Planejamento participativo e avaliação da qualidade: contribuições de uma tecnologia de gestão em enfermagem

Planejamento participativo e avaliação da qualidade: contribuições de uma tecnologia de gestão em enfermagem

Autores:

Lara Vandresen,
Denise Elvira Pires de Pires,
Maria Manuela Martins,
Elaine Cristina Novatzki Forte,
Jorge Lorenzetti

ARTIGO ORIGINAL

Escola Anna Nery

versão impressa ISSN 1414-8145versão On-line ISSN 2177-9465

Esc. Anna Nery vol.23 no.2 Rio de Janeiro 2019 Epub 06-Maio-2019

http://dx.doi.org/10.1590/2177-9465-ean-2018-0330

INTRODUÇÃO

Na atualidade, tanto a saúde tem se destacado como um valor fundamental para as pessoas, quanto o debate acerca do direito à saúde e acesso universal se faz presente na agenda de discussão de diversos países e organizações multilaterais.1,2

Em alguma etapa do ciclo de vida do ser humano é imprescindível a utilização de serviços de saúde.1 E, a gestão desses espaços constitui-se em tema de relevância para atendimento seguro e de qualidade.

Déficits no âmbito da gestão são reconhecidos como um dos principais problemas do setor saúde. Nesse cenário está pautado o debate sobre tipos de gestão, sendo reconhecido que a gestão participativa tem forte aceitação, mas pouca aplicação efetiva.1,3

Planejamento e avaliação da qualidade são fundamentais para melhorias na gestão dos serviços de saúde e de enfermagem.1 Dentre os modelos de planejamento, o participativo destaca-se por adotar a filosofia do pensar e agir em conjunto, contribuindo para melhores resultados. Quando ocorre a contribuição de maior número de pessoas, no modelo de planejamento participativo, o trabalho tende a ser qualitativamente melhor do que quando se restringe a uma aristocracia organizacional.4 A qualidade dos resultados tem relação com a forma e o modelo de planejar que as instituições adotam e é consequência de uma gerência integrada, sistêmica e coerente, que crie condições para que a ação assistencial ocorra com segurança, respeitando os direitos das pessoas.4,5

Na enfermagem, o reconhecimento da importância da gestão da qualidade da assistência reporta à Florence Nightingale6. No campo da saúde destacam-se como marcos para a gestão da qualidade a criação da Joint Commission on Accreditation of Hospital nos EUA e da Canadian on Hospital Accreditation. A criação dessas comissões proporcionou o desenvolvimento de padrões e critérios com o intuito de instrumentalizar as organizações para melhoria da qualidade dos cuidados prestados aos usuários dos serviços de saúde.7

A gestão da qualidade em saúde tem sido compreendida como um parâmetro da avaliação, sem o qual o serviço oferecido pelas instituições de saúde estaria afetado. As atividades realizadas nas instituições de saúde, em especial as hospitalares, podem proporcionar danos aos usuários e profissionais envolvidos. Assim, é necessário que as instituições, líderes e profissionais que realizam assistência implantem protocolos/ sistemas e tecnologias para oferta de serviços seguros, com garantia da qualidade.8

Os indicadores de qualidade são recursos que vem sendo adotados pelas instituições de saúde para avaliação dos serviços. Permitem compreender ocorrências, analisar tendências ou mudanças ocorridas ao longo do tempo e avaliar, sistematicamente, o processo de trabalho em uma instituição a fim de subsidiar melhorias para o serviço. A elaboração e validação de indicadores que proporcionem a comparação entre unidades hospitalares e outras instituições têm sido uma preocupação dos gestores de serviços hospitalares.9

Na atualidade o desenvolvimento tecnológico tem sido intenso. No entanto, apesar da grande importância das unidades de internação hospitalares na assistência em saúde, inovações que contribuam para a qualificação da gestão de enfermagem nestes espaços são raras1. Neste cenário destaca-se no Hospital Universitário (HU) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) a disponibilidade, desde 2013, de uma inovação tecnológica que consiste em um Sistema de Gestão de Unidades de Internação Hospitalares denominado PRAXIS® instalada em uma unidade piloto. O PRAXIS® foi criado por Lorenzetti em 2013 e está registrado pela UFSC, junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), desde abril de 2014, recebendo o deferimento de patente protegida até 2022 com o certificado nº 14196-6.1

Para efeitos deste estudo foram utilizados recursos disponíveis no software PRAXIS®, definindo-se como focos de uma pesquisa de intervenção, o Planejamento Participativo da Unidade (PPU), e dois aspectos da Gestão da Qualidade, satisfação do usuário com relação à assistência recebida e notificação de eventos adversos. Essas escolhas se justificam por incluir o início do processo de gestão (o planejamento participativo), e o final, monitorando dois indicadores de qualidade da assistência.

Assim, o presente estudo tem por objetivo analisar resultados do planejamento participativo e de indicadores de avaliação da qualidade da assistência de enfermagem em unidade de internação hospitalar, com uso de recursos de uma inovação tecnológica de gestão em enfermagem.

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa convergente assistencial (PCA), com foco de investigação e intervenção no contexto da prática, que prevê a interação do pesquisador com determinada realidade. A PCA envolve quatro etapas, concepção, instrumentação, perscrutação e análise.10 Essa metodologia, quando empregada pela enfermagem possibilita descobrir realidades, resolver problemas e introduzir inovações em determinado contexto da prática assistencial.10

A pesquisa-intervenção realizada teve como foco a gestão de unidades de internação hospitalares utilizando recursos disponíveis em uma inovação tecnologia de gestão em enfermagem criada, especialmente, para a gestão deste tipo de unidades assistenciais e instalada em uma unidade de clínica médica do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina, localizado na região sul do Brasil. A tecnologia PRAXIS® orienta-se pelos princípios teóricos da gestão participativa (GP), melhoria contínua do desempenho e inovação tecnológica com objetivo de proporcionar um ambiente de prática positivo aos trabalhadores e aos usuários.1 Os recursos disponíveis na tecnologia facilitam a realização de duas atividades relevantes para a gestão de unidades de internação: o Planejamento Participativo (PP) e a análise de indicadores de qualidade.

Para a realização do Planejamento Participativo da Unidade (PPU) utilizou-se duas estratégias. A primeira envolveu o universo da equipe e consistiu na sensibilização para a importância do planejamento e no levantamento das necessidades ou problemas. Nesta etapa, ocorrida de abril a junho de 2016, foi realizado convite, pela pesquisadora, à todos os profissionais nos três turnos, manhã, tarde e noite. Participaram 33 profissionais, sendo 8 enfermeiras assistenciais e uma chefia e 24 técnicos e auxiliares de enfermagem.

A segunda estratégia consistiu na realização de 5 oficinas para a elaboração das demais etapas do planejamento participativo. A primeira oficina contou com a participação de 22 profissionais, da pesquisadora principal e, também, de um professor com expertise em gestão hospitalar e planejamento. Nesta oficina os participantes apreciaram a sistematização feita pelos pesquisadores, relativa aos dados coletados na primeira etapa. E, a seguir, definiram a missão e os princípios orientadores, elegeram 4 principais necessidades ou problemas e elegeram líderes e grupos responsáveis pela realização das demais etapas.

As outras 4 oficinas foram realizadas com os líderes e grupos responsáveis pela finalização do planejamento relativo a cada necessidade ou problema. As oficinas contaram com a participação de 5 a 8 integrantes, com apoio da pesquisadora principal e do professor de gestão. Essas oficinas tiveram duração média de 30 minutos. Em cada oficina foram definidos os resultados esperados, os objetivos e o plano de atividades para cada necessidade ou problema prioritário.

Para a avaliação da qualidade da assistência de enfermagem foram escolhidos 2 dos 8 indicadores disponíveis na tecnologia PRAXIS®: satisfação do paciente com relação a assistência de enfermagem recebida e notificação de eventos adversos.

No que diz respeito à avaliação da satisfação, com vistas a garantir a confiabilidade dos dados, seguiu-se o preconizado na literatura.11 Assim, os participantes foram orientados para que o preenchimento da entrevista de satisfação fosse realizada pelo próprio paciente e/ou familiares, pela pesquisadora ou por um membro da equipe que não tivesse realizado assistência direta aos pacientes e/ou familiares que responderam o referido formulário. O formulário disponibilizado na tecnologia PRAXIS® inclui questões envolvendo a avaliação dos procedimentos de enfermagem executados, motivos de satisfação e insatisfação com relação ao atedimento e avaliação do atendimento entre ruim, regular, bom e ótimo.

Os dados das entrevistas realizadas com 101 pacientes e/ou familiares foram sistematizados em um documento e inseridos no software Atlas.ti® versão 8, para codificação com base nas falas dos participantes. O Atlas.ti® consiste em uma ferramenta que auxilia na organização e análise qualitativa de dados (Qualitative Research and Solutions). Para a análise foram elaborados, previamente, codes inseridos no software a fim de auxiliar a categorização das falas dos entrevistados. Na análise das entrevistas de satisfação emergiram 3 categorias prioritárias: relacionada aos serviços de enfermagem, aos serviços da equipe multiprofissional e ao serviço de laboratório.

Não foram realizadas entrevistas de pacientes e/ou familiar em casos de transferências internas e óbito. Em relação às notificações de eventos adversos, foi realizada sensibilização dos membros da equipe para realização das mesmas. Essa sensibilização foi articulada a ações junto ao Núcleo de Segurança do Paciente do Hospital Universitário, no sentido de que as notificações não tivessem um cunho punitivo, mas vistas como uma necessidade organizacional.

A Resolução da Diretoria Colegiada RDC n°. 36 de 2013, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), estabelece ações de segurança do paciente no âmbito dos serviços de saúde e, institui a obrigatoriedade de implantação do Núcleo de Segurança do Paciente (NSP) nesses serviços.12

Na realização de cada uma das atividades escolhidas para esta pesquisa, PPU e avaliação da qualidade da assitência, foram utilizados os 4 passos da PCA, acima mencionados.10 Para as sínteses analíticas e teorização foi utilizado um quadro teórico conceitual de referência, articulando teorias e conceitos sobre gestão em saúde e enfermagem e gestão de unidade de internação, e sobre qualidade e segurança do paciente no setor saúde.

Em relação aos aspectos éticos foram respeitadas todas recomendações das Resoluções 466/2012 e 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. Todos os participantes nos diferentes momentos da pesquisa, assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido e os dados foram coletados após a aprovação do Comitê de Ètica em Pesquisa com Seres Humanos (CEPSH) da Universidade Federal de Santa Catarina, sob nº 1.475.623.

RESULTADOS

Os resultados deste estudo foram organizados em dois macro temas: “planejamento participativo” e “indicadores de qualidade”.

Planejamento participativo

Para a realização do Planejamento Participativo da Unidade (PPU) seguiu-se a metodologia disponibilizada na tecnologia PRAXIS®, a qual foi adaptada especialmente para gestão de unidades de internação hospitalares com base em teorias sobre Planejamento Participativo (PP)1 . As etapas constantes no sistema PRAXIS® incluem: a definição da missão da unidade e a formulação de princípios orientadores; a definição de necessidades ou problemas; a formulação dos resultados esperados; seguida da definição de objetivos e plano de atividades para atingir os resultados esperados para cada necessidade/problema.

Considerando o disposto na tecnologia, para a realização do PPU utilizou-se duas estratégias: envolvimento de toda a equipe de enfermagem (33 profissionais) para sensibilização sobre a importância do PP e levantamento de necessidades ou problemas; seguida da realização de 5 oficinas de operacionalização do mesmo.

Na primeira oficina foi definida como missão da unidade “prestar cuidados de enfermagem de excelência aos usuários da unidade”, e como princípios orientadores “valorização da integralidade na assistência, respeito à singularidade dos usuários, compromisso com a qualidade profissional no cotidiano de trabalho, valorização da cooperação e da comunicação inter profissional, promoção da integração dos serviços na perspectiva de fortalecimento do SUS e cumprimento do código de ética profissional de enfermagem”.

Nas outras oficinas foram definidos os resultados esperados, os objetivos e o plano de atividades para cada necessidade ou problema prioritário.

A necessidade ou problema “carga de trabalho/dimensionamento” foi eleita pela equipe como problema número 1, face a disponibilidade quantitativa de profissionais abaixo do preconizado.13,14 Em relação a este problema a equipe definiu como resultados esperados: “todos os pacientes internados classificados diariamente pelo grau de dependência de acordo com o instrumento de classificação que compõem a tecnologia PRAXIS®; e equipe de profissionais de enfermagem necessários dimensionada, mensalmente, de acordo com o respectivo resultado das classificações”. Para enfrentar este problema foram definidos dois objetivos: classificar diariamente, todos os pacientes internados na unidade para identificar o grau de dependência da assistência de enfermagem; e realizar, mensalmente, o dimensionamento de profissionais de enfermagem requeridos a partir das classificações realizadas. O plano de atividades incluiu desde a capacitacitação dos profissionais para classificação dos pacientes por grau de dependência e cálculo de dimensionamento, até a divulgação trimestral de um boletim de gestão para direção de enfermagem do hospital.

A segunda necessidade ou problema eleita pela equipe foi a “qualidade de vida no trabalho”, tendo como resultado esperado: “ambiente de trabalho favorável e positivo para a maioria dos profissinais de enfermagem”. E como objetivo: “realizar iniciativas que promovam a melhoria do ambiente de trabalho dos profissionais da unidade de internação tendo como referência a qualidade de vida no trabalho”. O plano de atividades envolveu desde a criação de um questionário de qualidade de vida no trabalho, até a criação de espaços com participação da equipe multiprofissional para discussão sobre temas envolvendo a saúde dos trabalhadores.

A terceira necessidade ou problema “difusão dos procedimentos operacionais padrão (POP) na equipe” teve como resultado esperado: POP relacionados com o trabalho na clínica médica conhecidos e disponíveis para consulta. E como objetivo: selecionar, difundir e avaliar a implementação dos POP relacionados com o trabalho na unidade. O plano de atividades incluiu dentre outras a identificação dos POP disponíveis na unidade, a criação e atualização de novos POP, assim como a notificação de não seguimento dos mesmos pela equipe.

A última necessidade ou problema, intitulada “excelência da assistência” possui foco nos eventos adversos e satisfação do usuário com relação ao atendimento de enfermagem. Essa necessidade ou problema possui como resultados esperados: “eventos adversos ocorridos na unidade, registrados e encaminhados para a minimização dos mesmos; e, a satisfação dos usuários da unidade com a assitência de enfermagem levantada diariamente e avaliada mesalmente”. Os objetivos para essa necessidade ou problema são: “registrar, avaliar e encaminhar a notificação dos eventos adversos ocorridos na unidade”. E, “identificar a satisfação dos usuários com relação a assistência de enfermagem recebida, avaliar os resultados e encaminhar medidas para melhoria da mesma”. O Plano de atividades incluiu desde a utilização de indicadores de qualidade disponíveis na tecnologia PRAXIS®, como a satisfação dos pacientes com relação a assistência de enfermagem e notificação de eventos adversos, até a crição de boletins de gestão trimestrais para compartilhar esses dados com a equipe e avaliar a qualidade da assistência.

O planejamento foi realizado e assumido pela equipe, sendo compreendido como um processo em permanente avaliação. A elaboração do PPU consistiu em intervenção na prática uma vez que provocou o pensar crítico sobre os problemas e a definição compartilhada de como resolvê-los.

Indicadores de qualidade

Dentre os indicadores de qualidade disponíveis no PRAXIS® foram analisados os resultados relativos à satisfação dos pacientes com relação ao atendimento de enfermagem e à notificação de eventos adversos de abril a junho de 2016.

Em relação a satisfação com a assistência de enfermagem

Foram analizadas 101 avaliações da satisfação do paciente com a assistência de enfermagem, das quais 67 participantes avaliaram a assistência de enfermagem como ótima, 33 como boa e 1 como regular. Nenhum paciente entrevistado no período, abril a junho de 2016, avaliou a assistência de enfermagem dessa unidade como ruim. Entre os motivos de satisfação dos pacientes, predominaram aspectos relacionados ao serviço da equipe multiprofissional. Cabe registrar que apesar do roteiro de entrevistas tratar claramente da satisfação com a assistência de enfermagem, os respondentes, mencionaram aspectos de satisfação e insatisfação com relação a equipe multidisciplinar. As satisfações e insatisfações com relação aos serviços de apoio, como o de laboratório, serviço de nutrição e com relação a estrutura física da unidade também foram identificadas pelos entrevistados.

A Figura 1, construída com auxílio software Atlas.ti 8, sintetiza a categorização dos motivos de satisfação dos pacientes com relação ao atendimento de enfermagem, da equipe multiprofissional e do serviço de laboratório, assim como agrega fragmentos de falas de distintos respondentes sobre cada categoria analisada.

Fonte: Elaborado pelos autores com auxílio do software Atlas.ti (2016).

Figura 1 Motivos de satisfação dos pacientes com relação ao atendimento recebido.  

Em relação aos eventos adversos

Na unidade de internação onde a pesquisa foi realizada, foram registrados os eventos adversos relacionados à assistência prestada pela enfermagem e pela equipe multiprofissional. Do total de 28 eventos adversos envolvendo a assistência, 12 relacionaram-se a erros de medicação ocorridos na prescrição, administração ou infusão de medicamentos e 5 relacionaram-se a queda do paciente, envolvendo queda da própria altura e queda do leito. Os 11 eventos caracterizados como “outros” relacionaram-se a perda de acesso venoso periférico, exteriorização de sonda vesical de demora ou sonda nasogástrica e nasoeneteral. A Figura 2 informa o total e tipo dos eventos adversos em porcentagem, ocorridos nessa unidade.

Fonte: elaborado pelos autores (2016).

Figura 2 Número e tipo dos eventos adversos relacionados a assistência em porcentagem, abril de 2016.  

Os dados relativos aos indicadores de qualidade ficaram disponibilizados em painel eletrônico na tecnologia PRAXIS®, em sistema dashboard com alternância de visualização na TV de 50’ fixada no posto de enfermagem. Esse sistema facilita a comunicação entre os membros da equipe de enfermagem e equipe multiprofissional, usuários, acompanhantes e familiares dos pacientes. Esse procedimento, coerente com o método utilizado, consiste em pesquisa-intervenção. Além da intervenção no próprio processo de pesquisa, o conjunto dos resultados obtidos foram disponibilizados para a equipe na forma de um boletim de gestão mensal da unidade, informando dados do planejamento e os indicadores de qualidade. A PCA empregada permitiu desvendar problemas existentes na prática de gestão no contexto estudado e, ao mesmo tempo, consistiu em uma intervenção no sentido de resolvê-los.

DISCUSSÃO

Os resultados mostraram que o planejamento participativo e a utilização de indicadores de qualidade, como a satisfação do paciente com a assistência recebida e os eventos adversos, são de significativa importância para a qualificação da gestão de unidades de internação. A pesquisa também mostrou que a disponibilidade de uma inovação tecnológica de gestão em enfermagem é uma ferramenta útil para a realização destas atividades.

No que diz respeito ao planejamento, existem muitos desafios em relação à sua prática sistemática em unidades de internação hospitalares.15 Neste estudo identificou-se dificuldades por parte de alguns profissionais no que diz respeito ao entendimento do planejamento como uma ferramenta que contribui para a organização da assistência de enfermagem. Identificou-se, ainda, dificuldades relativas à: participação integrada dos membros da equipe na elaboração e aplicação do planejamento participativo; falta de tempo como barreira para que os planos de atividades fossem colocados em prática; e falta de uma cultura institucional de realização de planejamento em unidades de internação hospitalares.

Existe um reconhecimento de que o planejamento é uma ferramenta importante para a organização do trabalho e para melhoria dos ambientes de prática, no entanto há dificuldade na sua utilização efetiva na gestão em saúde e enfermagem, assim como tem sido reconhecida a existência de uma relação direta entre cultura organizacional e modelo de gestão e de organização do trabalho.16,17 A superação da percepção do planejamento como “mais” uma tarefa a ser desempenhada no cotidiano assistencial pode ser uma importante contribuição para a qualificação da gestão em enfermagem, nestes importantes locais de prática.

Com relação à avaliação da qualidade na assistência de enfermagem, existem indicadores como o Nursing- Sensitive Quality Indicators que inclui, dentre outros monitoramentos: satisfação do paciente com relação ao atendimento recebido; satisfação da equipe de enfermagem; queda do paciente; manutenção da integridade da pele.18-20

Neste estudo foi monitorada a avaliação da satisfação com a assistência de enfermagem e os resultados mostraram que os pacientes estão na maioria dos casos satisfeitos em relação ao atendimento recebido. Quando ocorre alguma queixa com relação a assistência, ela é pontual. A satisfação do paciente, com a assistência de enfermagem recebida na unidade estudada, reflete a dedicação e trabalho realizado pela equipe no período estudado. A satisfação pode ser um indicador que contribui para orientar o processo decisório dos gestores no sentido de reafirmação de ações positivas ou de modificações, transformações e inserções de inovações nos serviços.21

Qualidade na assistência em saúde é uma prioridade que vem sendo almejada por instituições com intuito de garantir ambientes seguros para o exercício profissional e redução de riscos para os pacientes. O uso de indicadores de avaliação de desempenho dos sistemas de saúde é uma tendência que vem sendo difundida para avaliar a eficiência, eficácia e efetividade dos serviços.7

Desde a publicação do relatório To Err is Human: Building a Safer Health System, do Institute of Medicine22 e a criação da Aliança Mundial para a Segurança do Paciente World Alliance for Patient Safety em 2004, pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a segurança do paciente recebeu importância e destaque mundial, consistindo em um desafio para as instituições de saúde. E, apesar de iniciativas assumidas pelas organizações e instituições de saúde, a identificação do erro relacionado a assistência ainda constitui-se um de desafio, pela dificuldade de acessá-lo e notificá-lo.23 No Brasil, com a criação da Rede Brasileira de Hospitais Sentinela em 2002 pela Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), o foco na segurança do paciente assumiu destaque e, em 2013, foi lançado o Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP) que instituiu ações para a segurança do paciente nos serviços de saúde, fomentando a criação dos Núcleos de Segurança do Paciente (NSP) nos serviços de saúde.12

Na esfera gerencial a utilização de indicadores permite a identificação de problemas reais e potenciais e fornece subsídios para a implementação de ações efetivas, monitorização e desenvolvimento de situações relacionadas às atividades assistenciais.9,19,24 A qualidade e a segurança são componentes basilares no atendimento das necessidades de saúde dos usuários. Assim, torna-se imprescindível a incorporação dos conceitos de qualidade e segurança na cultura organizacional, nas atitudes e desempenho profissionais, não só pelos trabalhadores, mas também, pelos gestores que compõem o corpo diretivo dos estabelecimentos de saúde.7,21

Na unidade de internação estudada, em relação aos eventos adversos, verificou-se, com maior significância: a subnotificação dos eventos; a dificuldade de identificação se o evento é notificável e o receio/estigma relacionado à comunicação e notificação de um evento adverso, o que também foi encontrado em outros estudos.23,25 Quanto ao perfil/ tipo de eventos adversos, os erros relacionados à medicação foram os mais frequentes, o que também tem sido registrado na literatura.26

Para o profissional da equipe de enfermagem, o episódio de um evento adverso pode ocasionar diversas problemáticas, tendo em vista o estresse emocional, punições éticas e legais que o mesmo pode estar exposto. Esses fatores destacam a importância da inserção de uma cultura de segurança, que promova a disseminação do conceito de segurança do paciente e de uma discussão não punitiva relacionada aos eventos adversos, de modo a estimular as notificações. Na perspectiva gerencial é necessária a compreensão, por parte dos gestores das instituições de saúde de que os eventos adversos estão, muitas vezes, diretamente relacionados às falhas no sistema e não apenas ao descaso, inabilidade ou incompetência profissional. Assim, mais do que buscar responsáveis e culpabilizá-los, é necessário identificar as fragilidades existentes no processo e adotar medidas preventivas.25

Pesquisas que buscaram compreender as reações dos profissionais frente aos eventos adversos identificaram que, para enfermeiros e técnicos de enfermagem, o erro não é intencional e que, muitas vezes, o profissional não percebe a ocorrência do erro.19,25 O receio da cultura punitiva relacionada ao erro, insegurança, falta de hábito e, até mesmo, resistência de identificação e realização das notificações dos eventos adversos também são mencionados na literatura27. Todavia, a sensibilização para a realização do planejamento e discussão com a equipe, nesta pesquisa intervenção, mostrou que a mesma está estimulada a realizar correção dos processos para minimização de erros relacionados a assistência de enfermagem.

Apesar da significativa importância das inovações tecnólogicas na atualidade, na gestão de unidades de internação nas quais a enfermagem desempenha um papel relevante para a qualidade da assistência prestada a milhões de pacientes/ano, a sua utilização ainda é pequena.1 Neste estudo a tecnologia PRAXIS® mostrou-se um instrumento útil e promissor a ser utilizado no trabalho profissional de enfermagem, contribuindo para a realização de duas atividades fundamentais: o planejamento do trabalho e a avaliação da qualidade dos resultados.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados do estudo mostraram que realizar o planejamento, com utilização de metodologia participativa, constitui-se em importante ferramenta para a gestão de enfermagem em unidades de internação hospitalares.

O uso da tecnologia PRAXIS® facilitou a realização e análise das atividades de planejamento e avaliação da qualidade da assistência de enfermagem. Cabendo destacar que os recursos disponíveis na tecnologia permitiram o registro de dados diários e de maneira contínua, o que facilitou o acompanhamento do desempenho da unidade estudada. O software contribui para a organização e armazenamento dos dados, superando uma prática de registros e armazenamento descontínuo de indicadores de qualidade.

A satisfação do paciente se configurou em elemento chave para avaliação da qualidade da assistência, não só da enfermagem, mas também, de outros serviços que são ofertados no ambiente hospitalar. Destaca-se que não foram realizadas avaliações da satisfação dos pacientes/familiares que efetuaram transferências internas ou que foram a óbito, e que estas podem ser consideradas limitações do estudo, tendo em vista que poderiam alterar o resultado da satisfação com relação à assistência.

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