Plantas medicinais e fitoterápicos na Atenção Primária em Saúde: percepção dos profissionais

Plantas medicinais e fitoterápicos na Atenção Primária em Saúde: percepção dos profissionais

Autores:

Gerson Mattos,
Anderson Camargo,
Clóvis Arlindo de Sousa,
Ana Lúcia Bertarello Zeni

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.23 no.11 Rio de Janeiro nov. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1413-812320182311.23572016

Abstract

The Ministry of Health through the National Policy on Integrative and Complementary Practices (PNPIC) encourages the offer of Acupuncture, Homeopathy, Herbal Medicine, Hydrotherapy and Anthroposophical Medicine in the Unified Health System (SUS). This study evaluated the profile for the prescription/suggestion and credibility of herbal medicine usage as complementary therapy among the 157 professionals from the 66 Family Health Strategy (FHS) teams in Blumenau city. Data collection was conducted between the years of 2014 and 2015 through a semi-structured questionnaire applied to a sample comprised of 42 (26.8%) physicians, 40 (25.5%) nurses, 66 (42%) nursing technicians, 5 (3.2%) dentists and 4 (2.5%) oral health technicians. Bivariate associations were assessed using the Chi-Square test or Fisher’s exact test for variables. Despite 65.6% of respondents being aware of the existence of the PNPIC, the presence of herbal medicines on the National List of Medicines was unknown by 85.4%. The majority (96.2%) of the professionals believe in the therapeutic effects of medicinal plants but do not prescribe this medicine. However, 98.7% agreed with the initiative to offer this complementary and integrative practice through SUS after training in the area.

Key words: Phytotherapy; Unified Health System; Family Health Strategy

Introdução

O ser humano sempre teve a necessidade de lidar com o surgimento de sintomas no seu cotidiano, devido a traumatismos, uso de novos alimentos ou adoecimento. Para isso utilizava-se de plantas medicinais, conhecimento obtido a partir de experiências partilhadas ou pela observação de sua utilização pelos animais1. Porém, com o surgimento da indústria farmacêutica houve uma redução do interesse no uso de plantas que aumentou novamente, com a chegada no Brasil do movimento social urbano de contracultura, que buscava contrapor-se a racionalidade médica dominante2. Atualmente, a utilização de plantas medicinais e fitoterápicos é uma prática mundialmente disseminada, sendo encorajada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), especialmente em países em desenvolvimento. No Brasil, em 2006, o Ministério da Saúde lançou a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), oferecendo aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), principalmente no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS), a Fitoterapia3. A seguir, foi divulgada a Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (RENISUS). E em 2014, o número de municípios que ofertavam a fitoterapia na APS era três vezes maior que em 2004, antes da criação da PNPIC3,4. Entretanto, segundo Fontenele et al.5, os gestores declararam a resistência dentro das administrações públicas municipais e a baixa aceitação desta prática por parte dos profissionais da APS. Ressalta-se, contudo, que os usuários que utilizam esta terapia precisam de uma prescrição adequada e além de informações sobre possíveis interações medicamentosas, pois o conceito de que o uso de planta medicinal não faz mal, por ser natural e aliado ao pensamento de que os médicos não entendem de plantas medicinais, leva muitas vezes o paciente a não comentar que está fazendo uso deste recurso6,7.

Por outro lado, algumas plantas medicinais já passaram por todas as etapas de pesquisa consideradas suficientes para atestarem sua eficácia, permitindo que façam parte do arsenal medicamentoso do profissional de saúde. Além disso, a prática da fitoterapia permite à população o contato com sua história, resgatando costumes tradicionais e culturais. No entanto, apesar da disponibilidade atual de um elenco de 12 plantas medicinais e fitoterápicos, constituindo a Relação Nacional de Medicamentos (RENAME)8 vigente, o município de Blumenau não tem disponibilizado aos pacientes atendidos nas unidades de saúde.

Neste sentido, existe a necessidade de uma avaliação da percepção dos profissionais de saúde que atuam na APS em Blumenau, para verificar como as unidades vêm aderindo à PNPIC e, principalmente, à Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF)9, proporcionando um diagnóstico da situação atual. A adoção desta prática ampliaria opções referentes à prevenção e tratamento de agravos e doenças que afetam a população, através da garantia de acesso às plantas medicinais e aos fitoterápicos com segurança, eficácia e qualidade, na perspectiva da integralidade da atenção à saúde.

Este estudo, visou identificar conhecimentos e práticas em relação à prescrição e/ou sugestão de uso de plantas medicinais e fitoterápicos pelos profissionais de saúde, a fim de destacar pontos positivos, dificuldades, necessidades, sinalizando estratégias que contribuam para a implementação desta terapia no município de Blumenau.

Métodos

Desenho do estudo

O presente estudo caracterizou-se por ser quantitativo e de corte transversal, desenvolvido nas unidades da Estratégia Saúde da Família (ESF), município de Blumenau, Santa Catarina.

População de estudo e amostra

Blumenau é uma cidade localizada nos limites do Parque Nacional da Serra do Itajaí e possui biodiversidade pertencente a Mata Atlântica, ofertando um alto potencial de flora para uso terapêutico. O município é dividido em sete regiões e em cada uma delas existe um número variado de unidades que foram selecionadas aleatoriamente considerando a maior dispersão geográfica, com o objetivo de captar variações no padrão de utilização de plantas medicinais e fitoterápicos decorrentes de diferentes hábitos culturais, resultando em 45 (70%) unidades de ESF selecionadas de um total de 66 unidades cadastradas no município. As entrevistas foram realizadas entre abril de 2014 e fevereiro de 2015, em sua maioria sem agendamento prévio, na própria unidade de saúde. O tamanho da amostra calculado para estimar a proporção em uma população é de 148, considerando frequência de 50%, precisão absoluta de 5% e intervalo de confiança de 95%. A amostra foi composta por conveniência a partir das unidades da ESF, por médicos (42), enfermeiros (40), odontólogos (5), técnicos de enfermagem (66) e por técnicos em saúde bucal (4), totalizando 157 (66%) profissionais dos 238 cadastrados no município.

O instrumento de coleta de dados foi um questionário semiestruturado com questões de identificação como, idade, sexo, escolaridade, profissão, tempo de trabalho no SUS, e relacionadas à prescrição, sugestão, credibilidade, indicação de uso e conhecimento de plantas medicinais e fitoterápicos.

Análise dos dados

A análise descritiva das variáveis categóricas foi apresentada por meio de frequências absolutas e relativas. As associações entre variáveis foram verificadas na análise bivariada pelo teste Qui-Quadrado, Exato de Fisher quando adequado. Um valor de p < 0,05 foi considerado para determinar diferença estatisticamente significativa.

Aspectos Éticos

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Regional de Blumenau, atendendo às recomendações éticas da resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. Os critérios de inclusão foram: pertencer ao quadro de profissionais com nível superior ou técnico que integra as equipes da ESF, estar presente na unidade de saúde no momento da visita do pesquisador, concordar em fazer parte do estudo e preencher o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Resultados

Observou-se que entre os 157 entrevistados, a maioria da amostra (79,6%) foi do sexo feminino e 52,9% não fizeram pós-graduação. Contudo, é importante considerar que 44,5% da amostra constituída por técnicos que não cursaram nível superior e não poderiam ter cursado uma pós-graduação. Desta forma, excluindo os técnicos da amostra, verificou-se que 85% dos profissionais com nível superior cursaram ou estão cursando uma pós-graduação. A Tabela 1 mostra o perfil da amostra e sua análise demonstrou que 58,6% dos profissionais da ESF de Blumenau atuam no SUS há no mínimo 10 anos.

Tabela 1 Caracterização da amostra de profissionais entrevistados da ESF conforme gênero, profissão, faixa etária e tempo de atividade profissional. Blumenau, (SC). 

Variável n % % acumulativa
Sexo
Masculino 32 20,4 20,4
Feminino 125 79,6 100,0
Profissão
Médico 42 26,8 26,8
Enfermeiro 40 25,5 52,2
Técn. Enfermagem 66 42,0 94,3
Odontólogo 5 3,2 97,5
Técn. Saúde Bucal 4 2,5 100,0
Idade
20 a 29 19 12,1 12,1
30 a 39 45 28,7 40,8
40 a 49 54 34,4 75,2
50 a 59 34 21,7 96,8
60 ou mais 5 3,2 100,0
Tempo no SUS
Menos de 1 ano 18 11,5 11,5
1 a 4 anos 26 16,6 28,0
5 a 9 anos 21 13,4 41,4
10 a 14 anos 35 22,3 63,7
15 ou mais 57 36,3 100,0
Total 157 100,0 100,0

ESF: estratégia saúde da família; SUS: sistema único de saúde.

Ao verificar as crenças dos profissionais no efeito medicamentoso das plantas e fitoterápicos, observou-se que 96,2% responderam positivamente. Entretanto, como pode ser observado na Tabela 2, não houve relação estatisticamente significativa (p = 0,467) entre profissão e crença no efeito de plantas medicinais.

Tabela 2 Distribuição das profissões dos integrantes das equipes da ESF e credibilidade no efeito terapêutico de plantas medicinais e de fitoterápicos. Blumenau, (SC). 

Profissão Acredita Total

Sim Não
Médico n 39 3 42
% 92,9 7,1 100,0
Enfermeiro n 40 0 40
% 100,0 0,0 100,0
Técn. Enfermagem n 63 3 66
% 95,5 4,5 100,0
Odontólogo n 5 0 5
% 100,0 0,0 100,0
Técn. Saúde Bucal n 4 0 4
% 100,0 0,0 100,0
Total n 151 6 157
% 96,2 3,8 100,0

Teste Qui-quadrado (Teste Exato de Fisher) = 3,47; p = 0,467 ESF: estratégia saúde da família.

Os profissionais foram questionados se os familiares utilizaram em algum momento esta prática e 43,3% responderam afirmativamente, enquanto que 49,7% responderam que este hábito ocorre regularmente.

Observa-se que somadas ambas as formas de utilização, em algum momento do passado e regularmente, 93% dos profissionais revelam que o conhecimento foi oriundo da família. Quando avaliada a associação entre as variáveis “acreditar no efeito terapêutico das plantas medicinais” e “utilização na família”, verificou-se que existe diferença significativa (p = 0,004). Esta significância pode ser explicada pelo grupo que não utiliza plantas medicinais cujas famílias também não utilizam. Além disso, descobriu-se que a crença na ação terapêutica das plantas medicinais não está associada ao tempo de atividade profissional (p = 0,999) e nem ao tempo de trabalho no SUS (p = 0,068).

Quanto à utilização própria de plantas medicinais ou de fitoterápicos, verificou-se que 54,1% dos participantes responderam afirmativamente e 35% responderam que utilizam regularmente. Destacou-se ainda que, 84,7% já prescreveram e/ou sugeriram em algum momento aos pacientes. O termo “sugeriu” aqui se aplica uma vez que os enfermeiros, técnicos de enfermagem e de saúde bucal não podem prescrever medicamentos, por estarem impedidos pela legislação vigente. Mesmo assim, não houve diferença significativa (p = 0,159) entre as profissões, conforme mostrado na Tabela 3.

Tabela 3 Distribuição das profissões dos integrantes das equipes da ESF e prescrição e/ou sugestão de plantas medicinais ou de fitoterápicos aos pacientes. Blumenau, (SC). 

Profissão Sugere/prescreve Total

Sim Não
Médico n 34 8 42
% 81,0 19,0 100,0
Enfermeiro n 38 2 40
% 95,0 5,0 100,0
Técn. Enfermagem n 53 13 66
% 80,3 19,7 100,0
Odontólogo n 5 0 5
% 100,0 0,0 100,0
Técn. Saúde Bucal n 3 1 4
% 75,0 25,0 100,0
Total n 133 24 157
% 84,7 15,3 100,0

Teste Qui-quadrado (Teste Exato de Fisher) = 6,13; p = 0,159 ESF: estratégia saúde da família.

Ao analisar se a prescrição era mais frequente entre aqueles cujas famílias tinham o hábito de utilização das plantas medicinais, verificou-se que não houve diferença estatisticamente significativa (p = 0,184). Posteriormente, analisou-se o hábito de sugerir e/ou prescrever e credibilidade no efeito das plantas, e foi verificada a associação significativa (p < 0,001) entre as variáveis.

A seguir os profissionais foram questionados a respeito do posicionamento do profissional quando o paciente questiona sobre a possibilidade de utilizar alguma planta juntamente com a medicação prescrita. O resultado foi que 68,8% apoiam a utilização conjunta, enquanto 17,2% responderam que não interfeririam, deixando a decisão por conta do paciente, outros 8,3% se posicionariam contrários e 5,7% responderam que dependeria da situação, especialmente do conhecimento que o profissional tivesse a respeito da planta referida pelo paciente e da gravidade do quadro clínico. Investigou-se se este posicionamento apresentava alguma diferença significativa entre as diferentes profissões, e a Tabela 4 mostra que esta associação não ocorreu (p = 0,115).

Tabela 4 Posicionamento dos profissionais da ESF sobre a solicitação do paciente na utilização de planta medicinal ou fitoterápico juntamente ou em substituição ao medicamento alopático prescrito. Blumenau, (SC). 

Profissionais Posicionamento do Profissional Total

Apoia Neutro Não apoia Outro
Juntamentea Médico n 31 6 2 3 42
% 73,8 14,3 4,8 7,1 100,0
Enfermeiro n 32 2 3 3 40
% 80,0 5,0 7,5 7,5 100,0
Técn. Enfermagem n 38 19 6 3 66
% 57,6 28,8 9,1 4,5 100,0
Odontólogo n 4 0 1 0 5
% 80,0 0,0 20,0 0,0 100,0
Técn. Saúde Bucal n 3 0 1 0 4
% 75,0 0,0 25,0 0,0 100,0
Substituindob Médico n 7 6 19 10 42
% 16,7 14,3 45,2 23,8 100,0
Enfermeiro n 3 5 24 8 40
% 7,5 12,5 60,0 20,0 100,0
Técn. Enfermagem n 7 17 31 11 66
% 10,6 25,8 47,0 16,7 100,0
Odontólogo n 1 1 2 1 5
% 20,0 20,0 40,0 20,0 100,0
Técn. Saúde Bucal n 1 2 1 0 4
% 25,0 50,0 25,0 0,0 100,0

aTeste Qui-quadrado (Teste Exato de Fisher) = 16,20; p = 0,115; b Teste Qui-quadrado (Teste Exato de Fisher) = 10,80; p = 0,463 ESF: estratégia saúde da família.

Neste estudo, quanto ao posicionamento dos profissionais quando o paciente diz que prefere utilizar uma planta em substituição ao tratamento indicado pelo médico, 12,1% se posicionaram favoráveis, 19,7% se mantiveram neutros e 49% não apoiariam o paciente nesta decisão, sem diferença significativa (p = 0,463) entre os profissionais. Assim, os profissionais apoiam a utilização conjunta das plantas medicinais e fitoterápicos com os medicamentos alopáticos, mas passam a ser contrários quando a utilização seria em substituição ao medicamento alopático. As justificativas dadas referiram-se à “responsabilidade do profissional diante da situação clínica do paciente”. No entanto, ressalta-se que, 98,7% responderam afirmativamente sobre o interesse de saber mais sobre o assunto (Tabela 5).

Tabela 5 Relação de plantas medicinais e fitoterápicos constantes na RENAME que os profissionais da ESF indicariam com os conhecimentos atuais e o índice de acerto nas suas respostas. Blumenau, (SC). 

Planta Indicariam Resposta à Indicação Total

Certa Errada Desconhece
Hortelã n 109 29 95 33 157
% 69,9 18,5 60,5 21 100,0
Guaco n 101 109 15 33 157
% 64,3 69,4 9,6 21 100,0
Babosa n 86 93 27 37 157
% 54,8 59,2 17,2 23,6 100,0
Isoflavona n 65 88 3 66 157
% 41,4 56,1 1,9 42 100,0
Alcachofra n 47 35 28 94 157
% 29,9 22,3 17,8 59,9 100,0
Espinheira Santa n 44 18 26 113 157
% 28,0 11,5 16,6 72 100,0
Cáscara Sagrada n 43 17 35 105 157
% 27,4 10,8 22,3 66,9 100,0
Unha de Gato n 24 9 13 135 157
% 15,3 5,7 8,3 86 100,0
Salgueiro n 14 1 7 149 157
% 8,9 0,6 4,5 94,9 100,0
Plantago n 13 10 4 143 157
% 8,3 6,4 2,5 91,1 100,0
Garra do Diabo n 12 7 5 145 157
% 7,6 4,5 3,2 92,4 100,0
Aroeira n 11 0 8 149 157
% 7,0 0,0 5,1 94,9 100,0
Total 569 416 266 1202

ESF: estratégia saúde da família; RENAME: relação nacional de medicamentos.

Ao ser investigado se a fitoterapia é utilizada no cotidiano da ESF, 70,7% dos profissionais relataram que a população demonstra interesse nesta prática. Para verificar se os profissionais conheciam as plantas constantes na RENAME, foi apresentada a lista das 12 plantas medicinais e de fitoterápicos e, solicitado que indicassem quais delas seriam prescritas e/ou sugeridas. Os resultados mostraram que, 9 das 12 plantas ou fitoterápicos (75%) são conhecidas por menos da metade (41,4%) dos profissionais de saúde, portanto, dificilmente seriam prescritas com os conhecimentos atuais. Esta mesma listagem foi apresentada novamente aos profissionais solicitando que assinalassem as plantas cujas indicações eram conhecidas e as anotassem. As respostas foram avaliadas e classificadas como certas, erradas ou desconhece, esta última quando a planta não era assinalada. Observou-se que, em 9 das 12 plantas da RENAME não foi alcançado 25% de acerto nas respostas.

Quanto à utilização de plantas medicinais e fitoterápicos os profissionais foram questionados quanto à indicação de plantas que não constem na lista da RENAME e verificou-se que 80,89% deles indicam ao menos uma planta medicinal, citando duas plantas medicinais ou fitoterápicos que conhecem aos pacientes. As dez mais citadas representaram 52,7% de todas as plantas, sendo que as cinco mais frequentes foram, Camomila (10,2%), Cidreira (7,5%), Boldo (7%), Malva (5,7%) e Maracujá (5,2%).

Discussão

A maioria dos profissionais da ESF de Blumenau trabalha no SUS há pelo menos 10 anos, tempo superior ao da existência da PNPIC, que no ano de 2016 completou 10 anos. Portanto, era esperado que a maioria deles tivesse conhecimento e, de fato, 65,6% da amostra (103 entrevistados) responderam afirmativamente. Contudo, ao serem questionados sobre as práticas integrativas que fazem parte da PNPIC, 49 entrevistados (47,5%) não recordavam e nenhum dos entrevistados lembrou-se de todas as práticas, o que demonstrou um desconhecimento sobre a política, corroborando com outros estudos nacionais realizados5,10,11,. Alguns autores12,13 consideraram que este resultado seria devido a divulgação ineficiente, preferência dos profissionais pelo modelo biomédico, descrença e preconceitos que cercam o tema ou ainda, por este conteúdo não constar na grade curricular da graduação. Neste sentido, alunos do curso de Medicina e profissionais, afirmaram conhecer o que foi chamado de Práticas Não Convencionais em Saúde, mas não obtiveram este conhecimento de uma fonte acadêmica e gostariam de saber mais sobre fitoterapia14,15. No conjunto, estes dados preocupam uma vez que o desconhecimento da política esvazia os movimentos construtivos em direção à sua efetiva implementação. Certamente, estar informado acerca das outras práticas médicas permitiria atender aos direitos individuais dos pacientes que optassem por receber tratamento diferente daquele convencional. Além disso, a intenção do uso das plantas medicinais e fitoterápicos parece ser maior entre aqueles que possuem maior conhecimento sobre o tema16. Sendo assim, a inserção dessa temática formalmente nos cursos de graduação poderia respaldar a aplicação destas terapias oferecendo maior segurança para ambos, prescritor e usuário13.

Neste estudo, 85,4% não sabiam das 12 plantas medicinais que compõem a RENAME e 80,3% as da Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse do SUS (RENISUS). Entretanto, 98,7% responderam que possuem interesse em receber informações sobre a utilização de plantas medicinais na APS através de cursos ou capacitações (71,4%), literatura impressa (20,1%), palestras (5,8%) e videoaulas (2,6%). Resultado este semelhante aos de outros estudos10,16. Sendo, portanto, fundamental também o desenvolvimento de material técnico e capacitação que visem o uso seguro de plantas medicinais e fitoterápicos10,17.

Nesta etapa verificou-se as atitudes dos profissionais em relação à utilização de plantas medicinais e fitoterápicos como recurso terapêutico, pois é fundamental verificar se uma iniciativa como essa seria bem recebida pelos profissionais, pois de nada adiantaria se não houvesse ressonância positiva na área. Neste sentido, 98,7% dos profissionais apoiam a iniciativa governamental. Números semelhantes também foram encontrados por outros autores5,6,10,14,17-19.

Quanto às crenças dos profissionais no efeito terapêutico das plantas e fitoterápicos observou-se que a maioria respondeu afirmativamente. Hipoteticamente, os médicos, por terem uma formação tradicionalmente alopática, talvez tivessem maior resistência em acreditar no efeito de plantas medicinais, contudo, não foi confirmada a relação entre profissão e crença no efeito medicamentoso das plantas. Para entender se esta crença foi resultado de influência familiar, os profissionais foram questionados se esta prática é comum em suas famílias e 43,3% responderam que os familiares já utilizaram em algum momento, enquanto, que 49,7% da amostra respondeu que este hábito ocorre regularmente. Observou-se que 93% dos profissionais são oriundos de famílias que adotam ou já adotaram as plantas e/ou fitoterápicos como terapia. Avaliando a associação entre as variáveis “acreditar no efeito terapêutico das plantas medicinais” e “utilização pela família” sugere-se que a razão para os profissionais acreditarem ou não no efeito das plantas está relacionada à experiência familiar, de acordo com Leite e Schor7 e Oliveira et al.15. Entretanto, não houve esta associação, podendo-se inferir que os profissionais sugerem ou prescrevem plantas medicinais com base em suas próprias experiências, sejam elas pessoais ou profissionais. Portanto, é possível que tais experiências tenham levado os profissionais a acreditarem no efeito das plantas medicinais e fitoterápicos, pois a associação entre o hábito de sugerir ou prescrever e o acreditar no efeito das plantas foi verificada sugerindo um pensamento coerente com a ação.

Neste estudo, a crença na ação terapêutica das plantas não está associada ao tempo de atividade profissional, diferentemente de Ribeiro e Guimarães17. Quanto à utilização própria de plantas medicinais ou fitoterápicos, os participantes confirmaram que utilizam, fato também observado por Fontenele et al.5 e em outros estudos desenvolvidos previamente13,15,16.

No presente estudo, 84,7% dos profissionais já prescreveram e/ou sugeriram aos pacientes, sem haver diferença entre as profissões. No entanto, um estudo com as equipes de saúde em Itajaí (SC) concluiu que os técnicos de enfermagem estão mais propensos a sugerirem a utilização de plantas medicinais do que os profissionais de nível superior, pela proximidade com as pessoas, conhecimento de suas particularidades, linguagem e problemas da comunidade7.

Neste estudo, a maioria dos profissionais apoia a utilização da planta medicinal juntamente com a medicação prescrita pelo médico, enquanto que, alguns não interfeririam, outros se mostraram contrários ou ainda, dependeria da situação. Não houve diferença de posicionamento entre as profissões demonstrando que, de alguma forma, esta atitude está disseminada entre eles. Diferentemente dos resultados de Al-Omari et al.20 que questionaram oncologistas. Possivelmente este resultado esteja relacionado à especialidade investigada, na medida em que o trabalho na ESF é mais próximo da população e lida com casos em graus diferentes de gravidade.

Porém, neste estudo, quando o paciente diz que prefere utilizar uma planta medicinal em substituição ao tratamento indicado pelo médico, poucos apoiariam o paciente nesta decisão. Sendo assim, os profissionais apoiam a utilização conjunta das plantas medicinais e fitoterápicos com os medicamentos alopáticos, mas passam a ser contrários quando a utilização da planta seria em substituição. Os profissionais acham arriscado suspender a utilização do medicamento alopático e não poderiam assumir esta responsabilidade, mas quase todos responderam afirmativamente sobre o interesse de saber mais sobre o assunto. A postura do médico é crucial para a efetiva implantação da fitoterapia no sistema de saúde, pois transmite credibilidade à utilização desta terapêutica na medida em que ele a prescreve16. A intenção de substituição do medicamento alopático pelo fitoterápico, entre usuários, foi investigada por Veiga Júnior21, observando que 52,4% deles, sempre que possível, utilizam uma planta medicinal em substituição ao alopático, entretanto não avisam ao seu médico21. A população entende que os médicos não acreditam ou não têm conhecimento a respeito das plantas medicinais, sentindo-se mais a vontade em compartilhar tais assuntos com os técnicos de enfermagem7.

Ao ser investigado se a fitoterapia é utilizada no cotidiano das unidades de saúde da ESF, verificou-se que 70,7% dos profissionais perceberam que a população demonstra interesse nesta prática. Fato observado de forma semelhante anteriormente por outros autores5,10. Para melhor interpretar este dado deve-se considerar que a maioria dos profissionais (73,25%) trabalha na Unidade de Saúde onde foram entrevistados no máximo há 5 anos, sendo que 51,6% há 3 anos ou menos, demonstrando uma rotatividade dos profissionais, o que, aliás, do ponto de vista gerencial de um modelo da atenção, não é positivo, considerando que a ESF almeja uma forte integração entre profissionais e população. É possível que os entrevistados tenham respondido a esta questão pensando em sua experiência pessoal acumulada ao longo dos anos de trabalho em ESF, em diferentes unidades de saúde, e não especificamente com a população assistida no local atual.

Ao verificar se os profissionais conheciam as plantas constantes na RENAME, observou-se que 9 das 12 plantas ou fitoterápicos (75%) são conhecidas por menos da metade dos profissionais, portanto, dificilmente seriam prescritas com os conhecimentos atuais. O conhecimento sobre as plantas também foi avaliado e em 9 das 12 plantas da RENAME não foi alcançado 25% de acerto nas respostas, demonstrando desconhecimento dos profissionais em relação às indicações destas plantas. Se a Prefeitura de Blumenau planejasse introduzir a utilização de plantas medicinais e fitoterápicos na APS, conforme a PNPMF, necessitaria antes capacitar seus profissionais. Estes resultados estão de acordo com outras pesquisas realizadas5,11,16,22-24. Mas, ao serem questionados se eles indicavam alguma planta que não se encontrava na lista da RENAME, verificou-se que a maioria indica ao menos uma planta medicinal. As dez mais citadas representaram 52,72% de todas as plantas, sendo que, as cinco mais frequentes foram: Camomila, Cidreira, Boldo, Malva e Maracujá. Fontenele et al.5 já haviam verificado entre os profissionais de saúde uma tendência em prescrever fitoterápicos, sendo que 95,6% prescreveriam se estes medicamentos estivessem disponíveis nas unidades de saúde. Silva et al.25 verificaram que 41,7% dos medicamentos prescritos eram fitoterápicos e em 20,6% de prescrições havia pelo menos um fitoterápico, refletindo a realidade do Programa Farmácia Viva no Estado do Ceará, com produção e dispensação de plantas medicinais e fitoterápicos. Além disso, muitas vezes a utilização deste tipo de medicamento é considerada pela população como isenta de riscos, com a ideia de que “mal não faz”26. Mas, estudos etnobotânicos mostram que as plantas utilizadas pela população apresentam efeitos tóxicos27, mostrando o perigo da utilização indiscriminada dessa terapia, especialmente entre idosos, que utilizam um ou mais medicamentos alopáticos cronicamente, aumentando os riscos à saúde com as interações medicamentosas28.

Alguns pontos fortes e limitações do presente estudo podem ser destacados. A principal limitação pode ser o viés de seleção, considerando que os profissionais de saúde não foram selecionados aleatoriamente, e sim deveriam estar presentes na unidade no momento da visita do pesquisador. No entanto, as unidades de saúde foram randomizadas considerando a dispersão nas sete regiões do município com objetivo de estimar o perfil de interesse em Blumenau. Todas as unidades selecionadas tiveram profissionais que participaram do estudo. As categorias profissionais odontólogos e técnicos em saúde bucal apresentaram tamanho da amostra representando 15% e 17% do total, respectivamente. Portanto, o perfil de utilização de plantas medicinais e fitoterápicas por categoria profissional foi estimado considerando a quantidade representativa da amostra de médicos (78%), enfermeiros (58%) e de técnicos de enfermagem (80%) do total no município. Sendo assim, o tamanho total da amostra do estudo para estimar a proporção entre profissionais da saúde do município superou o tamanho da amostra calculada. De forma inédita, foi investigada a associação entre variáveis a fim de revelar, as relações entre atitudes e conhecimentos dos profissionais, na direção da implementação da terapia no município de Blumenau.

Conclusão

O município de Blumenau não implementou a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares em sua integralidade, pois somente a acupuntura é oferecida no nível secundário. Apesar dos profissionais serem experientes, a maioria deles desconhece a PNPIC e a existência de plantas medicinais e fitoterápicos compondo a RENAME. Os profissionais concordam com a iniciativa do Ministério da Saúde, acreditam no efeito terapêutico das plantas, porém, não as prescrevem por falta de conhecimento. Desta forma, a Secretaria Municipal de Saúde poderia implementar o uso desta prática terapêutica contando com uma equipe disposta à capacitação sobre o tema e incluindo as plantas medicinais e fitoterápicos da RENAME na Relação Municipal de Medicamentos. A adoção desta prática ampliaria as opções referentes à prevenção e tratamento de agravos e doenças que afetam a população, através da garantia de acesso e uso das plantas medicinais e dos fitoterápicos, com segurança, eficácia e qualidade, na perspectiva da integralidade da atenção à saúde.

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