Photovoice: experiência do método em pesquisa com mães adolescentes

Photovoice: experiência do método em pesquisa com mães adolescentes

Autores:

Caroline Cândido Garcia Leal,
Flávia Azevedo Gomes-Sponholz,
Fabiana Villela Mamede,
Marta Angélica Iossi Silva,
Nathália Teresinha Baptista Oliveira,
Adriana Moraes Leite

ARTIGO ORIGINAL

Escola Anna Nery

versão impressa ISSN 1414-8145versão On-line ISSN 2177-9465

Esc. Anna Nery vol.22 no.3 Rio de Janeiro 2018 Epub 12-Mar-2018

http://dx.doi.org/10.1590/2177-9465-ean-2017-0322

INTRODUÇÃO

Os adolescentes estão cada dia mais em evidência, e essa exposição comumentemente é paradoxal, pois algumas vezes é destacada pela sua exclusão social, sua tão proclamada marginalidade e criminalidade, outras vezes por seu potencial transformador, sua participação social, na família, na escola, na comunidade.1

Considerando que muitos adolescentes vivenciam problemas de desigualdade, exclusão, discriminação e situações de vulnerabilidade, conhecer e refletir sobre as percepções dos adolescentes sobre seu contexto social, é um desafio e exercício para compreender e transformar as práticas de saúde, em especial as de enfermagem, buscando observar, por meio e para além de suas interfaces, os seus significados, propostas de intervenção e prevenção. Esses processos exigem novos conhecimentos e ações proativas, capazes de gerar uma consciência coletiva e um compromisso com a saúde do adolescente.2

Enfoca-se o processo de adolescer sob o olhar sistêmico e construtivista, em que o adolescente seja considerado sujeito desse processo e visto dentro de suas singularidades e necessidades, e também em suas inter-relações com o seu meio familiar e social, em um determinado momento histórico e social.2

A base teórica e metodológica foi fundamentada no método photovoice, concebido como um método de pesquisa flexível, que pode ser adaptado para diversos temas de pesquisas e tem sido utilizado com diversas populações marginalizadas, tais como refugiados, crianças sem abrigo,3 grupos sub-representados, estigmatizados socialmente ou oprimidos, pois oferece a oportunidade para os indivíduos revelarem as suas preocupações4 e permite aos pesquisadores maior compreensão do tema em estudo.5

O termo photovoice foi originalmente proposto por Wang e Burris no início da década de 1990.3 Esse método foi proposto para descrever a abordagem de mesclar narrativa com fotografia para explorar questões da comunidade; no entanto, esta metodologia foi aprofundada e utilizada também para expressar necessidades, história, cultura, problemas e desejos.4,5 O photovoice é um método de pesquisa qualitativa que permite visualizar as percepções dos indivíduos acerca de suas realidades cotidianas.3,5

Os participantes são convidados a expor seu ponto de vista através de fotografias, fornecendo um mecanismo de ver e compreender as percepções da saúde ou do problema social que deve ser abordado, discutindo e identificando, muitas vezes, soluções inovadoras para os problemas, ainda, as histórias advindas das fotografias podem provocar reações intuitivas que podem promover a ação sobre as questões comunitárias.5

Photovoice também incorpora diversão, criatividade e colaboração, de uma forma que incentiva a participação dos adolescentes.4 Em se tratando de adolescentes, esse método pode se constituir em estímulo no sentido de poderem expressar questões de suas circunstâncias de vida. Este relato de experiência privilegia os mesmos enquanto criadores e não somente como receptores de imagens, no contexto do photovoice.

Considerando que a concepção, o significado que a adolescência adquire historicamente está, certamente, determinando suas ações em relação à amamentação, é fundamental conhecer suas vivências, para que a partir delas, possamos lidar com as questões subjetivas desse processo, as quais dependem de suas experiências particulares e de sua realidade sociocultural, de maneira a transformar as relações estabelecidas com as adolescentes, no sentido de trazê-las como parceiras ativas e propiciadoras de mudanças necessárias à nossa sociedade.

A utilização do método photovoice, nesse relato de experiência, teve o caráter de apresentar subsídios para melhor compreensão do tema em estudo e para as práticas dos profissionais de saúde para que possam atuar de maneira significativa na promoção e apoio à amamentação, prolongando a duração do aleitamento materno e a satisfação do binômio mãe-filho.

A sociedade atribui uma capacidade subestimada da adolescente no cuidado com o filho. Independentemente da idade, a gravidez envolve reajustes, interpessoais e sociais para adaptação à maternidade, principalmente na adolescência,6 o que implica em desenvolver capacidades para prestar cuidado ao filho, dentre eles, a alimentação.

O aleitamento materno se constitui em importante estratégia de alimentação para a redução da morbimortalidade infantil, sendo recomendado pela Organização Mundial de Saúde o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de vida e após, complementado até os dois anos ou mais. Dentre os benefícios trazidos pela prática da amamentação, podemos citar: menor incidência ou gravidade de doenças infecciosas e diarreicas; melhora dos níveis intelectuais, educacionais e da renda na idade adulta; benefícios econômicos para a família e vantagens para a lactante, como menores possibilidades de desenvolver câncer de mama e de ovário. Também contribui para: a equidade, o que possibilita a todas as crianças terem uma vantagem nutricional para o sucesso na vida; redução de gastos assistenciais e o desenvolvimento social e econômico de um país, por meio do aumento do nível educacional e intelectual, e consequentemente, da produtividade.7

O objetivo deste estudo foi relatar a experiência de desenvolvimento das fases do método photovoice em pesquisa qualitativa junto a mães adolescentes que estavam vivenciando ou vivenciaram o processo de amamentação e/ou de desmame.

MÉTODO

Trata-se de um relato de experiência que ocorreu durante o curso de Pós-Graduação - Doutorado em Enfermagem, abordando o desenvolvimento das fases do método photovoice junto a mães adolescentes, que foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo e pela Secretaria da Saúde do município de Ribeirão Preto por meio do Certificado de Apresentação para Aprovação Ética Protocolo CAAE Nº 50437515.2.0000.5393, de 5 de fevereiro de 2016.

Utilizou-se dois campos como cenário do estudo: o domicílio das mães adolescentes e duas unidades de saúde, localizados no distrito sul da rede municipal de saúde do município de Ribeirão Preto, SP, Brasil. Participaram do estudo 12 mães adolescentes de 13 a 19 anos de idade. A pesquisa foi desenvolvida, em sua maior parte, no domicílio delas.

Foram realizadas 12 entrevistas individuais e uma sessão de grupo focal (com três destas participantes), ambas realizadas junto a mães adolescentes de bebês ou crianças de até dois anos de idade, que residiam no município de Ribeirão Preto, SP, Brasil, e estavam vivenciando ou vivenciaram o processo de amamentação e/ou de desmame. As participantes foram incluídas no estudo conforme o comparecimento às consultas médicas ou de enfermagem (de puericultura e/ou puerperal) de rotina no nível primário de atenção à saúde.

O número de mães adolescentes participantes foi determinado pela saturação dos dados. A saturação ou recorrência dos dados caracteriza-se pelo "conhecimento, formado pelo pesquisador, no campo, de que conseguiu compreender a lógica interna do grupo ou da coletividade em estudo".8:197-8 E de acordo com a mesma autora, o grupo de participantes se configura idealmente quando reflete a totalidade das múltiplas dimensões do objeto de estudo. Portanto, na vigência de dados suficientes e consistentes para o trabalho, a coleta de dados foi encerrada. O período de coleta de dados ocorreu de março a dezembro de 2016 e o grupo focal foi realizado em fevereiro de 2017.

Esse estudo foi desenvolvido por meio do método photovoice, com produção de fotografias pelas mães adolescentes, seguida de reflexão sobre as imagens produzidas.

DESENVOLVIMENTO DO PHOTOVOICE COM MÃES ADOLESCENTES

O desenvolvimento das fases do método photovoice junto a mães adolescentes está fundamentado em nove fases, as quais foram adaptadas3,9 para esse estudo, conforme descrito a seguir:

1. Identificar os decisores políticos na comunidade com algum perfil de liderança comunitária

Nessa primeira fase é importante a construção de uma conexão entre o pesquisador e a comunidade a fim de se obter os dados e base sólida para desenvolver o projeto. Assim, o pesquisador poderá compartilhar ideias, oferecer feedback e responder questionamentos, a fim de estabelecer uma relação de confiança para interação entre pesquisador e a comunidade gerando uma participação mais significativa.9 A comunidade, neste caso, se refere às mães adolescentes e à equipe de saúde do distrito sul do município de Ribeirão Preto, SP.

Projetos photovoice mais participativos tendem a ser associados com relações de longa data entre pesquisadores e a comunidade.10 O desenvolvimento de conexão entre as mães adolescentes e a pesquisadora foi facilitado pois a pesquisadora já exerce atividades de trabalho junto às Unidades de Saúde aprovadas para esta pesquisa. Foi realizado encontro da pesquisadora com a comunidade estudada (mães adolescentes residentes no distrito sul do município de Ribeirão Preto, SP) e equipe de saúde (gerentes, técnicos de enfermagem, auxiliares de enfermagem, enfermeiros, pediatras e ginecologistas) dos vários setores das Unidades de Saúde (pediatria, ginecologia, consultórios das enfermeiras e sala de vacinas) a fim de gerar uma aproximação e estreitamento de laços.

2. Recrutar as participantes para o photovoice

Nesta fase os detalhes específicos do photovoice são planejados. O pesquisador assume a liderança das atividades, seleciona o local para o desenvolvimento da investigação, desenvolve o cronograma de atividades, organiza equipamentos e o local para a reunião de grupo, estima possíveis problemas e elabora o orçamento financeiro da pesquisa.9

O pesquisador seleciona o tipo de câmera para ser utilizada no photovoice. As câmeras descartáveis que vêm com filme e um flash são uma boa opção.4 As pesquisadoras adquiriram câmeras fotográficas de uso único com flash e já possuía um aparelho portátil (Media Players - MP3) para gravação de áudio das sessões. Foi explicada a possibilidade de utilizar mais filmes, caso a participante desejasse. Nenhuma participante solicitou nova câmera.

3. Recrutar as participantes para o photovoice, introduzir a metodologia photovoice às participantes e facilitar uma discussão de grupo sobre imagem, poder e ética

Nesta fase, a pesquisadora recruta as participantes para o estudo, o que envolve atrair pessoas da comunidade estudada, convidando-as para participarem do photovoice e explica os objetivos da pesquisa, os detalhes de cada etapa do método photovoice, as questões de identificação e os aspectos éticos.4 Essas informações foram fornecidas no primeiro encontro com as participantes do estudo.

As participantes têm a responsabilidade de registrar imagens que poderão educar outras pessoas de acordo com o tema social da pesquisa.4

Nesta fase são discutidas algumas questões, tais como: Qual é a forma aceitável para se aproximar de alguém para fotografá-lo? Deve-se obter fotografias de pessoas sem o consentimento delas? Em que momento não gostaria que lhe fotografasse? A quem poderia mostrar suas imagens? Quais são os impactos causados?3

O photovoice é um método em que se confia câmeras nas mãos de pessoas que possam agir como fotógrafos a fim de ajudar as pessoas a verem o mundo através de seus olhos. Para essa pesquisa, ao término do primeiro encontro, foi fornecida uma câmera fotográfica para as participantes do estudo que foram orientadas a realizar as fotografias de acordo com o tema: "O que pode facilitar e o que pode atrapalhar na amamentação de seu filho(a)?", durante o período de dez dias. Elas também foram instruídas sobre o manuseio e técnicas básicas para obtenção das imagens por meio da câmera fotográfica.4

As questões éticas foram explicadas na sequência para entendimento sobre a responsabilidade e autoridade que lhes são atribuídas enquanto fotógrafas em posse de uma máquina fotográfica.

É importante ressaltar que 41 mães adolescentes que aguardavam a consulta médica ou de enfermagem na sala de espera das Unidades de Saúde aceitaram participar da pesquisa. Porém, 12 mães adolescentes realmente compuseram o grupo de participantes deste estudo. É importante evidenciar a dificuldade dessa fase inicial (recrutamento) da pesquisa, em que houve uma certa recusa em participar da mesma. Notou-se que as que recusaram a participar estavam muito voltadas para o seu filho(a) e talvez essa seja a grande recusa em participar da pesquisa. Alguns dos motivos relatados para tal recusa foram: falta de tempo, pois os cuidados com o bebê e as atividades/tarefas do lar lhe consumiam muito tempo; a participação na pesquisa dependeria da aceitação do companheiro; falta de habilidade e/ou criatividade para fotografar.

A maioria das participantes do estudo recusou a utilização da câmera fotográfica oferecida, preferindo captar as imagens com aparelho celular próprio e enviar à pesquisadora por meio do aplicativo WhatsApp.

4. Iniciando o photovoice - obter o consentimento informado

Nesse momento do photovoice ocorre a implementação do plano do projeto com o estabelecimento do cronograma de reuniões.4

Também, são enfatizadas questões de segurança, autoridade e responsabilidade que as participantes devem possuir ao utilizarem uma câmera fotográfica para transmitirem suas mensagens.9 Deve-se respeitar os princípios éticos no momento de registrar as imagens, não infringindo a privacidade individual, pois as fotografias representarão fielmente os problemas, o que pode gerar fotografias de pessoas, onde as mesmas devem ser tratadas sempre de forma ética.4

Os pesquisadores devem informar aos participantes sobre a responsabilidade de respeitar a privacidade e direitos das pessoas. As pesquisadoras seguiram esta recomendação e, portanto, a mãe adolescente foi informada de que era preciso respeitar a privacidade e o direito das pessoas, acrescentando que não era permitido fotografar a face de pessoas, somente do pescoço para baixo. As participantes respeitaram essa recomendação.4

Dessa forma, para a realização de fotos que envolvessem pessoas foi solicitada autorização para sua realização por meio do Termo de Autorização de Uso de Imagem.

Antes de iniciar a entrevista, a pesquisadora efetuou a leitura dos termos: Termo de Assentimento; Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para o(a) responsável pela adolescente e; Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, e obteve a assinatura dos termos.

Também, foi disponibilizado o número do telefone da pesquisadora para as participantes, que lhes permitia entrar em contato, sem custo para as participantes, conforme a necessidade.

O photovoice geralmente é realizado com indivíduos marginalizados socialmente. Além dessa vulnerabilidade, o exame do problema em questão pode gerar sentimentos de preocupação e/ou de frustração com sua vida ou com as questões sociais de sua comunidade.4 A maioria das adolescentes que participou da pesquisa revelou diretamente ou indiretamente seu descontentamento com suas condições socioeconômicas, e algumas revelaram estar sem perspectivas de um futuro melhor para si e seu(s) filho(s). Assim, a pesquisadora entrou em contato com o serviço de assistência social oferecido pela rede municipal de saúde para casos específicos de duas mães adolescentes. Os mesmos autores afirmam que expor essas emoções significam crescimento pessoal e mudar pode ser doloroso. É preciso que o pesquisador se planeje com antecedência e saiba como esta situação pode ser abordada ou discutida. O fato de a mãe adolescente estar vivenciando questões emocionais de descontentamento pode acarretar influências em seu processo de amamentação.

5. Identificar um ou mais temas para as fotografias

Nesta fase, as participantes pensaram nas questões da pesquisa e determinaram o que queriam fotografar. Os sujeitos devem ser orientados sobre o foco da pesquisa, são explicitados os objetivos do estudo, o papel de cada indivíduo no grupo e sobre o consentimento informado.4

As mães adolescentes foram estimuladas a fotografar situações que serão utilizadas para educar, sensibilizar e compreender o tema da pesquisa4 (os aspectos que facilitam e/ou dificultam o processo de amamentação em seu cotidiano).

As participantes devem estar dispostas e interessadas em compartilhar abertamente suas vivências com o grupo participante e, eventualmente, com o público.9

À medida que o photovoice avança, os participantes vão melhorando suas habilidades e confiança como fotógrafos e criadores de informação.4 A maioria das participantes deste estudo relatou dificuldades iniciais em como saber o que fotografar. Esse tipo de dificuldade pode ocorrer.4 O assunto foi abordado de forma sensível pela pesquisadora na medida em que as participantes foram encorajadas, dados exemplos de potenciais fotografias e foi discutido como superar essa dificuldade com as mesmas.

6. Distribuir as câmeras para as participantes e instruir quanto ao seu manuseio - coletando os dados

Esta fase retrata a coleta de dados que se inicia com a execução da pesquisa e continua até a fase de compartilhamento das fotografias, seguida da análise dos dados.4

A pesquisadora após ter adquirido as câmeras fotográficas, as disponibilizou às participantes do estudo. Após a obtenção das imagens pela participante, a pesquisadora providenciou a revelação das fotografias. E caso a adolescente desejasse obter as imagens com o celular próprio, era informada sobre essa possibilidade e para isso, assinava o Termo de Recusa do Uso da Câmera Fotográfica. Nesse caso, a adolescente enviava as imagens à pesquisadora por meio do aplicativo WhatsApp. A maioria das participantes do estudo recusou a utilização da câmera fotográfica oferecida, preferindo enviar as fotografias à pesquisadora por meio deste aplicativo.

7. Oferecer tempo às participantes para registrarem as fotografias - analisando os dados

As participantes que optaram por utilizar a câmera fotográfica ficaram em média uma semana com a mesma; as participantes que optaram por enviar as imagens por meio do aplicativo WhatsApp enviaram em média em três dias. Isso possibilitou a captura de um total de 94 fotografias. Foram capturadas uma média de sete fotografias por participante, sendo duas o número mínimo e dezenove o número máximo. Foi realizada a exclusão de algumas fotografias que não se apresentavam nítidas ou estavam em duplicidade. Foi notado que as mães adolescentes entre 13 e 17 anos de idade tiveram uma tendência em capturar menos fotos em comparação com as mães adolescentes com mais idade (18 e 19 anos de idade).

Não foi estipulado um limitador do número de fotos e as participantes foram instruídas de que na entrevista seriam discutidas apenas algumas fotos. Foi solicitado às participantes para fotografarem imagens que respondessem às questões da pesquisa: O que facilita ou facilitou na amamentação do seu filho (a)? O que dificulta ou dificultou a amamentação do seu filho (a)?

Após esse momento, inicia-se a análise dos dados, em que são selecionadas imagens que retratem fielmente os objetivos da pesquisa e as mesmas são utilizadas para nortear a entrevista com a participante e devem ser categorizadas para a discussão em grupo.4 Algumas questões podem nortear essa escolha, como por exemplo: O que você exemplificou aqui? O que realmente aconteceu nesta imagem? Como esta imagem está relacionada com a sua vida?9

Essa entrevista tem como objetivo obter as histórias sobre algumas de suas fotografias. A pesquisadora iniciou com a fotografia que foi mais significativa para a adolescente. A entrevista prosseguia até que a participante verbalizasse que deseja finalizar a entrevista ou até que fosse atingida a profundidade das questões. Em alguns casos foram discutidas todas as fotografias referentes a cada participante. A pesquisadora realizou uma série de perguntas sobre a foto, por exemplo, como abordaram Nykiforuk, Vallianatos e Nieuwendyk (2011)5 e Wang (1999)3: O que você vê nessa foto? Por que esta imagem é importante para você? O que realmente está acontecendo nessa foto? Por que esse problema ou preocupação existe? O que podemos fazer para melhorar ou resolver isso?

Para este estudo percebeu-se que a entrevista individual pôde permitir uma exploração mais aprofundada das questões de interesse.5 Essa entrevista tem como objetivo obter as histórias sobre algumas de suas fotografias. A pesquisadora iniciou com a fotografia que foi mais significativa para a adolescente. A entrevista prosseguia até que a participante verbalize que desejava finalizar a entrevista ou até que fosse atingida a profundidade das questões. A pesquisadora realizou uma série de perguntas sobre a foto, por exemplo: O que você vê nessa foto? Por que esta imagem é importante para você? O que realmente está acontecendo nessa foto? Por que esse problema ou preocupação existe? O que podemos fazer para melhorar ou resolver isso?3,5

Na sequência, ocorria discussão das fotografias na qual a participante era questionada sobre suas experiências com sua participação nessa pesquisa e como sua participação a impactou.

A pesquisadora ofereceu às participantes uma cópia revelada de suas fotografias, sem ônus para as mesmas, após a conclusão da entrevista. Uma participante aceitou a cópia de suas fotos.

8. Promover encontro(s) para discutir as fotografias e identificar os recursos e problemáticas comunitárias

Nessa fase, os participantes são reunidos em um grupo, as imagens são exibidas e realizam-se discussões e troca de experiências sobre as temáticas abordadas.9 Uma das técnicas grupais mais utilizadas em pesquisa qualitativa é o grupo focal, que se constitui num tipo de entrevista ou conversa baseada na interação entre os participantes em grupos pequenos e homogêneos.8

Ao planejar o desenvolvimento da pesquisa, um dos desafios vivenciados pelas pesquisadoras foi adotar ou não a técnica de grupo focal, visto que mesmo sabendo que seria um método valioso na coleta de dados, com viabilidade financeira e possibilidade de obtenção de dados válidos e confiáveis em um tempo abreviado, seria uma tarefa difícil a adesão das participantes para a sessão grupal.

Para esta fase do photovoice, o número ideal de participantes relativo à reunião grupal, varia de sete a dez, pois são suficientes para que cada pessoa possa contribuir de maneira significante na troca de experiências e ideias.3

Houve dificuldade em reunir as participantes para o grupo focal. Inicialmente foi agendado um encontro com as 12 participantes, por meio de contato telefônico, sendo que sete delas confirmaram presença. No dia da reunião apenas uma compareceu, sendo então agendado outro encontro com 11 participantes, pois não foi possível entrar em contato com uma delas. Do contato com as adolescentes, nove confirmaram a participação no dia e horário combinados, porém apenas três mães adolescentes compareceram e participaram do grupo focal, o que proporcionou a maximização da profundidade de expressão de cada uma delas.

O grupo focal é uma técnica de investigação da metodologia qualitativa que tem como objetivo coletar informações sobre um determinado tema específico que possa proporcionar a troca de experiências, conceitos e opiniões entre os participantes. Origina discussões e elabora táticas grupais para solucionar problemas e transformar realidades, pautando-se na aprendizagem e na troca de experiências sobre o tema investigado, potencializando o protagonismo dos participantes na medida em que dialogam e constroem coletivamente os resultados da pesquisa.11 Assim, nesse estudo, o grupo focal foi conduzido a partir da seguinte temática: o que facilita e o que dificulta o processo de amamentação para as mães adolescentes.

Então, para a reunião, as pesquisadoras separaram as fotografias entre fatores que facilitam e fatores que dificultam o processo de amamentação. A discussão foi estimulada a partir das imagens apresentadas. As pesquisadoras atuaram como moderadoras e criaram um ambiente favorável para que a discussão proporcionasse a expressão de diferentes ideias e pontos de vista.

A reunião para a realização do grupo focal ocorreu em uma sala anexa a uma das Unidades de Saúde, ou seja, em local de fácil acesso às participantes (próximo à residência delas) seguro e confortável e em horário combinado com elas. Suas falas foram gravadas em dois dispositivos eletrônicos, gerando arquivos do tipo MP3. Dessa forma, foram utilizados dois gravadores digitais, com o intuito de registrar na íntegra os discursos das participantes e também não correr o risco de perdas ao utilizar somente um equipamento.

A reunião grupal teve duração de uma hora e trinta e dois minutos. Tipicamente, sua duração varia entre 90 (tempo mínimo) e 110 minutos (tempo máximo) para garantir um bom emprego da técnica.12 Para facilitar a interação social entre as mães, foi oferecido um lanche com sucos, bolachas. Também foram distribuídos brinquedos, fraldas e roupas infantis às participantes como forma de agradecimento pela contribuição à pesquisa. As despesas foram custeadas pela pesquisadora.

Com a realização do grupo focal, as participantes puderam conhecer as histórias de vida que cada participante expôs, compartilhar a própria história e identificar aspectos em comum e outros divergentes e ainda, a forma de enfrentamento de cada participante diante das questões da pesquisa.

9. Planejamento partilhado dos formatos de disseminação das imagens fotográficas e das histórias produzidas

Nesta última fase, a apresentação das imagens pode ser realizada através de diversos meios e estratégias com o objetivo de disseminar os trabalhos, histórias e recomendações a membros da comunidade, lideranças e políticos locais9 em: sessões públicas, eventos locais, nacionais e internacionais, garantindo o anonimato das participantes.

A publicação dos dados deste trabalho, apresentação em eventos científicos, bem como em comunidades, contempla esta fase.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Considerando que tivemos um olhar para os adolescentes como grupos marginalizados ou estigmatizados socialmente, o desenvolvimento do método photovoice trouxe benefícios às participantes como a oportunidade de expressarem suas necessidades, por revelarem sua história de vida, por apontarem aspectos socioculturais que influenciam suas decisões e planos de vida, por demonstrarem problemas que são responsáveis pelas condições de vida a que estão sujeitas e por revelarem seus desejos, perspectivas e planos futuros.

Algumas dificuldades foram encontradas na implementação do método, tais como o recrutamento para a pesquisa e dificuldade em reunir as mães adolescentes para o grupo focal. Estas barreiras foram transpostas na medida em que a coleta de dados foi ampliada para outra localidade e flexibilizadas data e horário para a próxima reunião, ou seja, foram adequadas às suas disponibilidades.

Na busca de ampliarmos a compreensão acerca do contexto da vida cotidiana da mãe adolescente, o método photovoice constitui-se num componente positivo, pois nos propiciou descobertas sobre questões importantes sob o ponto de vista delas, sobretudo sobre suas singularidades e necessidades. Também proporcionou maior aproximação e envolvimento com o contexto de vida da mãe adolescente, na medida em que foram revelados aspectos que dificultam e que facilitam a amamentação sob a ótica da mesma.

Considera-se que a aproximação da pesquisadora no domicílio das participantes possibilitou a apreensão do contexto de vida da mãe adolescente e de sua família, o conhecimento de suas práticas e crenças e a avaliação das condições ambientais e de habitação, além de proporcionar maior vínculo entre pesquisadora e participante. Os resultados dessa experiência nos faz refletir sobre questões de acolhimento e falta de espaços para a mãe adolescente se expressar.

Conclui-se que o método photovoice pode ser utilizado como meio para aproximação dos profissionais de saúde com as circunstâncias de vida das mães adolescentes, a fim de conhecer o que elas julgam importante para atuarem de maneira significativa na promoção e apoio à amamentação. A sugestão é de que os profissionais incorporem a utilização de imagens da realidade das adolescentes de sua localidade na aproximação e na interatividade com essas jovens e que busquem inserir em seu trabalho aspectos reais da vida da adolescente por meio de dispositivos interativos.

Este estudo contribui para a continuidade do desenvolvimento do conhecimento científico em saúde do adolescente e incita a reflexão da sociedade acerca da atenção integral às suas necessidades. Para isso, urge um novo perfil de enfermeiro, capaz de transformar a abordagem com a mãe adolescente.

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