Placa Aterosclerótica à Angiotomografia de Coronárias em Pacientes com Escore de Cálcio Zero

Placa Aterosclerótica à Angiotomografia de Coronárias em Pacientes com Escore de Cálcio Zero

Autores:

Fabíola Santos Gabriel,
Luiz Flávio Galvão Gonçalves,
Enaldo Vieira de Melo,
Antônio Carlos Sobral Sousa,
Ibraim Masciarelli Francisco Pinto,
Sara Melo Macedo Santana,
Carlos José Oliveira de Matos,
Maria Júlia Silveira Souto,
Flávio Mateus do Sacramento Conceição,
Joselina Luzia Menezes Oliveira

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782Xversão On-line ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.110 no.5 São Paulo maio 2018 Epub 03-Maio-2018

https://doi.org/10.5935/abc.20180063

Resumo

Fundamento:

Diante da alta mortalidade por doenças cardiovasculares, faz-se necessária a estratificação dos principais fatores de riscos e escolha correta da modalidade diagnóstica. Estudos demonstraram que escore de cálcio (EC) zero caracteriza baixo risco de eventos cardiovasculares. No entanto, a frequência de portadores de placa aterosclerótica coronária com EC zero é conflitante na literatura especializada.

Objetivo:

Avaliar a frequência de pacientes com placa aterosclerótica coronária, seu grau de obstrução e fatores associados em pacientes com EC zero e indicação para angiotomografia computadorizada de coronárias (ATCC).

Métodos:

Trata-se de estudo transversal, prospectivo, com 367 voluntários portadores de EC zero, mediante a ATCC, no período de 2011-16, em quatro centros de diagnóstico por imagem. Foi assumido nível de significância 5% e intervalo de confiança de 95%.

Resultados:

A frequência de placa aterosclerótica nas artérias coronárias dos 367 pacientes com EC zero foi de 9,3% (34 indivíduos); neste subgrupo, a média de idade foi 52 ± 10 anos, 18 (52,9%) eram mulheres e 16 (47%) exibiam obstruções coronarianas significativas (> 50%), dos quais 4 (25%) apresentaram placas em pelo menos dois segmentos. A frequência de não obesos (90,6% vs. 73,9%; p = 0,037) e de etilistas (55,9% vs. 34,8%; p = 0,015) foi significativamente maior nos portadores de placa, apresentando, cada variável, odds ratio de 3,4 para o desenvolvimento das referidas placas.

Conclusões:

A frequência de placa aterosclerótica com EC zero foi considerável, evidenciando, portanto, que a ausência de calcificação não exclui placa, muitas das quais obstrutivas, principalmente nos não obesos e etilistas.

Palavras-chave: Doenças Cardiovasculares/mortalidade; Placa Aterosclerótica; Doença da Artéria Coronariana/diagnóstico; Sinalização do Cálcio; Angiotomografia das Coronárias; Fatores de Risco

Abstract

Background:

In view of the high mortality for cardiovascular diseases, it has become necessary to stratify the main risk factors and to choose the correct diagnostic modality. Studies have demonstrated that a zero calcium score (CS) is characteristic of a low risk for cardiovascular events. However, the prevalence of individuals with coronary atherosclerotic plaques and zero CS is conflicting in the specialized literature.

Objective:

To evaluate the frequency of patients with coronary atherosclerotic plaques, their degree of obstruction and associated factors in patients with zero CS and indication for coronary computed tomography angiography (CCTA).

Methods:

This is a cross-sectional, prospective study with 367 volunteers with zero CS at CCTA in four diagnostic imaging centers in the period from 2011 to 2016. A significance level of 5% and 95% confidence interval were adopted.

Results:

The frequency of atherosclerotic plaque in the coronary arteries in 367 patients with zero CS was 9.3% (34 individuals). In this subgroup, mean age was 52 ± 10 years, 18 (52.9%) were women and 16 (47%) had significant coronary obstructions (> 50%), with involvement of two or more segments in 4 (25%) patients. The frequency of non-obese individuals (90.6% vs 73.9%, p = 0.037) and alcohol drinkers (55.9% vs 34.8%, p = 0.015) was significantly higher in patients with atherosclerotic plaques, with an odds ratio of 3.4 for each of this variable.

Conclusions:

The frequency of atherosclerotic plaque with zero CS was relatively high, indicating that the absence of calcification does not exclude the presence of plaques, many of which obstructive, especially in non-obese subjects and alcohol drinkers.

Keywords: Cardiovascular Diseases/mortality; Plaque, Atherosclerotic; Coronary Artery Disease/diagnosis; Calcium Signaling; Coronary, Angiotomography; Risk Factors

Introdução

A doença arterial coronária (DAC) constitui a principal causa de mortalidade no mundo, inclusive no Brasil. Vários métodos são atualmente disponíveis para diagnosticar DAC, estratificar o risco de pacientes e determinar a necessidade de revascularização.1

Diante deste cenário, um dos mais frequentes desafios da prática cardiológica cotidiana é a escolha do método para detecção da DAC subclínica. A angiotomografia computadorizada das artérias coronárias (ATCC) constitui um teste predominantemente anatômico com excelente acurácia diagnóstica na detecção de lesões coronarianas obstrutivas e não obstrutivas, comparativamente à cineangiocoronariografia, considerada padrão ouro para esta finalidade. A ATCC pode, ainda, fornecer informações relevantes quanto à composição do ateroma de acordo com a sua densidade radiológica.2,3

A importância da presença de calcificação coronária, identificada mediante o escore de cálcio (EC), utilizada na reclassificação de pacientes para um risco mais elevado de eventos cardiovasculares, é efetivamente reconhecida. Apesar da existência de placas ateroscleróticas ter sido demostrada mesmo em indivíduos com EC zero,4,5 sua presença não tem se associado a eventos cardiovasculares futuros.4

Entretanto, a despeito dos dados desses estudos internacionais, nacionalmente não logramos identificar trabalhos publicados acerca dessa questão específica. Com efeito, nem sempre os achados são replicáveis se mudarmos o contexto sociodemográfico, antropométrico ou mesmo o cenário local das condições de assistência à saúde. Um estudo precisa ser reprodutível para que seus achados sejam mais amplamente validados.

Portanto, o objetivo principal deste estudo é avaliar a frequência de placa aterosclerótica coronária, assim como seu grau de obstrução e fatores associados em pacientes com EC zero com indicação clínica de ATCC.

Métodos

Casuística

Trata-se de estudo transversal, analítico e prospectivo no período de abril de 2011 a novembro de 2016. A amostra foi constituída de modo não aleatória com os voluntários selecionados de forma consecutiva, os quais foram submetidos à ATCC por indicação de seus médicos assistentes, em quatro centros especializados de imagem, sendo dois públicos: Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia de São Paulo-SP e Hospital Universitário do Campus da Saúde Dr. João Cardoso Nascimento da Universidade Federal de Sergipe e dois privados: Hospital Primavera e Clínica de Medicina Nuclear e Diabetes-CLIMEDI.

Foram coletadas informações sobre a presença de fatores de risco cardiovascular em cada indivíduo. A dor no peito foi classificada de acordo com a Métodos de Diamond e Forrester, sendo a maioria dos pacientes classificado como portadores de risco intermediário para DAC.

Foram incluídos na análise os pacientes com ausência de cálcio nas coronárias (EC zero), sendo excluídos aqueles submetidos a procedimentos de revascularização do miocárdio percutânea ou cirúrgica, história de síndrome coronariana aguda ou miocardiopatia de etiologia isquêmica conhecida. Além disso, foram, também, excluídos pacientes que se recusaram a participar do trabalho.

Os exames realizados nas instituições privadas não acarretaram em ônus para os pacientes nem para os pesquisadores.

O estudo possui aprovação do comitê de ética e pesquisa sob número de protocolo CAAE 0289.0.107.000-11.

Aquisição do EC e da ATCC das Artérias Coronárias

As ATCCs foram realizadas em tomógrafos possuidores de pelo menos 64 colunas de detectores dos seguintes modelos e fabricantes: Aquilion64- ToshibaMedical Systems Corporation, Otawara, Japão e Discovery STE VCT - General Electric Company, Connecticut, EUA.

A tomografia não contrastada para análise do EC foi realizada em um campo de varredura longitudinal a partir da delimitação na bifurcação da traqueia e o término na inclusão da silhueta cardíaca, incluindo a porção final do diafragma para total cobertura da área cardíaca. As imagens correspondentes ao EC foram adquiridas com campo de visão (field of view, FOV) de 200 mm; espessura de corte de 2,5-3 mm; intervalo de corte de 1,25-1,5 mm; colimação de 2 x 32 x 0,6 mm; tempo de rotação de 350 msec; tensão do tubo de 120 kV; e corrente do tubo de até 600 mAs.

A investigação foi sempre conduzida em duas etapas: na primeira, o EC foi quantificado baseado no escorevale res de Agatston,6 a calcificação foi definida como a presença de uma lesão com área maior que 1 mm2 e intensidade igual ou superior a 130 unidades Hounsfield (HU), que foi automaticamente identificada e marcada com cor pelo software. A presença de placas coronárias e a extensão da estenose foram avaliadas nos pacientes com EC zero.

Na segunda etapa do protocolo, era obtida a ATCC com a utilização dos parâmetros do EC para delimitação do FOV, com voltagem de 120 KV e amperagem de 400 miliamperes. Com o paciente ainda monitorizado sobre a mesa do tomógrafo, até 1,5 mL/Kg de iopamidol era injetado por via endovenosa, um contraste iodado não iônico em concentrações de 350 ou 370 mg/mL (Ultravist® 370, Bayer HealthCare and Pharmaceuticals, Berlim, Alemanha; HenetiX® 350, Guerbet Produtos Radiológicos Ltda, Paris, França), a uma taxa entre 4,5 e 5,5 mL/s.

Foi administrado betabloqueador oral nas 24 horas que antecediam a realização do exame, ou intravenoso (IV) no dia do exame, nas situações em que pacientes apresentavam ritmo sinusal e frequência cardíaca (FC) > 70 bpm. Para realização do exame, o equipamento toma como referência os valores monitorizados da frequência cardíaca e determina os parâmetros necessários para aquisição das imagens como o helical pitch (relação entre a distância percorrida pela mesa durante um giro de 360° do tubo de raios X, a espessura de corte e o número de colunas de detectores), a velocidade de rotação do tubo de raios X e o tempo total de exposição, tendo como objetivo atingir a melhor resolução temporal possível.

As imagens geradas eram enviadas para estações de trabalho para análise das artérias coronárias por três observadores experientes. A presença de placa aterosclerótica foi pesquisada em todos os vasos com diâmetro luminal superior a 2 mm, adotada a divisão em 15 segmentos.7 A extensão da estenose foi obtida mediante o cálculo da área da parte mais estreita do lúmen comparado com a área do lúmen imediatamente distal ao mesmo segmento. As placas detectadas pela ATCC foram classificadas em lesões não obstrutivas e obstrutivas, sendo estas últimas caracterizadas por apresentar redução do diâmetro do vaso ≥ 50%.

Análise dos dados

As variáveis quantitativas foram descritas como média e desvio-padrão. Foi aplicado o teste Kolmogorov-Smirnov para avaliar o pressuposto de normalidade amostral. Em seguida, utilizou-se o teste t de Student para grupos independentes, de acordo com padrão de normalidade da amostra.

Quanto às variáveis categóricas, utilizou-se frequência absoluta e percentagem. Para comparar o comportamento destas variáveis entre os dois grupos, foram utilizados o teste do qui-quadrado ou o teste exato de Fisher quando mais adequado.

As diferenças observadas durante a análise dos dados foram consideradas estatisticamente significantes, quando as probabilidades eram inferiores a 5% (p ≤ 0,05) e poder de 0,80.

Para a avaliação dos preditores independentes para a presença de placa, foi utilizado, manualmente, o modelo de regressão logística mediante a técnica de “Backward: Wald”. Considerou-se para a seleção inicial do modelo, os odds com p ≤ 0,25 e a permanência foi assegurada quando p < 0,05. A variável desfecho presença de placa foi ajustada para idade, gênero, tabagismo, diabetes mellitus, hipertensão arterial sistêmica, dislipidemia, antecedentes familiares, obesidade e etilismo.

Os resultados obtidos foram analisados utilizando-se o programa estatístico SPSS versão 20.0 para Windows (IBM® Corporation, Somers, EUA).

Resultados

Características clínicas da amostra estudada

No período do estudo, 1639 pacientes foram submetidos à ATCC nos quatro centros participantes, e desses, 619 apresentaram EC zero. No entanto, 252 foram excluídos da análise devido à ausência de dados clínicos ou recusa a participar do trabalho. Os pacientes encaminhados à ATCC possuíam as seguintes indicações: precordialgia atípica 40,4%, precordialgia típica 24,9%, fatores de riscos associados à DAC, histórico familiar de DAC precoce 51,4%, e testes de isquemia positivos ou inconclusivos 44,4%.

Dos 367 pacientes, 211 (57,5%) eram hipertensos, 180 (49,3%) dislipidêmicos e 55 (15,0%) diabéticos. A idade média foi de 53,7 (±10,5) anos sendo 63,5% do sexo feminino. Os dados da caracterização clínica dos pacientes com EC zero segundo a presença ou ausência de placa aterosclerótica à ATCMD estão descritos na Tabela 1.

Tabela 1 Caracterização clínica dos pacientes com escore de cálcio zero em centros de imagem cardiológica nas cidades de São Paulo - SP e Aracaju - SE de 2011 a 2016 

Variável n Valores %
Idade média (anos)* 367 53,7 ± 10,5
Gênero feminino 233/367 63,5
Hipertensão arterial sistêmica 211/367 57,5
Dislipidemia 180/367 49,3
Diabetes mellitus 55/367 15,0
IMC (kg/m2) 316 27,3 ± 4,4
Obesidade 77/316 24,4
Antecedentes familiares para DAC 187/364 51,4
Etilismo 135/367 36,8
Tabagismo 51/366 13,9
Precordialgia atípica 138/342 40,4
Precordialgia típica 85/341 24,9

IMC: índice de massa corpórea; DAC: doença arterial coronária;

(*)Valores representados em média ± desvio padrão; demais valores expressos em frequência simples (%)

(†)n diferente do total por falta de dados nos registros dos centros coletados.

A frequência de placa aterosclerótica nas artérias coronárias foi de 9,3% (34/367); IC95%, 6,3 - 12,3. Neste grupo, a média de idade foi de 52 ± 10 anos e 18 (52,9%) dos voluntários eram do sexo feminino (Tabela 2). Após análise detalhada, constatou-se a presença de lesões obstrutivas (maior que 50% da luz do vaso) em 47% (16/34) dos casos, assim distribuídas: a) em um segmento - doze pacientes; b) em dois segmentos - três pacientes e, c) em mais de dois segmentos - um paciente, conforme pode ser apreciado na Figura 1. Já no subgrupo de portadores de lesões não obstrutivas (18/34), 15 pacientes exibiam comprometimento de um segmento e três em dois segmentos coronários (Tabela 3).

Tabela 2 Distribuição das características clínica de pacientes com escore de cálcio zero com e sem placa aterosclerótica em quatro centros de imagem cardiológica nas cidades de São Paulo - SP e Aracaju - SE de 2011 a 2016 

Variável n Com placa n = 34 Sem placa n = 333 p
Idade* (anos) 367 52 ± 10,7 53,9 ± 10,5 0,31
Peso (Kg) 367 71,6 ± 12,9 73,7 ± 15,2 0,42
IMC (Kg/m2) 316 25,9 ± 3,3 27,5 ± 4,4 0,046
Feminino 233/367 18 (52,9) 215 (64,6) 0,180
Tabagista 51/366 8 (24,2) 43 (12,9) 0,073
Não obesos 55/316 29 (90,6) 210 (73,9) 0,037
Diabetes mellitus 55/367 6 (17,6) 49 (14,7) 0,648
Dislipidemia 180/365 16 (47,1) 164 (49,5) 0,782
Hipertensão arterial sistêmica 211/367 20 (58,8) 191 (57,4) 0,712
Etilista 135/367 19 (55,9) 116 (34,8) 0,015
Antecedentes familiares 187/364 18 (52,9) 169 (51,2) 0,848

IMC: índice de massa corpórea

(*)Valores representados em média ± desvio padrão; demais valores expressos em frequência simples (%); valor de p obtido mediante teste do qui-quadrado para medidas de associação

(†)n diferente do total por falta de dados nos registros dos centros coletados.

Tabela 3 Distribuição das lesões ateroscleróticas à angiotomografia computadorizada de coronárias em pacientes com escore de cálcio zero 

Variável Um vaso envolvido Envolvimento de dois vasos Envolvimento de mais de dois vasos Total n = 34
Lesão obstrutiva > 50% 12 (75%) 3 (18,7%) 1 (6,3%) 16 (47,0%)
Lesão não obstrutiva 15 (83,3%) 3 (16,6%) 0 18 (53%)

Figura 1 Placa não calcificada com escore de cálcio zero. Sexo feminino 38 anos; A e B) reconstruções multiplanares evidenciando placa com redução luminal importante em descendente anterior (DA); C) Reconstrução tridimensional mostrando falha em artéria DA (seta amarela). 

A artéria mais acometida foi a descendente anterior, sendo 16 (35,56%) no seu segmento proximal, 10 (22,22%) no médio e 2 (4,44%) no distal.

Vale ressaltar que, quando foi feita análise das características dos ateromas encontrados, na fase ATCC com contraste, 3/34 (8,8%) pacientes apresentaram placas com algum grau de calcificação, não detectadas pelo EC (Figura 2).

Figura 2 Presença de calcificação em escore de cálcio zero. Paciente do sexo feminino, 67 anos; Seta preta - Placa parcialmente calcificada em óstio de descendente anterior (DA), não detectada pelo escore de cálcio, seguida placas não calcificadas em terços proximal e médio (setas brancas). 

Características clínicas dos pacientes com EC zero, classificados quanto à presença e ausência de placa aterosclerótica nas artérias coronárias

Quanto às características clínicas, conforme pode ser visto na Tabela 2, nos portadores de placa nas artérias coronárias, houve predominância significativa de não obesos (90,6% vs. 73,9%; IMC: 25,9 ± 3,3 k/m2 vs. 27,5 ± 4,4 k/m2; p = 0,046) e de etilistas (55,9% vs. 34,8%). As demais variáveis tiveram comportamento semelhante nos dois grupos.

A análise da razão de chance bruta (odds ratio) dos fatores associados à presença de placa aterosclerótica em portadores de EC zero, demonstrou valores de: 2,3 (IC 95% = 1,1 - 4,8; p = 0,018) para o etilismo e de 3,4 (IC 95% = 1,0 - 11,5; p = 0,049) para ausência de obesidade, conforme evidenciado na Tabela 4.

Tabela 4 Fatores associados à presença de placa em centros de imagem cardiológica nas idades de São Paulo - SP e Aracaju - de 2011 a 2016 

Variável Razão de chance bruta IC 95% p
Idade 0,976 0,940 - 1,01 0,216
Sexo
Masculino 1,62 0,796- 3,29 0,183
Tabagismo
Sim 2,15 0,919 - 5,09 0,079
Obesidade
No* 3,40 1,01 - 11,51 0,049
Diabetes mellitus
Sim 1,24 0,489 - 3,15 0,649
Dislipidemia
Sim 1,10 0,545 - 2,24 0,782
Hipertensão arterial sistêmica
Yes 1,06 0,519 - 2,17 0,869
Etilismo
Yes 2,37 1,16 - 4,83 0,018
Antecedentes familiares
Yes 1,07 0,528 -2,17 0,366

Variável desfecho: presença de placa, demais variáveis da tabela são fatores associados;

(*)para a variável obesidade, o referencial foi a presença de obesidade; IC: intervalo de confiança 95%;

(†)ajustado para idade, gênero, tabagismo, Diabetes mellitus, Hipertensão arterial sistêmica, Dislipidemia, Antecedentes familiares, obesidade e etilismo.

Finalmente, a análise da tabela de contingência para a razão ajustada confirmou valores de odds ratio (OR) mais elevados para os pacientes etilistas (OR = 3,4; IC 95% = 1,1 - 5,19; p = 0,018) e para os não obesos (OR = 3,4; IC 95% = 1,0 - 11,7; p = 0,047), conforme pode ser constatado na Tabela 5.

Tabela 5 Fatores associados a presença de placa após modelo ajustado em centros de imagem cardiológica nas cidades de São Paulo - SP e Aracaju - de 2011 a 2016 

Variável Razão de chance ajustada IC 95% p
Etilista 3,46 1,16 -5,19 0,018
Não obeso* 3,45 1,01 - 11,7 0,047

Variável desfecho: presença de placa, demais variáveis da tabela são fatores associados;

(*)para a variável não obeso o referencial foi a presença de obesidade; IC: Intervalo de confiança = 95%

(†)ajustado para idade, gênero, tabagismo, Diabetes mellitus, Hipertensão arterial sistêmica, Dislipidemia, Antecedentes familiares, obesidade e etilismo.

Discussão

O principal achado da presente investigação foi a presença considerável (9,3%) de placas ateroscleróticas coronarianas, frequentemente obstrutivas (redução luminal ≥ 50%) em indivíduos com EC zero.

As características clínicas que se associaram à ocorrência de tais placas foram o etilismo e a ausência de obesidade. Por outro lado, o mesmo não ocorreu com fatores de risco frequentemente associados à DAC, tais como: diabetes mellitus, hipertensão arterial sistêmica e dislipidemia.8

Os dados da literatura demonstram frequências variadas em relação à presença de placa aterosclerótica com EC zero. Em um estudo realizado em Isfahan - (Irã), foram analisados 385 pacientes com escore zero e 16 (4,1%) apresentaram placas à ATCC.5 Em outro estudo com pacientes sintomáticos e assintomáticos demonstrou que apenas os pacientes sintomáticos com EC zero apresentaram placa aterosclerótica (8,4%).9 Segundo estudo CONFIRM, entre os pacientes com EC zero, 13% apresentaram lesões ateroscleróticas não obstrutivas e 3,5% apresentaram lesão obstrutiva (≥ 50%).4 Em uma coorte multicêntrica com participação do Brasil (subestudo do CORE64), confirmou-se que o EC zero não exclui a presença de placa nas artérias coronárias. Além disso, demonstrou que um EC zero não exclui a necessidade de revascularização. Com uma amostra constituída por 291 pacientes, sendo 72 com EC igual a zero, 19% apresentaram uma estenose ≥50% e desses, 13% necessitavam de revascularização.10

Vale ressaltar ainda que há estudos realizados em pacientes com dor torácica na sala de urgência que demonstram frequências de placas ateroscleróticas com EC igual a zero de até 39%.11-13 No entanto, trata-se de uma amostra distinta da população ambulatorial de rotina. Por outro lado, é relevante salientar que a amostra da presente investigação foi composta por pacientes cuja indicação para a realização da ATCC deveu-se aos seus médicos assistentes. E como já observado em estudos internacionais, constatamos, também, que nesses pacientes com EC zero, não exclui a presença de placa aterosclerótica.

Em relação às variáveis mais associadas ao risco maior de presença de placas, nosso estudo encontrou apenas etilismo e a ausência de obesidade. No entanto, os fatores de risco clássicos para DAC (diabetes mellitus, hipertensão arterial sistêmica e dislipidemia) não se correlacionaram com a presença de placa no presente estudo. Chama atenção o fato de os pacientes com IMC mais elevados terem apresentado associação com a ausência de lesão aterosclerótica. Alguns trabalhos já indicaram a obesidade como um fator protetor para a DAC, o que foi denominado como o “paradoxo da obesidade”.14 No entanto, tal associação não se refere à adiposidade abdominal, que é associada à DAC e considerada mais patológica do que o acúmulo de gordura subcutâneo.14-16 Neste estudo, não foi medida a circunferência abdominal dos indivíduos estudados, o que não permite resultados mais consistentes. Além disso, muitos trabalhos que apontam a obesidade como fator protetor apresentam pacientes mais jovens na amostra dos obesos o que pode ocasionar vieses.17

O etilismo também apresenta resultado divergente na literatura. Enquanto alguns estudos associam o consumo de bebida alcoólica com fator de risco para DAC, outros o associam com um efeito benéfico, como aqueles realizados com vinho e seu componente resveratrol.18-20 O resveratrol é conhecido por sua importante função antioxidante e anti-inflamatória, além do efeito benéfico na produção de HDL pelo fígado e na diminuição da produção de LDL, impedindo a oxidação da LDL circulante, estando, assim, associado à redução do risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares.21 Com esse resultado, observa-se a necessidade de mais estudos que estratifiquem o tipo de bebida alcoólica consumida, e não só o consumo ou não de álcool.

Limitações

Algumas limitações inerentes, merecem ser mencionadas: primeira, conforme explicitado anteriormente, os pacientes foram encaminhados para a realização da ATCC com EC por indicação de seus médicos assistentes, podendo, portanto, ocorrer algum viés de seleção; segunda, a estratificação de risco coronário não foi realizada nos participantes antes da inclusão e as informações dos fatores de risco foram obtidos por meio de questionários; terceira, a amostra foi coletada em quatro centros diferentes e, por mais que tenha sido seguido padrão semelhante na realização dos exames, existem características peculiares de cada serviço que pode implicar em viés na análise dos resultados; quarta, a população estudada apresentava indicação clínica para a realização da ATCC, não se constituindo, portanto, naquela assintomática e sem provas isquêmicas positivas, na qual estaria indicado o EC isoladamente e cuja presença de calcificação coronariana é preditora de eventos cardiovasculares.

Conclusões

A frequência de placa aterosclerótica com EC zero foi considerável, evidenciando que, em pacientes com indicação clínica de AATC, a ausência de calcificação coronariana, não exclui placa e nem lesão obstrutiva principalmente nos não obesos e etilistas.

REFERÊNCIAS

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