização do trabalho de cada pesquisador em uma perspectiva antropológica, tendo em vista que os projetos desenvolvidos tinham como foco processos / concepções de saúde ou doença.

Embora a literatura aponte que uma das buscas da Antropologia é a compreensão da influência da cultura na percepção e ações dos indivíduos em relação ao adoecimento e ao sistema de atenção à saúde17,18, o percurso dos pesquisadores não tinha esse referencial bem delimitado nos referidos projetos. Além do estranhamento, essa realidade mobilizou a busca de conteúdos e concepções antropológicas.

Essa busca fez emergir, como conteúdo fundamental para interlocução dos campos, a contraposição entre o modelo biomédico e a perspectiva antropológica na abordagem da concepção de saúde, do processo de adoecimento, e dos sistemas de atenção. Validando, dessa maneira, a premissa da saúde como experiência, construção sociocultural e dimensão como política, além de considerar conceitos estruturantes de autoatenção, intermedicalidade, autonomia, coletividade e práxis, em oposição à perspectiva biomédica considerada universalista, biologista e individualista19.

Assim, a aproximação ocorreu nas dimensões de campo e saberes, e motivou a reflexão sobre a complexidade dos aspectos que envolvem os processos de saúde, enfermidade e atenção. O desafio desse momento foi a articulação entre os conhecimentos em saúde e antropológico com a transição de concepções marcadamente biomédicas para concepções que valorizam a prática social e os diferentes olhares sobre enfermidade e sistemas de atenção.

Vale considerar ainda que, em grande medida, a Antropologia Médica dirige-se a problemas e necessidades de saúde atuais, desenvolvendo pesquisas aplicadas, e, portanto, diferencia-se com singularidade do campo da antropologia clássica11,12. Deste modo, a aproximação dos pesquisadores ocorre de forma mais natural.

Apropriação da concepção antropológica

O passo seguinte foi a imersão e a identificação com os conteúdos e concepções antropológicas, entendendo a apropriação como um processo de ancoragem e decodificação dos novos conceitos20. Nesse momento, o principal desafio enfrentado foi o uso da teoria antropológica no desenvolvimento do projeto e na análise dos dados da pesquisa de campo. O passo inicial foi a reestruturação do aporte teórico dos projetos, incluindo autores e conceitos da antropologia médica. Em seguida, foi realizada a reestruturação dos aspectos metodológicos dos projetos, incluindo mudanças de instrumentos de coleta de dados e a seleção de percursos analíticos.

Nessa perspectiva, a ressignificação dos saberes antropológicos para a revisão dos projetos de pesquisa foi o ponto crítico da etapa de apropriação. Assim, foi desenvolvida a análise dos projetos em uma perspectiva coletiva considerando os objetos de pesquisa como resultado de contextos históricos e relacionais, e não como problemas situados na dimensão individual / biológica19. Reconhecendo, ainda, a enfermidade como fenômeno social e cultural que pode apresentar sentido de coerência e status etnográfico15.

Os diferentes aportes antropológicos, como mencionado por Menéndez14, corroboram os processos de saúde/enfermidade/atenção-prevenção que compõem parte da vida coletiva, na qual as sociedades e os sujeitos têm instituído e utilizado mais representações, práticas, relações, rituais, significados, tanto no nível dos curadores, dos conjuntos sociais, assim como dos sujeitos. As pesquisas antropológicas demonstram que são inevitáveis a produção e o uso das representações e práticas sociais pelos leigos no que diz respeito a seus adoecimentos, demonstrando que necessitam saber o que está ocorrendo, e a, também, encontrar formas de solucionar os problemas de saúde que reconhecem como seus14.

Incorporação dos saberes antropológicos

Nesse momento, os pesquisadores buscaram a consolidação das experiências vivenciadas e a articulação dos saberes preexistentes com os novos conteúdos da antropologia. Nesse sentido, os eixos fundamentais da etapa foram: o desenvolvimento da perspectiva antropológica, a reconstrução de um novo paradigma do pensar em saúde, e a inclusão de novos pressupostos e referenciais teóricos aos fundamentais da etapa foram: o desenvolvimento da perspectiva antropológica, a reconstrução de um projetos de pesquisas.

Considerando a literatura que aponta a importância do contexto sociocultural para compreensão e definição da enfermidade, assim como para a eleição do tratamento19, buscou-se agregar essas premissas aos projetos já estruturados. O ponto fundamental do momento de apropriação foi a validação das mudanças efetuadas nos aspectos metodológicos dos projetos. Para tanto, buscou-se a discussão com pares, atividades de tutoria com docentes do programa, e supervisões com o orientador dos projetos. Nessa perspectiva, a Espanha mostrou-se um lugar privilegiado para reconstruir saberes, pois integra pesquisadores consolidados na área e estudantes de vários países com novos olhares sobre a temática.

Na Espanha, a institucionalização dos estudos de antropologia adquire potência entre os anos 1982 e 2000. Neste período, a criação de cursos, a realização de jornadas, e a ampliação dos estudos de investigação garantiram o reconhecimento formal do campo da antropologia médica espanhola. A literatura mostra que, atualmente, os grupos de investigação e a internacionalização tem sido reforçados pelos modelos de financiamento21. A Espanha constitui, sem dúvida, um centro de referência na comunidade internacional, pois cerca de um terço dos mestres e doutores formados nesse país é composto por estrangeiros20.

Atualmente, a antropologia médica na Espanha é um campo com uma comunidade científica bem consolidada, sendo a URV junto à Aix-en-Provence (França) consideradas, pela Medical Antropology Research, como polos de referência institucional do sul da Europa. A produção acadêmica significativa neste campo, inclusive no âmbito internacional, possibilitou a ampla globalização da antropologia médica21. Nesse sentido, o desenvolvimento deste campo do conhecimento se configura pela sua posição “intersticial” e por sua capacidade de atuar à margem da medicina, assim como à margem da antropologia.

Menéndez14 ressalta que uma das contribuições mais importantes da antropologia social, incluindo a antropologia médica, é a dedicação ao estudo do óbvio, o qual está tão próximo que não é possível vê-lo. Segundo o autor, nos estudos antropológicos sobre os processos de saúde/enfermidade/atenção-prevenção, é fundamental desvendar aspectos não vistos por outras áreas.

Assim, na busca pela articulação desses saberes, a reincorporação e o reingresso no campo de análise de dados foram de suma importância para a mudança de concepção dos pesquisadores e construção de novas trajetórias e caminhos do pensar em saúde.

A experiência de incorporação de conhecimentos antropológicos pelos pesquisadores ultrapassou os limites acadêmicos e propiciou um diálogo entre formação e prática, ao provocar mudanças significativas no pensar e fazer em saúde para esse grupo. Segundo Abrahão, Merhy22, a formação implica múltiplos encontros, e, na área de saúde, implica distintas maneiras de se ver o mundo, de autocuidado e produção do cuidado. Assim, podemos inferir que o encontro dos pesquisadores da área de saúde com o campo antropológico propiciou: a transformação de conceitos, modificação de atitudes e inovação de compromissos para a produção do cuidado.

Considerações finais

A imersão dos pesquisadores brasileiros nos estudos sobre antropologia médica e saúde global ampliou horizontes sobre a compreensão do processo de saúde-enfermidade-atenção, possibilitando olhar este fenômeno sob outra perspectiva, onde os valores da sociedade e da cultura estão fortemente presentes. Este recrudescimento da inserção da antropologia, mais especificamente da antropologia médica, promove, no campo da saúde, uma transformação no direcionamento das investigações sobre os objetos de estudo que fazem parte desta temática, o que, consequentemente, contribui para o desenvolvimento de novos aportes teóricos e inovações nas práticas em saúde.

A experiência foi positiva e significativa para o grupo de pesquisadores, sobretudo na dimensão de formação em pesquisa. A participação em debates dos aspectos teóricos, a reestruturação da trajetória metodológica, a valorização dos aspectos contextuais nos projetos, e a elaboração de novos constructos teórico-práticos no processo de pesquisa implicaram importantes mudanças na etapa de formação vivenciada pelo grupo.

Dentre as experiências dos pesquisadores em relação ao curso de Antropologia Médica, destaca-se a interlocução, que demarca a contraposição entre modelo biomédico e perspectiva antropológica, no que diz respeito às concepções de saúde, doença e atenção, e demonstra quanto tal tríade está relacionada a experiências sociais, culturais e políticas do sujeito ou, até mesmo, da população.

Nesta perspectiva, vale salientar quão importante é a apropriação dos saberes antropológicos por profissionais do campo da saúde, de modo que possibilitem uma ressignificação do conhecimento sobre esta temática e a construção de novos paradigmas em relação a suas práticas. Assim, consideramos que o desenvolvimento de pesquisas que articulam as áreas da saúde e antropologia é extremamente significativo para que esta transformação ocorra de forma efetiva.

Além disso, a experiência de internacionalização propiciou a construção de projetos conjuntos e a possibilidade de articulação entre linhas de pesquisas de programas brasileiros e espanhóis, fato este que pode contribuir para a aproximação de novos pesquisadores da área da saúde em programas de pós-graduação em Antropologia.

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